HL: Blue Skies
7 Auld Lang Syne
1850
Aquela não era uma manhã comum, era o aniversário de Marie, e Jacques queria fazer algo especial para a filha. Por algum milagre, o céu, que costumava estar sempre cinza com a fumaça o cobrindo quase completamente, parecia mais limpo naquele dia, era até mesmo possível ver algum tom de azul.
Ele, Marie e Adriano, que agora se chamava Edmund, moravam em uma casinha que tinha vários buracos no telhado. Ed tinha 44 anos, mas continuava a aparentar 12. Jacques comprara o lugar com suas economias. Ele passava o dia inteiro trabalhando em uma fábrica enquanto as crianças ficavam em casa.
Naquele dia, depois do trabalho, Jacques pegou o dinheiro que juntava há meses e comprou um bolo, além de um presente para a filha e depois foi para casa, onde encontrou Marie e Edmund, que estavam o esperando.
— Olha só o que eu trouxe — Jacques mostrou o bolo para a filha que ficou animada, ela pegou o bolo e o colocou em cima de uma mesa. — Também trouxe isso. — Mostrou uma caixa de presente amarrada com um laço. Marie abriu a caixa e encontrou um livro, havia gastado todas as suas economias naquilo.
— É lindo, papai — Ela abraçou Jacques que correspondeu. — Obrigada.
— Eu também tenho um presente — Edmund disse tímido. — Já vou buscá-lo.
Edmund foi ao quarto buscar o presente de Marie, que ficou curiosa com aquilo. Logo, ele voltou com um pássaro de metal. Haviam dobradiças nas asas, nas patas e no bico, para que pudessem se mexer quando manuseadas.
— É lindo — Marie pegou o pássaro impressionada. — Quanto tempo ficou trabalhando nisso?
— Não muito.
Marie olhou cética para Edmund, que percebeu que não foi convincente o suficiente.
— Seis meses — contou. — Três foram para achar as peças.
— Usou os seus poderes para fazer isso? — Jacques perguntou curioso.
— Sim — respondeu. — Para remoldar o metal. Foi difícil fazer com que ficasse na forma certinha de um pássaro, as dobradiças também deram uma dor de cabeça.
— Ficou lindo — Marie disse novamente.
— Sim — Jacques concordou. — Você tem talento.
— Sim — Marie concordou. — Você devia ser um artista e fazer esculturas de metal, ganharia bastante dinheiro e seria famoso.
— Não — Edmund se recusou. — Só o pássaro já deu trabalho o suficiente. — Aquilo fez os outros dois rirem.
— Bom, é melhor cortarmos o bolo — Jacques pegou algumas velas que estavam guardadas e uma faca para cortar o bolo, enquanto Marie e Edmund decidiram pegar os pratos.
Após isso, eles voltaram para a sala, depois de Jacques colocar as velas no bolo e acendê-las, os três cantaram parabéns e quando terminaram, Marie apagou as velas e Jacques cortou o bolo e Marie pegou um pedaço.
— O primeiro pedaço vai para o papai — A menina entregou o pedaço para o pai, em seguida, ela pegou mais um pedaço de bolo e o entregou para Edmund. — Ed, o segundo vai para você porque não tem mais ninguém aqui.
24 de Dezembro de 1850
Era véspera de natal, Jacques, Marie e Edmund comemorariam o natal com os Wright, que havia os acolhido quando chegaram na Inglaterra.
Quando era meia noite, todos se reuniram e foram para uma igreja próxima dali para a missa da meia noite. Depois de alguns anos, Marie e Edmund haviam se acostumado ao natal britânico. Ambos, Marie e Jacques, eram católicos, enquanto na Inglaterra boa parte da população era Anglicana, para Marie o choque não foi tão grande porque ela já conhecia algumas das tradições, mas Edmund, que antes havia apenas passado seus natais no Brasil, estranhou várias das tradições no começo. Eles sempre usavam todas as economias do ano no natal.
Após a missa, todos voltaram para a casa de Wright. Edmund era, com certeza, o mais velho das crianças, embora não aparentasse. Ele não acreditava no Santa Claus, ou Papai Noel, como as outras crianças, mas pela boa convivência, ele decidiu fingir que acreditava.
Na manhã seguinte, as crianças acordaram bem cedo para verem seus presentes. Marie havia ganhado mais um livro, já que tinha interesse em colecioná-los, e Edmund ganhou um novo par de sapatos. Após ver seu presente, Marie foi até a filha mais nova de Wright.
— Desculpa por ter puxado o seu cabelo e te chamado de ratinha. — Era uma tradição que Marie sempre levava consigo, fazer as pazes com seus desafetos no natal, ou apenas pedir desculpas por algo ruim que tenha feito.
