O dia já estava amanhecendo quando Ed finalmente estacionou a caminhonete no posto de gasolina em uma cidade pequena, então ele desceu da caminhonete acompanhado de Nikolai e Cat acordou assustada, a respiração dela estava acelerada. Tentando disfarçar, a garota tentou fazer uma feição calma e desceu do veículo.

— Existem duas maneiras de parar de ter pesadelos — Nikolai disse para Cat. — Enfrente-os, ou faça como o Adriano e pare de dormir.

— Já disse para parar de espiar os meus sonhos — A garota disse em um tom baixo, ainda um pouco sonolenta. — Isso é esquisito.

— Você pode parar de ser forte? Dizer para os seus braços agirem como o de uma garotinha normal? — questionou. — Eu não posso falar para o meu cérebro parar de ver o que os outros fazem, assim como os seus músculos não irão simplesmente te obedecer.

— Agora que chegamos, você pode ir para a direção que quiser — Ed disse para Nikolai, que pensou um pouco antes de responder.

— Obrigado pela carona — deu uma rápida olhada para Cat, que estava apoiada na caminhonete, se falasse bem baixo com Ed, a garota não ouviria. — O que sabe sobre heróis?

— Que tipo de heróis? — perguntou desinteressado.

— Do tipo com uniforme e capa, vigilantes — explicou.

— Tem uma Pocket Girl em Nova Iorque e uma velocista ou algo do tipo que acho que também é de lá — disse.

— Nyx? Sabe de alguma coisa sobre ela? — Encarou o amigo para ver a reação dele.

— Não faço ideia de quem seja — respondeu.

— Devia saber, você está dando carona para ela — Nikolai viu como o amigo ficou confuso. — Te vejo por aí. — Andou um pouco e olhou para Cat. — Até mais, Cat. — Após isso ele andou para longe dali e Cat notou como Ed parecia estranho.

— Aconteceu alguma coisa? — perguntou estranhando aquilo.

— Sono — disse simples.

— Então você sente sono? — questionou de maneira irônica. — Cada dia uma descoberta nova.

Os dois entraram na loja de conveniências do posto, Cat se separou de Ed e entrou em um corredor de salgados. Ela pegou dois deles e foi para um lugar perto da vitrine, e mais uma vez viu a revista sobre a Pocket Girl, era a mesma que ela havia lido antes. Aquilo a fez perguntar porque a Pocket entrou na Nexus. Será que ela não sabia que eles não eram tão bonzinhos? Era difícil acreditar, ela era a Pocket Girl, uma das maiores heroínas da qual já havia ouvido falar, não era possível que ela nem ao menos desconfiasse. Mas também pensou em como a Nexus era grande, eles eram bons em se esconder, e ela não conhecia a Pocket, não sabia como ela pensava.

Ela olhou para a vitrine e a visão que teve não foi agradável, Hector abastecia um carro do lado de fora, rapidamente ela correu para o lado de Ed e lhe entregou os salgados, ele logo notou que ela estava nervosa.

— O que foi dessa vez? — questionou.

— Hector — praticamente sussurrou.

— O que tem ele?

— Ele está aqui — a garota disse e então Hector entrou na loja.

— Merda — resmungou.

— Velhinho — Hector se aproximou dos dois e então olhou para Cat. — Pirralha.

— Oi — Olhou irritada para ele.

— Vocês são uma dupla dinâmica agora? — questionou irônico.

— Veio arrumar encrenca? — Ed rebateu e Hector riu.

— Se está preocupado com encrencas, não deveria andar com essa aí — Hector apontou para Cat. — Sabe algo que notei, pirralha? Em Houston, os agentes da Nexus pareciam mais interessados em você do que em mim. Me pergunto o por quê?

— Tenho certeza que não é da sua conta — disse curta e grossa.

— Não é da minha conta — disse. — E aquele cara... O seu pai? Vocês não se pareciam muito. O cara do carro. O que aconteceu com ele? — Ele estava falando de Zack, Cat estava com raiva, teve que respirar bem profundamente para não partir para cima de Hector.

— Não é da sua conta — repetiu e então a garota saiu da loja.

— Qual é o seu problema com ela? — Ed questionou.

— A pirralha invocada? — questionou. — Eu não teria nenhum se ela não tivesse se metido no meu caminho.

— E como ela teria feito isso? — queria saber o que estava acontecendo.

— Você não sabe quem ela é, sabe? — Observou a reação de Ed. — Ou talvez saiba. Se quer saber a verdade pergunte a pivete. — Ed pagou pelas compras e se direcionou a saída da loja.

