HL: Blue Skies
6 Inferno de Fumaça
Marseille – França – 1846
Adriano tinha quarenta anos, mas aparentava apenas doze. Ele acompanhou Jacques até uma pequena e humilde casa perto do porto, o garoto ficou confuso sobre o porquê da visita. O dia havia acabado de amanhecer, com o sol radiante no céu, embora houvessem nuvens que pareciam tentar esconder o azul.
— Jacques — chamou. —, o que estamos fazendo aqui?
— Vim buscar a minha filha — explicou, então os dois encontraram uma mulher e Jacques começou a falar em francês com ela.
Não demorou para que a filha de Jacques, a pequena Marie, saísse do quarto onde estava e visse o pai ali.
— Papa! — A menina correu para abraçar o pai, que logo correspondeu.
Jacques e Marie conversaram animados em francês, ao que Adriano não conseguia entender nada. A conversa continuou até Marie notar o menino ali. Ela fez uma pergunta ao pai e em seguida se aproximou do desconhecido.
— Je suis Marie — ela estendeu a mão para Adriano, que ficou confuso.
— Essa é Marie, minha filha.
— Jo suísno Adriano — Ele apertou a mão dela tentando falar em francês e fracassando.
— Il est un plaisir de vous rencontrer — Marie disse. — Où êtes-vous?
O menino não sabia o que responder, ele não entendia nada em francês, foi necessário que Jacques explicasse para Marie que o garoto não falava francês. Assim, após isso, a menina se despediu da mulher e foi junto com o pai e Adriano para a casa que ele mantinha perto dali.
Jacques avisou algo em francês para Marie e logo foi falar com Adriano.
— Vou comprar as passagens para o navio, amanhã partiremos — explicou. — Comportem-se. — Em seguida, ele saiu deixando as duas crianças sozinhas.
A garota pegou um mapa do mundo e o mostrou para Adriano, ela apontou para o mapa e para o garoto, fazendo com que ele entendesse que ela queria saber de onde ele era.
— Brasil — então ele apontou para onde era o Brasil no mapa.
— Loin!
Não demorou para que Jacques chegasse e mostrasse as três passagens para elas.
— Vamos para a Inglaterra. — Em seguida ele repetiu em francês, para que a filha entendesse. — Iremos amanhã de manhã no porto, Adriano, preciso que preste atenção.
— Sim.
— Se alguém perguntar, você é francês, seu nome é Adrien e você é mudo — então ele repetiu o mesmo para Marie.
— Oui papa — Marie concordou.
— Por que mudo? — questionou.
— Porque você não sabe falar francês e seria complicado demais explicar o que estou fazendo com uma criança brasileira — disse. — Vou tentar te ensinar francês e inglês durante a viagem.
***
Ainda nem havia amanhecido quando Jacques saiu de casa acompanhado de Marie e Adriano, os três carregando malas. Não demorou para que chegassem ao porto e embarcassem.
Dividiriam a cabine deles com vários outros franceses e britânicos. Todos eles falavam ou em francês ou em inglês, fazendo com que Adriano não entendesse nada do que estava sendo dito.
— Quem são esses? — Um britânico perguntou em inglês apontando para Adriano e Marie.
— Está é minha filhinha, Marie — Jacques disse em francês apontando para a filha, em seguida ele apontou para Adriano. — Este é Adrien, meu sobrinho, ele não fala muito.
— Olá Marie — E olhou para Adriano. — Olá Adrien. — O garoto não sabia o que dizer, ele deveria permanecer mudo como Jacques lhe dissera.
Assim, ele abaixou a cabeça assim como Marie havia feito antes. Eles partiram quando o dia já havia amanhecido, com o sol no brilho da manhã, pronto para mais um dia.
A viagem não foi longa, mas foi tempo suficiente para que Jacques conseguisse ensinar algumas palavras em francês e inglês para Adriano, que aprendeu facilmente, embora as falasse com um sotaque forte e as vezes se esquecia das palavras.
E finalmente, chegaram. Adriano, com seu inglês bastante carregado em um sotaque, conseguiu informações no porto e descobriu que o pai nunca mais saiu em um navio dali, pelo menos, não trabalhando em um navio. Também conseguiu descobrir o último endereço registrado do pai, em Londres.
