1495

O dia estava bastante ensolarado, mas aquilo era praticamente imperceptível ali, onde a mulher estava. Era um lugar escuro, sem nenhuma fresta de luz, impossível de distinguir se era dia ou noite.

Havia um pouco de umidade ali, água pingava do teto e ratos esgueiravam sem nenhuma timidez. A mulher estava sentada próxima as grades da cela, sozinha, apenas esperando que a levassem até seu derradeiro fim, ou que apodrecesse ali.

De maneira tenebrosa, passos puderam ser ouvidos no corredor, eles eram leves como o caminhar de uma rainha, eram leves e calmos. A estranha figura se aproximou da cela e encarou a mulher, que estava sentada no chão. Logo a mulher a reconheceu, era sua filha, Fadilah, ou Felícia, que estava ali, em pé, a encarando.

— Veio escarnecer de minha situação? — A mulher questionou e cuspiu no chão, em desprezo. — Maldito seja o dia em que te trouxe ao mundo.

— Apenas vim visitar minha querida mamãe — A garota usou um tom delicado, porém, debochado.

— Quem a deixou entrar, Fadilah?

— É Felícia, mamãe, meu nome é Felícia — A garota corrigiu ainda usando um tom delicado. — E eu não preciso que me deixem entrar, mamãe — Ela revirou o rosto algumas vezes. — Apenas preciso lhes pedir gentilmente e eles fazem sem pensar, é extraordinário, mamãe.

— Eu sempre soube que você era maligna — A mulher se levantou e encarou a garota frente a frente, com apenas as grades as separando. — Sempre.

— Oh, mamãe, mas é aí que você se engana — A garota riu. — Eu na verdade era bem boazinha, mamãe. — E desfez o sorriso. — Ou pelo menos tentei. — Ela encarou a mãe, seus olhos verdes pareciam tão gelados. — As vozes, elas sempre diziam coisas, mas sabe, mamãe, eu as ignorava, eu sempre as ignorei, mamãe, porque eu realmente queria ser boa, mamãe.

— E mesmo assim, fez isso comigo — A mulher levantou os braços mostrando a cela em que estava, seria morta, ou pela prisão ou pela sentença.

— Ah mamãe, eu juro que tentei ser boazinha — A garota usou um tom gentil e doce, que deixava sua voz um tanto fina. — Mas você nunca me amou, nem você, nem o papai. E não adianta tentar negar. — O tom de voz saiu do gentil e doce e foi para um sombrio, que mostrava o real timbre de Felícia. — Eu sempre soube o que você pensa, mamãe, eu sempre te ouvi.

— Então é por isso que estou aqui? — A mulher questionou mantendo sua pose severa. — Porque minha própria filha me odeia?

— Mas eu não te odeio, mamãe — Felícia voltou a usar o tom delicado, mas dessa vez com um pouco de deboche junto. — Eu sempre te amei, mamãe. Tudo o que eu queria era que me amasse também, o que nunca aconteceu. Mas estava tudo bem, mamãe, eu a perdoava porque a amo, mas então…

— Então? — A mulher questionou querendo que a filha continuasse. — O que aconteceu? O que eu lhe fiz?

— Vocês me venderam para ele — A feição de Felícia tornou-se completamente sombria, assim como sua voz. — O meu querido marido.

— Me odeia por ter lhe casado? — A mulher questionou sem acreditar.

— Não, mamãe, já disse que não te odeio — Felícia afirmou. — Mas sei que você procurou pelo pior que poderia encontrar, sei que queria arrumar alguém tão ruim quanto o papai, sei que queria que eu tivesse uma vida tão miserável quanto a sua. — Respirou fundo. — E não adianta negar, mamãe, sei exatamente o que você está pensando. — E sorriu, um sorriso tão tenebroso quanto seu olhar. — Não preciso lhe contar o que ele fez, preciso? Não preciso lhe contar o pesadelo que foi, preciso?

— Você merecia pior — Ela cuspiu em Felícia, que apenas se limpou com certa elegância. — Bruxa.

