Hail of Bullets
3 Exposta
Notas iniciais

Após meu encontro, ou quase isso, com Steve Rogers na sexta, não tive maiores emoções durante o final de semana. Devo admitir que ainda na sexta, enquanto ele me trazia para casa (apesar da minha insistência, não me deixou dirigir de maneira alguma), aproveitei para deitar a cabeça em suas costas enquanto o abraçava pela cintura. O caminho pareceu curto demais.
Passei o sábado e o domingo no laboratório, envolvida demais no Projeto Bruce Banner para parar. Sábado de manhã coloquei Minerva e Dumbledore em suas caixas de transporte para que pudessem passar o fim de semana comigo. Carreguei meus vinte quilos de gato como se fossem crianças, um em cada braço, pelo elevador e até o laboratório, porém a trajetória não foi fácil.
Depois das repetidas vezes que levei meus gatos ao laboratório comigo e deixei-os fechados em uma pequena jaula improvisada para que não se contaminassem com nada, Tony me surpreendeu com um enorme playground para gatos, isolado com vidro e com sistema de ventilação. Assim podia ver minha família próxima enquanto trabalhava, e eles não se sentiriam tão sós.
Coloquei-os em sua casa de fim de semana, e Dumbledore imediatamente subiu até o ponto mais alto, enquanto Minerva contentou-se em brincar com uma das inúmeras bolas largadas no chão.
Não podia deixar a pesquisa de lado agora que estávamos tão perto. O último soro experimental, moldado a partir do DNA de Bruce tinha inúmeros efeitos em corpos humanos, e era isso que eu estava estudando, por mero prazer, no sábado. As consequências negativas eram tantas que senti vontade de descartar as amostras, juntamente com um arrepio indesejado nas vértebras da nuca.
Cansada demais para voltar para casa, dormi em um dos sofás do enorme lounge ao lado do laboratório. Precisava recuperar o tempo perdido na sexta, afinal. Tony e Pepper já estavam acostumados a me ver acampando por ali, então subitamente, junto com a casa dos gatos, apareceram também uma geladeira e um microondas. Tony queria uma cozinha equipada, mas aparentemente Pepper cortara seus gastos para que eu não me mudasse permanentemente. Ela estava certa. Se pudesse, viveria ali.
Domingo foi dia de trabalhar unicamente no Projeto Bruce Banner. As moléculas instáveis, porém, não me levaram a lugar algum. Resfriei o soro antigo a uma nova temperatura para posterior análise das células, peguei meus gatos e voltei para casa, pronta para a rotina da segunda.
Dormir foi o maior problema. A conversa com Steve a respeito de Frankie voltava constantemente em minha mente, e com ela as memórias de meu breve noivado. Revirei-me na cama por mais tempo do que consegui fechar os olhos.
Como de costume, levantei às sete e tomei um longo banho, deixando o forte jato de água lavar mais do que meu corpo. Vestindo legging, top e um tênis confortável, servi o café da manhã de Dumbledore e Minerva, peguei minha bolsa, um grande copo de café e rumei para a S.H.I.E.L.D..
Gostava de começar meus dias praticando um pouco de minha mira com as armas. A Desert Eagle sempre seria a favorita. Não era a arma padrão, mas explodia coisas. Depois de descarregar parte da energia negativa, rumei para a academia da instituição.
Os treinos costumavam ser pesados, já que as missões em campo exigiam muito dos agentes. A constante procura por melhorar o condicionamento físico impedia-me de hipertrofiar o corpo. Olhei meu reflexo no espelho enquanto prendia o cabelo em um rabo de cavalo apertado. O corpo magro e a pele fina cobrindo alguns músculos que se mostravam tímidos. Desejei que minhas pernas fossem mais grossas.
Estava extremamente concentrada em fazer o movimento correto no supino quando vi aquela cabeça loira e aqueles olhos azuis como o céu brotarem acima de mim.
– Oi.
Foi tão inesperado que a reação instintiva de meu corpo foi largar a barra. Provavelmente teria esmagado minha traquéia se Steve não a tivesse segurado (com apenas uma mão, diga-se de passagem).
– Desculpe. — Ria, colocando a barra no lugar sem esforço aparente. Sentia-me quase inútil.
