Hail of Bullets
2 Desolada
Notas iniciais

– Steve, teremos companhia. — Pepper dizia ao homem que depois de alguns segundos reconheci. Ele parecia estranhamente incomodado ao receber a notícia de que não estariam sozinhos.
Havia conhecido o Capitão América em uma operação, há alguns meses atrás. Fizemos parte do mesmo time, atuando juntos por pouco mais de duas semanas. Inclusive, ao final da intervenção mandou uma carta de agradecimento para meu time, e especialmente para mim, graças a meu ótimo trabalho traçando os mapas com rotas de fuga, as quais precisaram ser usadas.
Bruce já estava sentado próximo dele, em uma conversa que parecia ter sido iniciada há muito tempo. Tony juntava-se a eles, ruidoso como de costume, interrompendo Steven em sua frase para contrariá-lo.
– Precisa de algo? — Ofereci ajuda à Pepper, imaginando que ela não conseguiria fazer muita coisa com a barriga daquele tamanho. Tentei não manter o olhar focado por muito tempo, e controlar minha boca para que não se torcesse em nenhum ângulo estranho.
– Não Alicia, obrigada. Pedimos comida tailandesa esta noite, já contando com vocês. Espero que gostem. — Rumou por uma porta a qual deduzi que levasse até a cozinha, para então voltar com algumas sacolas. Os copos e as garrafas de vinho já estavam dispostos sobre a mesa de centro oval que não havia notado quando cheguei. Sempre invejei a paciência e habilidade de Pepper para lidar com pessoas.
Sentei em um assento um pouco distante do grupo, sentindo-me deslocada, como sempre que estava com pessoas estranhas. Apenas Minerva e Dumbledore, meus gatos, eram companhias agradáveis, e multidões me incomodavam profundamente. Contrariamente a minha vida na faculdade e no colégio, onde adorava estar cercada de pessoas. Acho que o ponto é que passei a selecionar minhas companhias de tal forma que cheguei a um patamar onde sempre acho que não sou íntima o suficiente delas para iniciar uma conversa que fuja do trivial.
– Alicia, não é? — Steve Rogers passou-me uma das caixinhas de papelão com comida, um sorriso enorme no rosto, como fazia na maior parte do tempo. Estávamos a uma distância tão grande que ele precisou curvar o corpo para alcançar meu braço.
Concordei com a cabeça, sorrindo em reflexo. Tinha a mania de sustentar o olhar das pessoas, proveniente de meu trabalho na S.H.I.E.L.D. Minha falta de palavras o fez voltar a falar. Devia ao menos ter agradecido.
– Sabe que pode sentar mais perto. Ninguém aqui morde. — Indicava o espaço de quase um metro entre nós. — Eu acho. — Olhava diretamente para Bruce, que retribuía com um sorriso irônico.
– Não se preocupe, Capitão. — Tony interrompeu-o. — Alicia costuma ser tão simpática quanto uma ostra. Não é nada pessoal. Ou é? — Fixava seu olhar em mim agora.
Sorri constrangida, aproximando-me do grupo em resposta. Pepper e Tony estavam no sofá em nossa frente, a mulher já sem os sapatos, os pés no assento macio, enquanto o marido tentava abrir a caixa da comida com uma única mão, apoiando a outra no ombro esquerdo dela em um abraço. Bruce estava em uma poltrona, de costas para a linda paisagem, mas parecendo muito confortável com as longas pernas cruzadas em um gesto elegante. Dessa maneira, sobravam eu e Steve Rogers, agora lado a lado. Ele parecia bem acomodado, apoiando o cotovelo no braço do sofá enquanto abria o pacote de comida displicentemente. Já eu, sentia a tensão de estar próxima demais de um grupo que permanecia em silêncio por tempo excessivo.
– Então Alicia. — Tony levantava a sobrancelha esquerda. — Poderia nos contar o que exatamente você faz na S.H.I.E.L.D.? — Não era a primeira vez que fazia essa pergunta. Na verdade, ele a repetia toda vez que achava que eu estava desconfortável com alguma interação social. Era como que uma maneira de jogar um assunto seguro para que a tensão se desfizesse. Apesar do jeito irônico, preocupava-se com o bem estar de quem estava a sua volta.
Sorri para ele, repetindo a resposta em um tom tedioso pela enésima vez, mas internamente apreciando seu gesto.
– Sou Agente de Operações. — Arrumei-me no sofá, sentindo que apenas Steve prestava atenção, provavelmente por ser a primeira vez que ouvia aquilo. Bruce servia uma taça de vinho, os olhos fixos no celular largado sobre a mesa. — Não é um cargo com atribuições fixas, então tenho várias funções, desde criar softwares até analisar amostras bioquímicas recolhidas em missão por outros agentes. Além do trabalho de campo.