— Até mais, velhinho.

Ed apenas o ignorou e seguiu para a caminhonete, onde encontrou Cat e lhe entregou um dos salgados que ela havia pego.

— Era esse, certo? .

— Sim — Cat confirmou.

Os dois entraram no veículo e Ed o dirigiu novamente, um longo caminho os esperava, de tempos em tempos ele observava a garota pelo espelho. Quem ela realmente era? Cat? Caitlyn? Nyx?

— Cat? — chamou. — Qual é o seu nome.

— Caitlyn — respondeu.

— Por isso a Felícia te chama assim?

— Sim — estranhou a pergunta.

— De onde você veio?

— Você precisa ser mais especifico. — Os lugares eram muitos.

— Onde você vivia com a sua família antes de tudo isso com a Nexus? — olhou pelo espelho a reação da menina.

— Detroit.

— Detroit — repetiu. — Meio longe de Houston.

— Sim — respondeu.

— Como foi de Detroit para Houston?

— Depois da morte dos meus pais, por um tempo, fomos eu e minha irmã contra o mundo, mas ela sumiu — contou. — Então me levaram para um abrigo e fiquei lá por um tempo, aí a Nexus apareceu e tentou me levar, mas o Zack me salvou.

— Zack — Já ouvira bastante aquele nome. — Foi ele quem te levou para Houston?

— Sim — confirmou. — Ele cuidou de mim por três anos.

— Como conheceu o Hector? — Finalmente perguntou o que tanto queria.

— Ele vivia em Houston — Cat respondeu breve.

— Como o conheceu?

— Por que quer saber? — Ela estranhou tantas perguntas.

— Hector se mete com pessoas perigosas — disse. — Como uma garotinha poderia deixa-lo com tanta raiva? Consegue responder, Nyx?

— Como... — Ele sabia.

— Então é verdade? — parou a caminhonete. — Você é uma vigilante.

— Era.

— Então era mesmo a Nyx? — quis saber.

— Sim — confirmou.

— E por isso você conhece o Hector, porque se meteu nos negócios dele?

— Eu não me meti nos negócios dele — contou. — Ele era o líder de uma gangue muito grande. Uma agente da Nexus disse que ele era conhecido como "Líder".

— Quem você realmente é, Cat, Nyx?

— Cat — disse. — O tempo da Nyx acabou.

— Difícil de acreditar — acreditou. — Você tem uma mania de bancar a heroína.

— A Nyx atrai pessoas ruins e elas matam — disse simples. — Zack não teria morrido se eu tivesse o obedecido.

— Ele sabia?

— Mais ou menos — Olhou para o espelho e conseguiu visualizar o rosto de Ed.

— Olha, dar carona para uma garota perseguida pela Nexus já não é algo muito seguro — disse. — Uma vigilante é pior ainda, tem que prometer evitar problemas, atos heroicos e de exibição, como você mesma disse, atrai pessoas ruins.

— Entendo — concordou. — Nada de Nyx.

***

— Como puderam deixa-la escapar? — Grace estava brava. — Ela é apenas uma garotinha, contra uma telepata.

— Eles tinham um telepata com eles — Felícia argumentou. — O cara era bom.

— Então que fosse melhor — Grace disse exaltada. — Agora além de todo aquele prejuízo com os carros e eu ter que arrumar alguma explicação do que aconteceu ali, as garotas Bennet ainda estão à solta.

— Por que uma garotinha te assusta tanto? — Felícia apenas analisou a reação de Grace, já que não conseguia ler a mente dela.

— Cada minuto que uma delas está à solta é um risco que corremos — disse.

***

Mais uma parada em uma nova cidade, parecia um lugar bem pacato, e tanto Ed quanto Cat estavam com fome e não tinham muito tempo. Ed decidiu que o melhor era ter o mínimo de paradas possível, mesmo que tivesse que passar a noite dirigindo.

Então, a cidade pacata foi tomada por uma correria, carros de bombeiros andavam pelas ruas e pessoas transtornadas estava para todo lado.

— O que está acontecendo? — Cat estava confusa.

— Você pergunta para mim? — Ed estava tão confuso quanto ela. Ele então sentiu um cheiro estranho, fumaça. Era algum incêndio, o melhor era ir embora. — Melhor irmos. — Então ele olhou em volta e percebeu que Cat não estava mais ali. — Oh merda!