Era a primeira vez que o via por ali. Se Steven costumava treinar alguma coisa para a força, aqueles pesos provavelmente eram uma brincadeira.
– Achei que talvez devesse te devolver isso. — Balançava minha identificação da S.H.I.E.L.D. pela corrente. Tomei-a de suas mãos.
– Onde estava? — Conferi, e realmente era minha. Não tinha o costume de esquecer coisas. — Ah, oi. — Senti constrangimento por não o ter cumprimentado antes.
Steve riu, trazendo a calmaria junto com o som de sua voz.
– Ficou no laboratório fim de semana. Tony enviou para mim.
– E como sabia que eu estava aqui? — Tentava não ser tão direta, mas eram questões que precisavam ser respondidas.
– Bem... Junto com o distintivo ele também mandou um PDF detalhado com a sua rotina diária. — Corava ao admitir ter lido o documento. Sempre sincero.
Olhei ao redor, e as várias câmeras de segurança instaladas por toda a S.H.I.E.L.D. deveriam ter algo a ver a Torre Stark. Como não pensei nisso antes? Será que Coulson imaginava que estávamos sendo monitorados?
Fiquei sem palavras por um segundo ou dois, observando-o com a mão esquerda na nuca, e a postura retraída. Parecia sentir-se culpado. Eu, internamente, estava feliz, por mais que custasse a admitir. Sentia como se algo me aquecesse por dentro.
– De qualquer maneira, obrigada. — Sorri, ansiosa para mostrar que não estava irritada como demonstrei. — Que tal um café como recompensa? — Queria mais daquele calor confortável.
– Vou estar trabalhando no meu projeto pessoal hoje. — Steve parecia considerar as possibilidades. — Daqui a duas horas.
– Então até lá temos tempo livre. — Receosa em receber um não, tornei a falar antes de dar a ele tempo para raciocinar. — Só preciso tomar um banho e vestir o uniforme.
– Parece que você está sempre me fazendo esperar. — Olhava-me com censura, mas sorria, pelo que entendi ser uma brincadeira.
Algo em mim se agitou, fazendo o sangue circular rápido demais.
– Enquanto isso você pode atender o que seu grupo de fãs está prestes a vir reivindicar... — Indiquei três mulheres e dois homens parados na porta, olhando fixamente. Uma das mulheres tinha, inclusive, um bloco de papel e caneta em mãos. — Aposto que termino antes de você. — Pisquei.
– Vou aguardar meu prêmio na porta do vestiário então. — Retribuiu a piscadela, e caminhamos em direções contrárias.
Não conseguia tirar o sorriso do rosto. Mantive o cabelo preso e tomei um banho rápido, vestindo o uniforme da S.H.I.E.L.D. em seguida. Conferi o rosto no espelho, mas desisti de passar maquiagem. Não queria encontrá-lo parado à porta, presunçoso.
Guardei a bolsa no armário e as chaves em um dos inúmeros bolsos do uniforme, antes de arrumar a postura e sair pela porta. Olhei para os lados encontrando Steve no final do corredor, caminhando calmamente. Outra vez, não podia negar o quanto era bonito. Os cabelos claros insistiam em despentear-se, mas ele não parecia prestar atenção. O porte físico invejável e os olhos inocentes no tom de azul mais brilhante de todos. Os lábios sempre curvados em um sorriso gentil, e a risada melodiosa.
– Parece que houve um empate. — Disse já mais próxima, tomando o cuidado de caminhar sem tropeçar.
– Vamos ter que nos contentar apenas com o café. — Andava de meu lado agora, em direção à cafeteria. Algumas pessoas encaravam, outras cumprimentaram habitualmente. Provavelmente pensaram que estávamos em missão, como da outra vez. Afinal, quem tomaria café com Alicia Stanford apenas pela companhia? Ninguém seria louco de andar com aquela grossa.
– Agente Stanford! — Um dos agentes novos, ligeiramente mais baixo do que eu e com olhos cor de avelã parava em nossa frente. Eu podia perceber a excitação em seu tom de voz. — Tony Stark esteve no prédio!