– Não lembro de ter visto você muitas vezes na S.H.I.E.L.D.. — O Capitão manifestava-se, as sobrancelhas levemente franzidas, em uma reflexão interna. Como esse homem é transparente. É quase como se eu pudesse ler o que acontece dentro da cabeça dele em sua testa. — Depois da vez que estivemos juntos em missão, claro.
– Recentemente, todas às vezes em que te vi estava caminhando apressado, de um lado para o outro nos corredores. — Sorri. A estratégia de Tony sempre funcionava. Falar do trabalho deixava-me confortável. — Trabalhando em seu projeto pessoal, imagino.
Percebi que havia falado demais quando Steve retraiu seu corpo em uma postura defensiva. O gesto foi mínimo, mas sempre fui observadora.
– Então da próxima vez acene. — Sua voz ainda era suave, seguida de um sorriso. Era, como a fama que o precedia narrava, muito gentil.
– Então vocês já se conhecem? — Tony parecia subitamente interessado. Deixei que o Capitão contasse a história a ele enquanto abri o pacote e comecei a ingerir a comida apimentada, na altura em que Pepper iniciava sua segunda porção, acompanhada de suco de abacaxi com hortelã. Vinho estava proibido, por motivos óbvios.
Steve alcançou-me uma taça cheia ainda antes de minha garganta protestar, e Tony logo voltou a seu novo assunto preferido: O filho que estava por vir. Ele e Pepper haviam decidido não saber o sexo do bebê até que nascesse. Ou melhor, apenas a futura mãe havia decidido, ele aceitava, resignado em agradá-la, mas sem deixar de fazer tentativas furtivas.
– Como conseguiu lidar com o fato de não ter a dúvida, Verdão? — Tony ironizava, visto que Banner adotou Anong já criança.
– O amor é maior que isso. — Deu de ombros, ignorando a ironia do amigo. — E maior do que qualquer outra coisa também.
Não pude deixar de notar o sorriso sutil que brotava nos olhos do Dr. Banner ao falar da filha. Um amor além das barreiras que eu conhecia. Tony beijou o topo da cabeça da esposa, em outra categoria de amor, igualmente desconhecida por mim.
– Assim que estiver com sono dê um sinal, sabe que posso te carregar pra cima. — Falavam em uma conversa íntima, mas que ainda assim podia ser ouvida por todos. Steve fingia distração olhando para a cidade, constrangido por fazer parte desse momento. Imitei-o, como se tivesse algo extremamente interessante nas luzinhas distantes.
– Não creio que consiga nos carregar. — O riso podia ser ouvido na voz fina.
– Mark me dará uma ajudinha, nada sério, sabe. — E uma nova troca de carinhos, dessa vez com um beijo. Bruce analisava o celular aleatoriamente, provavelmente trocando mensagens com Lana ou Anong pelos lábios curvados que exibia.
– Então... — Tomei outro gole de minha taça de vinho, em um gesto de desconforto. — Poderia falar algo sobre seu projeto pessoal? — Steve voltou os olhos aos meus, aparentemente surpreso, e só então pude notar com clareza como eram infinitamente azuis. Como aqueles oceanos transparentes que se vê em propagandas de lugares paradisíacos. Era impossível desviar o olhar.
Abriu um sorriso tímido, mas sincero, e olhou para baixo antes de começar a falar. Aceitava minha curiosidade.
– Bem, se está trabalhando no projeto do Dr. Banner, não deve haver problema em um pequeno resumo. — Tornou a fitar meus olhos, e por um segundo sua voz pareceu mais distante do que realmente estava. Era hipnótico. — Trabalhou na S.H.I.E.L.D. antes da queda?
Concordei com um aceno de cabeça, pressentindo que minha voz daria um salto assim que abrisse a boca. Pareceu suficiente para o Capitão, que tornou a falar.
– Então deve saber os motivos que levaram a essa queda. H.Y.D.R.A.. — Outra vez acenei, tomando um longo gole do vinho para que ele não se constrangesse com minha falta de palavras. — Nessa missão, como já foi divulgado, encontrei um antigo amigo, Bucky.
– O Soldado Invernal! — Interrompi, a voz alta, apenas porque estava excitada demais em lembrar da história toda. Tentaram manter a história em segredo, mas o vazamento de dados provocado pela Viúva Negra levou também algumas informações recém cadastradas sobre o Soldado Invernal. O pouco que não foi divulgado, consegui revirando os dados da S.H.I.E.L.D..
