Notas iniciais
Mais um capítulo que ficou maior do que deveria, desculpem, de verdade, também tentei dividir esse, mas ficaria estranho se dividisse, especialmente considerando a estrutura dos capítulos. Esse capítulo deveria ter sido postado semana passada,mas tive uns imprevistos e só consegui postar agora então peço perdão

1865

Já haviam se passado quatorze anos desde a morte de Jacques. Depois do triste evento, o Sr. Wright começou a cuidar das crianças, "como Jacques iria querer".

Marie tinha 24 anos de idade e trabalhava como empregada na casa de uma família abastada. Já Edmund, tinha 59 anos, mas parecia ter apenas 15, ele trabalhava em uma fábrica com Wright, onde ele tinha uma amiga de nome Emília, que deveria ter por volta de uns 16 anos.

No final daquele dia de mais um céu cinzento e canstivo, Edmund estava voltando para casa e no caminho acabou encontrando Marie acompanhada de um rapaz que usava um terno elegante.

— Marie? — perguntou, por alguma razão que não conseguia explicar, ele não gostava daquilo.

— Ah, Edmund — Marie ficou feliz em vê-lo.

— Quem é ele? — Edmund apontou para o rapaz ao lado de Marie.

— Este é Robert, filho da minha patroa — explicou. — Robert, esse é o meu irmão mais novo, Edmund.

— É um prazer conhecê-lo, Edmund — Robert estendeu a mão para cumprimentar Edmund, mas o garoto não correspondeu. — Resolvi acompanhar sua irmã em casa, espero que não tenha problema.

— Não — Edmund tentou disfarçar seu incômodo com aquela situação. — Não tem problema, obrigado por acompanhá-la.

— Eu que agradeço — Então Robert olhou para Marie. — Até mais, Marie.

— Até — Marie deu um sorriso tímido e Robert partiu. Incomodado, Edmund apenas entrou e Marie decidiu ir atrás dele. — Está tudo bem?

— Por que ele decidiu acompanhá-la? — questionou desconfiado.

— Ele apenas quis ser gentil comigo — A moça justificou.

— Apenas isso? — O garoto estava desconfiado.

— Sim — E foi a vez de Marie ficar incomodada. — Está insinuando alguma coisa?

— Não — respondeu rapidamente. — Apenas me preocupo.

— Não confia em mim? — Ela questionou.

— Claro que confio em você — respondeu. — Mas não confio nele.

— Não tem com o que se preocupar — disse. — Robert é apenas gentil, apenas isso.

***

No dia seguinte, novamente, Edmund estava voltando do trabalho, desta vez acompanhado da colega, Emília, ela tinha em volta dos dezesseis anos e também trabalhava na fábrica. Até que foi abordado por uma senhora, que a julgar pelas vestes, era aristocrata. Ela estava acompanhada por um senhor igualmente bem vestido.

— Edmund? — A senhora perguntou. — É este o seu nome?

— Quem é você? — O garoto perguntou.

— Meu nome é Brigitte Fergunson — se apresentou. Edmund conhecia aquele nome, era o mesmo da patroa de Marie

— É algo sobre Marie? — perguntou preocupado.

— Sim, é — E olhou para Emilia, que apenas assistia aquilo. — Posso conversar com você, Edmund?

— Vou encontrar meu irmão, Ed — Emilia disse para sair dali de perto. — Até mais. — E ela foi embora, deixando Edmund a sós com Brigitte e o homem ao lado dela.

— Esse é meu irmão, Timothy — Brigitte apontou para o homem ao lado dela. — Recentemente, descobrimos algo muito sério.

— Diga — pediu ainda mais preocupado.

— Acredito que sua irmã está tendo um caso com meu filho — Brigitte informou, deixando Edmund surpreso.

— O quê? — questionou perplexo.

— Como irmão dela, sei que se preocupa e que fará o possível para manter a honra dela — Brigitte disse e Edmund recebeu aquelas palavras como um tiro.

— A honra da minha irmã — Aquilo deixou o garoto um tanto incomodado, mas Edmund se conteve. — Se está insinuando algo, diga logo de uma vez.

— Apenas certifique-se de cuidar melhor de sua irmã — A mulher disse em um tom um tanto arrogante e de maneira que parecia superior.

— Façamos um trato, madame — Edmund decidiu que não abaixaria a cabeça para aquilo. — Você não me diz como eu devo cuidar da minha irmã e eu não te digo como educar seu filho.

— Como é, rapaz? — Ficou surpresa com a "petulância" do rapaz.

— É exatamente o que ouviu, senhora — Edmund fez questão de enfatizar o 'senhora'.

— Com licença, rapaz... — Disse ofendida e foi interrompida por Edmund.

— Com licença a senhora — disse ríspido. — Vem até mim para falar de minha irmã e espera que eu fique calado?

— Eu esperava que fosse um cavaleiro — Ela respondeu. — Mas pelo visto nem isso dá para esperar do seu tipo.

— Meu tipo? — O garoto questionou. — Saiba que meu tipo quer ficar longe do seu.

— Já disse o que tinha para dizer, o que fará é problema seu — Então Brigitte segurou no braço do irmão. — Adeus rapaz. — E os dois foram embora.

***

Edmund apressou-se para chegar logo em casa e quando finalmente chegou, encontrou o Sr. Wright, os filhos de Wright e Marie.

— Marie, podemos conversar? — O rapaz perguntou ao ver a irmã.

Os dois foram até o lado de fora para que pudessem ter privacidade e fecharam a porta.

— Que história é essa de que está tendo um caso com o filho da sua patroa?

— Como soube disso? — questionou.

— Sua patroa veio falar comigo — explicou. — Você está bem? Ele fez algo com você?

— Não, ele é respeitoso comigo — disse. — Ele prometeu que jamais faria algo que ferisse a minha honra.

— Só o fato dele estar tendo um caso com você já fere a sua honra — respondeu. — São promessas vazias.

— Mas ele é sincero comigo, posso garantir.

— Ele é um bom mentiroso — resmungou.

— Edmund — Ela o repreendeu. — Robert não é como o seu pai.

— Ele... — respirou fundo, o garoto não gostava que Jack fosse mencionado. — Jack não é meu pai.

— Desculpa — pediu ao perceber o que disse. — Mas eu amo Robert e ele me ama, eu não vou largá-lo.

— Se é assim que quer, não posso te obrigar a nada — Deu-se por vencido. — Mas quero que pense em você, e se ele realmente te ama.

— Não se preocupe, Edmund — Ela colocou uma mão sobre o ombro do irmão. — Eu sei me cuidar.

***

No dia seguinte, Marie saiu para trabalhar, mas logo que chegou encontrou Brigitte à sua espera.