Levantei uma sobrancelha, aguardando mais informações. O rapaz era um dos novatos do meu grupo de subordinados.
– O Homem de Ferro! — Gesticulava, com um pacote pardo em mãos.
– Sei quem ele é. — Eu tinha o dom de soar mais seca do que pretendia, quase todas às vezes. Emanava um pouco de arrogância. — O que é isso na sua mão?
Pareceu lembrar da importância de sua "missão".
– Tony Stark pediu para que lhe entregasse!
– Então o que ainda está fazendo com ele? — Suspirei, entediada.
Arregalou os olhos brevemente, entregando-me o pacote com um pedido de desculpas. Não gostava de tratar as pessoas assim, mas era parte da minha zona de conforto. O arrependimento sempre vinha depois da grosseria.
– Desculpe, agente Grinder. Fui desnecessariamente rude. — Não consegui dizer mais do que isso antes de dispensá-lo. Acostumado com minha formalidade habitual, apenas acenou com a cabeça, concordando.
Olhei para o pacote em minhas mãos. Tinha a palavra "vingança" escrita em tinta preta e letras garrafais.
– Pode me dar um minuto, Capitão?
Steve franzia a testa enquanto observava o pacote e minha postura, mais ereta do que de costume.
– Não sei se tenho muita afinidade com Alicia Stanford, agente da S.H.I.E.L.D.. Ela parece muito diferente da Alicia que trabalha no projeto Banner.
Senti suas palavras como se fossem um tapa.
– Ela tem seus motivos. — Não queria admitir que não sabia conviver com pessoas dentro do trabalho.
– Nesse caso, vou deixar que me explique. — Ignorou o jogo de terceira pessoa, voltando a falar normalmente.
Parece que o pacote de Tony vai ter que esperar. Coloquei-o debaixo do braço e continuei caminhando, Steve ao meu lado, porém sem emitir uma única palavra. Já na cafeteria, sentamos em uma das menores mesas e abrimos o menu.
Rogers pediu um café preto, e eu um parfait de frutas vermelhas.
– Abra o envelope antes de começar. Estou vendo que não consegue parar de bater o pé no chão. — Seu tom de voz era muito mais distante do que o antigo, e isso não soava bem. Mal posso acreditar que bastara tão pouco para mudar sua opinião. Parecia entediado.
Obedeci, abrindo um sorriso enorme para o conteúdo. Steve parecia subitamente interessado.
Lancei na mesa um grande maço de folhas sobre ele, as quais abriram-se em um pequeno leque devido à superfície áspera. Era a "vingança". Tony havia dado minha rotina diária e ficha pessoal para ele, e agora estava fazendo o mesmo por mim. Steve sorriu fraco.
– Acho que não posso contestar isso, posso? Mas em minha defesa, você tem muito mais material para ler, o que é injusto.
Neguei com a cabeça, enquanto uma mulher servia nossos pedidos. O parfait parecia delicioso. Eu podia ver como as camadas de iogurte estavam cremosas sem nem ao menos tocá-las.
– Então, qual seu problema com aquele garoto? — Foi direto ao ponto. Sua sinceridade tão afiada quanto uma faca.
– Trato a maioria dos meus colegas da maneira como fui recebida quando cheguei. Todos achavam que eu tinha minha vaga na S.H.I.E.L.D. como um presente para a família. Uma cota. Precisava mostrar que estavam errados, e comandar sem ser contestada é uma ótima maneira de fazer isso. Pergunte a Fury ou Maria Hill. — Engoli as palavras antes de mencionar Coulson.
– Sua atitude pareceu-me mais egocêntrica do que um comando. — Corei, mergulhando a colher no iogurte. — Lembre-se que faz parte de um time. Individualismo não lhe cai bem.
Continuei encarando a colher sem intenção de respondê-lo. Havia apreciado sua companhia até então, mas poderia me virar bem sozinha caso ele decidisse por isso. Havia tanto tempo que não era criticada diretamente que já não sabia mais como lidar com isso. O silêncio constrangedor parecia querer me esmagar. Precisava sair dali.
– Boa sorte no seu projeto. — Disse algum tempo depois, enfiando a última colherada de parfait na boca em seguida. Steve não havia tocado no café, e eu sabia que me observava. — Preciso ir.
