HL: Blue Skies
5 Silent Night
Salvador – 1845
Adriano tinha 39 anos, mas aparência de 11. Havia conseguido uma informação de que Jack Smith, o homem que procurava, havia partido em 1807 em um navio para a Ilha da Madeira. Assim, Adriano conseguiu trabalho em um navio que ia para lá.
O navio estava para zarpar. Adriano havia conseguido um emprego nele como marujo. Agora teria que se despedir dos únicos amigos que tinha. Embora houvessem algumas nuvens, o imenso azul era dominante no céu tornando o horizonte convidativo.
— Vocês poderiam vir — Adriano sugeriu.
— Nós já temos nossa vida aqui, garoto, hora de você ter a sua, para onde quer que vá — Batista disse e segurou a mão dele. — Mas te desejamos boa sorte, sei que se dará bem do outro lado do oceano.
— E tome cuidado — Miguel disse. — Não terá mais a mim para te livrar de encrencas.
— Tomarei — Adriano prometeu e sorriu.
— Adriano — Batista pegou um terço e entregou para o garoto. — Para te acompanhar.
— É igual o que a minha mãe tinha — Adriano lembrou e sentiu-se nostálgico com aquilo.
— Então talvez já tenha começado com sorte.
— Marujo! — Um homem gritou para Adriano. — Ande logo ou ficará aqui!
— Bom, até mais — O menino abraçou os dois e então entrou no navio.
— Marujo — um homem o abordou. — Ajude a desamarrar as cordas.
Então o garoto se uniu aos outros marujos e começou a desamarrar as cordas que mantinham o navio atracado em terra firme. Logo que terminaram, o navio zarpou. Estava indo para um lugar muito longe e mal sabia o que o aguardava.
Quando o navio chegou na Ilha da Madeira, Adriano procurou por informações no porto e descobriu que em 1809, Jack Smith havia pego um navio que ia para Angola, e assim foi. Ao chegar lá, novas informações, ele pegou um navio para Lisboa, em Portugal.
Então Adriano conseguiu emprego em um navio que iria para Portugal e assim que o navio chegou a seu destino ele tentou conseguir informações no porto e descobriu que em 1813, o pai havia pego um navio para Marseille, na França.
O garoto se preparava para mais uma viagem. Era 1846, tinha quarenta anos, mas aparência de doze. Era outono, estava um tanto frio, pelo menos, ia um pouco além do que Adriano estava acostumado. Mesmo com os ventos, e as nuvens se juntando no céu, de alguma forma, o sol parecia brilhar no meio de algum azul.
— Excusez-moi — um francês o abordou por trás. — Ce navire va où?
— A menos que faça essa pergunta em português, não vou poder te ajudar — Adriano continuou carregando algumas caixas.
— Perdão — disse. — Sabe para onde esse navio vai em seguida.
— Sairemos amanhã para Marseille, fica na França — O menino colocou o caixote junto com os outros e voltou para perto do navio, onde um rapaz lhe entregou mais um caixote.
— Sabe se aceitam mais um na tripulação?
— Tem que falar com o Capitão — apontou para o homem no navio que estava conversando com um dos marujos. — Você tem um sotaque estranho.
— Sou francês, aprendi português há pouco tempo — explicou. — Seu sotaque não parece o de um português.
— Sou brasileiro.
— Ah sim — sorriu. — És o primeiro brasileiro que conheço.
— Não é o primeiro francês que eu conheço, mas é o primeiro que fala português — Adriano sorriu de maneira sarcástica.
— Obrigado pela ajuda, pequeno — Então o francês se afastou dele para poder conversar com o Capitão.
***
Adriano havia sido mandado a uma vila ali perto junto de outros marujos para entregarem uma encomenda. Após a entrega, eles decidiram dormir em uma hospedaria e ali ficaram até a madrugada do dia seguinte, quando levantaram, pagaram a conta e foram embora de volta para o porto.
No porto, ele ajudou a carregar algumas mercadorias de volta para o navio e teve a surpresa de reencontrar o francês ali, o ajudando.
— Conseguiu o que queria? — Adriano perguntou ao vê-lo.
— Sim, trabalharei no navio até chegarem a Marseille — O francês sorriu enquanto carregava algumas caixas.
— Que bom que tudo deu certo para você — O garoto continuou o serviço até que houve um problema com um guindaste.
Ele se soltou e quase caiu em cima de Adriano e dos que estavam perto dele, rapidamente, ele movimentou uma das mãos e fez com que o guindaste caísse fora do navio, em um lugar onde não poderia machucar ninguém. Olhou em volta para ver se alguém poderia ter visto o que visto, mas estavam todos tão distraídos com o guindaste e em verificar se nada havia sido perdido, que nem notaram a proeza do garoto.