— Sabe, eu pensei em terminar com a minha vida, ir embora desse mundo cruel, mamãe — Dessa vez, a garota usou um tom de voz normal, sem força-lo para ser gentil, ou sombrio, apenas queria ser ouvida. — Até que eu percebi, que as vozes não eram minhas, eram dos outros. Que ouvi-las não é meu único dom. Que existe um propósito para isso, e que ninguém nunca mais me fará sofrer, mamãe. — Ergueu-se, para ficar mais alta que a mãe. — E aqui está você, mamãe. E meu marido está com uma corda o segurando pelo pescoço, logo o encontrarão, mas não vão me encontrar, mamãe.

— Você ainda será pega, bruxa — A mulher gritou. — Você ainda vai me pagar por ter arruinado a minha vida.

Felícia recuou dois passos, olhou para os lados antes de voltar a encarar a mãe.

— Eu poderia deixá-la ser morta pelo Auto-de-Fé, mamãe, mas serei misericordiosa — A garota respirou fundo tentando criar coragem. — Darei um fim ao seu tormento aqui e agora.



"Pare de respirar"



A mulher não conseguia respirar, ela se debatia desesperada, tentando puxar um pouco de ar, mas nada, não conseguia. Ela caiu sufocando, se debatendo, dando socos no chão, desesperada para respirar, seu peito doía, parecia que ia explodir. Ela olhou para a filha pela última vez, Felícia tentava encará-la e segurar as lágrimas, não podia hesitar, não naquele momento, era muito tarde para voltar atrás. Ela ficou ali parada até a mãe desistir de lutar e ficar inconsciente.



Felícia se aproximou novamente da mãe, cujo corpo estava caído próximo às grades. Ela se sentou no chão e sentiu alguns fracos batimentos na mãe, que ainda não conseguia respirar. A menina tocou a cabeça da mãe, fechou os olhos, sentindo as lágrimas caírem, mas não podia hesitar, precisava terminar. Ela se concentrou e bem rapidamente, viu sair sangue pelo nariz da mãe e não mais conseguiu sentir os batimentos da mulher, estava feito, e não poderia ser desfeito.



Lisboa 1910

Adriano morava em um apartamento próximo ao trabalho, ele continuava a trabalhar no mesmo clube, mas agora ele morava com Felícia, ninguém entendia direito qual era a relação deles, nem ao menos sabiam que eles estavam comprometidos quando foram morar juntos, então deduziram que de alguma maneira, eles haviam se casado em segredo, o que não era verdade.

Adriano já havia cogitado casamento, mas Felícia se negara insistentemente a fazer aquilo. Ela não gostava de casamentos, não apenas de casamentos, mas não gostava de cerimônias em geral, ela também não gostava de religiões ou Igrejas, tinha uma certa antipatia especial por Católicos, mesmo Adriano sendo em teoria um católico, embora seguisse algumas tradições anglicanas da Inglaterra por influência dos Wright.



Naquela tarde, como sempre fazia, Adriano se despediu de Felícia e foi para o trabalho, onde encontrou os mesmos colegas de sempre. O dia parecia que seria igual ao anterior, até que ao final da tarde, quando ainda faltava algum tempo para abrir, uma moça chegou e ficou conversando com o proprietário.

— Quem é ela? — Adriano perguntou para Bernardo, que estava o ajudando a limpar o local.

— Serafina — respondeu. — Ela é a nova cantora.

— Ela é de uma beleza impressionante — Um jovem que também trabalhava no local comentou, o nome dele era Antônio.

— Desista — Bernardo disse rapidamente.

— Perdão, não entendi — Antônio o olhou confuso.

— Você nunca teria chances com ela — Bernardo respondeu e apontou com os olhos para a moça. — Olha como ela é. — E olhou para o jovem. — E você, é só um ferrado na vida.

— Você também nunca teria chances com ela — Antônio tratou logo de dizer. — És tão ferrado quanto eu.

— Sim, mas eu não me iludo — Bernardo sorriu sarcástico.

— Ao invés de estarem falando sobre a moça, vocês deveriam estar trabalhando — Adriano interviu. — Vamos abrir daqui a pouco.