Levantei, apoiando as duas mãos na mesa e evitando seu olhar. Estava constrangida por ele pensar que eu era alguém rude que não se importava com os outros, mas não tive coragem de demonstrar o contrário. Por um segundo ou dois, ponderei se realmente era quem ele imaginava.
Tentei rumar para minha sala, mas ele segurou minha mão, ainda sentado em seu lugar.
– É deselegante sair da mesa sem que as pessoas ao seu redor tenham terminado de comer. — Devia caber umas duas mãos minhas na dele. — Além de que, você não é assim tão arrogante. Sua ficha me disse.
Sorri irônica, olhando na direção contrária à dele.
– Papel aceita o que se quiser escrever. — Continuei encarando a parede, recebendo um suspiro cansado como resposta. — E você não tem intenção alguma de tocar nesse café, tem?
– Não. — Respondeu breve.
Não lutei para livrar minha mão da sua, mas mantinha uma postura clara de quem já estava saindo dali, os músculos rígidos pelo nervosismo que me consumia. Poderia tremer se não estivesse bravamente concentrada em não fazê-lo.
– Alicia, olhe para mim. — Ordenou, a voz firme.
Teimosa, não obedeci.
– Alicia. — Tornou a falar, puxando a mão com delicadeza, trazendo-me para perto aos tropeços. — Não seja teimosa.
Virei o rosto, objetivando ver onde estava indo. Notei a proximidade excessiva, e senti a pele corar, o maxilar fechado com tanta força que poderia trincar meus dentes. Steve pôs-se de pé, e precisei levantar o queixo para encarar seus olhos. Tocou o topo de minha cabeça com a mão livre. Não sei como podia ser tão apático enquanto tocava as pessoas.
– Lembre do que lhe disse quando for tratar algo com seus subordinados novamente. Respeito ganho por medo não é respeito. — Sua mão acariciava meus cabelos de leve. — Aliás, quantos amigos você tem? Sua ficha diz que está sempre aqui ou no laboratório.
Abri a boca, achando que estava extremamente ofendida pelo comentário, quando na verdade o que doía fundo em mim era a verdade em suas palavras.
– Capitão, eu realmente preciso ir. — Voltei os olhos para o chão. — Aprecio o tempo que passamos juntos. — Sabia que escorria formalidade, e Steve provavelmente também o sentiu.
Soltei minha mão da sua sem resistência, dando-lhe as costas em seguida. Caminhava apressada, mas ainda podia ouvir sua voz cada vez mais longe.
– Okay, então acho que te ligo mais tarde. — A confusão palpável.
Era óbvio que não ligaria. Tão óbvio que, depois de um dia estressante na S.H.I.E.L.D., por volta das oito e meia da noite, no laboratório de Tony, meu celular vibrava sonoramente sobre a mesa de vidro próxima à porta.
Levei um susto tão grande que acabei esbarrando a mão e derrubando uma das pipetas que usava. Tony reclamou algo sobre estar desperdiçando material. Observava os resultados no computador, ignorando totalmente a parte prática do experimento. Provavelmente só estava ali porque Pepper chorava assistindo ao Diário da Princesa. Coisa que ela nunca faria se não estivesse carregando uma criança no ventre.
Peguei o aparelho ainda sem tirar as luvas, e um número estranho brilhava na tela. Inesperadamente o interior do meu corpo parecia feito de gelatina molenga. Atendi, achando ser capaz de reconhecer aquela voz em qualquer lugar.
– Não achei que estava falando sério. — Minha voz saía alta, sem controle.
– Um homem de verdade costuma cumprir suas promessas.
– Assunto particular? — Sabia que Tony rastreava minha ligação usando o JARVIS. — Parece que a ficha foi útil no fim das contas.
Ignorei o que dizia, caminhando para perto do lugar dos gatos, hoje vazio. A falta do que dizer queimava em minha garganta.
– Desculpa por hoje. — Joguei as palavras para fora. — Não é meu verdadeiro eu.
– Eu sei.
– Alicia, tire essas luvas. Isso não é higiênico. — Tony gritava ao longe, saindo do meu campo de visão.