— Madame — a cumprimentou de maneira formal, tentando ser a mais educada possível.

— Precisamos conversar — Brigitte disse fria. — Vou direto ao assunto, não precisamos mais de seus serviços.

— Fiz algo errado, madame? Algo que não limpei direito? — quis saber.

— O problema em questão é que eu queria uma empregada, não uma prostituta — Aquilo deixou Marie brava.

— Você me chamou...

— Você ouviu bem — Fez questão de interrompê-la. — Agora vá enquanto lhe resta um pouco de dignidade.

Sem pensar muito, Marie apenas deu um forte tapa no rosto de Brigitte. A jovem então percebeu que poderia estar em maus lençóis se a agora ex-patroa decidisse chamar as autoridades.

— O que está acontecendo? — Era Robert, completamente pego de surpresa com aquela cena.

— Já estou indo — Marie tentou ir embora, mas Robert a impediu.

— Indo aonde? — Robert questionou.

— Não precisamos mais dos serviços da Senhorita Marie — Brigitte disse ríspida.

— Você a demitiu? — Robert não conseguia acreditar.

— Eu estou indo — Marie então deixou o local e foi seguida por Robert.

— Marie, espere — Ele foi atrás da moça.

— Robert — Brigitte chamou o filho, que a ignorou e foi atrás de Marie.

— Marie — Robert a alcançou. — Você não precisa ir embora, eu te recontrato.

— Não — Marie se recusou. — Não vou mais me sujeitar a isso.

— Marie...

— Não vou ser sua amante e trabalhar na sua casa.

— Mas Marie, eu te amo...

— Se ama mesmo então faça uma escolha — virou-se e foi embora.

***

Dias depois, Edmund, Marie e a família de Wright estava jantando quando ouviram alguém bater à porta e, rapidamente, Edmund atendeu, encontrando Robert.

— O que está fazendo aqui? — Edmund perguntou ríspido.

— Edmund, vim para conversar com sua irmã.

— Conversar? — Edmund não conseguia acreditar. — Sorte a sua ser mais alto que eu ou lhe dava uma lição, maldito.

— Edmund, sou sincero quando digo que amo a sua irmã.

— Edmund — Marie decidiu intervir. — Deixe ele falar.

— Tem certeza? — perguntou e a irmã lançou lhe um olhar que praticamente lhe respondia com um “sim”. Então o rapaz olhou para Robert. — Diga logo.

— Marie — Robert olhou para ela. — Eu estive pensando... e está certa... não pode continuar sendo minha amante. — Disse, Marie ficou confusa. — Eu te amo, e sei que me ama, então... — Colocou a mão no bolso procurando por algo e logo mostrou-lhe um anel com uma pequena pedrinha de diamante. — Você quer casar comigo?

— Eu... — A moça respirou fundo pensando naquilo tudo. Ela olhou para Edmund, e voltou a olhar para Robert. — Sim, claro! — Ela beijou o agora "noivo" apaixonada antes de voltar a olhar para o irmão, então ela novamente olhou para Robert que colocou o anel em seu dedo. — Venha, preciso te apresentar aos outros. — Os três entraram e Marie colocou o noivo frente a frente aos Wright e o apresentou a eles, que pareciam felizes por ela.



No dia seguinte, Edmund saiu cedo com Wright para trabalhar. Na caminhada para o trabalho, Wright precisou fazer um desvio para resolver algo, deixando Edmund sozinho quando ele encontrou Emília.

— Bom dia, Ed — Ela disse animada, mas logo notou que algo estava errado. — Aconteceu alguma coisa?

— Minha irmã está noiva.

— Isso é muito bom — comentou e viu a feição preocupada do amigo. — Não é?

— Eu não gosto do noivo dela — confessou. — Não quero que Marie sofra.

— Mas se ela ama ele, e ele a ama, e esse noivado é certo, não vejo porque se preocupar.

***

Mais tarde, ao fim daquele exaustivo dia de trabalho, Edmund havia acabado de sair da fábrica acompanhado de Emília quando eles acabaram encontrando Brigitte.

— Ah não — Edmund resmungou. — De novo não.

— Então sabe o que vim conversar.

— Se for o que estou pensando, perdeu a viagem — Foi ríspido e tentou ir embora.

— Você também concorda que isso é loucura e não pode ir em frente.

— Se vai em frente ou não, é escolha deles — disse.

Por mais que Edmund não gostasse de Robert, ele jamais faria algo que pudesse magoar Marie.

— Eles se amam e estão decididos, nada do que fizer mudará isso.

— Esse casamento nunca dará certo — Brigitte argumentou. — Eles são de classes sociais tão diferentes, será um escândalo

— Mas quem deve decidir se dará certo ou não são os noivos — Emilia decidiu interferir.

— Mocinha, não interfira no que não lhe diz respeito — Brigitte disse ríspida a garota.

— Madame, primeiramente, Emilia é minha amiga mais estimada, tudo o que diz respeito a mim também diz respeito a ela — O garoto respirou fundo. — E quero que entenda de uma vez por todas, tudo o que quero é que minha irmã seja feliz, e qualquer um que faça algum mal a ela, terá meu profundo ódio — Edmund usou um tom de ameaça. — Talvez até mais.

— Edmund — Emilia disse chocada.

— Está me ameaçando? — Brigitte questionou sem conseguir acreditar.

— Entenda como quiser — Edmund a ignorou e foi embora, seguido por Emilia.

— Edmund — a garota o chamou. — Não sei se isso foi uma boa ideia.

— Eu já não aguento mais essa mulher — Edmund disse. — Com esse arzinho de superioridade, protegendo o filhinho mimado dela como se minha irmã fosse algum monstro.

— Ela é uma aristocrata, eles são assim.

— Maldita hora que a Marie resolveu se casar — resmungou. — Tomara que aquele idiota a faça feliz para compensar tudo isso.

***

Mais tarde naquela noite, Edmund, Marie e os Wright estavam jantando quando ouviram batidas na porta e Edmund atendeu, se surpreendendo ao encontrar Jack, que também parecia surpreso em vê-lo.

— Adriano? O que está fazendo aqui? — Jack questionou surpreso ao ver o filho.

— O que você está fazendo aqui? — Edmund fez questão de enfatizar o "você".

— Estou atrás de um Edmund — explicou. — Conhece?

— Sou eu — estranhou.

— Mas seu nome não era Adriano? — questionou estranhando aquilo.

— Fala logo o que você quer — pediu ríspido.

— É melhor você vir até aqui — Os dois saíram da casa para que os Wright não escutassem. — Você está com algum problema envolvendo aristocratas?

— O quê? — Edmund não conseguia pensar em quem poderia ser, até que lembrou da mãe de Robert. — Maldição.

