HL: Blue Skies
9 O menino e o soldado se encontram
Reino Nasrida de Granada – 1492
A guerra parecia estar chegando a um fim e a vitória dos Cristãos estava cada vez mais certa. Fadilah tinha apenas quatorze anos, o pai estava na guerra, lutando do lado que perderia aquela guerra, ela sabia que os tempos que viriam seriam muito difíceis para ela e para a mãe.
Ela estava ajudando a mãe a arrumar a casa, quando sem querer, deixou que alguns pratos se quebrassem, rapidamente atraindo a fúria da mãe, que lhe deu vários tapas até a menina cair no chão, tentando não chorar.
A relação dela com a mãe era sempre daquele jeito, desde que a menina era bem pequena. A mãe queria muito ter tido um filho, mas ao invés disso, veio Fadilah, uma menina, sua única filha, pois não conseguiu ter mais nenhum.
Não importa o quanto Fadilah tentasse, nunca era boa o suficiente, nem para a mãe, nem para o pai, ambos pareciam lhe desprezar.
"Oh Alá, por que me amaldiçoaste dessa maneira?"
As vozes novamente.
Fadilah sempre as ouviu, desde que era bastante nova. Ela sabia que as vozes vinham das outras pessoas, mas não as compreendia, a única explicação que ela pensava ter para aquilo é que era alguma força maligna que a fazia ouvir tudo aquilo, querendo corrompê-la.
"O que fiz de tão errado? Me deixaste sozinha? Me deixaste sozinha com essa amaldiçoada a quem tenho que chamar de filha?"
Fadilah tampou os ouvidos, tentando parar de ouvir aquilo, só queria um pouco de paz em sua mente, mas nunca havia conseguido aquilo, as vozes eram constantes.
1495
Fadilah, ou melhor, Felícia, que havia recebido esse nome ao ser batizada na Fé Cristã e jurar largar todos os seus costumes Mouros, estava frente a frente com os Inquisidores, com o marido ao lado dela. Ela parecia apreensiva, assim como os Inquisidores, que estavam confusos quanto aquilo.
— Diga a eles o que você me contou — O marido pediu, mas Felícia continuava a aparentar nervosismo, um certo receio.
— Não há o que temer — Um dos Inquisidores disse. — Apenas fale e fale a verdade.
— Sei que meu dever é contar, mas... — A garota hesitou. —… minha própria mãe...
— Garota, o que tem a dizer, diga logo — Um dos Inquisidores disse já sem paciência. — Ou poderá pagar o preço por nos fazer perder tempo.
— Minha mãe mentiu a todos — Felícia disse e precisou respirar fundo antes de continuar. — Ela disse que havia se arrependido de seus pecados, que havia se convertido, mas ela mentiu.
— Ela mentiu? — O Inquisidor ficou em dúvida. — Como?
— Ela continua com as tradições mouras — Felícia contou. — Ela não segue as tradições cristãs, não de verdade, não no coração dela. É difícil para mim denunciar minha própria mãe, mas precisava cumprir meu dever.
— Agiste corretamente, menina — respondeu. — Sua mãe pecou e deve pagar por isso.
— Eu compreendo — Felícia fitou-os, um olhar completamente gelado e inexpressivo.
Moscóvia – 1534
Naquele momento, Jacques já estava arrumando tudo para ir embora, estava com aquele plano há semanas, embora Nikolai não concordasse, há anos eles não concordavam em praticamente nada, Jacques considerava um erro ter ido atrás do pai.
— Então você vai mesmo embora? — Nikolai questionou ao ver o garoto arrumando tudo o que tinha.
— Não parece óbvio? — questionou ao terminar e encarou o pai. — Já falamos sobre isso.
— Ainda acho que isso é idiota — Nikolai comentou. — Você deveria ser menos idiota e aceitar o que os outros falam.
— E você deveria aceitar que não sou como você — disse e se dirigiu a porta. — Foi você mesmo quem disse que eu deveria ter a minha própria vida, lembra?
— Eu estava falando sobre você arrumar uma mulher, essas coisas — Nikolai justificou.
— Você não é casado, é? — questionou.
— Eu não disse que precisava se casar — Nikolai continuou.
— E correr o risco de deixar um filho sozinho por aí? — Jacques questionou e olhou para o pai. — Eu nunca serei como você.
— Tem razão, você nunca seria como eu — Nikolai disse em tom severo. — Sabe por quê? Porque você é um filho da puta, e isso não é nenhuma ofensa, já que a sua mãe era mesmo uma puta. — Aquilo fez Jacques recuar alguns passos e ficar bem próximo ao pai. — O quê? É verdade, não é? Talvez você nem seja meu filho, então ainda bem que está indo embora.
