Hans
4 A Solitude de "Behind Blue Eyes"
Notas iniciais

Século XXI
No mar estava escrito uma cidade...
Elisabela estava sentada no banco, ao lado do homem de bronze, a figura lia absorta às palavras gravadas na pedra e, ao som das vagas jogadas às pedras do forte, relembrava os versos.
no campo ela crescia, na lagoa,
no pátio negro, em tudo onde pisasse
alguém, se desenhava tua imagem,
teu brilho, tuas pontas, teu império
e teu sangue e teu bafo e tua pálpebra,
estrela... cada um te possuía.
Era inútil queimar-te...cintilavas.
(...)
As palavras do poeta lhe provocaram um suspiro, não sabia bem o porquê. Fora assim desde o primeiro dia, desde o primeiro verso.
A menina de cabelos cor de Luar. EIisabela. Gostava de pensar que Drummond foi o seu primeiro amor, Visto que “A Rosa do Povo” foi seu primeiro livro de poemas. Seu primeiro verbo...amar, por dentre as letras.
E por seus finos lábios, sussurrava.
(...)
Ele caminhará nas avenidas,
entrará nas casas, abolirá os mortos.
Ele viaja sempre, esse navio,
Essa rosa, esse canto, essa palavra.
(Mas Viveremos — Carlos Drummond de Andrade.)
As nuvens outonais pintaram o entardecer cinzento com tons de bronze.Como no dia que ela perdeu seu broche, uma antiga lembrança de família. De uma família muito antiga.
Seus pés caminhavam pelas areias molhadas da orla de Copacabana deixando delicadas pegadas. E olhava para o horizonte sem olhar para lugar nenhum. A água fria lhe beijava os pés com ternura.
O chiado da espuma das pedras do arpoador lhe sussurrava saudade. No dia que ela perdera o broche que sua avó ganhara da bisavó ela chorou a perda de algo que sabia que nunca mais iria recuperar.
E agora, tantos anos depois ela sentia a mesma sensação de perda irreparável. Dessa vez não por um homem ou por um broche de bronze, bem, talvez por um homem, mas de carne e osso.
Pegou o Iphone e colocou em modo Shuffle. A voz suave de Mira Callado lhe acariciou os ouvidos. As luzes da cidade Maravilhosa despertavam para a noite. Ela tentava se distrair cantando. (Clique aqui se quiser saber o rítmo da melodia)
Sou linda rosa
Pecaminosa criatura
Te deixo assim sem armadura
Minha alma é tua, você não vê?
***
–Dona Elisabela, um homem esteve aqui procurando a senhora!
Era Ernestino, o mais velho porteiro do edifício de EIisa. Ele falara depois de abrir a grande porta de vidro do vestíbulo. Tinha um pequeno cartão em mãos:
Senhorita Elisabela Amaro de Bragança e Oldenburgo.
Preciso te falar sobre teu achado. Estarei hospedado no Copacabana Palace até a meia noite de domingo. Favor entrar em contacto.
Nahim Ben
“Falar sobre teu achado...”
–Hum... Será que é o que eu acho que é?
Ela olhava para o pequeno pedaço de papel, as portas do elevador começaram a se fechar quando de repente uma mão passou por entre a fresta fazendo o dispositivo reabrí-las.
–Opa, foi por pouco. Oi Elisa sua irmã não me disse que você estava em casa?
Elisa estava distraída, não viu o rapaz alto, loiro e de olhos castanhos que chegara depois dela. Seu nome era Cristóvão, ou Criss para os íntimos. Namorado de sua irmã mais velha Ana.
–... Cris? Nem te reconheci vestido assim.
Criss se virou acanhado, olhando para o espelho do elevador. Estava usando uma blusa social perolada com uma gravata (mal) amarrada em seu colarinho, calça social escura em colete CK, seu perfume Cuba Paris, deixava um aroma doce porem não tão enjoado no elevador. A única coisa que lembrava o velho Cris era o Tênis branco e a tez bronzeada de tanto surfar.
Não era costumeiro ao jovem usar roupa social. E seu encabulamento só não era maior do que o de Elisa que continuava cabisbaixa. De todas as pessoas que ela queria não encontrar ele estava no topo da lista.
Eles permaneceram um longo minuto em silêncio.
–Elisa...
–Ah! Oi?