Assim, o menino partiu em mais uma viagem, dessa vez por terra, até Londres. Assim que chegou, Adriano não conseguiu esconder sua decepção com o lugar, que, pelo menos visualmente, não o agradara. A fumaça dominava o céu cinzento e o clima era mais frio do que o garoto estava acostumado.
O menino acompanhou Jacques e Marie até a casa de um amigo do mais velho, que os acolheria por um tempo. Logo que chegaram lá foram recebidos de braços abertos por um simpático velhinho.
— Jacques — O velho abraçou o homem. — Você finalmente chegou! — Então ele olhou para as crianças, e ajoelhou para ficar no tamanho de Marie. — Você deve ser a pequena Marie. — E olhou para Adriano. — E você?
— Eu... — Estava em dúvida se usava o nome verdadeiro ou o que deram no navio.
— Pode usar o nome que quiser, garoto — Jacques disse ao ler a mente do garoto. — Afinal é uma vida nova.
— Posso escolher um nome? — Olhou para Jacques e para o velho.
— Sim.
— Bom, Adriano é meu nome de nascimento e eu gosto dele, mas... — hesitou. — Teoricamente, Adriano é um velho.
— Um velho? — O senhor ficou em dúvida.
— É uma longa história — Jacques disse. — E o nome que te dei no navio, Adrien?
— Eu não gosto muito — Fez uma careta. — 'Adriene' é nome de menina. — Então foi a vez de Marie fazer uma careta.
— Em inglês a pronúncia é Eidrian — Jacques explicou.
— Ainda não gosto — Novamente fez uma careta. — Que tal Edmundo? Gosto de Edmundo.
— Em inglês fica Edmund — explicou.
— Então vai ser Edmund — decidiu.
— Mas podemos te chamar de Ed, para facilitar as coisas — Marie decidiu.
— Então, Edmund — O velho repetiu. — Ed, ficará conosco?
— Acho que não, preciso achar o meu pai — explicou. — Eu descobri um possível endereço, quero ir amanhã mesmo.
— É uma pena, Ed — disse. — Uma criança sempre trás um espírito de alegria.
— Mas eu também posso trazer — Marie interviu um pouco emburrada pela a atenção dada a Adriano, que agora era Edmund/Ed. — Posso trazer o suficiente para dois, caso o Adriano vá mesmo embora.
— Não sei não, eu sou insubstituível — O garoto fez questão de levantar o rosto e empinar o nariz, apenas para irritar a menina.
— Ah sim, realmente, ninguém é tão convencido como você — E sorriu de maneira sarcástica sem deixar de encarar o garoto, que demorou para responder.
— Fala a própria rainha dos convencidos — rebateu.
— Como eu disse, crianças sempre trazem um espírito de alegria — O velho interviu rindo. — Vamos, vou mostrar o quarto de vocês, eu não sabia que o pequeno viria, então teremos que improvisar quanto a ele.
— Não sou pequeno — protestou. O velho mostrou um quarto onde Adriano e Marie dormiriam com outras sete crianças que moravam naquela casa.
Não demorou para que os três recém-chegados terminassem de arrumar suas coisas. Mais tarde, a esposa, as filhas e os filhos do velho chegaram e cumprimentaram Jacques, Marie e Adriano/Edmund.
Mais à noite, todos se reuniram na mesa para o jantar, a conversa estava bastante animada, todos ali queriam saber sobre os estrangeiros.
— Mary — A esposa do velho a chamou.
— Marie — corrigiu.
— O que está achando da Inglaterra?
— Eu não sei ainda, acabei de chegar — Marie respondeu.
— Gostei do seu penteado — A mais velha de treze anos, Margareth, comentou. — Pode me ensinar depois?
— Sim — A menina sorriu.
— A menina é simpática — A senhora comentou. — A madame para quem trabalho iria adorá-la, com certeza a contrataria.
— Não — Jacques disse rapidamente. — Não quero que a Marie trabalhe.
— Entendo, está em seu direito — A senhora concordou e olhou para Adriano. — Edmund, e você?
— Ah, eu não ficarei muito aqui, devo encontrar meu pai logo — disse em sotaque carregado.
— Seu sotaque é estranho — um dos rapazes comentou.
— Ele aprendeu o inglês faz pouco tempo — Jacques explicou.
— É uma pena que vá embora garoto — O velho disse. — Poderíamos ser amigos.
— Mas ainda podemos ser amigos — disse. — Vou sempre visitar vocês. — Então ele terminou de jantar. — Eu terminei, posso ir ao quarto?