Jacques não conseguiu se conter, acabou dando um soco no próprio pai, que em um primeiro momento não reagiu, ele apenas respirou fundo, fechou os punhos e após alguns instantes, socou o garoto de volta, que caiu com a força do soco.
— Meio tarde para tentar ser macho, não acha? — Nikolai riu em deboche ao garoto, que bravo, apenas se levantou e tentou dar outro soco no pai, que com muita facilidade, segurou o braço do garoto. — Quer mesmo fazer isso, moleque? Você sabe que vai perder.
Jacques conseguiu se soltar e movimentou uma das mãos rapidamente, fazendo com que um impulso telecinético jogasse Nikolai longe, que ficou surpreso com aquilo. Nikolai rapidamente se levantou e jogou outro impulso contra o garoto, que também foi jogado longe, mas rapidamente se levantou. Ambos então tentaram usar os poderes ao mesmo tempo, com cada um jogando um impulso telecinético contra o outro, mas isso apenas causou que ambos fossem jogados ao chão novamente.
Cansado daquilo, Jacques apenas se levantou, pegou suas coisas e saiu pela porta. Durante o caminho, em nenhum momento ele hesitou, ele não queria olhar para trás, ele tinha apenas uma certeza, de que nunca mais veria o pai.
***
França – 1897
Adriano, Edmund, e agora Adrien, já havia tido muitos nomes, às vezes até ele mesmo se confundia, embora no momento estivesse usando Adrien.
Fazia dez anos que morava na França, embora vivesse mudando de cidade e tendo vários empregos. Naquela cidade trabalhava como pintor, pintava casas e comércios, o máximo que conseguia.
Naquele dia havia terminado de pintar a fachada de um comércio quando viu um rosto familiar de longe, aquele que era seu pai biológico. Tentou virar-se para não ser visto, mas já era tarde.
— Garoto — Jack o abordou. — Quanto tempo, você deu uma crescida boa, quase não te reconheci.
— E você não mudou nada — Adrien respirou fundo.
— Está trabalhando de pintor? — quis saber.
— Não parece óbvio?
— E foi você quem pintou essa fachada? — Encarou o lugar antes de voltar a olhar para o filho. — Você fez um bom trabalho.
— Preciso ir andando — Tentou sair dali. — Tenho mais trabalho a ser feito.
— Eu podia lhe pagar uma bebida — O homem ofereceu.
— Eu prefiro não — O rapaz pegou os materiais de trabalho e saiu dali o mais rápido que pôde, com certeza não estava bem com aquilo.
***
Lisboa – Portugal – 1908
Adrien, ou melhor, Adriano, o nome que havia voltado a usar, o mesmo que não usava há muito tempo, era novo na cidade. Ficou algum tempo procurando emprego até achar um como garçom em um clube, não pagava muito, mas era o suficiente para viver.
Era começo da tarde, Adriano havia acabado de vestir o uniforme e começado a trabalhar, ele passou a tarde ajudando a limpar o local e a noite servindo como garçom. O lugar ficava bastante movimentado durante a noite, em sua maioria, os clientes eram parte da burguesia ou da alta sociedade, nenhum deles olhava Adriano nos olhos, que era praticamente invisível.
— Primeiro dia? — Uma moça perguntou quando ele passou pela mesa dela, fazendo-o virar tentando entender se ela falava com ele. Ela tinha cabelos escuros e olhos verdes como esmeraldas.
— Falando comigo? — quis ter certeza.
— Ainda não comecei a falar sozinha — riu. — Seja bem vindo.
— Obrigado — respondeu. — Vai querer alguma coisa?
— Não, no momento — Ela sorriu gentil. — Obrigada.
E ele se afastou, para atender outros clientes, e logo foi chamado até uma mesa onde alguns rapazes riam de algo.
— Posso ajudar? — Adriano perguntou ao se aproximar.
— Qual seu nome? — Um dos rapazes perguntou.
— Adriano — estranhou aquilo. — Vão pedir algo?
— Te vimos falando com aquela moça — Apontou para a mesa onde a moça com quem Adriano havia falado continuava lá.
— Sim, eu preciso falar com os clientes se eles vão pedir algo — Adriano cada vez mais estranhava aquilo. — É o meu trabalho.
— Conseguiu o nome dela?
— Não — Adriano ficou bastante desconfiado com aquela conversa e percebeu como os outros rapazes pareciam decepcionados. — Qual é o ponto disso?