— Então sabe de quem estou falando — E decidiu continuar. — Essa senhora, Brigitte Fergunson, disse que você a ameaçou e me pagou para dar-lhe uma surra.

— O quê? — Edmund não conseguia acreditar.

— Mas como estou muito orgulhoso de você, posso fingir que te bati e você finge que ficou assustado — disse deixando Edmund ainda mais confuso.

— Está tentando me ajudar? — questionou em dúvida.

— Sim, achava que você era um tanto fracote, mas me enganei, você desafiou aristocratas, foi meio estúpido, mas é algo que eu teria feito quando mais jovem — explicou.

— O que está acontecendo? — Era Marie, que estava atrás de Edmund.

— Marie... — Edmund tentou pedir que ela voltasse para dentro, mas Marie tratou logo de interrompê-lo.

— Senhor — Olhou para Jack. — O que faz aqui?

— Fui pago para dar uma surra no... — Olhou para o garoto. — Edmund.

— O que? — Ficou chocada.

— Ele ameaçou uma senhora — explicou. — Uma bem importante e com muito dinheiro.

— O quê? — perguntou novamente e olhou para o irmão. — Edmund.

— A mãe de Robert veio atrás de mim — explicou. — Ela queria que eu separasse vocês. — Ele desviou o olhar para Jack, o “pai”. — O que você vai fazer?

— Nada, eu já fui pago mesmo — respondeu. — O resto vocês resolvem com a madame. — E olhou para Marie. — Posso conversar com o garoto?

Marie olhou para Edmund antes de olhar novamente para Jack e se afastar deles.

— Você gosta dela? — Jack perguntou se referindo a Marie.

— Quem? — Edmund perguntou antes de entender. — Ela é minha irmã.

— Irmã? — Ficou surpreso. — Então é tudo uma questão de família.

— Sim — respondeu ríspido.

— Quantas famílias teve? — questionou. — Essa é a segunda ou a terceira?

— Que tal você ir embora e nenhum de nós discutirmos sobre as nossas vidas? — Edmund disse.

— E o lê mentes, cadê ele? — Jack perguntou e viu Edmund permanecer em silêncio, entendeu que algo havia acontecido. — Ela é sua irmã, então... entendi.

— Obrigado pela ajuda, senhor Jack, passar bem — Edmund tentou se despedir, mas Jack o segurou pelo braço.

— Aviso de alguém que está aqui há mais tempo — disse. — Cuidado com os endinheirados, os poderosos, uma luta com eles nunca acaba bem, isso quando não estão apenas brincando. — Olhou para Marie que estava longe, antes de soltar Edmund e ir embora. Assim, o garoto decidiu ir até a irmã, que estava inconformada.

— Isso não pode ficar assim — Marie disse inconformada.

— Marie — Edmund tentou falar com ela, mas viu a irmã tomar um rumo para ir a algum lugar e foi atrás dela. — Aonde vai?

— Vou resolver isso logo de uma vez — Estava decidida, ela iria até a casa da família de Robert, dar logo uma resolução para aquilo.

— Você vai lá a essa hora? — Edmund questionou, era um caminho longo e não muito seguro até a propriedade da família de Robert.

— É agora ou nunca.

Edmund decidiu acompanha-la para que não fosse sozinha e depois de muito tempo andando, finalmente chegaram e Marie bateu à porta, sendo atendida por uma empregada, Marie entrou repentinamente, acompanhada de Edmund, enquanto a outra empregada tentava fazê-los ir embora, Brigitte foi até a entrada ver o que acontecia e se deparou com os visitantes.

— Vá embora, não temos assuntos pendentes — Ela tentou coloca-los para fora, mas Marie manteve-se firme ali.

— É aí que você se engana — Marie disse disposta a continuar ali.

— Se quiser falar sobre qualquer coisa, saia e entre pela entrada de serviços — Brigitte disse, mas Marie continuava irredutível.

— Eu estou aqui para falar com o meu noivo e a família dele e é isso o que vou fazer — permaneceu ali. — Robert! — Gritou.

— Marie? — Ele perguntou surpreso ao encontra-la. Ele estava acompanhado do pai e da irmã mais nova, de quinze anos.

— Esses são os modos da sua noiva? — Brigitte perguntou com desdém.

— Não, madame — Marie olhou para Brigitte. — Esses são os modos de alguém cujo irmão você mandou surrar.

— Fizeste o quê, mamãe? — Robert ficou boquiaberto.

— Vai acreditar nesta calúnia? — questionou ofendida.

— Acha que eu mentiria sobre isso? Marie questionou encarando o noivo. Em seguida, ela olhou para o irmão. — Edmund, conte a eles.

— Um homem chamado... — Lembrou que não deveria dizer o verdadeiro nome do pai. — William, nos conhecemos na fábrica. — Mentiu, era melhor do que contar que ela filho de Jack, ou William. — Ele foi até em casa e disse que Brigitte o pagou para que me desse uma surra.

— É com esse tipo de gente que a família de sua noiva anda? — Brigitte questionou com tom de deboche.

— Então confirma que foi você? — Robert questionou incrédulo.

— É claro que não, isso é um absurdo — Aumentou o ar ofendido. — Essa é uma calúnia criada para jogar você contra mim, eu, que sou sua mãe.

— Eu vi com meus próprios olhos — Marie afirmou.

— Você não tem provas, está mentindo — Brigitte acusou.

— Eu tenho — Edmund se manifestou. — Eu sei onde o William mora, ele pode provar a história.

— Isso é um absurdo — Brigitte protestou.

— É mesmo? — Marie questionou. — Então vamos até a casa desse tal William e confrontar a verdade, se for mentira eu peço desculpa e desapareço de suas vidas.

— Mamãe — Robert a encarou.

— Fiz pelo seu bem — Brigitte justificou.

— Mamãe — Robert não conseguia acreditar. — Ele é apenas um garoto.

— Ele não parecia ser apenas um garoto quando me ameaçou — justificou.

— Você estava propondo que eu arruinasse a felicidade de minha irmã — justificou.

— O quê? — Robert ficou confuso.

— Ela queria que eu ajudasse a separa-los — Edmund explicou, Robert ficou surpreso.

— Isso... — Robert tentava procurar as palavras certas. — já chega!

— Eu estava tentando te salvar — Brigitte justificou.

— Eu concordo com Robert — o Sr. Fergunson decidiu interferir. — Isso foi longe demais.

— O quê? — Brigitte ficou chocada.

— Nosso filho já é adulto, deixe-o decidir por conta própria!

— Esse tipo de escolha? — questionou. — Viu como eles são? Vai mesmo deixar assim?