– Exato. — Steven sorriu, parecendo compreender meu interesse como algo normal. Anormal é ser privado de informações e não as buscar.
– Mas ele saiu pelo mundo após o incidente, não? Os arquivos da S.H.I.E.L.D. diziam que não foi mais encontrado, tomou rumo ignorado, depois de te arrastar pra fora da água. — Tinha consciência de que falava rápido demais.
Bruce ria de meu entusiasmo, e também, provavelmente, por estar contando a um de meus "superiores" que hackeava o conteúdo da instituição constantemente em busca de informações que não teria de maneira alguma se não o fizesse, pela política de Fury de nunca deixar ninguém saber demais. Compartimentar a informação. Ainda era uma das bases adotadas por Coulson na reconstrução.
– Que sistema você usa, afinal? — Agora Steve parecia curioso, a ponto de deixar sua história de lado.
– Algo derivado do sistema de desencriptação do JARVIS. Consegui quando Tony usou para pegar informações secretas, nesse mesmo incidente. — Achei que precisava contar, afinal, ele estava revelando algo bastante pessoal.
O Homem de Ferro finalmente voltava à conversa. Ao contrário do que eu esperava, Tony havia mostrado interesse no meu software quando o contei, e não indignação por ter adaptado algo do JARVIS.
– Não entendo por que decidiu estudar biologia. Poderia ter um emprego integral nas Indústrias Stark, recebendo mais do que na S.H.I.E.L.D.
– Por favor, não repasse isso para Coulson. — Ignorando a proposta de Tony, virei meu corpo todo em direção ao Capitão, sabendo que o vinho me fazia falar demais.
– Acho que posso guardar um segredo. — Sorriu, puxando mais o lado direito dos lábios do que o esquerdo, em um sorriso torto que parecia absurdamente simétrico.
Arrumei-me no sofá aliviada por um segundo, até voltar a falar. Tinha muita coisa que eu queria esclarecer, e se eles pareciam dispostos, a chance deveria ser aproveitada tanto quanto pudesse.
– Mas então, sobre o Soldado...
– Bucky. — Foi interrompida por Steve, em uma correção. — Bucky está em boas mãos, mas não se sente apto a ser ressocializado, ainda.
– Por quê? — Não conseguia conter as palavras em minha garganta, e soava um pouco desesperada agora.
Steve aparentava estar relaxado, ainda apreciando meu interesse. Ele sabia que aquelas informações não iriam a lugar algum.
– Acha que fez mal demais para a sociedade, e que não tem como saldar essa dívida. Como diria Natasha, ele tem a conta no vermelho.
– Que coisa estúpida a se pensar! — Olhei ao redor, para então baixar minha voz ao tom normal. Bruce estava próximo à parede de vidro, falando ao telefone enquanto tinha o olhar perdido nas inúmeras luzes da cidade, e Tony carregava uma Pepper adormecida usando os braços de alguma das Mark, ainda não identificável por minha parca experiência em suas armaduras. A cena era adorável. — Ele não estava ciente do que fazia! — Voltei para o assunto, fixando os olhos nos de Steve outra vez.
– Sei disso, mas acho melhor que ele descubra o que houve com o mundo aos poucos. — Tomou outro gole do vinho, e imediatamente lembrei que não fazia efeito algum nele. O soro o deixava incapaz de ficar bêbado. Sentia-me em desvantagem. — Muita coisa mudou desde o nosso tempo.
– Tenho certeza que sim...
Tony voltava à sala, já sem vestígios da armadura.
– Pepper anda sentindo muito sono durante a gravidez... O médico disse que é normal, mas ainda acho estranho não ter ela atrás de mim com uma xícara de café e vários papéis o tempo todo. — Desabafava, livre da ironia usual.
– Logo a terá, acrescida de uma criança pendurada. — Bruce sorria. — Vou voltar para casa. Anong e Lana logo chegarão, e acho que estarão famintas. Até mais, Tony, Steve. — Acenava com a cabeça para eles. — Alicia. — Olhou para mim por fim, apontando a mão como que em um sermão, todos os dedos colados. — Aproveite o fim de semana, às vezes. Nem mesmo seus gatos devem gostar de tanta solidão.
– Já tenho dois para que possam fazer companhia um ao outro. — Disse em um resmungo, mas não recebendo resposta alguma.
Tony e Bruce conversavam próximos à porta quando levantei-me, preparando algo para falar ao Capitão.
– Então... Até mais. — Estendi a mão. — A conversa foi muito proveitosa.
Steve Rogers levantou-se, e nossa diferença de altura foi evidenciada. Não que eu fosse baixa, longe disso, mas devíamos ter ao menos uns dez centímetros de diferença.