Enquanto isso, Cat seguiu as pessoas transtornadas até chegar à frente do prédio em chamas, pessoas já haviam sido evacuadas, mas ainda haviam algumas lá dentro, mas ninguém conseguia entrar, as chamas estavam muito altas, mesmo para os bombeiros estava sendo difícil.

— Qual a situação? — Um dos bombeiros perguntou a um colega.

— As chamas estão altas demais, algumas pessoas no fundo do prédio estão presas lá, tem alguma coisa obstruindo a saída dos fundos. — disse. — A estrutura está abalada, o prédio pode desabar a qualquer momento, não é bom toda essa multidão aqui.

— Meu filho! — Uma mulher gritava desesperada, ela tentou entrar no prédio, mas foi impedida pelos bombeiros. — Meu filho está lá! Por favor, me ajuda!

— Onde você vive? — o bombeiro perguntou.

— Sexto andar — disse. — Por favor, salve o meu filho.

Cat ficou pensativa, havia prometido para Ed que não existiria mais Nyx, mas aquela era uma situação diferente, haviam pessoas naquele prédio que precisavam da ajuda dela, havia um menininho que poderia nunca mais ver a mãe. Ela precisava fazer aquilo, porque assim como o Homem Aranha nos quadrinhos sabia que "com grandes poderes, vem grandes responsabilidades", aquilo se aplicava a ela. Cat poderia salvar aquelas pessoas e se não o fizesse e algo ruim acontecesse, seria culpa dela, ou pelo menos, era assim que se sentia.

Decidida, a garota andou escondida de todos e passou por um beco, onde mudou a sua forma para Nyx, algo que há muito tempo não fazia. Então ela correu para a entrada dos fundos do prédio e conseguiu mover o que a bloqueava, fazendo com que várias pessoas conseguissem sair.

Após isso, ela entrou no prédio em chamas, tinha um menino para resgatar. Mesmo com dificuldade para respirar e tendo que tomar cuidado com as chamas, ela subiu até o sexto andar e procurou de apartamento em apartamento, até chegar no último do andar.

— Tem alguém aí? — a garota gritou na esperança de ouvir uma resposta.

— Mamãe? — uma voz infantil muito baixa a chamava.

— Não, eu não sou sua mãe, ela está te esperando lá embaixo — disse. — Onde você está?

— Aqui — o menino saiu de seu esconderijo e foi até Cat. — Pode me levar até a minha mamãe.

— Sim — então estendeu a mão para o garoto. — Mas você precisa confiar em mim, me chamo Nyx. — O menino segurou na mão dela e os dois correram dali.

Desceram as escadas rapidamente e chegaram perto de uma das saídas, no entanto, Cat notou que uma das pilastras estava cedendo e que não conseguiria levar o garoto para fora em tempo.

— Ei. — A garota se abaixou para ficar na altura dele. — Está vendo aquela saída? — Ela apontou e o menino respondeu em afirmativo com a cabeça. —, corra até ela e não olhe para trás.

— Mas e você?

— Quer ver sua mãe, não quer? — questionou e o garoto novamente acenou positivamente com a cabeça. — Então vá!

Então Cat se levantou e usou todas as suas forças para segurar a pilastra, enquanto o menino correu para o lado de fora, lá, ele encontrou alguns bombeiros, que logo o pegaram no colo e o levaram para uma ambulância.

— Gabriel — a mulher gritou e se aproximou do homem que segurava o seu filho.

— Mamãe — o menino desceu e abraçou a mãe. — Uma menina chamada Nyx me salvou, ela tá lá dentro.

Ed estava no meio da multidão procurando por Cat e conseguiu ouvir o que o menino disse. Cat estava dentro do prédio, que poderia desabar a qualquer momento. Ele precisava fazer alguma coisa.

O homem tentou correr para dentro do edifício, mas não conseguiu fazer isso a tempo, logo ele desabou e várias pessoas saíram correndo para fugirem da cortina de fumaça, exceto Ed que correu em direção do que agora eram escombros. Então, alguns blocos se moveram, Nyx conseguiu remover os escombros que estavam em cima dela e saiu dali, ela ficou bem em cima do que agora era entulho, o que chamou a atenção de todos ali.

— Foi ela que me salvou, mamãe — O pequeno Gabriel apontou para a garota que estava em cima dos escombros, Nyx. Várias pessoas pegaram seus celulares e registraram o momento, seja em fotos, ou em vídeos.

Então Cat percebeu que era a hora de sair dali, ela correu, se misturou no meio da multidão e desapareceu ali. Ed decidiu voltar para a caminhonete, na esperança de que Cat fizesse o mesmo. Depois de andar um pouco, ele encontrou Cat perto da caminhonete, ela segurava um dos braços que estava com uma queimadura, não era algo grave, mas ardia bastante.