Quando o navio finalmente partiu, as nuvens pareciam estar sumindo, deixando mais evidente o tom azul, embora o frio, pelo menos era o que Adriano sentia, continuasse ali.
***
Dias depois, já estavam todos em alto mar. Logo chegariam a Marseille. Ainda se falava muito do incidente com o guindaste, tentavam entender o que tinha acontecido para que ele não os atingisse. Alguns diziam que Deus havia providenciado aquele milagre para mostrar que aquele navio era abençoado. Benção ou não, a perda do guindaste ainda causou grandes prejuízos, mas ninguém havia se ferido.
Adriano limpava o convés enquanto o resto da tripulação jantava. Ele estava sendo punido por supostamente ter ido contra as regras. O céu, apesar de escuro, tinha um tom um tanto cinza, graças as nuvens, além do vento, que começara fraco, mas começava a ficar mais forte enquanto o tempo passava.
— Adriano — O francês o chamou e o entregou um prato de comida. Poderia ser punido por aquilo, mas não poderia ver uma criança passar fome.
— Obrigado, moço francês — Adriano pegou o prato e começou a comer.
— Me chame de Jacques.
— Vocês franceses têm nomes esquisitos — riu. — Jacques parece nome de menina. Vocês devem ser um povo estranho. Diria que até doido.
— Você provavelmente nunca deve ter conhecido um russo então — Jacques também riu. — Eles ultrapassam o nível da loucura conhecida.
— Acho que só saberei se é verdade se algum dia eu chegar a conhecer um russo — Terminou de comer e voltou a limpar o convés.
Então o navio começou a balançar mais que o normal, uma tempestade estava a frente. Todos no navio voltaram a seus postos, aquela era uma tempestade muito forte, poderia derrubar o navio.
Todos estavam bastante desesperados, não dava para controlar o navio. O vento era muito forte e raios estavam por toda parte, Adriano se escondeu dos outros e usou os poderes para que o navio não afundasse, o que lhe exigiu muito esforço. Depois de bastante tempo, finalmente a tempestade pareceu ter passado, então Adriano não precisou mais usar seus poderes, assim, desmaiou exausto.
Acordou no porão, que estava praticamente vazio, apenas ele e Jacques estavam lá.
— Você é um garoto muito corajoso — Jacques disse ao vê-lo acordando. — E meio doido.
— Do que está falando? — perguntou confuso. Então uma voz começou a falar na cabeça de Adriano. Uma voz igual a de Jacques.
"Posso estar na cabeça das pessoas"
— Isso é esquisito — Adriano não conseguiu evitar comentar aquilo, era realmente um tipo muito esquisito de poder, mas interessante.
— Quantos anos tem?
— Doze.
— De verdade? — Franziu a sobrancelha.
— Quarenta.
— Tenho Trezentos e Cinquenta e dois — sorriu como se fosse a coisa mais natural de todas.
— É sério? — Adriano desconfiou, só havia conhecido duas pessoas como ele, e mesmo assim, eles tinham idades normais como todos. Jacques era o primeiro que assim como ele, não tinha a idade que parecia ter.
— Sim, ao que parece, alguns de nós envelhece de maneira normal e outros, como eu e você, levam algum tempo.
— Quantos de nós existe? — Quis saber, curioso.
— Poucos, bem poucos, pelo menos, pelo que sei.
— Você conhece outros, além de mim? — Adriano continuou a perguntar, fascinado.
— Você é o terceiro que conheci até hoje.
— Você é realmente francês?
— Óbvio que sim — Fingiu-se ofendido com aquela pergunta.
— E o que fazia em Portugal? — Ficou curioso e um pouco intrigado.
— Eu tenho uma filhinha e precisava de dinheiro, então a deixei com uma conhecida e fui até Portugal para um trabalho — explicou. — E agora estou voltando para casa.
— Como surgimos? — Queria saber.
— Eu não faço ideia — respirou fundo. — Amanhã ou depois chegaremos em Marseille, irá querer ir comigo até em casa?
— Por que eu iria querer fazer isso? — Adriano não iria com alguém que conhecia há tão pouco tempo.
— Porque já deve estar cansado dessa vida de navio em navio.
***
Marseille – França
Quando o navio atracou, Adriano não sentia mais o clima do outono tão frio quanto algum tempo antes, talvez já estivesse familiarizado, ou talvez, o clima lá era apenas um pouco mais quente. O dia estava perto de amanhecer, com o céu em um tom azul de fim de madrugada. Logo que chegaram, Adriano e Jacques trabalharam com os outros para tirarem a carga do navio.