– Te acompanho até a entrada do prédio. — Ignorou minha mão estendida, e eu logo a abaixei. — Claro, se não for incômodo. — Ofereceu-me o braço, como um verdadeiro cavalheiro.
Corei feito um tomate ao observá-lo, falando rápido demais. Ninguém fazia coisas como essa nos dias de hoje.
– Acho que vou ficar no laboratório hoje. Tenho muita coisa pra pesquisar, sabe. — Voltei os olhos para a mesa, duas garrafas de vinho vazias sobre ela.
– Depois de beber desse jeito? Nem pensar, vai estragar todos os meus tubos novos. — Tony aparecia em meio a nós. — Recolha esse braço, Capitão. A garota sabe andar sozinha.
Steve parecia constrangido, corando em seguida. Não era nenhum tratamento especial fazer esse tipo de coisa. Era apenas... Ele.
– Alicia, tranquei as portas do laboratório. Sei que pode buscar suas coisas amanhã, e JARVIS mostrou-me que não foi nada higiênico jogar o guarda-pó daquele jeito. — Negava com a cabeça, acuando-me. — Aproveite a noite.
Piscou, para em seguida empurrar-me cuidadosamente pelas costas para fora de seu apartamento, seguida por Steve, no qual não fora utilizada tamanha delicadeza.
Conferi se estava com meu celular enquanto o Capitão ainda reclamava com a porta fechada a respeito da falta de educação do anfitrião.
– Não será de serventia alguma. — Toquei seu braço, sentindo-o retesar o músculo. — Conhece Tony, é melhor descer.
Descemos pelo elevador em silêncio, os olhos fixos em um ponto qualquer no horizonte. Silêncio constrangedor instaurava-se, mais uma vez. Passamos pelo andar do laboratório, e senti algo inquieto dentro de mim, que nada tinha a ver com o álcool. Sentia-me mal por estar fazendo outra coisa que não fosse trabalhar em meu tempo útil.
Já no estacionamento, próximos de meu carro, Steve por fim quebrou o silêncio.
– Então... Sobre a proposta de Tony... — Parecia extremamente constrangido, a postura encolhida. — O que acha de ver algo no cinema? Poderíamos terminar a conversa sobre meu projeto, e você poderia me falar mais sobre o seu software.
Sentia meu coração chocar-se bruscamente contra as costelas.
– Preciso dar comida para os gatos. Além de que, não posso ir ao cinema com o uniforme da S.H.I.E.L.D. e armada. — Ri nervosa, apontando para o coldre.
– Podemos passar na sua casa, e ainda pegar a sessão das onze. — Insistia apesar de seu desconforto ser palpável.
Pensei por um segundo ou dois.
– Tony está te ameaçando com algo, não está? — A hipótese brotou em minha mente com a artificialidade da conversa.
– Ele tem algo importante pra mim, trancado no seu laboratório. — Foi direto, sorrindo por finalmente estar sendo sincero. — Disse que só devolverá se eu te convidar pra algo.
Ri, procurando por minha bolsa para então pegar a chave de meu carro. Olhei ao redor de meu corpo instintivamente, e vasculhei todos os bolsos, até lembrar que ela ficara trancada no laboratório, debaixo do meu jaleco. As palavras de Tony voltaram em minha mente: "você pode pegar suas coisas amanhã".
– Não, não posso. — Respondi para mim mesma, em voz alta. Notando a confusão de Steven, completei. — As chaves do meu carro estão na bolsa, que ficou no laboratório. Não posso pegar minhas coisas amanhã.
Passou a mão esquerda pelos cabelos, rindo da situação.
– Você bebeu álcool demais para dirigir, de qualquer maneira.
– Não pretendia dirigir tão cedo... — Desculpava-me sem ao menos saber o porquê.
– Álcool demais para mexer com as coisas que tem naquele laboratório também. — Repreendia, os braços cruzados.
Abri a boca para uma resposta não tão educada, mas ele continuou seu discurso antes, levantado a mão direita para evidenciar as chaves de seu veículo.
– Estou com as minhas, posso te levar sem maiores problemas. Deixará Tony feliz, você com sua bolsa, e ele me devolverá o relicário de Peggy.
Dei de ombros, concordando em silêncio. Minha carteira também estava na bolsa, então táxi estava fora de cogitação. Algo dentro de mim sabia que se eu voltasse para aquele elevador e subisse até o último andar, Tony abriria a porta do laboratório e eu poderia usar meu carro para ir pra casa. Mas a chance de ser guiada pelo Capitão América em outra situação era de uma em um milhão, e eu não era tão introspectiva a ponto de ignorar isso.