–Acho que você esqueceu de apertar o botão do elevador.
–...
Elisa não sabia o que responder, apertou o botão ainda cabisbaixa e permaneceu calada. Criss sorria sem jeito. Por algum motivo, a amiga inteligente e simpática que ele conhecia estava com um comportamento cada vez mais retraído. Mesmo para uma menina extremamente introvertida como ela.
Tentou quebrar o gelo.
–Puxa... O ar condicionado central desse teu prédio fica sempre no máximo, né? De uns tempos pra cá está cada vez mais forte.
Elisa levantou a cabeça como quem acorda no susto. Ela sabia que o prédio dela não tinha ar condicionado, precisava agir rápido antes que Cris suspeitasse dos cristais de gelo que se formavam no espelho do elevador.
–M-mas hein? Por quê você veio assim tão elegante? Por acaso você e minha irmã vão a algum lugar romântico?
Elisa sorria tentando manter a compostura. O namorado de sua irmã piscou os olhos incrédulo.
–Elisa, hoje é o grande dia da Ana! Lembra que ela foi promovida a editora chefe depois de conseguir negociar aquela reviravolta na negociação com a Baker*1? Eu até pensei que você iria com a gente...
“Ah, que vacilo!” Pensou Elisa, ela havia esquecido completamente.
Ana, sua irmã mais velha, trabalhava como representante de uma jovem editora carioca, a Intrínseca, quando houveram problemas com o acordo de distribuição de um livro prestes a ser publicado, ela se ofereceu para viajar para a Carolina do Norte, onde reza a lenda, enfrentou advogados, secretárias mal humoradas e agendas lotadas. Galgando todos os obstáculos até conseguir que Marshall Wright*1 lhe desse um minuto (60 sec.) para fazê-lo se interessar.
Conhecendo bem o espírito impetuoso e impulsivo de Ana. Foi mais do que o suficiente!
***
“Você não vai atrás de mim vestido assim, vai?”
Ana estava agitada. Seus cabelos morango esvoaçavam juntamente com seu vestido vermelho-escarlate enquanto ela terminava de por os brincos. Seu perfume Carolina Herrera, deixava claro que a noite era dela e ela fazia questão de ser notada.
–Se quiser amor, eu posso dar meia volta e ir pra orla tomar Açaí com o Sven...- Provocou Criss com um sorriso desdenhoso.
Ana parou em frente ao louro. “Não ouse!” Disse enquanto arrancava fora a gravata ridícula e ajeitava o cabelo do amado tentando desfazer o estrago.
–Você não sabe a diferença de traje a rigor para esporte fino? Como me tem a pachorra de combinar calça social com tênis?
Olhou para a irmã que ria com o nervosismo de Ana.
–Você também não vai, né Elisa?
–Ana... Você sabe que eu não gosto de tumulto, nem festas.
– Tumulto? É o meu grande dia, sabia? Aff! Quer saber, você já é crescida, faça o que quiser da sua vida! Mas quando eu voltar a vamos ter uma conversa!
Elisa deixou a irmã falando e foi para o quarto. Ela sabia que era errado, mas simplesmente não dava! Pessoas, eventos sociais e, mais recentemente, Cris, a faziam perder o controle.
Sentou-se na cama. Em cima da mesa estava a garrafa ainda com a carta.
“Estarei hospedado no Copacabana Palace até a meia noite de domingo”.
Nahim... Que nome diferente. O que será que ele quer? Desde que encontrou a garrafa há quase um ano, vem sentindo que quem quer que a tenha lançado no mar, possuía algum tipo de conexão com ela. Levantou-se e saiu do quarto.
–Ana, me perdoe é que eu...
Elisa congelou. Na sua frente Ana e Cris se beijavam. Aquilo a fazia se sentir estranha, sentia um formigamento, como cristais de gelo se formando debaixo de seus pés, precisava fugir, sair daquele espaço.
Cris e Ana só perceberam quando ouviram a porta bater.
–Aonde ela foi?
Perguntou Cris tentando entender.
–Ela fugiu, Elisa sempre faz isso quando não consegue se conter.
–Se conter? Como assim?
–Você sabe do que eu estou falando, Cris... Vai dizer que não suspeitou também?
Ana suspirou, havia uma ponta de tristeza em seus olhos azuis.
