Harakiri

1 Capítulo 1


As nuvens que encobriam o majestoso céu tornavam-se densas, pesadas e negras. Após cerca de quinze dias, voltaria a chover na capital. O povo, eufórico, teria isso como o principal assunto para as conversas corriqueiras no bar, porém algo ainda mais chamativo culminou até o topo de tal lista imaginária.

Carregando o brasão consagrado pela coroa, o cavaleiro avançava imponente pela multidão, e, cumprindo a missão a qual fora convocado, igualmente a muitos outros, proclamava a notícia revolucionária. Em alto e bom tom, como com a onisciência na vos, bradava reprimindo a conversa pacata dos súditos.

-Vossa majestade, o Rei em tal nobre pessoa não só permite a presença em seu palácio, como também a encoraja. Aqueles que virem-se aptos para cumprir tal humilde pedido apresentem-se ao portão Oeste do palácio ao por do sol.

Tal notícia era mais do que intrigante, e não eram poucos os que se espantavam o suficiente para derrubar o que carregavam. O que queria a coroa? Era a primeira vez, em muitas gerações, em que todos os plebeus eram convocados para dentro dos muros, porém nunca antes pela vontade simplória da monarquia. De que se trataria o assunto? Provavelmente seria o pronunciamento do fim da guerra. Em fim haviam vencido! Muitos haviam perdido a própria moradia pelas batalhas que manchavam de sangue o fértil solo da nação. Finalmente, os filhos voltariam para casa, com grandes feitos e histórias para contarem a seus próprios descendentes.

O sol mal tocara o horizonte, porém a multidão jazia aflita ao portão do palácio. O Rei foi o assunto dentro de todas as tabernas durante o dia, e a única coisa que saia da boca do povo. Tanto já haviam recebido deste rei, e mesmo que todos tenham notado o olhar distante após a morte de sua esposa e sua filha, o monarca recusava-se a admitir, e mantinha-se orgulhoso de seu filho, mesmo no dia de enviá-lo na liderança do último batalhão que saiu pelas portas da cidade.

Já haviam se passado semanas dês do envio do último batalhão liderado pelo príncipe, agora o único herdeiro. Esse era o assunto que angustiava a mente cansada do Rei. Sentava-se em seu respectivo lugar, ao fim da longa mesa vazia. A sua esquerda, tentava não lembrar de sua filha. Inocente, havia começado a namorar um dos guardas do castelo. Sua mãe sabia de tal desrespeito com a realeza, mas também era testemunha do carinho e ardente paixão entre os jovens. Assim, decidiu não interferir no amor jovial.

O que não desconfiava era que o soldado era, na verdade, um espião de outro reino. Porém não estava lá para coletar informações e sim realizar um atentado, um atentado a vida da jovem. Infelizmente, era tarde demais para que o Rei afastasse estes pensamentos agora. Há meses, havia planejado o atentado a filha da coroa. Um atentado que fora bem sucedido. Conseguiram capturar o ex-soldado nos portões exteriores da cidade, e a rainha fora quem o sentenciou, sem ao menos hesitar, a última das celas do escuro corredor sobre a fortaleza, acreditando que a forca não seria severa o suficiente. Porém, o jovem nunca chegou a cumprir a pena, e mesmo pelo que aparentava, continuava a alimentar o sentimento pela falecida princesa. No dia em que lhe negaram oficialmente a participação no enterro da amada, ele acabou por conseguir escapar da prisão provisória. Seu corpo foi encontrado no outro dia, no fundo de um precipício.

A rainha não foi capaz de aguentar a falta da filha. Em menos de uma semana, adoeceu e partiu antes que pudessem planejar um enterro. Para traz, abandonou o marido desolado, que acabou por cuidar do filho sozinho. Mesmo que ninguém tivesse conhecimento, todas as noites o Rei levantava-se de sua cama, e de joelhos, rezava aos astros para que cuidassem de sua família. Uma noite sequer foi capaz de realizar tal prece sem derramar lágrimas.

Os meses se passavam, e seu olhar ficava cada vez mais distante. Menos disposição tinha, e as olheiras começavam a crescer. Todos, mesmo que com atraso, já haviam começado a perceber as mudanças físicas e psicológicas que ocorriam dia após dia com o regente do trono, com exceção talvez de seu único filho, que por muito esforço do pai, sempre o viu apenas com as qualidades que este desejava.

Enfim, antes que pudesse terminar a refeição matinal, as notícias prometidas sobre seu filho chegaram. O mensageiro estava cansado após tal grande distância, e o selo de cera parecia intacto. Tomou a carta em suas mãos, e, agradecendo, leu-a sozinho. O sorriso com o qual começara a leitura manteve-se até o final, e logo após isso, convocou o exército para chamar o povo.