Fui acometida por uma timidez súbita. Provavelmente ele também estava ciente da hipótese supramencionada, e sabia que eu a estava ignorando para ter a chance de passar um pouco mais de tempo com ele. Senti o calor característico indicativo de que estava corando descontroladamente. Caminhava dois passos atrás dele, e, ainda assim não conseguia encarar suas costas. Sentia-me oferecida, fútil. Precisei desviar bruscamente de uma coluna no meio do estacionamento, e odiei a arquitetura da Torre Stark por um momento. Steve virou-se, percebendo a cena.
– Tudo bem aí? — Sua voz carregava riso. O mero timbre constrangia-me ainda mais.
Respondi com um aceno de cabeça, ainda olhando para meus pés. Precisava criar coragem, olhar pra ele, e fingir que entrar naquele elevador novamente estava fora de cogitação, pelo que quer que fosse. Tornou a falar antes que eu encontrasse palavras na bagunça que era minha mente.
– Eu disse que não estava bem para dirigir. Tem certeza de que consegue se segurar? — Apontou para uma moto enorme.
Instintivamente dei dois passos para trás, controlando meu queixo para que ficasse no lugar. Contato físico era inesperado, e estava fora de cogitação.
– Acho que vou falar com Tony, ele provavelmente abrirá a porta para eu pegar minhas chaves! — As palavras saíam rápido demais, e até em um tom um pouco ofensivo. — Desculpe! — Tentei consertar.
Steve sorria de canto, divertido. O mesmo sorriso torto e simétrico de antes.
– Tem medo?
Deixei a postura ereta, finalmente. Odiava profundamente aquela frase. Respirei uma ou duas vezes, aerando devidamente o cérebro antes de voltar a falar.
– Claro que não... Mas preciso, também, da chave do meu apartamento. E ela ficou na bolsa.
– Não guardam cópias na recepção? — Abri a boca, mas tornei a fechá-la. — Não tenha medo, Alicia. — Estendeu a mão, os lábios ainda curvados.
– Não tenho medo! — Disse, ignorando a mão estendida. — Já usei uma dessas em missão na S.H.I.E.L.D..
Steve manteve a mão estendida, as sobrancelhas arqueadas, obrigando-me a rolar os olhos e aceitar sua oferta. Fechou a mão suavemente sobre a minha, levando-me até a frente do veículo e indicando-o com a cabeça.
– Consegue subir? — Parecia genuinamente preocupado.
– Não estou bêbada! — Sentia minha voz sair estrangulada, devido ao nervosismo.
Passei a perna por sobre a motocicleta com um pouco de dificuldade, esta oferecida pela altura. Toquei a guia e o fitei, com os braços cruzados, evidenciando os músculos debaixo do tecido fino branco.
Ainda sem dizer uma palavra, subiu também, porém, deixando-me em sua frente. Senti seu peito contra minhas costas, mas não segurou em minha cintura.
– Vou dirigir? — Estava confusa. — Preciso da chave então.
Ele riu abertamente, pela primeira vez. Era um som bom, gentil e confortante.
– Não posso deixar que faça isso. — Só notei como seus braços eram compridos quando passou-os pelo lado de meu corpo, tocando a ignição. — Onde fica sua casa? — Sentia seu hálito em minha nuca e em parte do meu maxilar, do lado esquerdo.
Surpresa demais para qualquer coisa, disse-lhe o endereço. Suas mãos tocaram as minhas, por sobre a guia.
– Assim é como se estivesse guiando você mesma. — Justificou. Achei que pudesse ter uma síncope ali mesmo.
– Capacetes? — Perguntei, crente de que ele dispensava o acessório.
– Não vou te deixar cair.
Arrancou, guiando-nos para fora da construção imponente. Não me atrevi a mover a cabeça, mas algumas vezes sentia seu queixo tocando meu ombro. Sorri com o vento, aproveitando-o ao máximo durante o curto percurso. Depois de algo como uns dez minutos, parou em frente a meu prédio, visivelmente residencial, de alto padrão. Benefícios garantidos pela S.H.I.E.L.D..
– Obrigada. — Disse ainda sem olhar para ele, mas já soltando minhas mãos das suas para descer. — Mesmo. E desculpa. — As palavras não pareciam suficientes, mas ao mesmo tempo não conseguia encontrar nada melhor para dizer.
– Sabe... Cinema não seria ruim. — Parecia constrangido em dizer, como se estivesse admitindo algo horrível.
Sorri mais para mim mesma, antes de olhar para seu rosto.
– Não posso ir uniformizada. — Pensei por um segundo. Não podia ignorar aquela proposta dessa forma. — Mas se estiver disposto a esperar dez minutos...
