Hans
3 Napoleão e o Belerofonte, ou O Rei Triste
Notas iniciais
Seculo XXI
Na portaria de um prédio residencial luxuoso em Ipanema, entra um senhor usando um Kepah*1 por sobre seus cabelos grisalhos e vestido formalmente de preto. se inclina para o porteiro e pergunta com forte sotaque português.
–Por favor... Acaso que a Senhorita Elisabela Amaro de Bragança e Oldenburgo. Encontra-se em casa?
–Não, não senhor. Dona Elisa acabou de sair. O senhor quer deixar algum recado?
Respondeu Ernestino, velho funcionário do prédio com seu leve sotaque pernambucano.
–Ah, pois não! Tu tens uma caneta?
O homem tirou um cartão do bolso. Seu nome era Nahim ben Nain, Psicologo e historiador amador, ele estava de passagem pela cidade para uma palestra no prédio da União Israelita em Botafogo, quando, por acaso soube da estranha historia da menina que achou uma garrafa.
O que o chamou a atenção era um nome que supostamente estava escrito na mensagem da garrafa, um nome que ele procurava fazia anos. Hänsel Westergärd. Ou Hans, o esquecido. Um homem a quem o Ben Nain tentava provar a existência a quase dez anos.
–Taxi!
Acenou para o carro amarelo que parou no semáforo na Avenida Vieira Souto.
–Pra onde, doutor?
–Copacabana Palace.
O taxi cruzou pela Francisco Otaviano e, pela janela do vehiculo, Nahim viu a orla de Copacabana surgir com suas ondas brancas.
Entardecia. O céu outonal nublado de nuvens cor de cobre.
Devido a alguma retenção, o fluxo dos carros diminuiu e distraído ele viu uma cena que lhe chamou a atenção. Em um banco de pedra, uma linda menina de longos cabelos platina lia, um livreto ao lado de um homem magro feito de bronze.
Reconheceu a estátua como sendo um famoso poeta daquelas terras ao ver escrito no banco os versos:
“No mar estava escrito uma cidade”
Mais tarde já em seu quarto, Bem Nain se debruçava sobre a ultima parte do livro que estava traduzindo... O diário de Jacob Walweik...
Outono. 1831
–Baterias de Estibordo! FOGO! – Gritou o Capitão.
Canhões rugiam a bordo. O navio Britânico H.M.S. Endurance atacava a fragata inimiga. Um jovem príncipe Hans de não mais que 14 anos limpa o suor da fronte, a medida que sua voz grita ainda com o vacilante timbre dos meninos que se encontram a caminho de tornar-se homem.
“Esfregões!”
–Esfregões!- Gritam. Os tripulantes esfregam o bojo com seus esfregões limpando o pó chamuscado da pólvora queimada.
“Pólvora!”
Os tripulantes armam os canhões com uma carga completa de pólvora. Preparando o próximo tiro.
“Pastilhas de Borra!”
Dessa vez dois marinheiros com bastões de madeira cuja extremidade é acolchoada com algodão socam a pólvora recém-assentada no cano do canhão.
“Carregar tiro”
– Carregar tiro!- Carregar tiro!- Carregar tiro!-- Respondem sucessivamente os três tripulantes das três artilharias a medida que as pesadas balas de canhão são colocadas pelas bocas dos canhões.
“Correr e travar pedestais!”
“Atirem à vontade!” — Ordena o Capitão.
Sucessivas rajadas explodem espalhando fumaça branca a enquanto que a Endurance é cercada por duas fragatas de guerra à bombordo e estibordo. Hans da ordem aos canhoneiros que carreguem e atirem o mais rápido que puderem, sem esperar pelo resto da artilharia.
Hans, como um oficial junior, é responsável pelo comando de três Canhões de Caronada no Deck principal da Endurance. Caronada é um tipo de canhão especialmente efectivo e destructivo quando a curtas distancias. É ligeiro, fácil de operar e Hans queria explorar essa vantagem.
A batalha enraivecia loucamente. Acima de si, no convés, seu irmão mais velho o Príncipe Willian, o teso, décimo na linha de sucessão ordenava aos homens armar os mosquetes e se flanquearem.
O príncipe, mesmo que na primavera de seus 17 anos, era uma figura destemida diante de seus comandados.
Seus cabelos loiros, molhados da água que as balas de canhão inimigas jogavam no convés. Seus olhos azuis ferozes não obstante o caos que o rodeava. Seu porte forte, mesmo para um garoto, e seu escudo preso as suas costas ostentando as armas de Westergäard. Tudo nele parecia feito para a guerra.