— Contamos para ele? — Outro rapaz perguntou.
— Por que não? — O líder respondeu. — Ele pode nos ajudar.
— Ajudar no quê exatamente? — Adriano tentou entender.
— Essa moça tem vindo desacompanhada até aqui há semanas — explicou. — Deduzimos que ela é solteira, sempre tentamos falar com ela, mas não conseguimos nem mesmo descobrir o nome.
— E o que eu tenho a ver com isso? — Adriano franziu a sobrancelha.
— Você poderia tentar descobrir o nome dela — Um dos rapazes propôs.
— Eu? — Adriano achou aquilo um tanto absurdo, se a moça não dizia o nome para aqueles rapazes, que eram bem melhor "apessoados" que ele, com certeza não o diria para um mero garçom. — Sinto muito, creio que estão tomando meu tempo sem razão nenhuma, se não quiserem nada, peço que me dêem licença para eu servir os outros clientes.
E depois disso, Adriano se afastou dali, apenas ouvindo risadinhas dos rapazes, que zombaram dele em voz baixa e continuaram a rir.
O lugar ficou aberto até um tanto tarde da noite, quando os clientes começaram a sair. Em determinado momento, todos haviam ido embora, todos menos a "moça misteriosa sem nome", como precisava ajudar a fechar o lugar, ficou a cargo de Adriano pedir a moça que fosse embora.
— Senhorita — Ele a chamou. — Sinto muito, mas estamos fechando, precisa ir embora.
— Ah sim, não posso ficar nem mais um minuto? — Ela pediu fitando-o.
— Sinto muito, já estamos fechando.
— Entendo — Ela se levantou. — É seu primeiro dia e não quer perder o emprego, certo?
— Alguém teria que ser muito maluco para querer perder um emprego — Adriano disse sorrindo de maneira sarcástica.
— Você ficaria surpreso — A mulher riu. — E meu nome é Felícia, pode dizer isso da próxima vez que os idiotas te perguntarem.
— Eles perguntarem? — Adriano ficou um pouco confuso, como Felícia poderia saber daquilo, ela estava longe demais para ouvi-los.
— Eu sei que sabe do que eu estou falando — Ela franziu as sobrancelhas. — Aqueles idiotas estão sempre tentando falar comigo, mesmo eu tendo deixado bastante claro que não estou interessada.
— Então por que continua vindo? — Adriano tentou entender. — Se eles te incomodam, talvez não devesse vir.
— Eu não posso deixar de ir aos lugares porque as pessoas são idiotas — Felícia disse, soando ofendida. — Você não deixaria de trabalhar se seu chefe fosse idiota, deixaria?
— Sinto muito, não quis ser rude.
— Está tudo bem — suspirou. — Não me disse o seu nome.
— Adriano.
— Certo, Adriano — deu-se de costas. — Perdoe-me por ter tomado seu tempo. — E simplesmente partiu.
***
Alemanha – 1915
Henri, Adrien e Michel estavam escondidos, pensando no próximo passo, em um plano. Estavam lidando com alguém que sabia o que eles pensavam, que sempre estaria um passo a frente, não podia ser um plano simples.
— Eu tenho um plano, mas precisam confiar em mim — Adrien pediu.
— O que quer que façamos? — Michel questionou.
— Preciso que atraiam o russo até um armazém abandonado aqui na cidade — explicou. — E deixem o resto comigo.
— Você tem certeza disso? — Henri estava receoso, assim como Michel.
— Sim, eu tenho — Adrien disse tentando não mostrar que estava tão receoso quanto os amigos.
— Isso tem alguma coisa a ver com aquela moça? — Henri decidiu perguntar. — A do baile?
— Não — Adrien respondeu rápido.
— Tem certeza? — Michel também perguntou.
— Ela gosta de deixar as pessoas malucas — disse simples. — E é maluquice que ela terá.
— Isso não me parece uma boa ideia — Henri comentou. — Tem certeza que quer seguir com isso?
— Sim, eu tenho.
***
Mesmo receosos, naquela noite, Henri e Michel colocaram o plano de Adrien em prática. Espalharam alguns rumores, planos falsos, para que atraíssem o russo até Adrien, eles torciam para que aquele plano desse certo.
E eles conseguiram, atraíram Nikolai até o tal armazém, e quando conseguiram, acharam melhor manter distância do local, deixando Nikolai e Adrien sozinhos.
— Você é mais maluco do que eu imaginava — Nikolai disse surpreendendo Adrien.