— Ele quer se casar com ela, não vejo problemas nisso — ele respondeu.

— Nosso filho merece coisa muito melhor — Brigitte protestou.

— Ele tem idade para ter plena consciência do que merece ou não — respondeu. — Não é mais uma criança.

— Essa é sua palavra final? — Brigitte questionou.

— Não, a palavra final é minha e de Marie — Robert interviu. — As vidas são nossas, somos nós que estamos nos casando e exijo que minha noiva seja respeitada por todos nessa família. — Encarou a mãe. — Todos.

— De mim ela tem todo respeito no mundo — O pai de Robert disse.

— Sempre gostei de Marie — A irmã de Robert se manifestou. Todos os olhares se voltaram para Brigitte.

— Já vi que é uma causa perdida — Brigitte sentiu-se derrotada. — Farei de tudo para manter a harmonia familiar.



26 de Dezembro de 1865

O casamento de Marie e Robert estava marcado para a primavera do próximo ano, desde o grande desentendimento de meses antes Brigitte não tentara mais nada contra o noivado, embora ainda não o aceitasse. Como as duas famílias iriam se unir, Robert achou uma grande ideia Marie, Edmund e a família de Wright irem na ceia de natal na casa dele.

Assim, perto do final da tarde, Marie, acompanhada de Edmund e a família de Wright, apareceu na casa de Robert, usando seu melhor vestido. Enquanto Edmund usava um terno que um dia havia sido de Jacques, o terno era largo em alguns lugares, mas Marie havia o ajeitado para que servisse em Edmund.

— Belo vestido — Brigitte elogiou ao ver a nora.

— Obrigada — Marie tentou sorrir da maneira mais simpática que conseguia. — Eu mesma fiz.

— Percebi — Brigitte sorriu desdenhosa e se afastou.

— Você deve ser uma excelente costureira — A irmã de Robert, Diana, elogiou. — Já tentei fazer um vestido uma vez, mas foi um desastre. Você seria uma ótima estilista.

— Gosto mais de livros que vestidos para ser sincera — Marie sorriu fraco.

— Compreendo — Diana riu e olhou para Edmund. — E você?

— Trabalho com máquinas — sorriu fraco.

— Há algo que goste muito? — Ela quis saber.

— Sou bom com metais — disse sarcástico.

— Edmund as vezes é um artista — Marie comentou. — Já me esculpiu um pássaro uma vez.

— Um escultor? — Diana perguntou impressionada.

— Foi só uma vez — respondeu envergonhado. — É muito trabalhoso.

— Pode esculpir algo para mim algum dia — Diana sorriu.

— Isso provavelmente não vai acontecer — Edmund sorriu um pouco irônico.

Logo, todos se reuniram a mesa para a ceia, com certeza a mais farta da vida de Edmund, Marie e os Wright, claro que Brigitte viu como a oportunidade perfeita para alfinetar Marie e a família.

— Vejo que gostaram da comida — Brigitte disse. — Entendo, provavelmente nunca provaram algo assim.

— Na verdade, eu já provei sim — Marie disse. — Meu pai fazia de tudo por mim e uma vez ele me levou a um lugar onde serviam uma comida deveras parecida com essa, ele acabou com todo o dinheiro dele, mas fez para me ver feliz.

— O seu pai parece um grande homem — O pai de Robert comentou.

— Ele era sim — Edmund sorriu de maneira singela ao lembrar-se de Jacques.

— Sim, parecia ser um pai bastante preocupado em dar o melhor aos filhos, na medida do possível para a situação de vocês — Brigitte respondeu. — Também sempre fiz questão de dar o melhor a meus filhos, inclusive dar-lhes cultura, Robert estudou na França, e pretendo mandar Diana para passar um tempo lá, para aprender a ser uma dama.

— Marie nasceu na França — Wright comentou rapidamente. — Fala francês de maneira fluente.

— Oui — Marie sorriu.

— Sente saudades da França? — Diana perguntou curiosa.

— Sinto saudades do tempo que morava lá sim — A moça respondeu. — Assim como sinto do meu pai.

— Do que o pai de vocês morreu? — O pai de Robert quis saber.

— Em um incêndio — Marie respondeu em um tom um tanto triste.

— Não é bom falar sobre os mortos na mesa — Brigitte interviu. — Especialmente na ceia de natal.

— Você também sente saudades da França, Edmund? — Diana quis saber.

Edmund pensou por alguns instantes, não pensava muitas vezes nos outros lugares que esteve, especialmente a França, ele não esteve lá por muito tempo, não sentia realmente saudades daquele ou de outro lugar. Da França tinha saudades de Jacques, do Brasil sentia saudades da mãe, do irmão, até dos sobrinhos.

Perguntava-se como eles estariam naquele momento. Provavelmente estariam bem grandes, maiores que ele. O irmão, talvez sentisse raiva por ele ter ido embora. A mãe, há muito tempo morta, pensava bastante nela, sentia muitas saudades, de acordar de manhã e encontrá-la, de na hora do almoço no armazém poder vê-la, à noite, quando ela o colocava para dormir, mas não antes de rezar.

Lembrava como a mãe era forte, apesar de tudo, queria ser forte como ela, determinado como ela, mesmo que fosse dificil.

— Edmund? — Diana o chamou tirando de seus pensamentos.

— Sim, eu sinto — Ele respondeu simples.

— Percebi — Ela riu rapidamente.

***

Pouco tempo depois, a vida voltava ao normal para Edmund, que saiu bem cedo para trabalhar. Ele comentava com Emilia sobre o natal, ele não gostava de Robert ou da família dele, Emilia apenas ouvia atentamente.

— Mas você não gosta de ninguém mesmo? — Emilia questionou.

— Sei lá, a tal Diana não parece ruim — Edmund precisou admitir.

— Claro, tinha que ser uma garota — Emilia resmungou.

— Por que diz isso? — Edmund questionou confuso.

— Sabe, sua irmã já vai se casar com um deles — Emilia disse. — Talvez você quisesse deixar tudo em família e casar com a irmã dele, sabe?

— Eu nunca me casaria com um deles — Edmund logo disse. — Especialmente ela, garotas ricas são encrenca.

— Não sei, o irmão dela será seu cunhado, com certeza não iria se opor — Emilia continuou a fazer insinuações, deixando Edmund intrigado.

— Por que está falando todas essas coisas? — questionou tentando entender aquilo.

— É a verdade — Emilia respondeu, Edmund apenas apressou o passo, sem falar com ela, visivelmente incomodado com a conversa.

No horário de saída, Edmund tentou evitar Emilia, que mesmo assim, conseguiu encontra-lo e decidiu falar com ele.