Excitados ou assustados pela batalha, muitos marujos mais inexperientes tremiam e deixavam as armas caírem, outros não se seguravam e tentavam atirar na tripulação do convés inimigo.
–Segurem fogo! Não atirem até eu dar a ordem!- Gritava Will enquanto ordenava aos homens manter a linha.
–Esperem até o inimigo tentar abalroar! Não atirem antes!
Os canhões da bateria anterior a de Hans disparam, chocando-se com força contra os cabos da trave que os seguram para que não atravessem rebentando pelo navio. Tamanha é a força de seu coice, que o chão de todos os Deck só não tremem mais do que as mãos do nervoso príncipe que pela primeira vez testemunha a intensidade louca de uma batalha.

Ao contrário do senso comum o período histórico que sucedeu às guerras napoleônicas não foi um mar de rosas. Houveram vários conflitos menores dentre as principais potências da Era.
E particularmente na década de 1830 conhecida como a conturbada década das revoluções. (Clique aquí para a trilha sugerida)
Na França o despótico Rei Carlos enfrentava a revolução de Julho, conhecida como os três dias gloriosos*2, cuja repercussão se espalhou na forma de revoltas na Bélgica, Holanda, Espanha, Itália, Portugal e Alemanha.
O contexto dessas batalhas criou estranhas alianças temporárias, algumas impensáveis décadas antes, tal como Albion, também conhecido como o Império Britânico, e as Ilhas do Sul.*3
Ambas dividindo Navios e homens em suas intervenções para estancar o avanço das potências da Heilige Allianz em suas respectivas esferas de influência.*4
As Ilhas do Sul penaram duras perdas para as frotas da Terceira Coalizão tendo sua capital bombardeada e economia arruinada. (vide *3)
Sem recursos e sem uma frota suficientemente forte o pai de Hans, Rei Frederico o Fecundo, teve de recorrer ao serviço de armas pagas*5 para sustento e recuperação de sua frota.
Nesse contexto, muitos dos seus herdeiros acabaram por atender ao chamado das armas*6
Hans não era esse caso.
Tendo se alistado por iniciativa própria o jovem Hans, ao contrário de seu irmão Willian, nunca pôde gozar de privilégios de sua origem nobre dentro da marinha Real. Começando como um simples marinheiro limpador de latrinas até o dia que. Por seus méritos, inteligência e manipulações. Ascender ao cargo de aspirante a oficial.
E a batalha continua.
Os marinheiro esfregam o bojo, Empurram as cargas de pólvora, batem os bastões de borra na pólvora, carregam as balas, empurram e travam as armas nas portinholas de estibordo, e atiram com os canhões conforme Hans comandava cada parte do processo.
O menino berra com vigor.
“Esfregões! Pólvora! Borra! Munição! Correr e travar pedestais! FOGO! ~Esfregões! Pólvora! Borra! Muniç~”
De repente o mundo vira de cabeça para baixo no momento em que as baterias inimigas rasgam o casco a cerca de dez metros de distância.
Estilhaços da bala de canhão inimiga destroçam homens e equipamento pelo flanco do navio, enormes lascas de madeira voam pelos ares.
Um dos fragmentos de bala esmaga a perna de Peter, marinheiro sob comando de Hans, mutilando-o horrivelmente. Enquanto um estilhaço de um metro de comprimento rasga o estomago de Marcus.
–Mister Jacob!- Grita o príncipe, e o segundo companheiro sob seu comando ergue-se dos escombros com o olhar fixo em seu suboficial. – Pegue dois marujos e leve Peter pro Cirurgião!
–E quanto a Marcus?- Pergunta Jacob.
Hans olha brevemente para o marinheiro agonizante, seu ventre perfurado vazava além de qualquer medicina. Ele cerra os olhos e suspira, suas mãos sempre tremendo.
–Sinto muito, mas não podemos fazer nada por ele... Leve Peter. Agora!
Jacob Walweik engole a seco, claramente incomodado, mas acata a ordem.
–Carlos! Lucius! Venham comigo! – Os canhoneiros entram em ação e levam Peter para a cabina do cirurgião. Hans faz o que pode para ignorar os gritos de agonia de Marcus que do chão implorava por socorro.
–Levantem essas carcaças homens! Tem uma devassa de batalha acontecendo lá fora! Carregar can...