Após isso, todos vestiram suas melhores roupas. Então todos saíram e foram cantando canções natalinas de porta em porta. Após passarem por todas as casas da região, eles voltaram e começaram a arrumar tudo para a ceia de natal.
No jantar, a mesa estava com apenas o suficiente para que todos ali se alimentassem, embora tivessem que deixar um pouco para depois. O peru, acompanhado de vegetais e batata assada, obviamente o prato principal, seu recheio parecia uma farofa e o peru estava coberto com um caldo de carne, era o jantar mais caro do ano e ele precisava durar dias.
***
31 de dezembro de 1850
O ano novo estava à espreita. A casa de Wright fora invadida novamente pela cantoria. Todos cantavam Auld Lang Syne, pouco antes da meia noite, Jacques precisou sair para cumprir uma tradição. Todos ali acreditavam que a sorte do próximo ano dependeria de quem fosse o primeiro a passar pela porta, e todos consideravam Jacques uma ótima escolha, assim, ele saiu e assim que fosse ano novo, ele seria o primeiro a entrar e traria boa sorte.
Todos os que ficaram lá dentro começaram a cantar novamente Auld Lang Syne, mas dessa vez, com os braços cruzados na frente do corpo e apertando as mãos da pessoa ao lado.
E finalmente, meia noite, fogos de artificio foram soltos por toda a parte. Jacques voltou e cumpriu a tradição sendo a "primeira visita". Era uma noite feliz e todos torciam para que aquele ano fosse tão feliz quanto.
***
Meses depois...
Aquele estava sendo de fato, um bom ano para Edmund e para aquela que agora era sua família. Jacques estava indo bem no trabalho na fábrica, embora tivesse que trabalhar por muito tempo e recebesse pouco, mas pelo menos tinha um emprego. Marie continuava crescendo como as outras crianças, enquanto Edmund também crescia, embora em seu próprio ritmo, ele ainda parecia ter 12 anos.
Aquele era mais um dia comum no meio da semana, Jacques saiu bem cedo para trabalhar e deixou Edmund e Marie sozinhos em casa com alguma comida guardada para que comessem ao longo do dia. O céu naquele dia parecia estar ainda mais cinza e cheio de fumaça do que de costume.
Marie frequentemente lia os poucos livros que tinha, eles eram muitos especiais para ela, ela os relia sempre, e as vezes, lia em voz alta perto de Edmund, quando tentava irrita-lo. Frequentemente, ela o ensinava a escrever em francês e inglês, e em troca, ele devia ensina-la a lidar com matemática.
Ao final do dia, esperaram Jacques voltar, como sempre fazia, porém, as horas passaram e nem sinal dele. Ele nunca se atrasava, as crianças sabiam que algo estava errado. Mais tarde, ouviram batidas na porta e tiveram esperanças que fosse Jacques, porém, ao abrirem a porta, encontraram o velho amigo, Wright.
— Ah, olá senhor Wright — Marie cumprimentou desanimada.
— Marie, Edmund — Olhava fixamente para as crianças. — Podemos conversar?
— É sobre o papai? — Marie questionou. — Ele está atrasado hoje.
— É exatamente sobre isso que vim falar — seu tom de voz, assim como seu olhar, estava pesado, e Edmund notou aquilo.
— Senhor Wright, o que aconteceu? — O garoto sabia que era algo ruim.
— O que eu tenho para dizer não é fácil — Respirou fundo.
— Diga — Marie pediu, seu coração estava acelerado e suas mãos suavam.
Então começou a explicar, havia acontecido um incêndio na fábrica, Jacques tentou ajudar na evacuação de alguns que ficaram presos, mas acabou asfixiando com a fumaça e não resistiu, Wright quem havia encontrado seu corpo. As duas crianças ficaram abaladas com a noticia, Edmund não sabia o que sentir enquanto Marie não conseguia acreditar.
— Isso é mentira — A menina gritou. — Mentiroso! — Ela correu para o quarto e foi seguida por Edmund que tentou falar com ela. — Isso é mentira. — Disse em prantos. — O papai vai voltar para casa.
Em um impulso que não conseguiu entender, Edmund abraçou Marie, que correspondeu, ela chorava bastante e o garoto acabou deixando escapar algumas lágrimas.
***
1915
Era mais uma tarde em um dia de guerra, James havia sido chamado pela manhã por um tenente e estranhamente, ainda não havia retornado.