— Ainda está bravo comigo? — Ela questionou e ele não a respondeu. — Me desculpe, não quis ofendê-lo.

— Não ofendeu — resmungou.

— Então por que está bravo comigo? — Ela continuou a perguntar.

— Porque pensei que fosse minha amiga, mas estava errado — Continuou a andar e ela o seguiu.

— Me desculpe por falar da sua amada riquinha — Ela disse, irritada, fazendo-o parar. — Só estava brincando, não sabia que gostava tanto dela.

— Quer me deixar em paz? — Ele pediu.

— Edmund — Ela o segurou. — Vai mesmo ficar bravo com isso? Peço desculpas quantas vezes quiser.

— Não precisa — Ele respirou fundo. — Pode não fazer isso de novo?

— Certo — Ela concordou.

E os meses foram passando, o dia do casamento de Marie e Robert estava cada vez mais próximo, para a felicidade dos noivos e preocupação de Edmund.

Por um lado, a irmã estava feliz, iria se casar, por outro, ele sentia-se virando um peso, por causa do segredo que carregava. Ele envelhecia devagar, Marie sabia, assim como Wright e a família, mas não Robert. Sabia que em algum momento a irmã teria que escolher entre guardar aquele segredo de Robert até que inevitavelmente com os anos ele acabasse descobrindo, ou ela teria que contar, e a reação de Robert poderia ser qualquer uma.

Ele não queria aquele peso para Marie, queria que ela fosse feliz. Mas isso levava o próprio Edmund a uma escolha difícil. Mais uma vez, teria que deixar uma família para trás, é o que planejava fazer, assim que Marie se casasse ele iria embora. Decidiu não contar aquilo para ninguém, Wright e Marie tentariam convencê-lo a ficar, e Emilia não entenderia.

E depois da longa espera, finalmente o dia do casamento havia chegado, tudo havia sido minuciosamente planejado, sairia perfeito, como o esperado. Por ser o irmão de Marie, e Jacques estar morto, decidiram que seria Edmund quem levaria Marie ao altar. Marie também havia convidado Emilia e a família dela, e deixado que Robert pagasse um vestido para Emilia, que nunca havia usado um vestido tão caro.

E assim foi, quando Marie chegou para a igreja onde aconteceria o casamento, atrás da porta por onde entrariam, ela segurou no braço de Edmund, estava nervoso, Marie se casaria e ele iria embora, aquele era o último dia que ele tinha com a família, antes de voltar a ser o garoto de lugar nenhum, sem família.

— Está tudo bem? — Marie perguntou ao notar o nervosismo.

— Sim — Edmund respondeu e respirou fundo. — Você vai casar, mas está tudo bem.

Aquilo a fez rir.

— Acredito que logo será você — Ela disse. — Já tem tamanho para parecer um jovem que poderia se casar.

— Você sabe que isso nunca vai acontecer — Edmund também riu, mas dizia a verdade, ele envelhecia devagar, como explicaria isso para qualquer pessoa com quem se envolvesse? Ele evitava pensar naquilo.

— Por que não? — Marie questionou. — Tenho certeza que sua noiva seria muito sortuda, não vai me dizer que nunca sentiu nada por ninguém?

— Não — tentou disfarçar. — Não de maneira romântica.

— Não mesmo? — questionou cética. — Nem mesmo Emilia?

— Emilia? — coçou a cabeça nervoso. — Como assim?

— Ah, nunca notou que Emilia é muito bonita? — questionou. — Ela ficou ainda mais bonita com aquele vestido.

— Somos apenas amigos — Edmund tentou mudar o rumo da conversa. — Ela comentou que os pais dela querem casá-la com um operário da fábrica.

— Ah, isso é uma pena — disse. — Vocês fariam um casal bonito.

A porta abriu e a cerimônia começou. Edmund levou Marie até o altar e ficou observando os noivos fazerem os votos da primeira fila. Depois da cerimônia, a festa. Era uma festa elegante, Edmund não sabia bem como se comportar então assistia tudo de um canto, até Marie fazê-lo dançar com ela, aquilo apenas tornava mais dificil que ele fosse embora.

Eles dançaram juntos e riram, não faziam aquilo muitas vezes, era estranho para ambos, Marie estava casada, e Edmund de partida.

Depois que dançaram, Diana, que não dançava com ninguém, olhou para Edmund, que sem saber o que fazer, a convidou para dançar. E eles dançaram, sendo observados de longe por Emilia.

Depois daquela dança, Edmund finalmente se aproximou de Emilia para conversar, embora ela parecesse brava com algo.

— Você está bem? — Edmund decidiu perguntar.

— Claro, você se enturmou bem rápido — Emilia foi ironica.

— O que quer dizer? — perguntou confuso.

— Você estava dançando com a sua cunhada — disse. — Planeja casar com ela também? Assim tudo fica em família, certo?

— Qual é o seu problema? — questionou cansado daquilo. — Por que importa tanto para você se eu danço ou não com outra garota? Dancei com a Marie, vai falar algo sobre isso também?

— Edmund, desculpe... — respirou fundo.

— Está tudo bem — Ele também respirou fundo. — Quer dançar comigo?

— Está me chamando? — perguntou confusa.

— Não se preocupe, não é um pedido de casamento.

Os dois riram e então dançaram juntos, aquilo também era estranho, mais estranho do que dançar com Marie, já que Edmund nunca havia dançado com Emilia, nunca tinha estado tão perto dela, sentia-se estranho e não sabia explicar o porque.

Ao fim da dança, Edmund tentou ir embora, mas Emilia o seguiu até o lado de fora, tentando entender para onde Edmund ia.

— Eu estou indo embora — Edmund avisou.

— Mas está cedo — A garota estranhou.

— Não, Emilia, estou indo embora, de Londres, de vez.

— Por quanto tempo?

— Para sempre.

— Mas... — Emilia não conseguia entender. — Por quê?

— Emilia, eu não posso...

— Eu sou sua amiga, tenho o direito de saber.

— Se eu te contar e você contar a alguém, algo muito ruim pode acontecer.

— Está me deixando preocupada — Emilia ficou ainda mais séria. — O que está acontecendo?

— Você precisa me prometer que não contará a ninguém — pediu. — Não importa o que aconteça.

— Eu prometo — Emilia segurou a mão dele. — Mas precisa me dizer o que é.

— Certo — Ele suspirou, pegou uma colher e se concentrou, fazendo-a partir no meio.

— Você faz truques de mágica? — Emilia questionou.

Então Edmund explicou, contou sua história, seus verdadeiros pais, como havia conhecido Jacques e Marie, sobre envelhecer devagar e especialmente sobre os poderes.

— Isso é incrível — Emilia estava admirada.