— Talvez eu seja — Adrien disse e se virou para encarar o russo. — Mas consegui fazer com que você viesse até aqui.
— Não vai ser uma luta justa, garoto — Nikolai o advertiu, falando francês em um sotaque muito pesado. — Tem certeza de que quer mesmo fazer isso?
— Se eu estou aqui então é porque eu tenho — Adrien afirmou.
Adrien tentou acertar um soco em Nikolai, que rapidamente se desviou, o segurou por um punho e o jogou no chão.
— Isso é como brincadeira de criança — Nikolai riu se aproximando de Adrien que estava caído. — Essa é sua primeira guerra, não é? Sabe quantas guerras lutei?
Quando Nikolai tentou chutar Adrien caído, o rapaz se virou e conseguiu se levantar, mas logo recebeu um soco de Nikolai.
— Acredite, essa nem é a pior em que eu já estive — Nikolai partiu para cima de Adrien, o segurou pela cabeça e o bateu na parede algumas vezes. — Me explique, por que está fazendo isso?
— É a minha missão — Adrien conseguiu acertar um soco em Nikolai, mas recebeu outro de volta.
— Você não se importa com a sua missão — Nikolai disse. — Você quer provar algo para aquela... qual o nome dela? Felícia?
— Não há nada que eu precisaria provar para ela.
— Você quer provar que poderia derrubá-la se quisesse — Nikolai cerrou os olhos, observando a reação de Adrien. — Que não é fraco.
Ambos conseguiram ouvir a estrutura de ferro ruir, eram os poderes de Adrien, ele não estava controlando.
— Acho que é hora de mudarmos essa luta — Nikolai segurou a cabeça de Adrien e em instantes, não pareciam estar mais no armazém.
Adrien abriu os olhos e se viu na antiga casa, a que morava no Brasil, com a mãe, o irmão e o padrasto, que por muito tempo, pensou ser o pai.
— O que está acontecendo? — Adrien perguntou confuso e percebeu que novamente era uma criança.
— Bem-vindo a sua cabeça, Adriano — Nikolai entrou por uma porta, o surpreendendo. — Hora de realmente conhecê-lo.
Adriano olhou em volta e viu o padrasto indo na direção dele segurando um machado, e Nikolai estava apenas parado, assistindo aquilo. Assustado, o menino usou os poderes e fez com que o machado atingisse o padrasto que ficou grudado em uma parede.
— Então esse é o verdadeiro você? — Nikolai questionou, quase como um desafio.
— Você me obrigou — Adriano respondeu, ele olhou para o padrasto morto na parede e o viu se transformar no pai, Jack, duas faces de uma mesma moeda.
— Eu não obriguei nada, eu nem me movi — Nikolai debochou. — Não precisa ter vergonha, conter a si mesmo nunca vai ajudá-lo, você tem poderes, use-os.
Adriano o ignorou e saiu da casa, vendo-se na rua. Foi quando viu a mãe, e o irmão, que ali continuava sendo uma criança. A mãe sorriu ao vê-lo e andou na direção do filho. Ele não queria vê-la, há tempos não pensava nela, a mãe estava morta.
— Pare com isso! — O menino pediu em lágrimas, a mãe estava morta, não queria vê-la, não podia vê-la.
— Parar com o quê? Não quer ver a própria mãe, pirralho? — Nikolai questionou debochando e Cecilia continuava se aproximando.
— Me tira daqui agora! — O menino gritou e fechou os olhos.
Adrien abriu os olhos e agora estava adulto, estava em um apartamento, apontando uma arma para a própria cabeça, enquanto Felícia lhe dizia algo.
— Felícia, por favor, não faça isso — Adrien pediu, estava apontando a arma contra a própria cabeça, não controlava a si mesmo.
— Você me decepcionou — Algumas lágrimas desciam pelo rosto de Felícia. — Pensei que você fosse diferente.
— Por favor, não faça isso — Adrien pediu.
— Quero ver como isso termina — Nikolai sentou-se em um sofá, apenas para assistir aquilo.
— Mas você não vai — Adrien novamente fechou os olhos, e sentiu uma chuva o atingir, os abriu, estava nas trincheiras novamente, Michel e Henri estavam morrendo com o gás, e Adrien não poderia fazer nada.
— Sabe o mais triste de tudo isso? — Nikolai perguntou atrás de Adrien. — Esses soldados estão morrendo por nada.
Então Nikolai deu um soco por trás na cabeça de Adrien, que caiu. Quando ele se levantou novamente, ainda estava chovendo, mas ele não estava mais na trincheira, estava em um navio, viu Jacques de longe, havia conhecido Jacques em um navio. Foi quando ele se lembrou que Nikolai parecia conhecer Jacques.