Procurei a Alicia anti-social, mas direta e segura que havia dentro de mim. Ela parecia ter se escondido em algum canto, e não pretendia sair de lá.
– Espero o quanto precisar. — Lançou-me um sorriso que arrancou outro instantaneamente.
– Nesse caso, pode subir. — Indiquei a construção em nossa frente. — Não vai ficar aqui, afinal.
Peguei a chave reserva na recepção após, claro, conferirem minhas digitais e minha íris, um procedimento de segurança padrão da S.H.I.E.L.D.. A instituição contava com eventuais invasões ou ameaça à seus membros.
– Então a S.H.I.E.L.D. é uma paixão? — Disse ainda no elevador. Provavelmente havia descoberto a estratégia de Tony
– A ideologia, sim. Tenho meus altos e baixos com a instituição. — Ri.
– Todos temos. — Curvava os lábios brevemente. — Sinto falta do exército, às vezes. Era outro tempo, outra mentalidade.
– Não posso fazer mais do que imaginar. — Girei a chave, abrindo a porta.
Não era uma sala grande, mas o tamanho estava mais do que suficiente só pra mim. Conjugada com a cozinha, e, adiante, dois quartos. Um deles gostava de dizer que era dos gatos, mas eles sempre acabavam dormindo na minha cama. Repreendi-me mentalmente por não ter passado uma vassoura e jogado fora os potes de iogurte que estavam sobre a bancada que separava a cozinha da sala.
– É uma casa bonita. — Disse, assim que entrou, sendo imediatamente recepcionado por Minerva e Dumbledore. — Meu Deus! Olha só o tamanho desses gatos!
Ri, divertida. O tamanho de meus gatos foi o fator de escolha principal quando os adquiri. Eram, os dois, da raça ragdoll, também conhecidos como gigantes gentis, ou gigantes de olhos azuis. Tão mansos quanto podiam ser, pesavam em média onze quilos cada um. Minerva um pouco menos, talvez. Provavelmente o fato de serem castrados ajudava um pouco nesse ganho de peso todo.
– Obrigada! Estão crescendo bem. — Indiquei o sofá para que se sentasse, e liguei a TV, deixando o controle sobre uma poltrona. Minerva enroscava-se insistentemente nas pernas de Steve, o impedindo de caminhar com tranquilidade. — Quer beber algo? — Ofereci.
– Não, obrigado. — Disse, depois de finalmente conseguir chegar ao sofá. Minerva imediatamente pulou para seu lado. Dumbledore o ignorava, deitado em uma almofada em outro canto da sala.
Deixei-o, rumando para meu quarto, e então para o banheiro. A chuva já havia parado de cair há horas, e uma brisa suave clamava por roupas leves. Demoraria demais para tomar um banho e lavar meu cabelo já oleoso dos pingos que o pegaram de surpresa, então optei por prendê-lo em um rabo de cavalo.
Lavei o rosto e passei um pouco de maquiagem. Apesar de não ser uma garota vaidosa, ninguém sai com o Capitão América sem se maquiar. De volta ao quarto, o guarda-roupas parecia grande demais. Acabei optando por um vestido verde água de algodão, as alças finas e a saia rodada, mas marcado na cintura, e sapatilhas em tom pastel. Parecia antiquado, então ele provavelmente acharia bonito. Corei sozinha, nervosa por querer agradar.
Conferi se as lentes de contato estavam no lugar, e após uma borrifada de perfume, voltei para a sala. Steve estava assistindo ao VH1 com Minerva deitada em seu colo, esticada.
– Desculpa te fazer esperar... — Disse, já próxima da TV para desligá-la. — E desculpa por esse bicho. — Toquei a gata para fora do colo dele.
– Não levou tempo algum. — Steve tinha um olhar que transparecia proteção como nenhum outro. — Está linda, Alicia. — Disse ao se levantar.
Com a sapatilha baixa, nossa diferença de altura ficava ainda mais ratificada. Ele poderia beijar minha testa sem esforço algum. Não que fosse fazer isso.
– Obrigada. — Limpei alguns pelos de gato da camiseta dele. — E desculpa por isso, mais uma vez.
Ofereceu-me o braço como havia feito antes na casa de Tony. Dessa vez aceitei o gesto como uma pessoa normal faria. Descendo o elevador, e após um autógrafo para o porteiro, tornamos a embarcar na motocicleta.
– Ainda acha que estou bêbada? — Perguntei em um tom divertido, quando ele tomou a mesma posição de antes.
– Vou te deixar dirigir dessa vez. — Enroscou os braços em minha cintura, e acelerei o veículo desnecessariamente. Poucas pessoas tocavam em mim.
