Notas iniciais
Boa leitura!

Marie Ann

Acordei praticamente com a cabeça dentro da privada. Eu nem sabia que o trajeto da cama ao banheiro era tão grande a ponto de eu quase não conseguir segurar o vômito, por pouco não manchando a parede numa típica cena do exorcista.

Escutei o Adam se levantar enquanto eu ainda estava ajoelhada no banheiro e tentei não demonstrar que estava com vontade de vomitar até meu estômago.

— Tá tudo bem, querida? — Ele chegou perto de mim, se agachando ao meu lado. Eu o empurrei com uma mão enquanto virava o rosto.

— Não me veja assim, é nojento. — Falei com a voz fraca. Pude escutar ele rindo.

— Eu disse que sushi não era uma boa depois da meia noite... — Falou enquanto se afastava e ia até a cozinha.

Revirei os olhos para a sua superstição, embora soubesse que sim, o sushi era o que saiu inteiro pela minha goela. Me levantei quando percebi que não sairia mais nada e escovei os dentes. Me olhei no espelho e estava pálida feito um cadáver. Precisaria de mais maquiagem do que o habitual.

Do banheiro, já podia sentir o cheiro dos ovos e do bacon, acendi um cigarro e caminhei lentamente até a cozinha onde meu namorado estava sem camisa fazendo nosso café da manhã. Ele não era um dos melhores cozinheiros do mundo, mas a comida dele era melhor que a minha… Eu não sabia cozinhar um ovo. Sentei na banqueta e apoiei os cotovelos no balcão, admirando o homem gostoso e sexy distraído com seus afazeres.

Ele é perfeito. Se consegue me aguentar então… é quase um Deus.

Sou filha única, desde pequena sempre tive tudo o que quis, nunca soube o que era a palavra não e o Adam nunca me disse essa palavra. De todas as pessoas que eu me envolvi, eu ouvia que era mimada demais, patricinha demais, exigente demais… Mas nunca chegaram a conhecer um outro lado de mim, o lado que o Adam conseguiu ver e amar.

Eu era exigente e mimada demais, confesso… Não por menos não é? Se você tivesse tudo o que quisesse desde seus primeiros dias de vida, conseguiria se contentar com o pouco?

Mas eu não me considerava alguém antipática… Ou esnobe… Muito menos me sentia superior. E Adam percebeu isso, pois quando chegou na faculdade sem ter onde cair morto eu estava lá, pronta apenas para jogar conversa fora e apoiar sua nova vida.

Todos os amigos que ele tem agora, vieram depois dele se tornar o popular, o capitão do time, o cara maneiro que dava festas todo final de semana. Mas ele é bem mais do que isso… Ele é simples, romântico, engraçado… E meu.

— Está melhor? — A voz dele me tirou dos pensamentos, e eu o encarei.

— Sim… Sushi depois da meia noite nunca mais… — Sorri.

— Já ouvi isso antes… — Ele deu um sorriso de canto e colocou sob o balcão um prato com ovos e bacon, formando um rostinho feliz. E sentou na minha frente também com um prato de ovos e bacon, mas sem estar decorado.

Comemos em silêncio, eventualmente comentando sobre algumas gafes da festa do sábado. Logo ele se levantou para ir para o banho, e eu aproveitei para ir atrás…

***

Harmony Blanks

Não dormi a noite toda. Aquela sombra de dúvida já tinha sido desfeita quando recebi a ligação do Corretor de Imóveis e logo em seguida uma mensagem de texto da minha mãe que ela viria acompanhar meu pai para a entrega das chaves ao novo proprietário. Era isso: eu comprei o apartamento dos meus pais. E sim, eu queria meu dinheiro de volta. Também queria morrer, mas não tinha como deixar minha linda Omaha nesse mundo cruel. “Estava na hora de assumir a famosa responsabilidade, Harmony!” eu repetia e me culpava por ser tão egoísta com minha família, mas eu tinha motivos, ne? Tinha? Já não sabia responder. Agi no modo automático e fui me encontrar com meus pais no meu novo endereço. Eles me avistaram de longe, também não tinha como passar despercebida na rua com minha filha pendurada em mim, me transformando numa mãe canguru. Eles sorriram e se abraçavam e quando eu me aproximei, me aconcheguei no meio dos dois, recebendo um beijo de cada um em cada bochecha minha.

— Vamos subir? — sugeri antes que passássemos mais tempo lá embaixo do que eu queria.

— Claro, filha. Mas precisamos esperar o novo proprietário! — disse meu pai todo contente segurando uma sacola de material reciclável com a papelada dentro.

Estendi minha mão em sua direção como forma de cumprimento e disse:

— Prazer, nova proprietária! — dei um sorriso forçado e senti que minhas olheiras se afundaram mais um pouco.

— Isso não é maravilhoso, Klaus? — minha mãe estava empolgada e meu pai respondeu arrumando os óculos redondos semelhantes aos do John Lennon no rosto.

Virei-me para os pequenos degraus e os subi até a porta do apartamento, no caminho eles disseram algo que eu não consegui ouvir pois minha cabeça não estava mais ali. Permaneci calada até sentar sobre o sofá que estava coberto com um lençol.

— Eu comprei esse apartamento porque nós — olhei pra minha filha que estava dormindo ainda no bebê-canguru — precisamos de espaço.

Meu pai fez um olhar confuso. E minha mãe arriscou em perguntar se eu era babá dessa criança que estava comigo.

— Pai, mãe… — soltei minha pequena do bebê-canguru com facilidade, a colocando virada pra eles — essa é a neta de vocês. Eu descobri que estava grávida no primeiro ano da faculdade e… bem, eu tranquei a faculdade para cuidar da gestação e estou trabalhando numa cafetaria para nos sustentar. Foi por isso que eu não apareci nas festas de família, porque eu não sabia como contar pra vocês, na verdade, esse não era o problema principal… eu acho que só tomei minha filha como responsabilidade única e exclusiva minha e resolvi dedicar minha vida pra ela. — disparei em dizer e nem percebi que quando parei de falar, minha filha estava acordando e esfregando a mão no olho.

Meu pai estava sentado fazendo alguma posição de agradecimento aos espíritos da natureza e minha mãe estava emocionada e agachada perto de mim, observando minha filha.

— Qual o nome dela? — mamãe perguntou e beijou o topo da cabeça da pequena.

— Omaha Kimi. — essa foi a primeira vez que consegui dizer o nome da minha filha com tanta naturalidade.

— Ouviu isso, Monica? — meu pai se aproximou de nós. — Um nome indígena.

— Eu e seu pai estamos muito orgulhosos de você, Harmony. E de você também, Kimi.

Mamãe beijou o topo da cabeça da minha filha e passamos o resto da tarde ali naquele apartamento que ainda não estava limpo o suficiente para nos mudarmos. As horas passaram como num estalar de dedos e quando percebemos, era hora de acompanhar meus pais, meus velhos pais hippies fora de época até a estação de metrô.

Essa foi a primeira vez depois de muito tempo que me senti em paz com eles.

Notas finais
Deixa teu comentário aqui, estamos curiosas para saber o que estão achando da história. Super beijo e até semana que vem ♥
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.