– Mas quem sabe seja. — Fui tão sincera quanto podia. — Não devem atualizar minha ficha faz um tempo.
Ouvi uma voz masculina ao fundo da ligação. Não parecia ser Tony, mas agora eu visualizava que ele ouvia a conversa com um fone de ouvido, achando que eu não conseguia vê-lo pelo ângulo em que estávamos. O ângulo no vidro fazia seu trabalho despercebidamente.
– Alicia, preciso ir. Meu projeto está me chamando. — O tom divertido na voz voltava.
– Não me diga que... — O Soldado Invernal? Onde ele estava?
– Promessa cumprida, preciso ir. Tornarei a ligar. — Falava apressado, a voz cada vez mais distante do telefone.
E desligou, sem esperar resposta. Corri até Tony.
– De onde veio essa ligação? — Estava afobada demais para falar baixo. A curiosidade consumia-me como um todo.
– Não faço ideia. — Digitava algo em um notebook, o tom de voz tão irônico quanto sempre que mentia, acompanhado de um sorriso sem mostrar os dentes e sobrancelhas levantadas. — Olha só! Aqui diz que eu posso descobrir o sexo do bebê apalpando a barriga da Pepper. Ela nunca vai desconfiar.
– Tony! Por favor! — Procurei ver o que escrevia, tendo ele virado a tela para que eu não o fizesse.
– Pretende ir até lá? Porque você é tão chata aqui que eu com certeza te daria o endereço.
Agora que ele havia jogado a ideia e me fazia pensar, não sabia o que faria com a informação, apenas precisava tê-la. Era algo como ganância. Não querendo falar nada, dei de ombros.
– Qualquer coisa pra te tirar desse laboratório. Vai pra casa, Alicia. Já são quase onze horas. Quer que eu ligue para o Capitão vir te buscar? Pareceu confortável no outro dia.
Sentia o sangue circulando com intensidade em minhas maçãs do rosto. Tony tem um tipo de humor que só é divertido quando o alvo não é você. Notei o sorriso convencido que exibia, e irritada e com pressa, agarrei minha bolsa e casaco, ainda de jaleco e luvas.
– Preciso que deixe os equipamentos aqui antes de sair. — Não olhava mais para mim, mas o tom sarcástico permanecia. — Sabe, pela segurança das pessoas, contaminação com fluídos biológicos e essas outras besteiras.
Enquanto tirava o jaleco e descartava as luvas, constrangida por ter feito isso pela segunda vez em menos de uma semana, Tony voltava a falar.
– Alicia, há a chance de algumas pessoas indesejadas procurarem entrar em contato com você. Gostaria que as ignorasse.
Pessoas indesejadas entravam em contato comigo todos os dias, na maior parte do tempo.
– De quem está falando?
– Ninguém em específico. Mas a notícia sobre o soro teste, bem como os nomes dos pesquisadores vazaram. Acabo de saber que a informação está na S.H.I.E.L.D., e você bem sabe que o sistema lá não é um exemplo de segurança.
– Se a informação vazou até do JARVIS, acho que devemos nos preocupar com quem a deseja.
Tony concordou com um aceno de cabeça, demonstrando toda a preocupação que sentia. Quando estava perdido em pensamentos era sério e focado, quase que outra pessoa.
Depois de me despedir, desci pelo elevador e entrei em meu carro, deixando as palavras do Homem de Ferro pra trás. Estava focada na ligação de Steve, e sorri sozinha com a lembrança. Havia sido muito cavalheiro em cumprir a promessa.
O clima estava particularmente agradável naquela noite. Uma brisa fresca soprava, e apesar do horário já avançado para uma segunda, as ruas ainda estavam salpicadas de pessoas.
Chegando em casa cumprimentei o porteiro como de costume. Devolvi a chave extra e não foi preciso nenhum tipo de escaneamento biológico hoje. Dumbledore e Minerva brincavam enroscados no tapete da sala, mas pararam suas peripécias para me receber. Eram mesmo como família.
Suspirando, larguei a bolsa sobre a bancada que dividia a cozinha da sala e abri a geladeira. Apesar de gostar de cozinhar e procurar opções saudáveis para o cardápio, hoje não tinha a mínima vontade de fazer algo do tipo, pelo o que peguei um pote de sorvete de morango e migrei para a sala, deixando-me cair no sofá.
