Hackertype [HIATUS]
4 Algumas pessoas só querem ser desafiadas
Notas iniciais
— Deus do céu, eu preciso de ajuda — Tao murmurou, batendo a mão na escrivaninha num gesto de frustração.
Depois que saiu da lanchonete, dedicou-se durante as três horas seguintes a analisar as imagens uma por uma em busca de qualquer coisa relevante que pudesse encontrar: Símbolos, mensagens, alguma parte em destaque que não estivesse ali antes… mas já havia anoitecido e nada, absolutamente nada, nem mesmo nas falsificações.
Girou a cadeira, dando outro suspiro frustrado, enquanto encarava o teto do seu quarto, pensando no que fazer. Não demorou muito até que a voz de sua mãe cortasse de vez a concentração praticamente inexistente.
— Tao, o jantar está pronto!
Decidiu que não valia a pena forçar a mente naquilo por enquanto e saiu, franzindo os olhos para a claridade súbita do corredor. Estivera tão concentrada em sua análise que até as luzes do quarto foram esquecidas e a única fonte de iluminação que teve nas últimas horas veio do computador, esfregou os olhos e foi para a sala de jantar, onde seus pais a aguardavam.
A despeito dos três moradores trabalharem com tecnologia, havia uma regra na casa que proibia celulares, notebooks ou qualquer atividade paralela durante as refeições. Seus pais faziam questão de que as refeições fossem feitas à mesa e com todos presentes, consideravam importante para a união familiar e Tao concordava, até gostava.
Por um minuto permitiu se distrair um pouco, lembrando-se de certa vez em que teve de apresentar um trabalho sobre sua família há poucos anos. As caras de seus colegas de classe ao verem que ela não vinha de uma família desestruturada e se dava muito bem com os pais, ao contrário do que pensavam, fizeram-na rir durante semanas.
— Está calada, Tao. Aconteceu algo na escola? — Seu pai perguntou. Francis Slackware era um homem de feições brandas que escondiam sua verdadeira natureza analítica, os cabelos anormalmente bagunçados davam-lhe um ar jovial, intensificado pelos olhos rubros como os da filha.
— É uma longa história — Terminou de comer e começou a lhes contar sobre seu novo “serviço”, a suspeita geral de que ela era quem estava por trás disso e o fato de que não sabia nem mesmo por onde começar.
— Você realmente não tem nada a ver com isso, não é? — Sua mãe perguntou, ao passo que Tao respondeu com uma careta.
— Claro que não! — Retrucou ofendida — Vocês sabem que eu não invento mentiras para ganhar dinheiro. É quase como se a senhora estivesse me comparando ao… Ao Adrian!
Seus olhos faiscaram de ódio ante a menção do nome e Clarisse suspirou.
— Você precisa superar isso, Tao — Encarou a filha, vendo-a franzir a testa — E não me venha com a conversa de que tudo acabou quando ele foi preso!
— Realmente, só vai acabar quando eu souber que ele está morto — Bufou, deixando a mente relembrar por breves instantes o momento em que viu o rapaz ser algemado perante toda a escola, a lembrança trouxe um sorriso ao seu rosto, mas não era o suficiente.
Adrian… Era por causa dele que o seu nome era temido na escola, talvez devesse agradecê-lo por isso?
“Não, definitivamente não!” Pensou crispando os lábios. O preço que teve que pagar não valeu a pena. Teria se contentado em ser apenas uma estudante normal, limitando as aplicações de seus conhecimentos aos hackathons¹ da vida e grupos de discussão na internet, se sua melhor amiga ainda pudesse estar com ela.
— Podemos voltar ao assunto principal disso tudo? — Pediu em voz baixa, apoiando os cotovelos na mesa depois de respirar profundamente — Tenho certeza de que há pistas naquelas imagens, mas não sei por onde começar.
— Traga-as aqui — Seu pai pediu. A garota correu até seu quarto enquanto os dois arrumavam a cozinha e salvou os arquivos num Pen drive.
Francis pegou seu notebook e abriu as imagens, analisando-as com cuidado. Clarisse perguntou sobre quais eram falsas, quais eram verdadeiras e Tao lhes contou a história de cada uma, o que sabia sobre as pessoas mencionadas e como descobriu tudo o que sabia sobre elas. Sentiu-se particularmente feliz ao ver o olhar de orgulho no rosto de sua mãe, uma das melhores consultoras de segurança de sistemas do país (Tao sempre dizia que ela era a melhor e não havia nenhum favoritismo de filha nisso, jamais).