Logo, Adrien, Henri e Michel também foram chamados pelo mesmo tenente para o acompanharem, não lhes foi dito a razão daquilo, tiveram que andar bastante até chegarem a algum tipo de bunker, onde encontraram um General e fizeram questão de fazer as continências militares necessárias.
— Isso não é necessário. — O General os observou. — Soube de seus feitos.
— Você soube? — Adrien ficou preocupado.
— Sim — confirmou. — Henri e Adrien ficaram no meio de um ataque de gás clorídrico e sobreviveram — disse. — Adrien fala vários idiomas, incluindo alemão, e Michel é um ótimo piloto.
— Eu sou? — Michel estranhou aquilo, haviam o proibido de pilotar um avião por não o considerarem um bom piloto, aquilo estava estranho.
— Não se subestime, rapaz — sorriu. — Seu pai se chama Pierre Chermont, correto?
— Sim — Estranhou aquilo ainda mais.
— Eu conheci ele, é um bom homem — contou. — Ele teria orgulho de você.
— Desculpe, senhor — Adrien decidiu interromper. — Por que nos chamou?
— Andei estudando vocês — Aquilo preocupou os três soldados e o general pareceu notar aquilo. — Sei que Henri veio do campo, Michel é de boa família, Adrien... não sei muito de seu nascimento, mas sei que é um bom rapaz. Alguns pensavam que você era um espião alemão, já estavam preparados para prendê-lo, mas eu não acreditei nisso.
Então James entrou no local, deixando Henri, Michel e Adrien ainda mais surpresos com tudo aquilo.
— Fiz mais pesquisas, investiguei mais, e descobri que você, Adrien, viajava por vários países, em vários navios, trabalhando com comércio marítimo, mas se aquietou nesse último ano, isso explica o porquê de você saber outros idiomas — O general os encarou por alguns segundos antes de continuar. — Eu acreditei que não eram espiões, mas precisava ter certeza, e por isso, chamei James de volta. — Ele apontou para James, vendo os outros soldados ainda mais surpresos. — Pedi para que ele ficasse de olho em vocês, especialmente em Adrien, para confirmar se eram espiões ou não.
— Mas… — Henri olhou confuso para James. — Você disse que era piloto.
— Eu sou um piloto — James confirmou. — Mas também trabalho com espionagem.
— James apenas confirmou o que eu já sabia — O General decidiu continuar. — Nenhum de vocês é um espião, pelo menos, não ainda.
— O que quer dizer? — Adrien questionou.
— Tenho uma missão a oferecer, uma bastante arriscada, mas muito importante para os rumos da guerra.
— O que seria? — Michel quis saber.
— Existe um espião russo, nossos melhores desapareceram ao tentarem pegá-lo — explicou. — Ele traiu os russos repassando informações valiosas para os alemães e os austríacos, e quando foi descoberto, fugiu para a Alemanha, onde continua a repassar informações para os alemães, ele tem pessoas infiltradas por todo o lado, parece algum tipo de homem com vários tentáculos. Mandamos vários homens atrás dele, alguns voltaram apenas os cadáveres, outros nem isso.
— E você quer que nós vamos atrás dele? — Henri não gostava nem um pouco daquilo.
— O nosso erro foi mandar espiões que pareciam espiões — explicou. — O russo e seus tentáculos conseguiam vê-los de longe, estava sempre um passo à frente.
— E como poderia ser diferente dessa vez? — Adrien questionou cético.
— Porque diferente dos outros, pelo menos em comparação ao grande esquema das coisas, vocês três são apenas ninguém — disse. — Um fazendeiro, um comerciante e um garoto — Ele respondeu e Michel ficou incomodado por ter sido chamado de "garoto". — Pessoas como esse homem tendem a não notar quando um ninguém entra, estão mais preocupados com os que parecem espiões. Vocês vão até o russo e o derrubarão.
— Então nossa missão é derrubar esse russo? — Michel questionou.
— Senhor — Adrien o chamou antes que pudesse responder. — Somos soldados, não espiões.
— E soldados seguem ordens, incluindo essa — respondeu rapidamente. — Eu vejo talento em vocês, rapazes, provem que estou certo. — E olhou para James. — James os levará até perto do local onde o Russo está no momento, de lá, deverão esperar instruções do Contato de vocês.
— E quem é o Contato? — Michel decidiu perguntar.
— Por razões de segurança vocês só podem descobrir quando já estiverem na Alemanha — O General explicou.
— Nós vamos para a Alemanha? — Adrien questionou incerto sobre aquilo, em teoria, ele era francês, assim como os outros soldados ali, pior, era um Soldado a serviço dos franceses, o pior lugar em que poderia estar naquele momento era a Alemanha.
— Sim, é onde o espião está.
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