— É sério? Você acha? — Edmund ficou surpreso.

— Sim, você tem um dom e é imortal.

— Eu não sou imortal — Edmund interviu. — Eu envelheço, só muito devagar.

— Sim, mas em cem anos você estará vivo e verá as maravilhas do mundo ficarem melhores — argumentou. — Isso é incrível.

— Sim, mas você entende por que preciso ir? — perguntou. — Outras pessoas podem notar e não terão a mesma reação que você, meu antigo padrasto não teve, ele dizia que eu era o demônio.

— Mas você não é — Ela disse. — Se você fosse, você não teria esse dom. — Respirou fundo. — E você vai embora, sem ao menos se despedir de Marie?

— Eu estava tentando deixar uma carta para ela, mas não sei como entregar — respondeu e percebeu que Emília poderia fazer isso por ele. — Você entregaria a ela?

— Sim, mas não seria melhor se você se despedisse pessoalmente?

— Se eu tentar vou acabar ficando — o garoto suspirou. — E eu não posso. — Então ele entregou a carta na mão de Emilia e tentou ir embora, mas ela o segurou. — O que está fazendo? — A garota não respondeu, apenas o surpreendeu com um beijo, foi rápido, mas aquele momento pareceu durar mais do que realmente durou. Ela finalmente o soltou e sorriu.

— Adeus.

***

Mais tarde naquele dia, Emilia entregou a carta a Marie, ela não explicou o que era, apenas entregou e foi embora, fazendo que Marie abrisse a carta no mesmo instante.

"Querida Marie,

Você e seu pai me acolheram em sua família de uma maneira que nunca vou me esquecer, e depois do infortúnio que aconteceu a Jacques, o Sr. Wright também nos acolheu, por todos esses anos, vocês foram minha família, eu amo muito vocês e sou muito grato por tudo.

Infelizmente, não sou como as outras pessoas, não sou comum, isso pode trazer infortúnios, não quero causar problemas para você por causa de quem eu sou, quero que seja feliz, sei que agora não precisa mais de mim e que Robert a fará muito feliz, pelo menos, espero que ele faça.

É hora de eu partir, não sei para onde, não sei se terei uma família como vocês, provavelmente não. Desejo felicidades a você e ao seu noivo, não simpatizo com ele, mas confio que você o escolheu por uma razão. Sei que fará grandes coisas na vida porque você é especial.

Te amo irmãzinha e onde quer que eu vá, sempre lembrarei de nossa família e todos esses anos.

De seu irmão, Ed.

***

1915

Michel, Adrien e Henri foram transportados para Alemanha por James, todos disfarçados de fazendeiros, eles chegaram até uma pequena vila, onde foram deixados por James, que voltou para a França, deixando-os ali a espera do Contato, que nunca aparecia.

— Senhor — Uma menina chamou a Adrien em alemão e ele estranhou aquilo. — Sir Adrien?

— Sou eu — Ele respondeu em alemão.

— Vire à esquerda e depois a direita, senhor de branco lhe acolherá — Então a menina sumiu, Henri e Michel não haviam entendido nada do ocorrido, apenas viram a menina e Adrien falando em alemão.

Eles seguiram as orientações da menina até encontrarem um velho, todo vestido de branco, ele saiu da frente da casa e seguiu seu caminho, não antes de deixar uma chave no chão, a casa era para eles. Os soldados entraram e trancaram a porta, a casa estava vazia.

— Isso é uma péssima ideia — Henri disse. — Estou com um mal pressentimento sobre tudo isso.

— Somos soldados, obedecemos — Adrien respondeu.

— Estamos na Alemanha, soldados franceses, se nos descobrirem, estamos mortos — Henri argumentou.

— É por isso que temos que fazer isso bem feito — Michel interviu. — para que possamos retornar vivos.

Foi quando Adrien viu algum tipo de carta em uma escrivaninha e a abriu, estava em alemão.

"Caros franceses, bem-vindos, se estão aqui já sabem o que terão de fazer. Há roupas para a ocasião de hoje, vistam e saiam as sete da noite, vão para onde as luzes são intensas, o alvo estará lá."

— O que diz aí? — Michel quis saber.

— Nos dá boas vindas — Adrien disse. — Diz para vestirmos roupas para uma ocasião, ir para onde as luzes brilham as sete da noite e que o tal alvo estará lá.

— Isso vai dar muito errado — Henri estava receoso. — Eu odeio esse lance de ser um espião.

— Henri — Adrien o chamou. — Fica calmo pelo amor de deus.

— Adrien está certo — Michel interviu. — Vamos ficar calmos, fazer esse trabalho e voltar, sobrevivemos as trincheiras, podemos sobreviver a isso.



Mais tarde, eles vestiram as roupas, uniformes militares, do alto escalão, e foram a um palácio perto dali vários soldados e generais, todos do alto escalão alemão, estavam reunidos. Muitos ali conheciam o Kaiser pessoalmente.

Na entrada, deixaram os três entrarem sem discussão, da maneira que estavam vestidos, realmente pareciam soldados alemães de alta patente.

— Lembrem-se — Adrien sussurrou para que apenas os amigos ouvissem, já que ele estava falando em francês. —, deixem que eu falo, vocês ficam calados.

Eles andaram pelo local, procurando pelo alvo e tentando pensar em uma maneira de derruba-lo. Finalmente, Adrien ouviu alguém falando com outros soldados, era um idioma estranho confuso, era óbvio, era o espião russo.

O Russo parece ter notado ele já que foi na direção dele e o cumprimentou em alemão ao que Adrien respondeu.

— E você é? — O russo falava alemão com um sotaque carregado.

— Hidenburgh — Adrien mentiu. — Você?

— Nikolai — respondeu. — Devem ter te contado sobre mim.

— O Espião Russo — Adrian disse. — Contaram sim, coisas impressionantes.

— Imagino que sim — Então viu Michel e Henri. — E seus amigos?

— Trabalhamos juntos — Adrien disse rapidamente. — Eles não falam muito, foram orientados para não falar muito.

— Assim não falam besteira — Quando Nikolai disse aquilo, os três soldados ficaram apreensivos, mas tentaram disfarçar. — Afinal, creio que queira manter seu trabalho.

— Exatamente — Adrien confirmou.

— Você não é completamente alemão, é? — Nikolai questionou, parecia analisa-lo. — Parece... não sei... metade judeu... ou... italiano.

— Sou o que sou, senhor — Adrien disse tentando esconder o quanto ficou apreensivo. — Assim como você é o que é.

O Russo riu por alguns instantes, antes de voltar a olhar para Adrien.

— Bom, aproveitem, e bom trabalho — O russo se afastou e foi conversar com alguns generais.