— Você disse "Nada de Nyx" — disse se aproximando.

— O prédio estava pegando fogo e tinham pessoas ali, o que queria que eu fizesse? — A garota tentou tocar a queimadura, péssima ideia. — Ai. — Reclamou com a dor.

Ed pegou algumas ataduras, um galão de água e uma grande vasilha na parte de trás da caminhonete, ele abriu as portas, sentou-se no banco de trás e a garota fez o mesmo. Ele colocou bastante água na vasilha e mergulhou o braço de Cat ali, aquilo aliviaria a dor e ajudaria a limpar o ferimento.

— Onde aprendeu isso? — perguntou curiosa.

— Soldado — disse simples.

— O menino estava preso lá dentro, eu poderia salva-lo — argumentou. — Se eu não fizesse, ele estaria morto e a culpa seria minha.

— Não pode salvar todo mundo — Ele tirou o braço da garota da água e passou um algodão molhado em cima da queimadura. Então ele pegou uma pomada e passou por cima do ferimento, para ajudar com a dor.

— Mas podemos tentar, certo? — questionou enquanto Ed enrolava a atadura no braço dela.

— Não é assim que o mundo funciona — Terminou de enrolar a atadura e colocou uma fita em volta para prender a atadura no lugar. — Evite expor isso ao sol.

Em seguida, ele jogou a água fora, guardou todas as coisas que havia pego e então voltou para o volante, ainda tinham um longo caminho.

— Devemos nos conformar com o jeito que o mundo funciona, mesmo que esteja errado? — A garota questionou quebrando o breve silêncio.

— E como podemos fazer para muda-lo? — perguntou descrente. — Não temos poder para isso.

— Mas temos que tentar — insistiu.

— Por quê?

— Porque se não o fizermos então ninguém irá — argumentou.

***

Lindsay estava com muita fome. Ela entrou em uma lanchonete e pediu um lanche, enquanto o esperava, ela, assim como outros clientes, olhava para a televisão, que estava ligada em um canal de notícias, a âncora falava algo sobre a economia americana e era completamente ignorada pelos telespectadores, até que informou uma notícia que prendeu todas as atenções na televisão.

A cidade de Wakesha sofreu com um grande incêndio que quase virou uma tragédia — a repórter dizia, ela estava na frente dos escombros do prédio, com vários moradores curiosos atrás dela. — Logo que o incêndio começou, os moradores foram evacuados, mas alguns ficaram presos, foi quando essa garota, Nyx, apareceu. — Lindsay ficou curiosa com aquilo e decidiu também prestar atenção. — Ela liberou uma passagem nos fundos, pela qual vários moradores escaparam e ainda, ela resgatou um menino no sexto andar. — Então mostraram imagens de Nyx em cima dos escombros, todas elas feitas por celulares dos moradores. Lindsay não conseguia acreditar, era exatamente como o desenho de Cat, o uniforme era o mesmo.

A Nyx me salvou — dizia o pequeno menino entrevistado.

— Não pode ser... — Lindsay não conseguia acreditar. Cat estava viva, ela era a Nyx, ela salvava pessoas.

***

Quem também assistia aos noticiários era Grace, juntamente de Felícia e alguns agentes da Nexus.

— Essa garota é muito tonta — Grace comentou. — Ela praticamente disse "estou aqui, venham me pegar!"

— Ela não é tonta, na verdade, até que é espertinha — Felícia interviu. — Ela apenas tem uma necessidade muito grande de ajudar as pessoas e não consegue lutar contra isso.

— Um ponto fraco que podemos explorar — Grace completou e então se dirigiu aos agentes. — Ela não deve estar muito longe do local, achem-na. — E novamente sua atenção se voltou para Felícia. — Espero que não falhe dessa vez.

— Tem certeza que a Caitlyn é apenas uma garotinha? — questionou de maneira ácida. — Algo me diz que é muito mais.

— Por que diz isso?

— Porque ela te assusta — disse. — Ou talvez seja a irmã dela que te assuste. Me pergunto qual a razão?

— Eu não tenho medo de uma pirralha tonta — respondeu. — E para o seu próprio bem, espero que tema as pessoas certas.

— Não se preocupe, sei exatamente a quem temer — disse com uma expressão sombria. — E você? — A encarou por alguns instantes, antes de sair de perto.

Notas finais
Até semana que vem o/