Harakiri

2 Capítulo 2


O sol finalmente encostava no horizonte e os portões se abram, permitindo a passagem da população eufórica. Acabaram espremidos no jardim principal, esperando o pronunciamento real. O ambiente não estava enfeitado, porém a construção dispensava qualquer decoração.

Já arrumado com as mais belas roupas que possuía, o rei caminhava para sacada que dava acesso ao jardim, logo a cima do povo. Estava vestido para a mais frondosa festa imaginável, mesmo que este não fosse exatamente o caso. Ao menos, não uma festa para ele.

Quando as portas foram abertas revelando o rei seguido pelo coronel responsável pela guarda real, gritos e assovios que cumprimentavam a coroa tomaram conta do ambiente. Levantando a mão direita, o monarca foi capaz de acalmar os que gritavam, e preparou-se para iniciar seu discurso. Ao fundo, atrás dos muros, podia muito bem ver o sol se ponto. O Rei gostava daquele local. Não só pela acústica incrível que podia transformar qualquer palavra em uma revolução, como também pela beleza. A luz do por do sol formava uma sombra que cobria metade da população, porém ainda eram vistas árvores bem cuidadas e as flores plantadas no jardim, além das duas fontes que agora estavam exatamente na divisa sombria.

Inspirou fundo, mantendo sempre a expressão rígida, necessária a um homem em sua posição. Estaria ele preparado para o que estava prestes a falar? Há muito tentara esconder o que pensava. Estariam preparados para o que fatalmente ouviriam? Rigidamente, começou seu discurso.

–Povo do reino. Bem vindos sejam ao palácio real. Enfim, poderão apreciar uma nobre festa, que logo após este discurso se iniciará.

Todos sobre o jardim entram em desespero, abraçando uns aos outros e festejando. Uma festa digna a nobreza, e eles estariam convidados? Um milagre! Muito sei rei já havia lhes dado. Era a confirmação além de uma ótima notícia, como da bondade do Rei. Novamente, o Rei tenta acalmar a população, e retoma seu discurso.

–Como meu primeiro decreto após ser coroado, acabei com a exploração a vós, trabalhadores, o braço e as pernas da nação. Mais do que ninguém, vocês são os responsáveis pelo progresso de nosso reino!

Conforme o rei falava, alguns gritos eram ouvidos. Gritos da mais pura felicidade e comemoração. Mesmo assim, os oficiais do exercito, principalmente o coronel ao lado do rei, começaram a estranhar. Uma festa, para o povo? O rei já havia feito muito para a população, mas isso era tradicionalmente equivocado. Logo o monarca continuou.

–A guerra já derramou sangue dos nossos. Muitas vidas já foram perdidas, e as expectativas deixam muito a desejar. Com isso, decreto o fim desta guerra!

Novamente a população vai a loucura.

–Rei! Nosso soberano trará nossos filhos de volta! Viva!

Novamente os oficiais se questionavam sobre a veracidade de tais palavras. Como poderia o rei acabar com a guerra, sendo que estavam perdendo? O último batalhão enviado era a última esperança da coroa. Havia sido tão bem sucedido assim?

Por um momento o rei hesitou. Lembrou-se exatamente no que havia lido na carta. O último batalhão havia sido facilmente derrotado e os sobreviventes, contando com o príncipe, haviam sido empalados em praça pública. Desta vez, não foi necessário levantar a mão para acalmar o povo. Elevando a voz, continuou o discurso. Após o término da frase, o silêncio se alastrou sob cada alma ali existente.

–Não podemos suportar mais mortes. Que o sangue de um último inocente acalme a ira destes fariseus. A sanha de meus inimigos deixo o legado de minha morte.

O silêncio era tamanho que ninguém foi capaz de ao menos cochichar. O que ele queria dizer com aquilo? O coronel agora olhava assustado para o homem ao seu lado, com a coroa sobre a cabeça.

–Levo apenas o pesar de não ter podido fazer, por este bom e generoso povo, principalmente pelos mais necessitados, todo o bem que pretendia. Só Deus sabe das minhas amarguras e sofrimentos. Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo e renunciando a mim mesmo, para defender a nação. Nada mais vos posso dar a não ser o meu sangue. Se as aves de rapina que em pouco tempo chegarão a nossa porta querem o sangue de alguém, querem continuar sugando cada alma de nossos filhos na guerra, eu ofereço o meu próprio. Uma nação é feita pela população, não pelo nome do governo. Quando enfim chegarem à cidade, ordeno a rendição imediata do exército.

A este ponto, lágrimas pingavam de seu queixo até o chão, porém mantinha a mesma expressão facial.

–A vós imploro a hospitalidade com aqueles que mataram nossa família. A única coisa que agora importa é a sobrevivência de seus corações, pois foi esse o meio que escolhi de estar sempre convosco. Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade, e saio da vida para entrar na história.

Determinado, termina seu discurso.

Ao fundo, o banquete que estava sendo servido durante o discurso estava arrumado, mas os serviçais olhavam incrédulos para o Rei. Nem ao menos um olhar desviou-se do monarca, que após tirar a coroa da mão, coloca-a sobre a proteção da beirada da sacada à sua frente e vira-se para traz. Antes que pudesse dar um passo, o coronel coloca a mão sobre seu ombro, e próximo aos seus ouvidos, tenta falar.

–Senhor, não podes estar pensando d-

O Rei apenas necessitou olhar convicto para o coronel, que surpreendido afasta-se, enquanto vê o homem caminhar para dentro do palácio escuro sem ao menos uma tocha, visto que o sol já havia se posto.

O Rei caminha pelos corredores desertos, mesmo sabendo que não teria muito tempo. Finalmente em seu quarto, ajoelha-se ao lado se sua cama. Debaixo dela, retira um pequeno baú, após abri-lo, desembainha um pequeno punhal de prata, enquanto ouve grande quantidade de passos virem em sua direção.

O choque era maior do que qualquer um dos presentes era capaz de imaginar. Alguns segundos depois, mesmo que hesitando, o coronel foi capaz de entrar novamente no palácio, e reunir todos os integrantes da guarda real que conseguiu encontrar. Precisavam agir rápido, pois a segurança do Rei era sua prioridade. Não poderiam permitir tal blasfêmia. Seguido de doze homens depara-se com a porta trancada dos aposentos da realeza. Em poucos segundos, conseguem arrombar o grosso obstáculo de madeira, revelando seu obscuro interior. O aposento estava frio e escuro, porém não o suficiente para esconder a cena dos homens de armadura. Ao lado da grande cama no centro da sala, sobre uma poça de sangue, jazia o cadáver de seu último monarca, ainda segurando o punhal por cima das vísceras que saiam ao longo do corte em formado te L.

Notas finais
Como não especificado anteriormente, mesmo ponderando as chances nulas de não ter sido percebido, minha consciência obriga-me a entregar parte dos créditos da obras a Getúlio Vargas, criador do discurso que inspirou essa história que agora jaz modificado no no escrito.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!