— Não vá me dizer que também não a achou bela? — Antônio questionou cético.

— Ele não precisa — Bernardo interviu. — Ele tem a Felícia, qualquer outra mulher não parece nada perto dela.



Adriano passou o resto da noite trabalhando como garçom, servindo todas as mesas, e quando todos os clientes foram embora, ele, juntamente de outros funcionários, limpou tudo antes de finalmente poder ir embora.

Ao chegar no apartamento onde morava, já bastante tarde da noite, ele ficou surpreso por encontrar Felícia acordada.

— Achei que estaria dormindo — Ele disse ao entrar. Ele tentou beijá-la, mas a mulher friamente se desviou e ele estranhou aquilo. — Aconteceu alguma coisa?

— Como foi seu trabalho? — Ela questionou.

— Foi como sempre — Adriano respondeu pensando se estava tudo bem com Felícia.

— Não, hoje entrou uma cantora nova, não foi? — Felícia questionou.

— Sim, o que tem de demais nisso? — Adriano questionou tentando entender aquilo. — Você sabe que eu não gosto quando fica entrando na minha cabeça sem aviso, isso assusta.

— Por quê? Tem algo a esconder? — A mulher perguntou praticamente usando um tom interrogatório.

— Claro que não.

— Então por que escondeu sobre a cantora nova? — Felícia questionou.

— Porque não achei que fosse algo importante — Adriano justificou.

— Ela é bem bonita — comentou.

— Eu mal olhei para ela — Adriano suspirou cansado. — Pode olhar na minha cabeça, sabe que eu estou falando a verdade.



No dia seguinte, como sempre, no começo da tarde, Adriano saiu para o trabalho, e também como sempre, encontrou Bernardo e Antônio, ambos também trabalhando. Antônio esperou que Bernardo se afastasse para conversar com Adriano.

— Vamos fazer uma festa surpresa para o Bernardo — Antônio contou em voz baixa, ele e Bernardo moravam na mesma Pensão. — Você está convidado.

— Quando vai ser? — Adriano quis saber.

— Hoje, depois do serviço — contou.

— Depois do serviço? — Adriano perguntou com pesar, ele não poderia ir, sabia que Felícia ficaria com raiva se ele voltasse mais tarde do que devia. — Sinto muito, eu não poderei ir.

— Por que não? — Antônio perguntou confuso.

— A Felícia não gosta que eu volte tarde — Adriano explicou de maneira simples.

— Ah, sim, a Felícia — Antônio resmungou, aquela não era a primeira vez que algo daquele jeito acontecia. — Não precisa ficar sempre fazendo o que ela quer.

— Só não quero ver ela brava — Adriano explicou.

— Não sei porque tem tanto medo dela — Antônio disse. — Pelo menos uma vez, a Felícia precisa aprender a ser mais compreensível.



No final daquele dia de trabalho, quando já era um tanto tarde da noite, Adriano estava saindo para ir embora, quando encontrou Antônio, acompanhado de Serafina, que também estava hospedada na mesma Pensão.

— Você vem conosco? — Serafina perguntou e Adriano deduziu que estavam falando da festa surpresa de Bernardo.

— Não, ele não quer deixar a esposa brava — Antônio riu. — Não é mesmo, Adriano?

Adriano respirou fundo, ele queria ir, sabia que Felícia não gostaria daquilo, mas pensou que pelo menos uma vez, ele deveria fazer as próprias escolhas, já estava cansado de não poder fazer algo para não deixar Felícia brava.

— Eu mudei de ideia — Adriano contou. — Eu vou com vocês.

— A Felícia não vai ficar brava? — Antônio perguntou surpreso.

— Ela vai me matar — Adriano riu de nervoso ao pensar naquilo.

— Então é melhor aproveitar suas últimas horas de vida — Antônio também riu.

Assim, os três foram para a Pensão, aproveitando que Bernardo havia ficado no clube para terminar de limpar algumas coisas. Quando ele terminou, voltou para a pensão, e assim que entrou, teve a surpresa de encontrar não só Adriano, Antônio e Serafina, como praticamente os outros moradores da Pensão.