–Desde que a gente se mudou pro Rio. Você é a única pessoa do sexo masculino com quem ela fez amizade depois do Papai. Elisa é extremamente tímida com homens...
–Eu não estou entendendo, Ana...
Ana estava esmaecida, nem parecia a mulher enérgica e exaltada de momentos antes.
–Não é óbvio? Ela está apaixonada por você, Cris...
Verão. 1840.
–Isso é mesmo necessário, Will?
Hans não acreditou quando seu irmão o algemou e o puxou como se fosse um ladrão de galinhas. –Ordens de Viktor!- Ele respondeu.
Os olhos de Hans expressavam preocupação quando eles passaram pelas portas do da Alfândega. Olhou para seus irmãos que acenavam negativamente com a cabeça. Seja lá o que for que Viktor tinha em mente, eles não podiam fazer nada.
–Ao menos me diga onde está minha carruagem!
Disse ao perceber que eles andavam pelas ruas acompanhados apenas de uma escolta de guardas. Parou. A sua frente havia uma carroça com barras de ferro. Pouco mais digna do que a jaula de uma besta.
–Não tem carruagem Hans – William sorria – Viktor me instruiu a tratar você como um criminoso comum, e é o que vou fazer.
–Uma ova! Nem um criminoso comum é humilhado assim!
E realmente, era uma cena incomum na capital. As lamparinas a gás já estavam acesas mas por sorte os trabalhadores e transeuntes curiosos pareciam não perceber, ou não acreditar, que o rapaz ruivo na cela era um príncipe. Hans percebeu os olhares receosos dos guardas que escoltavam e tentou argumentar.
–Na frente deles não Will... Por favor! Façam o que quiserem comigo, mas não na frente do Povo!
–Se você se importasse realmente, Hans, não teria feito o que fez! Está na hora de você enfrentar a responsabilidade de seus atos como homem!
Os irmãos de Hans não o acompanharam, preferiram ficar na Alfândega. Aquilo era exposição demais para os membros da família real. Will o arrastou pela rua em silêncio. Deliciando-se com a expressão constrangida do irmão.
Levaram no para o Palácio da Justiça e o fizeram sentar em uma cadeira de madeira dentro de uma saleta iluminada por lamparinas a óleo, cuja mobília era apenas uma mesa com um grosso livro.
Ouviu pés pesados andando a largas passadas atrás de si. Sabia de quem eram. Um frio lhe percorreu a espinha quando a porta se abriu e ele pôde sentir o olhar de Viktor, o beligerante, principal conselheiro do Rei Klaus e segundo na linha de sucessão.
–Divertindo-se com minha desgraça, Viktor?
Hans tentava manter a calma. Quase saltou da cadeira quando sentiu as mãos pesadas de seu irmão em seus ombros. E o ar quente de suas narinas próximo a sua orelha esquerda. Ele permaneceu assim por longos segundos, talvez pensando no que dizer, ou apenas pelo prazer de ver o quanto aquilo assustava Hans.
–Não me entenda mal, irmão. — Ele começou. –Tivesse você conseguido por em práctica seu plano e tomado o trono da Rainha Elsa, Eu seria o primeiro a bater palmas pelo seu engenho e ousadia. He he! Que Klaus não me ouça, mas isso seria ótimo para o nosso Reino.
Ele se levantou e começou a andar pela sala ainda sem olhar para Hans, que ainda sentia os pelos da nuca arrepiarem.
–Mas você não conseguiu. Não é irmão? E ainda por cima se deixou ser pego, tsc tsc. Você apostou muito alto, irmão... Está na hora de sofrer as conseqüências de seus actos!
Parou, virou sua face sorrindo. Hans não conseguia desviar o olhar dos olhos de Viktor. Os olhos que causam arrepios em quem quer que seja. Olhos que parecem olhar através da alma.
Desde o incidente das estrelas cadentes*2 os olhos de Viktor sofrem com o escurecimento da esclerótica (parte branca dos olhos) e avermelhamento de suas Iris que outrora foram castanhas. Isso deixou seus olhos com um aspecto assustador, “Viktor olhos negros” como sussurram os camponeses.
Viktor teve muita dificuldade para lidar com isso nos primeiros anos, até que começou a tirar vantagem do efecto desconcertante que seus olhos vermelhos tem no psicológico de quem os observa. Tornando-se um inquiridor eficaz, observador talentoso, e um homem solitário.