Sem resposta, arranquei, guiando para o cinema mais próximo. Não fazia ideia do que estava em cartaz. Notei as mãos de Steve preparadas para assumir o controle a qualquer momento, mas as ignorei. Não estava mentindo quando disse que já havia pilotado em missão. Parei a menos de uma quadra de distância do nosso destino.
– Muito ruim? — Arrisquei.
– Não sei como ainda estou vivo. — Seguia-se um sorriso carinhoso. Aquela gentileza exagerada que só ele tinha.
Steve desceu antes de mim, oferecendo-me ajuda para que eu o fizesse, e posteriormente, o braço para me acompanhar. Tornava-se um gesto morno depois de devidamente habituada.
– Não acredito que perdemos a sessão por quarenta minutos! — Falei frustrada, olhando para o cartaz. — Leva muito tempo para esperar até a próxima!
O Capitão olhava ao redor, concentrado.
– E se tomássemos mais um gole de vinho? — Ainda não havia soltado meu braço. — Aquele pub do outro lado da rua parece um lugar tranquilo.
Observei o lugar com a fachada pintada em tinta roxa e algumas janelas. Uma enorme placa dourada brilhava com os dizeres St Patricks. Nada original, mas inofensivo.
– Parece bom. — Sorri, ainda frustrada por não poder relaxar no cinema. Fazia ao menos um ano que não assistira a nada em uma tela maior que cinquenta polegadas.
– Desculpe. Esse é o encontro mais desajeitado de todos. — Steve passava a mão livre pelos cabelos, segurando a nuca, para em seguida parar de sorrir e corar levemente. — Não que seja um encontro.
Ri, enquanto ele segurava a porta para que eu entrasse. Eu decididamente poderia me acostumar com aquilo tudo.
A parte interna do pub era tão escura quanto a externa, mas muito limpa. Pequenas mesas redondas de carvalho estavam espalhadas pelo lugar, adornado com luzes natalinas mesmo fora de época. Um burburinho de gente se divertindo e o cheiro de álcool inundavam o clima com carisma. Escolhemos uma das mesas distantes do bar, próximas da parede de vidro com vista para um jardim de inverno bem cuidado.
Como esperado de Steve, puxou a cadeira para que eu me sentasse. Agradeci, encantada com a naturalidade de seu gesto. Não tinha intenção alguma de me agradar com aquela gentileza, a faria para qualquer outra garota. Encantava-me mesmo assim.
– Faz muito tempo que não venho em um lugar como esse. O que se faz por aqui mesmo? — Perguntou, os cotovelos sobre a mesa.
– Estamos jogando no mesmo time. Não vejo um pub há meses.
Rimos de nossa inexperiência, escolhendo bebidas no cardápio rebuscado. Depois de alguns drinks coloridos eu sentia minha cabeça leve, e as coisas pareciam mais divertidas do que realmente eram. Steve estava com uma postura relaxada, e não mais tão polido em abordar assuntos diferentes do trabalho.
– Mas você nunca teve uma namorada? — Deixei escapar, tapando a boca com a mão em seguida. Levantou as sobrancelhas, divertido.
– Não se pode dizer que tenha sido uma namorada. Ela casou-se, e sua filha já aparenta mais idade do que eu.
Emiti um resmungo em concordância, girando o enfeite da tequila sunrise em meus dedos.
– Gostaria de saber mais sobre isso. — Olhei em seus olhos imensamente azuis, de paisagem paradisíaca.
– Terei algo em retorno?
– Temos um trato, Capitão. — Bati continência, arrancando risos.
– Conheci Peggy no exército. Ela é uma das mulheres mais lindas que já vi, elegante e decidida. — Notei que seus olhos adquiriam um brilho diferente do usual. — Confiou em mim quando ninguém mais fez.
– Quer dizer antes do soro? — Como todos, eu conhecia a história dele desde os primórdios.
– Exato. — Sorriu sem graça. — E depois também. Até mesmo quando eu não merecia.
Sua expressão demonstrava que eu não conseguiria arrancar mais nada sem fazê-lo reviver memórias dolorosas demais. Optei pelo silêncio.
– Minha vez. — Tornou a falar. — E você, nunca teve um namorado? — Ironizava a hipótese. Ri.
– Já, sim. Um relacionamento longo, se quer saber. — Iniciei, amargurada.
– E o que houve?
– Incidente Nova York. Lembra-se?
– Gostaria de esquecer. — Passou a mão pelos cabelos.
Fiz uma breve pausa, tomando um gole longo de minha bebida antes de voltar a falar.