Hans hesita. Acabara de se lembrar de que já dera a ordem pra carregar os canhões, um canhão carregado de forma descuidada é um explosivo mortífero, esse tipo de erro poderia lhe custar à carreira, ou pior, a vida.
E pensar que seu trabalho de oficial encarregado, é justamente evitar essas falhas de ocorrerem!
O príncipe Gruniu frustrado. “Mas que Raios! Travar os canhões! FOGO NELES!”
Mais uma sova de tiros, a Endurance incapacita duas fragatas inimigas e avança triunfante por sobre os escombros quando seu comandante vê surgir à frente, por entre a fumaça das batalhas, o enorme e ameaçador La Reale, a Nau capitânia da Frota inimiga.
– O inimigo está em rota de colisão!- Gritou o imediato enquanto o timoneiro guinava o navio a boreste a toda carga descompensando a embarcação.
–Droga! Recolher Portinholas de Estibor~!- O comandante não teve tempo de completar a ordem. A Enorme La Reale Se choca contra o casco da Endurance num choro estridente de metal amassando, madeira crepitando e dentes rangendo.
Hans estava preparando a próxima carga quando o impacto das embarcações o arremessou pelo chão do Deck, atrás de si, uma fileira inteira de canhões é arrastada com a força do impacto, quebrando as travas e ferindo homens pegos de surpresa.
No convés, Príncipe Will, o teso, ordena seus homens esperarem o seu sinal para atirar com os mosquetes, o príncipe tinha duas pederneiras em mãos. Uma destas apontada para a cabeça de um tripulante receoso.
–Se desperdiçar outro tiro, Senhor Humpfrey! Eu juro que não desperdiçarei o meu!- Ameaçou.
Por hum momento de tensão eles esperam, quando de repente num brado a tripulação inimiga avança por sobre o convés.
–Por EL REI! – Eles gritam.
–Fogo! — Grita Willian. Seus homens erguendo as baionetas ao ar.
Um cheiro de pólvora queimada e o rugir de homens que lutam invade suas narinas e ouvidos. A tripulação do Endurance inicia uma viciosa batalha contra a equipe de abordagem do La Reale. Espadas brandem. Tiros ecoam.
Ele percebe que alguns tripulantes inimigos estão usando cabos para abordar por trás das linhas de defesa. Ele mira as pederneiras em dois fazendo-os cair inertes no convés e derruba com um soco o terceiro, agarrando de suas mãos o cabo, se balançando nele para abordar o navio inimigo.
Os homens que acompanhavam Willian não acreditaram ao ver o jovem príncipe, de espada entre os dentes, se balançar no ar e abordar sozinho o navio inimigo. Por um momento ouviu-se tiros e eles pensaram que o tolo príncipe encontrou se com os frios braços da morte.
De repente um tripulante inimigo saltou por sobre o convés caindo no mar, um escudo com as armas de Westergärd voou nas costas de outro que também caiu. Houve gritos, som de espadas brandindo e mais tripulantes pulavam no mar, alguns claramente desesperados.
Humpfrey, que até agora só tremia que nem vara verde tomou coragem e falou!
–Não fiquem parados, vermes! Vamos Ajudar!
Eles escalam hesitantes as cordas do casco do La Reale, a batalha inverteu-se completamente, a tripulação que deveria estar sendo abordada começa a contra-atacar usando as cordas e ganchos deixados pelo inimigo.
A batalha se intensifica, Willian oblitera os marinheiros portugueses e espanhões à bordo do La Reale fazendo-os recuar, uma rajada de rifles derruba três de seus companheiros, ele esta começando a cansar, seu escudo está ficando pesado e lento e a tripulação inimiga continua em maior numero.
De repente, uma enorme Nave de linha*7 Surge pelo flanco oposto e inicia sua abordagem no La Reale. Os tripulantes de ambas as tripulações se assustam ao ver o magnífico navio negro com listras brancas roubar-lhes a luz do sol com sua sombra onipotente.
O capitão da Endurance não acreditava em seus próprios olhos. Ele conhecia aquele enorme navio.
–O Lendário H.M.S. Victoria! Não pode ser! Está descomissionado em Portsmouth!
Seus canhões poderosos explodem o casco inimigo. O La Reale começa a fazer água.
Do seu Deck de comando o lendário Almirante George Sartorius observa a batalha tranquilamente dando longas sorvidas de seu cachimbo. Ao seu lado, um homem de meia idade alto e moreno com calças brancas e um uniforme azul-marinho coberto de medalhas.
Ele desembainha a espada e sorri.