–Eu não mereço ser tratado assim, Viktor. Eu não cometi nenhum crime... Dentro de nosso reino! E você me humilhou na frente do Povo! Faz idéia do que isso significa? Acaso esqueceu que o pai nos ensinou? Príncipes devem procurar ser princípios para seu povo.
Viktor não parava de encarar. Sorria.
–Sim, eu lembro daquele discurso de “o exemplo deve vir de cima” e sim, sei muito bem o que fiz. Mostrei para o povo que ninguém está acima da Lei. Nem você, Hans.
Ele abriu o grosso livro da Mesa.
–Você quer falar de nossas leis, vamos falar de nossas leis... é verdade que não cometeste nenhum crime dentro do território das Ilhas do Sul. Mas isso não significa que não cometeste crime nenhum. Está na Kongeloven*3, Clausula pétrea!
“O homem que, independente de classe, for pego conspirando contra a vida e o bem estar de qualquer membro da linhagem real, bem como seus parentes próximos deverá ser autuado traidor da coroa, crime passível de pena de morte!”
E fechou o livro. Colocando-o de lado e pousando as mãos sobre a mesa.
–Ocorre, caro irmão, que você se esquecera que as Princesas de Isen descendem da Nobre casa de Oldenburgo, bem como a casa de Augustenborg. Ou seja, nossas primas em 3° e 4° grau! E é por isso que eu vim lhe avisar que sua vida depende do indulto de seu irmão Klaus. Indulto que só eu posso lhe agraciar, se você merecer. Tudo que tem que fazer é se ajoelhar e pedir desculpas. Então?
Hans permaneceu quieto por alguns minutos. Bem como Viktor. Subitamente o jovem príncipe se levantou. Olhou fundo nos olhos negros do irmão e respondeu-lhe com firmeza.
–Eu prefiro. A Guilhotina!
Slapt!
A palma de sua mão o atingiu com tamanha violência que Hans caiu no Chão. Os olhos de Viktor brilhavam enquanto esbravejava.
–Será possível! Você não estava prestando atenção em nada do que eu disse, seu VERME ARROGANTE? Você é igual ao papai! –Ele passou por Hans que estava no chão e bateu com força na porta da sala — Guardas! Venham aqui imediatamente!
–Levem o prisioneiro para a carroça com Barras de ferro! E o mantenham em exibição em praça pública como a “vergonha das Ilhas do Sul”! Mandem fazer uma placa escrita TRAIDOR! E pendurem em frente!
–Sim senhor!- Respondeu um sargento enquanto dois guardas pegavam Hans pelos braços.
Durante aquela noite, alguns cidadãos da capital que ainda perambulavam pela noite tiveram uma surpresa no mínimo singular.
Uma cela com um de seus príncipes algemado pelos pés e pulso. Exposto em praça pública com uma Placa em que se Lia “TRAIDOR” seguido de uma breve lista de acusações contra o príncipe. Alguns vagabundos, curiosos e trabalhadores nocturnos pararam para observar.
Alguns permaneceram em silêncio. Outros murmuravam. Foi uma questão de tempo até uma pequena balburdia se formar à medida que as pessoas saiam de suas casas para saber o que estava ocorrendo. Muitos estavam realmente surpresos e confusos.
Por mais que suas motivações fossem no mínimo questionáveis, Hans sempre se esforçara para parecer bem aos olhos do Povo, fosse Nas Ilhas do Sul ou em Arendell... E esta noite apenas, será o suficiente para que tudo vá por água abaixo.
A Vida seguia sua rotina normalmente no palácio de Amalienborg, onde cortesões e membros da família real continuam sua rotina ignorantes do destino do Príncipe.
–Como foram suas lições hoje, meninas?- Perguntou o Rei Klaus enquanto cortava um pedaço de salmão na borda da mesa.
O salão de Jantar estava todo iluminado pelos cintilantes lustres de cristais, nas paredes, enormes quadros a óleo com belos temas de natureza morta ladeados por serviçais sempre a postos as necessidades de seus senhores.
Na mesa de jantar, por sobre o forro de veludo, um pequeno banquete era servido para o Rei Klaus, a Rainha Emmanuelle e as filhas do casal Frederica, a mais nova com 8 anos e Giovanna, com 14. No canto oposto à porta, músicos tocavam um soneto. Klaus gostava de ouvir música enquanto jantava.