Ao fim do trabalho, Jacques se despediu dos outros marujos e foi falar com Adriano, que carregava uma última caixa.
— Última chance, garoto — ainda tentava convencer Adriano a ir com ele. Queria que o garoto estivesse mais seguro, algo que não aconteceria se ele continuasse naquela vida.
— Se eu não aceitei antes, por que aceitaria agora? — questionou cético.
— Porque a vida não tem que ser difícil, Adriano — argumentou. — Sei que passou por muita coisa durante esses anos, mas há tanto que pode saber ou presenciar.
— Desculpa, continuo aqui — Adriano ainda queria encontrar o pai. Pensou bastante, se deveria ir, Jacques parecia um homem legal, mas Adriano já tinha seus próprios objetivos.
Então ele logo tratou de conseguir uma informação no porto, mas o fato de não saber francês dificultou bastante.
— Quer ajuda? — Jacques se ofereceu, Adriano não poderia dizer não.
— Estou procurando um homem que deve ter estado aqui há uns trinta anos atrás — disse. — O nome dele é Jack Smith. — Então Jacques conversou em francês com um homem que trabalhava no porto, que lhe entregou um livro velho.
— Ele partiu para a Inglaterra em 1815 — disse e devolveu o livro para o homem. Então se dirigiu ao garoto. — É sua próxima parada?
— Sim.
— Eu vou me mudar para lá, posso conseguir uma passagem para que vá conosco — Jacques disse.
— Por que me ajudaria? — Questionou desconfiado.
— Porque a vida não precisa ser difícil, Adriano — explicou.
O garoto ficou pensativo por algum tempo, ele e Jacques iriam para o mesmo lugar, o homem parecia ser alguém bom, ele decidiu ir. A meta de Adriano é que aquilo durasse apenas até chegarem a Inglaterra, onde com sorte, o menino esperava finalmente encontrar o pai, ou apenas um destino.
Enquanto ele ia com Jacques, alguns pequenos e tímidos raios de sol começavam a aparecer, dando um fim cada vez mais definitivo à noite, pelo menos por um dia.
Dezembro de 1914
Aquele havia sido um período relativamente calmo. Algumas batalhas, mas nada como nos meses anteriores, provavelmente dos dois lados todos já estavam bastante desanimados. Entretanto, com a noite de natal se aproximando, o clima natalino parecia ter tomado conta das tropas.
Era noite de 24 de dezembro, embora o céu estivesse cheio de nuvens e a fumaça predominasse, era possível ver a luz da lua escondida, tentando iluminar o lugar, com algum sucesso.
De repente, uma visão deixou todos ali intrigados. Pequenas árvores de natal iluminadas por velas enfeitavam as trincheiras alemãs.
— Os Fritz tem bom gosto — Um britânico comentou. A surpresa aumentou quando um tenente alemão começou a gritar em um inglês perfeito.
— Senhores, minha vida está em suas mãos. Estou caminhando na direção de vocês. Algum oficial poderia me encontrar no meio do caminho? — Todos ali ficaram desconfiados. Poderia ser uma armadilha. — Estou sozinho e desarmado. Trinta de seus homens estão mortos perto das nossas trincheiras. Gostaria de providenciar o enterro.
Adrien e várias outras dezenas de soldados apontaram suas armas. Um Sargento inglês, contrariou ordens e decidiu conversar com o alemão. Depois de algum tempo de conversa ele retornou para a trincheira.
Combinaram de se encontrar no dia seguinte às nove da manhã, Michel não gostava daquilo, não confiava nos alemães, e ele não era o único, os franceses não tomariam parte naquilo.
No dia seguinte, vários saíram da trincheiras, todos carregando pás, depois de pensar bastante, Adrien decidiu ir com eles, para desgosto de Michel, que havia tentado convencê-lo a desistir. Henri estava neutro, também não gostava de toda aquela situação, mas entendia os que iriam se encontrar com os alemães.
E assim, os que saíram enterraram seus mortos, um capelão foi chamado para fazer um funeral coletivo. E assim, os corpos durante o funeral foram separados entre nacionalidades.
Finalmente, hora de cavar. Depois de colocar o corpo de um jovem soldado britânico em uma cova, Adrien decidiu ajudar um alemão com o enterro de outro corpo, os dois tiveram uma breve conversa em alemão. Todos estavam se ajudando com os enterros, era algo bastante inusitado, eram inimigos, estavam em guerra, entretanto, estavam ali enterrando seus mortos juntos.