— Sim, é claro — A senhora concordou e Adriano saiu da mesa.
Ele entrou no quarto e fechou a porta para que ninguém o escutasse. Ele pegou o terço que guardava consigo e se ajoelhou.
— Senhor Deus, obrigado por me trazer a Inglaterra e por colocar o Jacques, a Marie e tantas pessoas legais no meu caminho. Por favor, amanhã, me ajude a achar o meu pai e que ele seja tão legal quanto o Jacques, abençoe toda a família que mora nessa casa, que o Jacques e a Marie tenham uma vida muito boa. Amém.
Ele se levantou e logo depois Marie entrou no quarto o surpreendendo.
— O que está fazendo — O menino perguntou surpreso.
— Vim falar boa noite — Marie justificou. — Vai mesmo atrás do seu pai amanhã?
— Sim.
— Acha que vai encontrá-lo? — observou-o esperando uma reação.
— Espero que sim — Estava otimista.
— Bom, então boa sorte — sorriu simpática. — Boa noite, Adriano... Edmund.
— Boa noite, Marie.
***
No dia seguinte, Adriano acordou bem cedo, assim como todos os que estavam na casa. Ele logo se arrumou e saiu juntamente do velho que o acompanharia até perto do endereço que havia sido indicado para Adriano.
Ao chegarem, o velho se despediu do garoto e partiu para o trabalho, deixando Adriano/Edmund ali. Então o garoto seguiu a casa indicada no endereço e bateu na porta, quem atendeu foi uma senhora. O céu, como no dia anterior, estava cinzento e a fumaça realmente incomodava o menino, mesmo assim, ainda era possível visualizar algum azul no horizonte.
— Posso ajudar? — A velha perguntou confusa ao ver o garoto ali.
— Estou procurando Jack Smith — explicou.
— Não conheço ninguém com esse nome — disse.
— Tem certeza, talvez ele seja o proprietário anterior — disse na esperança de que a velha lembrasse de alguma coisa.
— Eu sinto muito, mas não consigo me lembrar de ninguém — respondeu. — O proprietário anterior se chamava William. — Então Adriano suspirou desanimado, havia chegado tão longe para nada.
— Obrigado — O garoto decidiu ir embora.
— Espera — A velha o chamou quando ele estava indo embora, fazendo com que o garoto voltasse. — William mora aqui perto, talvez ele saiba algo desse Jack.
— Onde ele mora? — quis saber.
A velha indicou o caminho e então o garoto agradeceu e foi até o endereço do tal William e encontrou um homem saindo da casa.
— Moço! — chamou e foi até ele.
— Diga logo, garoto — disse impaciente.
— Estou procurando por um homem, o nome dele é Jack Smith — explicou e William ficou apreensivo. — O conhece? — Viu o homem permanecer em silêncio. — Ele já trabalhou em um navio vindo da França, antes disso em Portugal, antes disso em Angola, antes disso na Ilha da Madeira, antes disso em Salvador, no Brasil.
— Ele parece ser do tipo que viaja bastante — comentou.
— Sim — "Eu também viajei bastante" pensou. — Mas o conhece?
— Bom... — Olhou o garoto. — Preciso que entre. — Assim, os dois entraram na casa que era bastante simples, tudo estava bastante sujo e empoeirada e haviam roupas e garrafas de bebidas quebradas espalhadas. — Por que está procurando esse Jack?
— É assunto de família — disse simples.
— De onde veio? — quis saber.
— De um lugar muito longe — respondeu de maneira vaga por não saber qual seria a verdadeira resposta.
— Por que está atrás do Jack?
— Eu já disse, é assunto de família — insistiu. — Sabe ou não sabe onde ele está?
— Me responda primeiro — Ele foi até o garoto, segurou-o pelo pescoço e o levantou. — O que quer com o Jack?
— Me solta! — disse sufocado.
— Me responda! — gritou.
— Ele é meu pai — soltou. — Minha mãe disse que o nome do meu pai é Jack Smith!
— Sua mãe deve ser uma vadia mentirosa! — disse entre dentes e continuou a sufocar o garoto, que ficou enfurecido com aquilo.
— Não, ela não é — Uma faca voou e quase atingiu o homem, que precisou soltar o menino.
Assustado, Adriano tentou fugir pela porta, mas antes que conseguisse chegar nela, uma faca passou perto dele e quase o atingiu. Ele olhou para trás e viu o tal William em pé com a mão esquerda levantada. Ele havia feito aquilo, era ele, Jack.