— Aquele é o cara que temos que derrubar? — Michel sussurrou em francês.

— Ele com certeza é imponente — Henri comentou.

— Os dois, não façam nada idiota — Adrien pediu. — Precisamos sair daqui vivos.

Foi quando Adrien viu de longe uma pessoa familiar, era uma mulher, mas não qualquer mulher, era uma que ele conhecia, ele a conhecia muito bem e temia.

"Felícia"

"Olá, Adriano"

— Adrien? — Michel tentou chamá-lo. — Está tudo bem?

— Adrien — Henri o chamou finalmente conseguindo trazer-lhe de volta a consciência. — Está tudo bem?

— Preciso que fiquem aqui e não falem com ninguém — Adrien apenas foi na direção da mulher deixando os amigos confusos para trás.

— Sério que ele vai mesmo chamar ela para dançar? — Michel questionou sem acreditar naquilo.

— Acho que eles se conhecem — Henri comentou.

— Será? — Michel ficou abismado. — Por que acha isso?

— Porque ele estava com medo dela — Henri explicou.

— Ele estava? — Michel não tinha notado.

— Acredite, ele estava.

Adrien se aproximou de Felícia, ainda sem acreditar que era ela mesma, ela estava sozinha no grande salão, com o cabelo preso em um penteado e um vestido amarelo.

— O que está fazendo aqui? — Adrien questionou incrédulo.

— Um cavaleiro deve convidar uma dama para dançar antes de começar a fazer perguntas — A mulher sorriu e olhou para os lados, mostrando para Adrien que ele estava sendo observado e qualquer deslize poderiam pegá-lo.

"Não me decepcione, Adriano"

— Aceita dançar, senhorita? — Adrien a convidou, fingindo simpatia.

— Claro, sir — Ela sorriu, aquilo irritava Adrien profundamente e ela sabia.

Ambos foram para o centro do salão, onde outros casais dançavam. Ele segurou nas costas dela e ela segurou nos ombros dele, e ambos começaram a dançar, pareciam estar em silêncio, mas eles se falavam, mentalmente.

"Agora pode me responder?"

"Você ainda não percebeu?" Ela riu. "A menina que os guiou, o velho usando branco, as roupas, as entradas"

"Você é o contato?"

"Fico feliz que ainda seja inteligente"

"Você armou tudo isso?"

"Estou apenas fazendo meu trabalho, ficar tricotando enquanto acontece uma guerra pode ficar enfadonho depois de um tempo"

"Por quê? Por que tudo isso?"

"Se quer realmente saber, me siga. Mas não seja visto"

Enfim, a dança terminou e Felícia se soltou, seguindo para um lado. Adrien foi até os amigos que estavam lá perto, confusos.

— O que aconteceu ali? — Michel questionou.

— Ela é o nosso contato — Adrien contou.

— O quê? — Henri e Michel questionaram surpresos.

— Adrien, você definitivamente não está bem — Michel disse incrédulo, não acreditava que Felícia era o "Contato" deles.

— Acredite em mim, ela é o nosso contato — Adrien afirmou. — Foi ela quem armou tudo isso.

— Como assim? — Henri questionou.

— Depois eu explico tudo, precisam ir embora agora.

— Como assim? — Michel ficou confuso. — Não temos que derrubar o alvo?

— Não aqui, não agora — Adrien disse. — É arriscado demais, temos que deixar isso para depois.

— Adrien, tem certeza disso? — Michel questionou.

— Sim — respirou fundo. — Prometo que explico tudo depois.



Assim, Henri e Michel seguiram para a saída, enquanto Adrien olhou em volta procurando por Felícia e a encontrou indo em outra direção e foi obrigado a segui-la, ninguém no baile parecia prestar atenção neles, provavelmente um truque de Felícia. Ele a seguiu até chegarem a um corredor vazio, onde novamente ficaram frente a frente.

— Agora explique tudo — Adrien pediu. — Sem rodeios ou enrolações.

— Nossa, Adriano, poderia fingir que está feliz em me ver.

— Vai mesmo começar? — questionou. — Por que sempre faz isso?

— Você parece mesmo assustado.

"É uma guerra, é claro que estou assustado"

"Eu não estava falando da guerra"

"Pode ir direto ao assunto?"

— Você sabe porque estão aqui, para derrubarem o espião russo — A mulher disse.

— Tem mais alguma coisa, não tem? — questionou.

"Esperto"

— O Russo não é normal — Felícia disse. — Ele é diferente, como nós.

"Ele tem... dons... poderes?"

— Não só isso — A mulher continuou. — Ele é muito parecido comigo.

"Seja mais clara, por favor"

— Ele pode ver o que você pensa — explicou. — Ele é bem poderoso, admito.

— Ele sabe que estou aqui?

— Não, estou bloqueando seus pensamentos por enquanto — contou. — Mas não os de seus amigos.

— O quê?

"Você fez isso de propósito"

"Não seja dramático"

Felícia puxou-o e o beijou ao que ele não correspondeu, a parede atrás deles explodiu e finalmente Adrien conseguiu afasta-la, assustado.

— Você tem a sua distração, vá cumprir sua missão — Felícia disse.

Adrien a encarou confuso, antes de decidir ir embora dali, Felícia tentou se aproximar, mas isso apenas o fez acelerar o passo.

"Fique longe de mim!"

Assim, ele correu dali, passando no meio da confusão que havia se formado por causa da explosão, precisava encontrar seus amigos.



Do lado de fora, Henri e Michel andavam para ir embora, mas o barulho da explosão os fez parar. Eles olharam para trás e viram a confusão que havia se formado.

— Precisamos encontrar o Adrien — Michel disse, porém, antes que pudessem voltar, uma voz em alemão os chamou. Era o russo e eles não entendiam nada do que ele dizia.

— Ah desculpe, esqueci que são franceses — O russo debochou. — Faz muito tempo que não falo francês.

— Você sabe? — Henri questionou, assustado, embora disfarçasse.

— Sim, eu sei de muitas coisas — Nikolai respondeu. — Um fazendeiro, um piloto e um comerciante, eles são criativos, preciso admitir. E a explosão lá dentro, para distrair, inteligente, mas não muito.

— Então aqui estamos nós — Henri passou a mão perto da arma que escondia, pronto para usá-la.

— Aqui estamos nós — Nikolai repetiu. — Bom, falta um.

Henri pegou a arma e disparou contra Nikolai, mas uma força invisível rapidamente desviou a bala.

— Você me decepciona, Henri — Nikolai disse em negação. — Sempre pensei que se fosse encontrar alguém com poderes de novo seria algo emocionante, nunca estive tão enganado.

— Você... — Henri não conseguia acreditar, Nikolai era como ele, era como Adrien, pior, era mais forte.