Mas logo a situação se tornaria ainda mais inusitada, após os enterros, alguns soldados britânicos e alemães aproveitaram a trégua para jogarem uma partida de futebol.
— Adrien — Um alemão o chamou. — Vai jogar? — Perguntou em alemão.
— Como sabe que eu falo alemão? — questionou.
— Vi você falando com outro soldado — explicou. — Onde aprendeu alemão?
— Conheci um Fritz uma vez antes da guerra — disse.
— Ah sim — respondeu. — Vai jogar?
— Sim, Adrien, venha jogar — Um britânico o chamou.
— Eu não sei jogar — Adrien justificou tentando sair daquilo.
— Nós te ensinamos — O britânico disse ainda tentando convencê-lo.
— Prefiro ficar aqui — Era a decisão final de Adrien, que apenas ficou ali observando o jogo.
Assim, alemães, e britânicos jogaram uma partida de futebol, a bola era uma lata de conserva vazia. O jogo estava empatado em 2x2, quando um britânico marcou um terceiro gol, garantindo a vitória do "time" deles.
— Gutes Spiel, Englishmen — um alemão disse em uma mistura de inglês e alemão ao fim do jogo.
Tenentes dos dois lados conversaram e decidiram que a trégua continuaria no dia seguinte. No fim do dia, todos voltaram para as trincheiras e Adrien ficou conversando com os amigos.
— Eles não são ruins, pelos menos, não tão ruins — Adrien disse. — Eles estão seguindo ordens, como nós.
— Eles são nossos inimigos, devíamos estar atirando na cabeça deles — Michel argumentou.
No dia seguinte, soldados das duas trincheiras, pelo menos os britânicos e os alemães, já que os franceses ficaram de fora, se reuniram e conversaram sobre vários assuntos. Tinham mais em comum do que com os homens que os comandavam. Estavam, literalmente, confraternizando com o inimigo. E isso se seguiu por alguns dias, soldados inimigos confraternizando um com o outro. Em um dos dias, um britânico se ofereceu para fazer cortes de cabelo em troca de cigarros, independente se fosse aliado ou inimigo. Adrien precisou percorrer bastante o lugar até conseguir que lhe dessem alguns cigarros. Então, ele os trocou por um corte de cabelo, e pela noite, ficou de guarda na trincheira, com Michel e Henri próximos dali.
— Corte legal, Adrien — Michel disse de maneira irônica. — Espero que continue nessa trincheira e não na deles. — Disse se referindo aos alemães.
— Quer mesmo começar uma briga a essa hora? — Adrien questionou já cansado das reclamações de Michel.
— Sabe, se não fosse o meu amigo eu o denunciaria como um traidor — Michel disse. — Eles invadiram a Bélgica como selvagens. Quer dizer para aquelas mulheres e crianças que os homens que as atacaram "não são tão ruins assim"?
— Por deus, Michel — Adrien respirou fundo se segurando para não socar o amigo.
— Por deus digo eu, Adrien — Michel o interrompeu. — Você precisa decidir, ou você serve o seu país ou o trai e continua confraternizando com aqueles alemães.
— Michel, não acha que está exagerando? — Henri decidiu intervir.
— Exagerando? — Michel questionou. — Podemos dizer aquelas crianças belgas que elas também estavam exagerando, o que acham?
— Chega — Adrien respirou fundo novamente. — Vamos apenas continuar de guarda e cumprir o nosso dever, por favor.
— Ah sim, finalmente você se lembrou que tem um dever a cumprir — Michel disse e enfim decidiu se afastar.
Pouco depois, soldados de ambos os lados receberam ameaças de seus superiores, dizendo que iriam para corte marcial se não parassem com as comemorações, assim, ninguém mais saiu para confraternizar. Mas ainda naquele clima natalino, ambos os lados se recusavam a atirar, permanecendo sem conflitos por algum tempo.
No ano novo, Adrien e outros soldados ouviram tiros da trincheira alemã e se abaixaram, achando que era um ataque, mas logo perceberam que estavam atirando para o alto e isso os fez se levantar. Estavam comemorando o ano novo.
— Feliz ano novo, Fritz — um britânico gritou.
— Para você também — alguns alemães responderam do outro lado.
Então os soldados dali tiveram uma ideia. Adrien, assim como alguns soldados britânicos, pegou algumas armas e atiraram para o alto para comemorarem o ano novo.
— A guerra para acabar com todas as guerras — Adrien disse e riu daquilo, era a primeira vez que acreditava naquela frase.
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