— Desculpe por isso — Ele andou na direção do garoto, que recuou para trás ainda sem acreditar. — Eu te assustei, não foi?
— Você tentou me matar — soltou.
— Eu não tentei te matar — justificou. — Só usei um método avançado de interrogatório.
— Tortura? — questionou. — Não acredito que atravessei o oceano por isso.
— Todo mundo faz alguma coisa estúpida alguma vez na vida — disse. — Acredito que seja meu filho, mas, eu não entendo. A sua idade é completamente incompatível com qualquer romance que eu tenha tido, especialmente um que tenha sido do outro lado do oceano.
— Eu sou mais velho do que pareço — explicou. — Tenho quarenta anos.
— Então você é filho da... — Fazia tempo que o homem não ouvia falar em Cecilia. — Pelo visto temos muito em comum. — William, ou Jack, envelhecia bastante devagar, assim como Adriano e também controlava metais.
— Só os poderes — disse em português e só depois percebeu. — Não temos nada em comum.
— Ei, calma — disse. — Eu já pedi desculpas. — Puxou uma cadeira e se sentou. — Como está a Ceci?
— Ela morreu — disse com pesar, fazia bastante tempo, mas ainda doía.
— Ah... — Ele não sabia o que responder. — Por que veio de tão longe atrás de mim?
— Antes de morrer minha mãe disse o seu nome — explicou. — O marido da minha mãe nunca gostou de mim e tentou me matar, mas o meu irmão me protegeu.
— Você tem um irmão? — perguntou surpreso.
— Sim, o Carlos é filho da minha mãe e o marido dela — explicou. — Mas o marido da minha mãe, o Joaquim, ele tentou me matar de novo, aí eu fugi.
— Mas vir até aqui, meio longe do Brasil, não? — questionou.
— Sim, mas eu não tinha muito o que fazer — justificou. — Acho que eu precisava de um objetivo, pelo visto devia ter arrumado um melhor.
— O que esperava? Que eu o recebesse de braços abertos? Filhinho — debochou. — Entenda, a vida é decepcionante, uma merda. As únicas coisas boas nela são bebida e mulheres bem bonitas. Contanto que não te encham a paciência querendo casar.
— Querendo casar — Não conseguia acreditar. — Minha mãe disse que vocês iriam fugir juntos.
— Sim, a vidinha dela era chata e ela era bonita — disse. — Uma hora quando eu estivesse cansado dela seguiríamos rumos diferentes.
— Você a desonraria assim? — Não conseguia acreditar, Jack era bastante parecido com Joaquim, era uma decepção.
— Se quer chamar assim — respondeu.
— Ela te amava.
— Entenda, garoto — Fitou-o nos olhos. — Não existe essa coisa de amor, é uma coisa inventada para encher a cabeça de menininhas idiotas. — Adriano não conseguia acreditar naquilo, Cecília amava os filhos, Carlos amava Julieta, assim como amava os filhos. — De qualquer forma se sua mãe tivesse conseguido fugir, quando nosso romancezinho acabasse ela seria uma mulher livre com o mundo inteiro pela frente, e provavelmente fora daquele país com clima infernal.
— Ela teria sido desonrada, não poderia voltar para a casa, para a família dela — disse ainda sem acreditar que aquele era o pai dele. — E ela estava grávida, qual acha que seria o futuro dela?
— Você é tão chato quanto uma freira, moleque — zombou. — Mas para compensar sua longa viagem, te pago uma bebida.
— Para que eu vire um bêbado idiota como você? — devolveu.
— Tem sorte de ser o meu filho, ou teria acabado com você por ter dito isso — respondeu. — Espere aqui um pouco. — Ele se afastou para procurar algo e Adriano conseguiu ver de longe, uma barra de ouro em cima de uma mesa, ele a atraiu até a sua mão e a escondeu no bolso. Logo William voltou e lhe entregou uma moeda. — Para não dizer que deixei um filho meu desamparado.
— Não espere que eu diga obrigado, certo? — perguntou guardando a moeda. — Você tem espírito — Jack riu. Adriano tentou ir embora, mas William o impediu. — Eu não sei o seu nome.
— É Adriano — E em seguida foi embora, tudo o que lhe restava era voltar para Jacques. Considerava Marie sortuda por ter o que ele considerava "o melhor pai de todos".
