Hackertype [HIATUS]
3 Por que não?
Notas iniciais
Leon estava grato por não ter aulas durante a tarde naquele dia, pois sabia que não conseguiria prestar atenção nem se quisesse. Quando chegou em casa, deitou-se na cama após o almoço e ficou olhando para o teto do quarto, pensativo.
Aquilo não deveria ser algo pessoal, já que haviam vazado informações de muitas pessoas, mas porque, entre tantas naquela escola, escolheram justamente o nome dele? Logo ele, que não fazia mal nem a uma mosca e aguentava muita coisa calado para não ter que brigar.
E para completar, seus amigos o deixaram, ou, pelo menos, dois deles. Estava temeroso pelo que Nino faria se descobrisse o que ele planejava pedir a Tao, sem falar que ainda precisava tentar falar com Kim e Ian para explicar o seu lado da história.
—Isso só pode ser um pesadelo — Choramingou.
Qual não foi sua surpresa quando, alguns minutos depois, sua mãe bateu à porta do quarto.
—Filho, a Kim tá aqui e quer falar com você.
Seu coração falhou uma batida de nervoso.
—Pede pra ela entrar, mãe — Respondeu baixo.
Duas batidas suaves foram ouvidas na porta, Leon levantou-se da cama e se preparou mentalmente para a saraivada de xingamentos que iria receber, mas qual foi a sua surpresa quando abriu a porta e amiga o abraçou, chorando.
— Kim?! O que aconteceu?
— DESCULPA! — Ela gritou em resposta, a cabeça desajeitadamente escondida em seu ombro — Por favor, me desculpa, Leon! Eu fui horrível, desconfiei de você, fiquei com medo e nem te dei a chance para se explicar! — Fungou.
O rapaz corou de vergonha, embora estivesse feliz por ver a amiga de volta.
— Tudo bem, Kim, não estou com raiva — Acabou abraçando-a — Na verdade, estou com medo de onde isso tudo vai chegar, mas, pelo menos, você e Nino acreditam em mim, já é algo bom.
— Você não está com raiva? — Ela fungou — Mesmo?
— Não estou, juro — Respondeu-lhe.
Esperou a garota se acalmar e sentaram-se em sua cama. Kim ainda parecia incomodada com algo.
— Ei, Leon… Aquilo que o print dizia sobre o Ian… Você acha que é verdade?
— Eu já falei que não escrevi nada daquilo!
— Não é disso que eu estou falando! — Ela o interrompeu — Pensa no conteúdo das mensagens, abstrai a parte que diz que foi você quem as enviou. Acha que é verdade?
— Hã? — Ergueu uma sobrancelha, não havia parado para pensar sobre isso — Acha que tem chance?
— Por que não? A gente sabe que ele repetiu um ano na escola antiga e depois se transferiu para a nossa, isso explicaria o motivo da transferência — Kim murmurou, absorta em pensamentos — E também explicaria porque ele nunca quis falar com a gente sobre isso.
Ficaram em silêncio por algum tempo. Kim puxou o celular do bolso e abriu a imagem, lendo o conteúdo com uma expressão melancólica.
“Sério, as vezes me pergunto se o Ian pensa que somos idiotas. Ele acha mesmo que aquela conversinha de “problemas pessoais” convenceu alguém? A história está aí, só não vê o fracassado que ele é, quem não quer. Como se o acidente que o fez sair da escola realmente fosse um “acidente”, se você entende o que eu quero dizer”.
— Se quer minha opinião, a maioria dessas informações provavelmente são falsas, pelo menos é o que eu acho, mas eu vou tentar perguntar alguma coisa a Tao.
Kim arregalou os olhos e Leon rapidamente levou as mãos a boca, percebendo que havia falado demais!
— Perguntar a QUEM?! Leon, o que tu tá pensando?! Sabe o que dizem sobre ela!
— Mas ela é a única que pode ajudar! — O rapaz passou a mão pelos cabelos castanhos, nervoso. Sabia que seus amigos seriam contra e ele próprio não gostava exatamente da ideia de ir encontrar sozinho alguém que, diziam, levou um professor a pedir demissão depois de ter ameaçado a família dele por conta de uma nota baixa. Era como se a qualquer momento pudesse acordar numa banheira de gelo sem um dos rins.