Algo pesava em mim, me deixando desconfortável, e não eram os gatos que esquentavam meus pés com aquele monte de pelos brancos. Zapeei pelos canais, incapaz de me concentrar em qualquer coisa. Fechei os olhos, passando as cenas de meu dia em minha cabeça. Minha mente, no fundo, sabia o que me incomodava, só tinha medo de trazer o assunto à tona.
"Aliás, quantos amigos você tem?". A frase ecoava constantemente, e a alucinação de um Frankie parado em minha frente, usando uma de suas camisas xadrez de sempre, os braços cruzados e a expressão fechada, falando comigo dentro de minha cabeça. "No que você se transformou, Alicia?".
– É tudo culpa sua. — Apoiei o antebraço sobre meus olhos fechados, em uma tentativa falha de parar uma lágrima que escorria.
Já fazia tanto tempo... E embora as pessoas dissessem que minha recusa em lidar com isso fazia com que a situação não passasse, eu preferia afastá-las ao invés de dar atenção ao que articulavam.
Tentei fazer o que sempre fazia, jogar as ideias para o fundo de minha mente, mas parecia difícil demais, especialmente hoje. Precisava de algo pra me distrair, e em um ato impulsivo, peguei o telefone e pressionei a rediscagem automática. Foram cinco longos toques até que a voz masculina respondesse, parecendo assustado.
– Alicia?
Demorei um segundo ou dois para controlar minha voz a fim de que não parecesse tão embargada.
– Hey, Steve. — Tinha consciência de minha postura retraída.
– Está tudo bem? Sabe, já passou da meia noite.
– Como é o nome dela?
A resposta demorava. Era quase como se eu pudesse ouvir sua confusão do outro lado da linha. Mas, certeira, chegou.
– Peggy.
– Você ainda a vê?
– Desenvolveu uma doença e não tem mais memórias concretas de quem eu seja. — Suspirou profundamente. — Alzheimer. É difícil.
– Eu não tenho amigos. — Admiti, constrangida. — Nenhum.
Pude ouvir um breve riso em sua voz quando voltou a falar.
– Admitir o problema é o primeiro passo pra se livrar dele.
– Sinto falta dele.
– E provavelmente sempre vai sentir. Precisa aceitar que as coisas não são como queremos.
– Ainda posso vê-lo acordado em minha mente. Quando fecho os olhos.
– Alicia, você precisa deixar isso ir. É um choque de realidade, mas a partir de agora, preciso que me prometa que sua vida será mais que trancar memórias para que não a incomodem e evitar pessoas.
Arrumei-me na almofada confortável do sofá. Sentia meu corpo afundando enquanto a camurça tocava a pele em uma carícia. Não conseguia respondê-lo.
– Alicia, prometa. — A voz era firme e ao mesmo tempo suave. Coisa que eu jamais conseguiria fazer. Mordi o lábio inferior querendo calar-me.
– Vou tentar. — Queria prometer e cumprir o que me pedia, e já não sabia se respondia dessa forma por teimosia ou incapacidade.
Pude ouvir um riso abafado do outro lado da linha.
– Onde você está?
– Em casa. — Minerva chutava enquanto dormia. Dumbledore parecia irritado com o susto.
– Precisa de companhia?
Sorri apenas por receber a oferta. Jamais o faria sair de casa a essa hora da noite por minhas futilidades. Olhei para o pote de sorvete, já meio derretido.
– Estou bem sozinha. Obrigada.
– Você não está mais sozinha.
Meu coração bateu fora de compasso. Uma. Duas. Três vezes. Acelerava constantemente como se eu estivesse correndo em um campo aberto.
– Obrigada. Até mais. E desculpe.
Desliguei o telefone, aflita. Interagir com pessoas era desgastante, mas estava se mostrando ser uma das melhores partes de meu dia. Em meio a um ou outro resquício das lágrimas, sorri.
– Adeus, Frankie. Acho que já está mesmo na hora de te deixar em paz.
Cansada física e mentalmente demais para ir pra cama, adormeci no sofá, ouvindo as notícias da noite.
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