— Já pensou que você pode estar abordando o problema pelo ângulo errado? — Francis perguntou, desconectando o Pen drive com um sorriso de canto. Ficou claro para as duas mulheres na sala que ele tinha uma ideia do que fazer, mas não falaria, pelo menos, não de forma direta.
— Então o que sugere, pai?
— Você está muito concentrada no que você pode ver nessa imagem, pense no que você não vê.
— Criptografia?
— Talvez, mas vamos partir do princípio de que esse Phantasma, assim como o anterior, não seja mais que um adolescente que aprendeu duas coisas vendo tutoriais de três minutos no Youtube e já se acha a reencarnação de Kevin Mitnick: Se ele quisesse esconder uma mensagem fácil o suficiente para ser encontrada, mas não tão fácil que parecesse idiota, o que ele faria?
— Há muita coisa que você pode aprender por tutorial no Youtube, como eu vou adivinhar assim, de cara?
— Você sabe o que é — Francis lhe entregou o Pen drive com uma expressão tranquila — Eu lhe ensinei isso quando você tinha 10 anos.
Foi como se de repente um holofote iluminasse a sua mente: Esteganografia. A palavra praticamente saltou diante de seus olhos.
— Claro! Como eu não pensei no óbvio?! Obrigada, pai! — Deu um beijo na bochecha de cada um e correu para o quarto, praticamente se jogando na cadeira depois de bater a porta com mais força do que pretendia e ligar o ar-condicionado.
Pressionou o botão para ligar o computador e, observou a tela de boot. Havia três sistemas operacionais ali, escolheu o Debian, seu sistema principal, e esperou o processo de carregamento se completar.
Assim que fez login na máquina, copiou os arquivos do Pen drive para o disco e separou as imagens numa pasta, depois, torcendo para dar certo, abriu o terminal de comando e digitou:
steghide info print01.jpg
Analisou as informações que apareciam, como nome do arquivo, formato, tamanho e capacidade, abaixo disso estava a opção de tentar obter informações sobre possíveis dados embutidos, obviamente escolheu que sim.
Sem surpresa, observou o programa pedir uma senha. Se aquela era uma mensagem para ser encontrada por qualquer um, não deveria ter uma senha difícil; primeiro tentou a mais óbvia de todas (123456), sem sucesso, optou então por uma igualmente óbvia e digitou “senha”, rindo um pouco ao ver que havia conseguido.
Mas naquela imagem não havia nada a ser descoberto.
Repetiu o processo para as outras imagens: Nada na segunda, nem na terceira, nem na quarta, nem na quinta… Era difícil, pacientemente foi olhando de uma por uma, até que “Finalmente!” encontrou algo.
embedded file “hi.txt”:
size: 0,001KB
encrypted: rijindael-128, cbc
compressed: yes
Franziu a testa. O que raios um arquivo de 1 byte poderia conter? Não que pudesse reclamar, naquele estado, qualquer pista era bem-vinda. Voltou a digitar.
steghide extract -sf print29.jpg
Queria conter a expectativa ao ver que a extração havia terminado, mas não foi possível. Abriu o arquivo-texto esperando alguma declaração de guerra ou coisa do tipo, mas o que viu, provavelmente lhe surpreendeu mais que qualquer mensagem que Phantasma pudesse lhe escrever.
H
— Uma letra — Murmurou para si mesma, deixando o arquivo separado dos outros — Apenas uma letra…
Mais uma vez encarou o teto, não sabia o que pensar daquilo por enquanto, o que colaborava com a sua teoria de que era apenas o começo. Phantasma com certeza mandaria mais coisas e, se desse sorte, mais algumas mensagens escondidas.
“Ele está fazendo isso de propósito” De fato, aquele não era o tipo de mensagem que poderia ser colocada por acidente “Mas o que ele quer dizer?”.
Todo aquele trabalho e, no fim, parecia não ter tido avanço nenhum.