— É mais fácil levar logo o caso a polícia, eles saberão o que fazer e você não fica se arriscando desse jeito! Leon, dizem que ela separou um casal de namorados simplesmente porque torcia para a garota ficar com outro cara! Sabe-se Deus o que ela faria com você se você a irritasse?!
— Kim, é uma boa ideia, mas… Primeiro: Não quero envolver polícia nesse assunto ainda e, segundo: Vamos tentar ser racionais! A maioria dos boatos sobre a Tao não passam disso: Boatos. Não foi ela.
— Como pode ter tanta certeza?
— Não sei, intuição? — Jogou a cabeça para trás e suspirou ante a sobrancelha erguida da garota de cabelos azuis — Só acho que, se fosse a culpada, ela conseguiria fazer de uma forma que ninguém desconfiasse.
Kim silenciou por algum tempo depois de ouvir o amigo. O que ele disse fazia sentido, mas ainda era pouco para fazê-la acreditar naquele palpite.
— Quando você vai vê-la?
— Daqui a pouco.
— Vou com você — Decidiu.
— Ein?! — Ele protestou — Não dá, eu disse a ela que ia sozinho.
— E quem garante que ela vai sozinha? E se ela for uma super-chefona adolescente do crime, achar que você está se aproximando demais da verdade e aproveitar esse encontro para… — Fez um gesto firme passando o indicador pelo pescoço — … Cortar a sua cabeça?
Leon piscou, atordoado.
— Kim, você precisa parar de assistir tantos filmes. E você não tem ensaio com o grupo de dança daqui a pouco?
— May vai ao médico, então o ensaio foi cancelado por hoje, mas não tente mudar de assunto! — A garota se levantou, apontando para o rapaz com uma expressão determinada – Como eu disse: Vou com você!
~X~
Leon até que tentou bastante, mas Kim Arch não era uma garota que mudava de ideia facilmente depois de decidir algo.
Não deu outra: 4:00 da tarde, lá estavam ela e Leon encontrando Tao na estação de metrô. Como estava com fome, sugeriu que o local do encontro fosse mudado para uma lanchonete ali perto, a dupla não ofereceu resistência.
— Achei que viria sozinho — Tao comentou sem realmente se importar com aquilo, escolhendo uma mesa no fundo do estabelecimento.
— Foi uma… mudança de última hora — Leon respondeu-lhe, nervoso. Aproveitou o momento em que o garçom veio anotar os pedidos para respirar um pouco e limpar discretamente as mãos, que começaram a suar, continuando a conversa assim que viu o homem se afastar — Você já sabe o motivo de eu estar aqui, então vou direto ao ponto: Quanto você quer para descobrir quem anda fazendo essas coisas?
“E que não seja muito caro, eu sou estudante!” Completou em pensamento, temendo o que iria escutar.
— Depende da forma de pagamento. Aceito dinheiro, informações, bitcoins…
— Bit-o-quê? — Kim lhe interrompeu.
— Esqueça, daria trabalho explicar — A hacker fez um gesto de pouco-caso com a mão — Enfim, o valor depende muito do que eu vou precisar fazer para encontrar a pessoa, mas dessa vez posso dar um desconto, tenho um interesse pessoal nesse caso, então teria que trabalhar nele de uma forma ou de outra.
— Você tem? — Leon perguntou, genuinamente surpreso — E qual é? Desculpa se eu estiver me intrometendo! — Acrescentou logo depois, mas Tao não se importou.
— Minha própria segurança — A garota de cabelos rosa claro puxou o celular de dentro do sobretudo que usava e mostrou aos dois colegas de classe sua caixa de mensagens — Seu amigo não é o único que acha que eu tenho algo a ver com tudo isso, mas por enquanto, ainda é o mais calmo.
Leon arregalou os olhos e Kim levou as mãos a boca ao ver as mensagens que pipocavam na caixa de entrada de Tao. Aparentemente, o fato de o nome dela não aparecer nos prints não foi nenhum privilégio.
“MORRA!”
“VSF! Depois não reclama se apanhar!”
“ENLOUQUECEU DE VEZ, SUA PUTA?”
“Cê tá fudida, vadia!”
“ESPERO QUE TE MATEM, DESSA VEZ VOCÊ PASSOU DOS LIMITES!”
“Quando eu te pegar, não vai sobrar um fio de cabelo pra contar a história”
Leon leu tudo aquilo completamente atordoado. Como se não bastasse, também havia várias imagens anexas de animais mortos, computadores quebrados e cadáveres humanos em outras mensagens. Para a sua surpresa, o rosto de Tao parecia completamente tranquilo.