–Aposto que não te divertes tanto assim desde os tempos de Napoleão, estou certo, caro Sartorius?- Perguntou o moreno.
–Sim majestade, mas é de bom conselho evitar morrer nesses eventos “recreativos”.- Respondeu o lobo do mar, tranqüilo como quem saboreia um chá as cinco.
O homem moreno desce até o convés saca a pistola e, acompanhado de um oficial e sua falange e, num salto, aborda o convés do La Reale. Ele junta-se a Willian e seus homens e lança um vigoroso contra-ataque Gritando:
–Sigam-me os que buscam o olho da tempestade!
Will percebe que, dentre os inimigos de origem portuguesa muitos se assustavam a olhar o homem misterioso, se rendendo e jogando as armas no chão. E mesmo assim o homem os atacava sem dó, ele se movia de forma exótica, suingando o corpo enquanto defletia as rajadas inimigas e avançando-lhes com violentas pernadas, em um misto de dança e luta.
–Parola!
Gritou o Comodoro da frota inimiga.
–Parola?- Responde o homem. -Dane-se você e sua parola!
O Comodoro inimigo parecia ser um oficial português experiente. Todos os homens à bordo observam tensos enquanto ele e o homem alto e moreno se encaram. A batalha de súbdito para, e o silencio se instaura quase que magicamente.
É o olho da tempestade! Ninguém ousa romper a tensão do momento.
–Ao contrário de si, tirano. — Disse o Comodoro levantando sua espada. –Eu sei o que é honra!
E erguendo a Espada aos céus, ele grita a plenos pulmões.
–Pela Igreja! Por minha amada esposa! E por El Rei, Don Miguel!
O homem moreno ri, e em tom de troça responde:
–Pela Bebida! Pelas Vadias e Pela Diversão!- E atira no peito do Comodoro. Para terror de todos que assistiam.
Nesse momento todos os olhos estão voltados no convés, a medida que os oficiais inimigos jogam as espadas ao chão. William reconhece o homem alto, É o Rei Pedro IV. Irmão de Dom Miguel de Portugal.
O capitão agradece depois da batalha e promove Willian a Primeiro Tenente. A expedição foi um sucesso e naquele mesmo dia a coalizão que apoiava o Rei Pedro IV se apossou da Ilha de São Jorge em Açores. Convertendo-a em Base de operações.
Impressionado com o espírito lutador do príncipe, o Próprio Rei o convidou para o banquete da victória. No forte do Espírito Santo, uma fortificação abaluartada em forma de estrela.
O pequeno Hans, invejoso de seu irmão, e curioso sobre o misterioso Rei... Um Rei que falava, lutava e tinha temperamento de pirata!
Não resistiu. Ele queira dar uma espiadela.
–Beba comigo, garoto!- Disse um marujo bêbado com uma garrafa na mão. Hans soube aproveitar da tontura do homem e, como quem guia uma dama no baile, puxou girou e soltou o homem cambaleante na direção dos guardas na entrada do forte, que começaram a rir imediatamente.
Com seu corpo leve ele saltou por uma tenda de sapê pulando as muralhas do forte, se esgueirou pelas sombras e subiu até a sala semi-iluminada onde se reuniam o Rei e seus Conselheiros militares, bem como Willian ruborescido com os olhares das duas belas morenas enroscadas no pescoço do Rei.
Na mesa um homem chamado Mendizabal fazia um discurso erguendo uma taça de prata.
–Por um investimento bem sucedido!
–Não cante vitória antes do tempo Juan! -Respondeu Sir Charles Napier, outro lendário almirante aliado do rei e cavaleiro da coroa de Albion.
–Ele tem! – Disse o Rei segurando uma grande taça, sentado com suas morenas numa poltrona escura num canto da sala. – Metade desta campanha saiu do bolso dele. He he!
Todos os homens na sala começam a rir. Era tudo como Hans imaginara, a bebida espalhada, as garotas com olhar inebriado, os homens de guerra rindo. Ele havia entrado de penetra no Valhala!*8
–Peguei!
Disse Willian puxando o pequeno Príncipe pelo braço e tirando-o das sombras onde estava escondido.
Todos se surpreendem com o jovem intruso, Willian já se preparava para chuta-lo pra fora quando o rei interrompeu.
–Traze-o a mim!
Ele pegou Hans pelo queixo e o mensurou de cima a baixo. Will permanecia em silencio.
–Tu tens belos olhos tristes rapazinho, olhos de saudade... Qual o teu nome?
–Hänsel. Hänsel Westegärd meu rei.