No caminho para voltar para a casa do velho, começou a chover, não existia azul no céu. Mesmo assim, ele continuou andando até acabar encontrando Jacques, que retornava de uma busca por emprego.
— Adriano — foi até o garoto, mesmo com a chuva atrapalhando sua visão. — Desculpe, Edmund. Achou o seu pai?
— Queria não ter achado — disse cabisbaixo, sentiu que sua jornada foi inútil. Logo Jacques leu a mente dele e descobriu o que havia acontecido.
— Sinto muito — disse. — A Marie vai ficar feliz em te ver.
— Sim — o garoto sorriu fraco.
Então Jacques descobriu sobre a barra de ouro e ficou preocupado.
— Adriano — lançou um olhar repreensivo. — Eu sei o que você fez.
— O quê? — fingiu estar confuso.
— Adriano... — e o garoto percebeu que não conseguiria mentir.
— Ele mereceu! — justificou.
— Não pode roubar ninguém, por pior que essa pessoa seja — repreendeu. — Você não é um Robin Hood.
— Mas ele...
— Não há justificativas — interrompeu. — Não pode ficar com a barra.
— Mas precisamos dela — tentou justificar.
— Não precisamos de algo roubado — disse. — Especialmente se foi roubado de alguém que tem poderes para te matar.
— Desculpa — pediu de cabeça baixa ao perceber o que fez.
— Moleque desgraçado! — Jack gritou e foi até eles, atravessando a chuva. — Ladrãozinho desgraçado. — Ele tentou pegar o garoto pela gola, mas foi impedido por Jacques que se colocou entre eles.
— Saia da frente — Tentou empurrar Jacques que se manteve firme ali — Isso é entre mim e meu filho.
— Não existe nenhum documento que comprove tal paternidade então não precisa se dar ao trabalho de tentar que eu sei que você nem o faria de qualquer maneira.
— Quem você pensa que é?
— Eu sei que não sou um idiota — Então olhou para Adriano. — Devolve. — Mesmo chateado com aquilo, o garoto o obedeceu e devolveu a barra de ouro para Jack. Jacques novamente olhou diretamente para o homem. — Agora vá gastar em alguma merda inútil.
— Eu deveria te dar uma lição — Jack fechou os punhos.
— Você queria, mas você vai voltar para a merda da sua casa e continuar com a merda da sua vida.
Adriano ficou chocado e surpreso com aquilo, não só por como Jacques conseguia se impôr, mas pela quantidade de palavrões que ele dizia.
"Ou você pode escolher terminar sua vida de merda aqui e agora se não sair da vida do garoto." Disse mentalmente para Jack, que entendeu que aquele era o poder de Jacques.
— Franceses — resmungou. — Sempre metidos e arrogantes. — Fez questão de olhar para Adriano. — Nunca mais entre no meu caminho. — E foi embora, desaparecendo no meio da chuva e da fumaça.
— Desculpe por isso — Adriano estava envergonhado, não só pelo que fez, mas também pelo "pai".
— Está tudo bem — sorriu fraco. — Pais podem ser decepcionantes. — Lembrou-se do pai, mas logo tratou-se de suprimir as lembranças. — Prometa que nunca mais roubará.
— Prometo — disse fitando Jacques nos olhos, que considerou aquilo suficiente.
— Vamos — disse. — A Marie vai ficar feliz em vê-lo.
E assim, ambos foram embora embaixo da chuva, mesmo com o céu completamente coberto pelas nuvens completamente cinzas, alguns pequenos raios de sol tentavam atravessar essas nuvens. Adriano havia, enfim, achado um destino, uma família, só não era a que ele esperava.
1915
A batalha estava intensa, o céu estava cinza, tudo parecia cinza. Michel, Henri e Adrien corriam no meio do campo de batalha tentando não serem baleados ou pegos pelos alemães. Eles se esconderam atrás do que já havia sido a parede de uma casa e tentavam pensar no que fariam a seguir.
— Alguma ideia? — Michel perguntou ofegante.
— Não seja morto, essa é a ideia — Adrien também estava ofegante.
De repente, quando um soldado alemão atirou contra Henri, em um impulso, Adrien usou os poderes para desviar a bala, deixando Henri, Michel e o soldado alemão surpresos por razões diferentes.
— Adrien — Henri não sabia o que dizer. Perto dali, o soldado alemão, paralisado pela confusão, levou uma bala perdida. — O que foi isso?