— Você não tem medo?
— Medo? — A garota pôs a mão no queixo — A maioria aí é cão que ladra, mas não morde. Além do mais, se eu morrer, meu computador está programado para enviar todo o meu banco de dados para todos os alunos da escola, aí sim vocês teriam problemas. Quer dizer, vocês dois nem tem algo realmente sério, mas infelizmente, para eles, quase todos nesse colégio tem algo podre que precisam esconder, e isso inclui até seu querido amigo Ian.
Deu um sorriso sutil que fez o rapaz sentir um arrepio na espinha.
—Se eu morrer, meu único arrependimento será não poder testemunhar o caos que eu mesma vou causar.
O garçom chegou com os lanches naquele momento: Kim havia pedido um milk-shake de baunilha, Leon, uma salada de frutas e Tao, uma xícara de café expresso.
— Já que você falou no nome do Ian — Kim respirou fundo, apertando ainda mais o rabo-de-cavalo que usava — Quanto de tudo aquilo é verdade? Aliás, você sabe quais daquelas conversas são verdadeiras e quais não?
— Depende do seu conceito de “conversa verdadeira”. Eu não posso comprovar imediatamente que todas ali aconteceram entre as pessoas que os prints apontam, mas sei quais mensagens são verdadeiras e quais não. Por exemplo, Leon diz que não falou nada sobre o que aconteceu com Ian…
— E eu não falei!
— Posso terminar a explicação? — Os olhos vermelhos se estreitaram — Obrigada. Continuando, Leon diz que não falou nada, mas o texto da mensagem fala de uma situação que realmente aconteceu no passado dele, ou seja, as pessoas que esse print aponta não conversaram, porém as informações das mensagens são verdadeiras.
Fez uma pausa, deixando que os dois ouvintes absorvessem a informação até Kim fazer um sinal para que continuasse.
— Contabilizando tudo, nós recebemos trinta imagens contendo conversas, dessas, cinco são completamente falsas, vinte e três trazem informações verdadeiras e duas eu tenho certeza de que realmente aconteceram entre as pessoas citadas nos prints.
— Por que tanta certeza? — Os olhos cor de mel de Kim encararam a mais velha com curiosidade.
— Porque fui eu quem conseguiu esses prints.
Kim quase virou a mesa.
— E você fala assim, na cara dura?! Não sei como raios eu fui ter pena de você por conta das ameaças! Como é que você quer que a gente acredite que a culpa não é sua ou que você não sabe quem foi?!
— Não estou pedindo para você acreditar, apenas estou relatando os fatos — Tao respondeu-a sem se abalar — Mas se quer saber apenas metade da história, pode sair e ficar espalhando os boatos em que eu acabo com relacionamentos, demito professores e manipulo avaliações ao meu bel prazer, você é livre — Deu de ombros.
— Kim, se acalma — Leon pediu baixo — Ou você vai chamar atenção.
Com muito esforço, a garota sentou-se novamente.
— Se importa de nos explicar isso, Tao? — Leon resolveu assumir a conversa, antes que Kim atirasse o copo vazio de milk-shake na garota. Hesitou um pouco ao encarar a colega de classe, mas tentou manter-se firme.
— Lembram do Dickson, o antigo professor de literatura?
Kim estremeceu.
— Sim, eu lembro — Sua feição tornou-se séria.
— Nenhuma lembrança muito boa, não é?
— Como… como você sabe?!
— Como eu sei que ele é um pedófilo desgraçado? Quem você acha que jogou a merda no ventilador? Quem você acha juntou todas as provas e mandou para o diretor? Quem você acha que levou tudo para a polícia quando viu que aquele bosta não ia fazer nada por causa da reputação da escola? — Cruzou os braços, encarando a dupla que a olhava sem saber o que dizer — O diretor conseguiu abafar o escândalo, mas não conseguiu evitar a prisão dele, isso já me fez ficar satisfeita. O ex-professor Abner, do outro print, tá no mesmo barco; vocês acham que ele saiu de férias, mas a verdade é que ele está preso e o diretor conseguiu abafar.
Tomou alguns goles de café antes de prosseguir.