–Este nome...- Ele olha para Will — Não me digas?
–Sim majestade, infelizmente.- Respondeu Will.
–Ora, ora. Vejam só cavalheiros, temos cá dois príncipes sob meu comando!
Os oficiais riram. O Rei continuou.
–Quantos irmãos mais tu tens, infante?
–12 Majestade, sou o mais moço.
–13! 13 filhos? Este teu pai quase que me alcança... Se bem que eu perdi a conta dos meus por volta da primeira dezena.
Todos os homens da sala riem.
– Eles também estão acá?
–Não, meu Rei. Eles servem na Dinamarca e Bélgica. Em Açores somos só eu e William.
–Dize-me rapaz, tu participaste da batalha?
–Sim, meu Rei. Na artilharia da Endurance.
–E o que achaste?
Hans ergueu a cabeça. Aquele homem, aquele Rei lhe havia demonstrado mais interesse nele em minutos do que seu pai em anos. Hans apreciava essa atenção repentina.
–Foi... Terrível, meu Rei. – Sorriu.
O Rei também começou a rir divertindo-se, e em seguida o riso tornou-se uma tosse constante. Preocupando a todos. Ele se recobrou.
–Batalhas são assim meninos. É o gosto amargo da morte que nos adoça a vida!
–O senhor diz isso por que é destemido, meu Rei.
Will queria lhe arrancar a língua por tamanha falta de educação. Não se fala com um Rei sem antes lhe ser dado a permissão.
–Destemido? Não. Eu temo a morte tanto quanto qualquer outro...
O rei se levanta.
–A diferença é que hei de estar pronto quando ela vier! As vezes até anseio por ela! A gloria do paraíso é para os mansos, Lobos e Leões merecem uma morte gloriosa! Não há nada pior do que ver um homem poderoso definhar velho e decadente deitado sobre os próprios detritos! As glórias do passado se desfazem no ventre do Belerofonte!*9
Ele ergue os braços derrubando o vinho de sua taça.
–E eu pretendo ser um monumento de eu mesmo!
Voltou-se para os Jovens. Sua fala era exaltada, engrossando o timbre a cada palavra.
–As Cousas que fiz aos outros! Vivi muitas aventuras, matei amigos e inimigos! E magoei quem eu amei, bem como quem me amou! Mas não te enganem, eu não me arrependo de nada! Eu vivi aventuras, tive mulheres, aliados, rivais. Lutei, Amei, venci, perdi... Mas tudo isso de minha vontade! Eu fui Rei! Soldado! Herói! Pirata! Imperador! Aode minha paixão levou eu fui.
Os olhos do Rei brilhavam a medida que a luz do passado lhe percorria.
–E pela Mãe celeste! Que ao menos eu seja uma lembrança para os meus filhos...
O rei tombou-se para trás, ampara do por Will e um de seus almirantes. Os olhos do Rei, levemente embriagado marejavam. Sua voz baixava aos poucos.
–Eu espero... Não o repouso dos justos, mas uma boa morte! Morte de tiro ou de espada! A pompa das armas, o choro das viúvas! Os timbres da guerra... Napoleão merecia mais do que aquela cama em Santa Helena*9... Isso não é morte de rei...
Os príncipes olhavam a melancolia do monarca sem saber o que dizer. Ele toca o canto do olho de William e olha fundo seus olhos azuis.
–Pedro! Meu filho! Olhe para ti! Estás um homem! Pudera haver um mundo em que não te tive de deixar! Nem a tí nem a nenhum dos teus... Ah, minhas crianças! Eu queria te ver crescerem...
O príncipe ficou confuso. O Rei começou a tossir mais violentamente. Juan Mendizabal que observava tudo em silêncio, interviu:
–Pra fora garotos! Deixem o rei descansar!
Enquanto era conduzido par fora, Hans pode ouvir o choro e as tosses convulsionais do Rei. “Leopoldina, não foi minha culpa!(tosse!)(tosse!) Eu nunca desdenhei de nenhum dos meus, nem os mortos, nem os mortos!”
(...)
Percebeu surpreso que Will o segurava pela mão, tal como os irmãos fazem. Ele permanecia em silêncio, talvez pensando no contraste entre esse rei louco e o que eles tinham em casa. Hans ficou ao seu lado pelo resto da noite e no dia seguinte Will voltaria a o ignorar como sempre fez.
Eles nunca mais tocaram no assunto. Mas graças aos lamentos do Rei Triste, por uma noite apenas, ele se sentiram verdadeiramente irmãos.
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