Ficou em silêncio, repassando tudo em sua mente. Uma coisa era descobrir segredos de adolescentes despreocupados cuja máxima noção de segurança de senha era algo como “nomedamãe123”, outra era aquilo, um desafio composto por uma única letra e que a deixava na expectativa pelo que viria, pelo que poderia acontecer e até onde esse novo Phantasma era capaz de planejar. Era quase como finalmente encontrar alguém que realmente merecesse todo o trabalho que fazia.
Antes que pudesse se segurar, riu. Na escuridão do quarto, talvez parecesse uma louca, mas a despeito do fato de que metade da escola estava querendo a sua cabeça e a outra metade tremia de medo, achando que era ela quem estava por trás de tudo, Tao estava feliz.
“Vou ter um trabalho desgraçado para pegar esse cara” Pensou, parando de gargalhar e recuperando o fôlego aos poucos. Deixou as mãos passearem por seus cabelos enquanto um sorriso teimava em estampar sua face.
Talvez aquele fosse o serviço mais difícil que tivesse aceitado desde que havia começado a hackear os colegas da escola.
Tao adorava desafios.
~X~
— Algumas amizades desfeitas, um professor demitido e sete términos de namoro — A hacker falou para Leon, que a escutava curioso, e Nino, que a observava com uma indisfarçável carranca — Esse foi o resultado que os prints deixaram para o colégio. Parece pouco, eu sei, mas até que é um legado considerável, se levarmos em conta o tamanho da escola e isso é apenas o saldo inicial.
Havia ligado para Leon na noite anterior, avisando-o sobre sua descoberta recente e o rapaz pediu para conversar com mais detalhes sobre isso durante o intervalo. Ali estavam, com Nino a tiracolo, para seu desprazer, embora o rapaz não houvesse falado nada. Provavelmente Leon havia lhe pedido para ficar quieto.
— Pouco? Eu acho horrível! — Leon respondeu, entrelaçando os dedos — Os números não são gritantes, mas cada história dessa é um laço rompido, um laço que tinha tudo para ser sólido — Lamentou.
— Se ficaram fragmentadas por causa de uma mentira qualquer, não eram relações sólidas o suficiente — A voz de Tao o tirou de seus devaneios.
— Isso foi cruel — Leon fez uma careta.
— Eu sei — A hacker sorriu — Mas é o que eu acho. Por sinal, você e Ian, como vão?
A expressão de Leon perdeu um pouco do brilho. Foi Nino quem respondeu a pergunta por ele.
— Ian ainda não quer falar conosco, Kim está tentando convencê-lo, mas acho que vai demorar algum tempo — Suspirou — Não o julgo, apesar de achar tudo isso um exagero.
— Talvez um dia ele conte a vocês o que aconteceu, então você poderá dizer se é exagero ou não — Tao ajeitou os óculos no rosto e os dois rapazes a encararam.
— Você sabe o que foi esse acidente que a mensagem se referiu, não sabe?
— Claro que sei, mas vamos focar na mensagem, depois eu lhes respondo sobre isso, se quiserem saber — Estendeu um bilhete aos dois, que o pegaram com visível apreensão — Isso foi o que eu achei escondido em uma das fotos.
Nino foi quem tomou a iniciativa de abri-lo, arregalando aos olhos ao ver a única letra escrita, Leon também não sabia direito como reagir.
— Isso é uma brincadeira?! Tá brincando que, em 30 imagens, você só achou ISSO?!
— Se quiser analisar em busca de mais coisas, fique à vontade. Os mesmos arquivos que eu recebi, você também recebeu — Respondeu tentando não se alterar. Foram mais de quatro horas de trabalho para achar aquela letra, não gostava de ver seu trabalho desvalorizado por alguém cujo máximo conhecimento de informática se resumia em apertar Ctrl+C e Ctrl+V.
Ao menos Leon parecia um pouco mais conformado, ainda que visivelmente tenso. O sinal tocou anunciando o fim do intervalo e os três foram em silêncio até a sala de aula, porém antes que entrassem, a garota escutou Leon falar consigo em voz baixa.
— Parece que você estava certa, Tao. Isso é só o começo.
Como que guiados por um maestro, todos os celulares soaram suas notificações de mensagem recebida ao mesmo tempo. A sala imediatamente encheu-se de burburinhos.
Tao cruzou olhares com Leon, ambos bem conscientes do que aquilo significava.
— E a continuação veio mais rápido do que a gente esperava.
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