Adrien se levantou, e olhou em volta, antes de fitar Nikolai.
— Você está na minha cabeça, hora de ver o que eu quero.
E o ambiente mudou, estavam em um apartamento agora. Adrien era criança novamente, aquele era o apartamento em que morava com Jacques e Marie. Ele havia escolhido visualizar logo as lembranças de um aniversário de Marie, no exato momento em que Jacques havia dado um livro para a filha.
— Aquele é o Jacques — Adrien apontou. — Mas você o conhece, não?
— Não me lembro — Nikolai tentou disfarçar. — Já conheci muita gente.
— E aquela — Adrien apontou para Marie. — Aquela é a filha dele, Marie, ela é minha irmã.
Nikolai apenas viu em silêncio, a neta agradecer ao pai pelo livro, Marie gostava de livros, gostava de imaginar, de criar.
— Quer saber o que aconteceu com o Jacques? — Adrien andou para fora do apartamento e foi seguido por Nikolai, que estava tentando entender o que ele faria.
— Garoto, o que está fazendo? — Nikolai decidiu perguntar.
— O Jacques morreu em um incêndio, tentando salvar alguém — Adrien disse. — Você quer ver?
Do lado de fora, Henri e Michel, preocupados com aquele plano, logo tiveram mais uma coisa para se preocupar, ao verem dois soldados alemães se aproximarem, estranhando eles estarem parados ali.
Os soldados começaram a perguntar coisas em alemão, ao que nenhum dos dois franceses souberam responder já que o único entre eles que sabia falar alemão, não estava ali.
Sem escolha, os dois, ao mesmo tempo, deram socos nos soldados, que sem entenderem aquilo direito, devolveram com outro soco, e assim, eles entraram em uma briga. Henri sabia que não tinham tempo para seguir com aquilo, e por isso, usou os poderes para jogar os soldados longe sem que conseguissem ver o que os atingiu, apenas desmaiando.
— Isso já durou tempo demais — Henri disse, pensando em entrar e interferir no que estivesse acontecendo.
Do lado de dentro, Nikolai continuava dentro da cabeça de Adrien, que havia retomado o controle dos próprios pensamentos.
— Você estava lá quando ele morreu? — Nikolai questionou.
— Não, mas me contaram o que aconteceu — Adrien respondeu. — O suficiente para que eu possa imaginar, e você pode ver o que eu imagino, não pode?
— Garoto, isso é uma péssima idei…
Antes que Nikolai terminasse de falar, se viu em uma fábrica em chamas. O fogo consumia tudo, operários corriam desesperados, enquanto outros ficaram presos, e estavam morrendo pela fumaça inalada.
— Ok, garoto, já entendi, você é bem criativo — Nikolai disse extremamente incomodado. — Agora vamos embora.
Nikolai olhou em volta e não conseguiu encontrar Adrien, precisou andar mais um pouco até encontrar o garoto, paralisado com o que via.
— Garoto, vamos embora agora! — Nikolai tentou puxa-lo, mas Adrien permanecia imóvel, e logo Nikolai viu o que Adrien via. Jacques preso no fogo, morrendo, aquilo também o paralisou, estava vendo a morte do próprio filho.
A estrutura da fábrica começou a ruir, os metais se comportavam de maneira estranha, Adrien estava perdendo o controle dos poderes de uma maneira que nunca havia acontecido, Nikolai tentava acorda-lo, mas não conseguia, pior, estava preso ali, ambos estavam.
Do lado de fora, o chão também começou a tremer, tudo o que era feito de metal havia começado a fazer um barulho estranho, foi definitivo, Henri precisava intervir.
Henri decidiu correr até o armazém, seguido de Michel, ambos corriam e ao mesmo tempo tentavam continuar de pé, já que o tremor de terra os impedia de ficarem completamente equilibrados.
Depois de bastante esforço, conseguiram enfim, entrar no armazém, onde encontraram ambos Adrien e Nikolai paralisados, como se estivessem sonhando acordados.
— O que está acontecendo? — Michel perguntou confuso.
— Eu não sei, mas isso precisa parar — Henri disse.
O tremor continuava, a estrutura do armazém começava a ceder. Ele tentou acordar ambos Adrien e Nikolai, trazê-los de volta, mas pareciam presos. Sua única escolha foi dar uma pancada na cabeça de ambos, que imediatamente desmaiaram, ao mesmo tempo que o tremor parou.
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