— Se querem a minha opinião sobre como arranjaram estes prints, a hipótese mais provável é que eles vieram do e-mail do diretor, ou de algum computador da escola em que eles tenham sido salvos. Eu saberia se tivesse saído do meu próprio computador.
— Diziam que… — Leon engoliu em seco — Diziam que você fez ele se demitir por conta de uma nota baixa que ele te deu.
Tao deu de ombros.
— Eu queria ter metade do poder para fazer as coisas tão fácil quanto essas histórias fazem parecer. Pelos boatos, parece que eu só preciso digitar meia dúzia de letras aleatórias num computador e pimba! Controlo a escola toda, viro a rainha dos hackers e do terror psicológico, não querem me eleger como diretora não?
Leon parou, observando a companheira de sala por um ângulo diferente pela primeira vez.
Sabia que ela não era santa, Tao desvendava segredos alheios por dinheiro, mas talvez ela não fosse o demônio mimado que havia aprendido a temer.
Talvez.
— Bom, acho que tenho que ver o lado positivo disso tudo, não é? Peguem algo aparentemente impossível e digam que fui eu que fiz, qualquer um acredita, sou foda.
O clima ficou estranho. Os três permaneceram em silêncio por um bom tempo, cada um imerso em seus mundos, até que Leon lembrou-se de algo que precisava perguntar.
— Ei, Tao, sobre o Nino, aquilo que você disse… Você desconfia mesmo dele?
— Eu desconfio de todos até descobrir a verdade, inclusive de vocês, mas se quer saber sobre algum motivo específico para eu desconfiar dele: Não, não tenho. Só disse aquilo porque é divertido vê-lo se irritar.
— Ufa, estou… aliviado, eu acho — Deu um sorriso sincero — Não sei como reagiria se ele realmente estivesse envolvido nisso.
— Eu não tiraria conclusões precipitadas.
— Hã?
— Acha mesmo que vai parar por aqui, Leon? Esse tipo de coisa, muitos alunos não foram citados, o que me faz ter a certeza de que foi só o começo. Seja lá quem for a pessoa por trás disso, ela não parece estar atacando alvos isolados, ela quer simplesmente causar o caos, e quanto mais gente afetada, melhor.
Leon olhou para o chão, temeroso. Fechou os olhos por alguns segundos e decidiu que era o suficiente por enquanto. Precisava pensar, colocar as informações no lugar e ver o que faria dali em diante.
— Certo, então combinamos isso: Você nos ajuda e… acertamos o preço depois? — Perguntou a Tao, incerto.
— Tudo bem, mas não estranhem se eu… sumir do colégio por um tempo.
— Sumir? — Kim inclinou a cabeça quando perguntou.
— Vai depender de como a situação se desenrolar, mas como levo este “serviço” muito a sério, fiquem avisados. Alguns naquela escola querem a minha cabeça e essa é a oportunidade ideal para isso, na situação atual ninguém está a salvo, nem mesmo eu.
— Entendo — Havia sincera preocupação na voz de Leon — Se pudermos ajudar em alguma coisa, é só falar.
Tao ficou em silêncio por alguns segundos antes de responder.
— Eu vou me lembrar disso.
Pagaram os lanches e saíram. Kim puxou o sobretudo de Tao antes de irem para caminhos opostos.
— Sobre o Dickson… obrigada. Por mim, e pelas outras.
Mais uma vez, Tao ficou em silêncio, como se não soubesse bem o que falar na situação. No ponto de vista de Leon, ela não parecia acostumada a pessoas agradecendo-a.
— Ele nunca chegou às vias de fato com você, não foi? — A hacker perguntou.
— Nunca, ainda bem — Kim suspirou — Mas não sei quanto tempo mais eu conseguiria escapar daquilo.
— Suas notas nele conseguiam ser ainda mais baixas que as minhas.
— Pois é — Riu baixo — Nunca pensei que você tivesse algo como senso de justiça.
— Talvez eu tenha menos princípios que vocês, mas numa coisa concordamos: há situações pelas quais nenhuma garota deveria passar.
Pela primeira vez naquele dia a expressão de Tao demonstrou algo além de seriedade e deboche, como se lembrasse de um momento distante. Leon demorou, mas no discreto suspiro que a colega de classe deixou escapar, finalmente entendeu o que ela sentiu.
Saudade.
Pelo quê? Por quem? Ele não sabia.
E aquela dúvida ficou remoendo na sua mente por mais tempo do que queria admitir.
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