— Quantos de vocês existem? — Michel questionou ao também perceber que Nikolai não era humano.

— Eu não sei, Michel — Nikolai respondeu. — Sei que são poucos, e que um encontro desses é bem raro. Acontece uma vez a cada século, as vezes menos. — E olhou para Henri. — Você era fazendeiro, certo? — perguntou. — Também já fui, é uma vida frustrante.

— Depende do ponto de vista — Henri respondeu.

— Certo — riu. — Querem ver um truque? — Nikolai se concentrou em algo, de repente, duas armas começaram a flutuar sozinhas, uma apontava para Henri, outra para Michel.

— O que está acontecendo? — Michel perguntou assustado, ele tentou pegar a própria arma, mas a mesma força invisível lançou a arma longe.

— Oh, caro Michel, você não entende mesmo — Nikolai debochou. — E como poderia entender, seu tipo nunca entende.

— Entender o quê? Que você é algum tipo de monstro? Eu entendo isso muito bem — Michel respondeu.

— É assim que ele nos vê, Henri — Nikolai olhou para ele. — Como monstros. — E voltou a olhar para Michel. — Você é basicamente uma criança, com sonhos de ser como um daqueles soldados heróis das lendas, criado em uma família com boas condições, tendo tudo do bom e do melhor, nunca passando dificuldade, nunca passando fome, e mesmo assim, você pensa que sabe.

— Você não sabe nada sobre mim — Michel rebateu.

— Oh, mas eu sei, sei muito, na verdade, tudo — Nikolai disse. — Você pensa que é um herói, mas não há nenhuma diferença entre você e um carniceiro. — E olhou para Henri. — Vou te ensinar uma lição, uma lição que nunca mais esquecerá.

Henri viu as armas se mexerem no ar, estavam prestes a atirar, ele precisava usar os poderes, mas não sabia se seria rápido o suficiente para salvar a si mesmo e a Michel, precisava escolher. Quando a arma foi disparar, algo a puxou rapidamente, outra força invisível, a arma voou pelo ar e parou na mão de Adrien, que havia chegado a tempo.

— Finalmente, o terceiro — Nikolai disse irônico. — Comecei a pensar que havia fugido.

— Deixe eles em paz — Adrien pediu.

— Eu deixaria, mas tenho que fazer meu trabalho, assim como você — Nikolai justificou.

— Não se eu puder pará-lo.

Adrien levantou uma viga de metal e lançou contra Nikolai, que usou suas habilidades telecinéticas para parar a viga e jogar para o lado.

— Finalmente alguém que sabe lutar de verdade — Nikolai comemorou. — Por mais que eu adorasse isso, preciso terminar logo.

Nikolai jogou Adrien longe e deixou-o caído, sem conseguir se mexer.

"Agora, vamos conhecer o pequeno Adrien"

Nikolai fixou os olhos em Adrien, que tentava se mexer, em vão.

"Adriano, Edmund, você tem muitos nomes"

"Saia da minha cabeça"

"Não é agradável para você ter alguém ouvindo o que pensa, não é mesmo? Por causa daquela mulher, certo? Me fale mais sobre ela"

"Ela é um monstro, como você"

"Eu não sou um monstro, apenas tenho uma missão, assim como você. Aquela mulher é má. Entendo porque ela te assuste"

"Me deixe em paz"

"É assustador, não é? Alguém saber tanto sobre você, mais até do que você mesmo sabe"

"Pare já com isso"

"Aquela mulher parece ter feito tudo isso de propósito, armado tudo, provavelmente foi embora. Uma pena, queria conhecê-la."

"Pare!"

"As trincheiras são horríveis, piores do que me contaram. Eles são idiotas, não são?"

"Quem?"

"Aqueles que mandam em você, os que te mandaram aqui, os que tiveram a brilhante ideia de cavar um buraco no chão e se esconder lá, embaixo da chuva, o que podia dar errado, não é mesmo? Eles nunca se importam conosco, somos apenas bucha de canhão, mas os tempos estão mudando, não aceitaremos mais isso"

"Quer mudar as coisas, mas trabalha para os que nos fazem de bucha de canhão"

"Eu gostaria de explicar, mas isso é sobre você, não sobre mim, vamos conhecer mais sobre o pequeno Adriano"

"Não ouse"

"Sua mãe era bonita, sem sorte, mas bonita"

Conseguiu sentir a raiva de Adrien, ele ainda não conseguia se mexer, mas objetos de metais em volta começaram a se mexer.

"Sentimentos fortes são o que despertam seus poderes na melhor forma deles, não é? Foi assim que fez para se proteger de seu padrasto, usando seu medo e sua raiva"

"Saia da minha cabeça!"

"E o seu irmão, você o amava, mesmo assim o deixou"

"Não, não é verdade"

"Não minta para si mesmo"

"Pare com isso, por favor"

"Você viajou muito, viu bastante do mundo. Idiota, poderia ter continuado e ido a todos os lugares do mundo, por que crianças são tão idiotas?"

E finalmente viu, Adrien conhecendo Jacques, e depois Marie, e depois Wright. Aquilo pareceu deixar o telepata abalado por algum momento, considerando que Adrien sentiu-o ausentar-se de sua mente por um momento.

"Eu... Jacques teve uma filha?"

"Você conheceu o Jacques?"

— Você deu sorte, garoto — Deixou que Adrien finalmente se levantasse, ainda confuso. — O mundo é um lugar grande, vão para longe, para um lugar lindo, deixem essa guerra para trás, não serei tão bonzinho da próxima vez.

E assim, Nikolai foi embora, deixando todos ali confusos.

— Adrien, o que aconteceu aqui? — Michel perguntou assustado. — Ele era como vocês?

— Pior — Adrien respirou fundo. — Lembram da moça no baile? Ela era como ele.

— Como ele? — Henri questionou.

— Ela pode saber o que você pensa, pode vê-lo chegando de longe — Adrien explicou omitindo alguns detalhes sobre Felícia.

— Foi isso o que aquele homem fez? — Michel questionou recebendo uma resposta afirmativa.

— Talvez seja melhor fazermos o que ele disse — Henri disse. — Irmos embora, largarmos isso de vez.

— E virarmos desertores? — Michel se recusava.

— A única maneira de nos aceitarem de volta é derrubando ele — Henri argumentou. — E não vai ser possível já que ele pode nos ver chegando.

— Não podemos deixá-lo escapar — Adrien interferiu, ainda confuso, com raiva, pelas memórias que revisitou.

— E como o pegamos? — Henri questionou incrédulo.

Notas finais
Curiosos sobre o Nikolai? Ou sobre a Felícia? Logo teremos respostas ;)