– Estávamos em um dos restaurantes ao lado da Torre Stark, em um almoço arranjado no meio de nossa rotina intensa. — Sorri com a memória, a cena acontecendo em minha mente como um pequeno filme. — Ele achava que eu tinha algo a ver com a CIA, ou coisas do gênero. — Steve riu. Sabia bem como era precisar esconder esse tipo de informação. — Pedimos sushi, mas antes que a comida chegasse, ele, ansioso como sempre, ajoelhou-se e tirou uma caixa do bolso. Todos pararam o que estavam fazendo para olhar, e então, nesse dia, eu fiquei noiva.
Steve sorria, e eu podia ver que estava indeciso entre me dar os parabéns ou exclamar pena. Ele sabia que a história não terminaria bem por antecedência. Poupei-o do trabalho, voltando a falar.
– Mas então, no máximo meia hora depois, aquela rena louca abriu um portal para outra dimensão e coisas estranhas começaram a descer do céu. O restaurante foi atingido por uma daquelas naves gigantes que pareciam cobras, e parte da estrutura desabou. Frankie estava no lugar errado, na hora errada, e não houve nada que eu pudesse fazer. — Suspirei, exausta como ficava todas as vezes que passeava por essas lembranças.
– Sinto muito. — Realmente parecia sentir. — Perdemos muitas pessoas bravas e honradas naquele dia.
– Frankie não era bravo. — Tentava criar uma barreira para as lágrimas. Nem o ano com a terapeuta impedia-me de chorar em situações como essa. — Pelo contrário, era extremamente cauteloso e nunca havia tocado em uma arma.
Steve sorria, mas aparentemente com alguma lembrança dele mesmo.
– Como faz para esquecer as pessoas que se foram? — Tornei a falar.
– Não se esquece. Apenas ameniza até que os detalhes se apaguem, pouco a pouco.
No breve silêncio que se fez, era possível ouvir a composição melancólica da música que tocava. Muito propício.
– Peço desculpas por te colocar nisso. — Tornei a falar. — Acho que decididamente arruinei nosso encontro. — Minha voz soava chorosa embora nenhuma lágrima escorresse.
– Foi um dos melhores em muito tempo. — Tocou minha mão sobre a mesa, visivelmente buscando confortar-me. A pele quente contra a minha tinha uma sensação gostosa.
– Então... — Fitei o cardápio, desconfortável com a pena que ele sentia de mim. Era uma das piores sensações. — Fale-me mais do seu projeto pessoal. O Soldado Invernal.
Steve curvou os lábios em uma expressão estranha, mas não deixou minha mão.
– É meio que um segredo, então gostaria que não comentasse nada desse assunto com nenhum amigo ou algo assim.
– Imagino que seja. Ele está listado oficialmente como desaparecido e perseguido. — Pouco a pouco retomava minha confiança usual, trancando o assunto anterior no lugar de onde nunca deveria ter saído: O fundo desconhecido e empoeirado de minha mente. — Seu segredo está seguro, Capitão.
Trocamos um sorriso de cumplicidade.
– Não sei o quanto está a par da história...
– Tudo o que consegui ler, legal ou ilegalmente. — Desviei seu olhar, o qual me repreendia.
– Bucky recobrou suas memórias, em partes. Ainda tem alguns problemas de aceitação devido ao longo tempo que permaneceu com o lapso de consciência. E, assim como eu, tem problemas para se adaptar a essa coisa que o mundo virou.
– Até quem nasceu nessa época tem problemas para se adaptar a essa coisa que o mundo virou. — Sorri, usando o mesmo tom dele.
– É isso, essencialmente. Estou tentando ajudá-lo como posso. Não seria possível deixá-lo sozinho agora que precisa de mim. Mesmo quando eu não tinha nada, eu tinha Bucky.
– Você é ótimo. — Soei tão sincera quanto poderia, arrancando um sorriso tímido em resposta. — Onde ele está?
– É o tipo de informação que não posso revelar. — Ria de minha curiosidade, mas deixava claro que não responderia.
– É na S.H.I.E.L.D.? Dentro do prédio principal, ou em alguma das propriedades vinculadas? — Insisti.
– Acho que está um pouco tarde. Quem sabe não devemos voltar para casa?
Sinalizei uma queimadura falsa em meu braço, e uma careta de dor. Steve riu.
– Foi uma ótima noite, Capitão Rogers. — Sorri, sentindo o alívio de um convívio social bem sucedido com um estranho.
– Concordo plenamente, Agente Alicia... — Olhava para mim, buscando uma resposta.
– Stanford. — Completei.
– Stanford. — Repetiu, com um sorriso.
Não conseguia pensar em outra coisa que não fosse a próxima vez que o veria enquanto saíamos do pub. Decididamente, eu não choraria mais na frente dele.
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