–A Professora Gretel não gosta de mim, pai... Sempre que eu faço alguma coisa ela briga comigo.
Respondeu a pequena Frederica.
–Ela é sua professora de quê mesmo?- Perguntou o Rei.
–É a mestra de decoro*4 das meninas, Klaus.- Respondeu a Rainha Emmanuelle.
–Aquela com sotaque bávaro? Eu não entendo nada do que ela diz.
–Não pai, essa é a nossa professora de piano, a senhora Stründel!- Respondeu pronta a jovem Giovanna.
–Ah...
A Rainha virou os olhos, nos últimos tempos Klaus tem se tornado cada vez mais envolvido com os assuntos do reino e menos na vida dos filhos. Esse homem definitivamente não era mais o príncipe sonhador e idealista com quem ela se casara.
Giovanna levantou a voz exaltada!
–Pai, estou lendo um livro ótimo! Chama-se Oliver Twist e conta a história de um rapaz órfão que...
–Você não é meio grandinha para ler essas histórias bobas, Giovanna?- Disse o Rei, apagando completamente o brilho dos olhos da menina.
Plank!
A rainha jogou os talheres na mesa chamando a atenção de todos na sala. Ela lançou um olhar fulminante para o marido, e lhe disse em tom severo.
–bisogno di parlare te!
Isso não era um bom sinal. Klaus sabia que sua Rainha só falava em italiano quando estava MUITO irritada com algo que ele fez ou deixou de fazer.
–Querida eu...
A porta se abre, Viktor entra sem se anunciar.
–Klaus, precisamos conversar sobre...- Ele olha para a esposa e as filhas do irmão- Aquele caso que você me pediu para resolver.
O Rei se levanta, vira-se para a Rainha.
–Depois conversamos...
E saiu sem terminar o jantar. Suas filhas levantaram e fizeram uma breve reverência. A Rainha os olhava com fogo nos olhos.
–Para Viktor você tem tempo...
Na rua, o frio começava a expulsar os curiosos da Praça onde Hans estava sendo exposto. Já não havia mais do que meia dúzia de gatos pingados, além dos guardas que guardavam o carro, alguns curiosos que fumavam e olhavam de longe e um homem com um velho violão e um boné de marinheiro.
Alguns garotos passaram e tacaram uma pedra, que acertou nas grades do carro do príncipe. Dois dos guardas saíram correndo atrás deles. Hans desejava ficar sozinho.
–Ei senhor, um penny por uma canção?
Era o homem com o violão. Hans tentou ignora-lo.
–Eu lembro do senhor, sabe? Nós servimos juntos na Bélgica, à bordo do Preponderous, lembra?
–Vá embora...
O homem se aproximou do príncipe. Ele percebeu que o velho violeiro tinha o olhar cansado de quem viveu muitos invernos no mar.
–Vamos senhor, uma canção para animar o espirito e afastar o frio. Já que está tendo um dia ruim. A primeira eu não cobrarei, pelos velhos tempos...
–Você pode tocar uma música se eu te pedir?- Perguntou Hans.
–Claro chefia, se o senhor cantar comigo.
A brisa fria levantava folhas de jornal velho sobre as calçadas sujas de fuligem das chaminés. Do alto dos telhados da cidade, as estrelas cintilavam, testemunhas silenciosas. Numa das janelas um homem de olhos pequenos observava triste a desgraça de um príncipe ambicioso, de repente, ouviu o som de um violão solitário tocar pela noite. (Limp Bizkit — Behind Blue eyes)
E uma voz triste que cantava.
No one knows what it's like (Ninquem sabe como é)
To be the bad man (Ser o Homem mal)
To be the sad man (Ser o Homem triste)
By dreamy eyes (Por olhos que sonham)
And no one knows (E ninguem sabe)
What it's like to be hated (Como é ser Odiado)
To be faded to telling only lies (E estar destinado a dizer apenas mentiras)
But my dreams they aren't as empty (Mas meus sonhos são menos Vãos)
As my conscience seems to be (Do que minha consciência aparenta ser)
I have hours, only lonely (Eu tenho horas, de solitude)
My love is vengeance (Meu amor é vingança)
That's never free (Nunca está livre)
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