— Bom, para resumir, não sou normal.
Os três precisaram se esconder para não levarem um tiro.
— Esse não é o melhor momento para falarmos disso. — Adrien disse sem soltar a arma.
— Eu sempre achei que fosse o único — Henri disse surpreendendo os colegas.
— Você é como o Adrien? — Michel perguntou surpreso. Mais tiros corriam pelo ar.
— Esse realmente não é um bom momento — Adrien disse mais preocupado com os tiros dos inimigos do que com a discussão.
— Temos dois soldados que podem mudar o rumo da guerra, mas que são egoístas demais para isso — Michel disse frustrado. Mais tiros de todos os lados.
— Você não pode estar falando sério — Henri não gostava nada daquilo. — Ajudar um país a matar um monte de inocentes é algo altruísta?
— Poderiam acabar com a guerra nesse momento e evitar a morte de mais inocentes — Michel argumentou.
— Qual é o problema de vocês? — Adrien perguntou e os tiros continuaram.
De repente, o caos piorara. Um cheiro estranho o lugar e se espalhava rapidamente, Michel olhou em volta e percebeu alguns soldados sufocando, uma fumaça que se aproximava, era um gás. Agora eram tiros e gás.
— Merda — Michel disse ao perceber que acabariam sufocando ali se não corressem.
Os três então correram, assim como vários outros soldados, todos tentando escapar do gás, e ao mesmo tempo dos tiros, que continuavam chegando.
— Não vamos conseguir — Henri disse enquanto corria. Foi quando Adrien teve uma ideia.
— Vão! — Adrien disse parando de correr. — Eu cuido das balas. — E foi direto de encontro ao gás, foi quando Henri também parou de correr e Michel o olhou surpreso.
— O que está fazendo? — Michel perguntou confuso.
— Vá! — Henri gritou.
— E você?
— Vou ajudar aquele maluco!
Então Henri correu até Adrien que estava usando os poderes para desviar as balas, ele estava com algumas bolhas na pele e sufocando quase que completamente.
— O que está fazendo? — Adrien questionou com dificuldade ao ver o amigo.
— Te salvando, idiota — Henri finalmente usou os poderes para desviar o gás, e enfim, Adrien conseguiu respirar, mas por estar bastante fraco, acabou desmaiando.
Adrien acabou acordando no acampamento, estava em uma maca médica com algumas partes do corpo enfaixadas. Ele estava bastante confuso, seus pensamentos completamente embaralhados, assim como suas memórias.
— Olha quem acordou — Henri entrou no local acompanhado de Michel. — Vaso ruim não quebra, não é mesmo?
— O que aconteceu? — perguntou confuso.
— Você quase morreu — Henri disse com certa naturalidade. Michel olhou em volta para ver se havia alguém que poderia escutá-los.
— O que fez foi corajoso — Michel sussurrou.
— Foi meio idiota — Henri comentou. — Mas valeu a intenção.
— O que importa é que está vivo — Michel completou.
— Nós ganhamos? — quis saber.
— Não — Henri respondeu. — Mas poderia ter sido pior.
— Olá — James disse entrando no local e se colocando ao lado de Henri e então olhou para Adrien. — Você está bem?
— Bom, eu estou vivo — Adrien coçou a cabeça confuso. — Você é o James, certo? — Decidiu confirmar, só havia o visto uma vez então precisava ter certeza de que aquele era mesmo o nome.
— Sim — James confirmou. — Bom ver que a sua memória continua firme.
— Não tinham te mandado para outro lugar? — Adrien perguntou confuso.
— Eles mandaram que o James voltasse — Henri explicou e Adrien estranhou a rapidez daquilo. —... por alguma razão na qual ele não está autorizado a contar.
— Quanto tempo fiquei apagado? — Adrien decidiu perguntar.
— Dois dias — Michel respondeu rapidamente e Adrien o olhou descrente.
— Na verdade, foram três — Henri corrigiu.
— Três? — Adrien não conseguiu esconder o quão espantado estava.
— Foi uma sorte você ter sobrevivido — James comentou. — Pelo que me falaram, você e o Henri tiveram bastante sorte em conseguir saírem vivos daquela fumaça tóxica, qualquer outro no lugar de vocês teria morrido.
— Sim… sorte — Adrien resmungou e olhou para Michel e Henri, os três sabiam que havia sido muito mais que sorte e teriam que guardar aquele segredo entre si.
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