— Surpresa! — Todos gritaram em conjunto para Bernardo, que logo riu ao entender tudo.

— Vocês são inacreditáveis — Bernardo continuou rindo e olhou para Adriano. — Até o Adriano veio, vocês realmente fizeram milagre hoje.

Pelo resto da noite, eles festejaram com o amigo, cantaram algumas músicas, comeram bolo, conversaram. Quando estava perto de amanhecer, Adriano pensou em ir embora, mas não estava disposto a encontrar com Felícia, que certamente estaria brava, por isso, dormiu ali na pensão.

No começo da tarde do dia seguinte, Adriano, assim como Bernardo e Antônio, acordou atrasado. Rapidamente, eles se arrumaram e saíram de maneira apressada para o trabalho, chegando quase em cima do horário.

Tirando essa parte, aquele foi um dia comum de trabalho. Eles limparam o lugar durante o dia, no fim da tarde abriram para o público e Serafina havia chegado para cantar. Quando já era bem tarde da noite, o local fechou. Adriano e os outros funcionários ficaram ali limpando e quando terminaram, cada um seguiu seu caminho para ir embora, incluindo Adriano.

Adriano foi para o apartamento onde morava e entrou no lugar tentando não fazer barulho, para não acordar Felícia.

"Onde você estava?"

O homem se virou assustado, conseguindo ver Felícia ali, a espera dele.

— Meu deus — Ele disse e respirou fundo tentando se recuperar assustado. — Pode não fazer isso, quase me matou de susto.

— Talvez seja isso o que eu deveria fazer — Felícia respondeu ríspida. — Onde estava?

— Trabalhando, como sempre.

— Por que não voltou para casa? — Ela questionou.

— Por que não lê minha mente, como sempre faz? — questionou e viu que ela continuava ali, esperando por uma resposta. — Fizeram uma festa surpresa para o Bernardo e me chamaram.

— Você não deveria ter ido — Ela disse. — Deveria ter voltado para cá.

— Nem tudo tem que ser sempre do seu jeito, sabia? — Adriano respondeu já cansado daquilo.

— Eu sei o que é melhor para nós e você deveria me ouvir — Felícia permaneceu firme.

— Não é o que eu sempre faço? — gritou cansado. — Que tal você tentar me ouvir, pelo menos uma vez?

— Está dizendo que eu não te escuto? — Felícia questionou. — Tudo o que eu faço é para te proteger, não consegue entender? Não somos como os outros, eles nos matariam se soubessem o que somos.

— Por deus, Felícia — rolou os olhos. — Eu só fui comemorar o aniversário do meu amigo, não precisa ficar controlando tudo sempre.

— Eu faço isso por nós — Ela segurou nos ombros dele. — Talvez eu esteja sendo um pouco dura, mas faço isso por amor, porque te amo, Adriano. — Ela deu um beijo rápido nele que correspondeu. — Prometa que não fará algo assim.

— Eu... — Adriano tentou responder, mas algo em sua cabeça apenas dizia que ele concordasse com Felícia, para que tudo ficasse bem entre eles. —... prometo, Felícia.



No dia seguinte, novamente, Adriano saiu para trabalhar. Aquele foi um dia comum, que nem os outros. Ao fim do trabalho, ele estava saindo quando ouviu vozes vindas de um beco. Curioso, ele seguiu as vozes e encontrou dois rapazes segurando Serafina.

— Já disse para me deixarem em paz — A mulher se debatia.

— Deveria ser mais gentil — O rapaz disse. — Afinal, foi você quem nos provocou.

— E sozinha, com essas roupas, É claro que quer algo — O outro riu.

— Ela disse para deixarem ela ir — Adriano decidiu interferir. — São surdos?

— Isso não é de sua conta, idiota — Um dos rapazes gritou sem nem olhar para Adriano.

— Vá embora! — O outro completou.

Adriano apenas fechou os punhos, foi até eles e sem pensar muito, deu um soco em um dos rapazes, que caiu e soltou Serafina.

— Como você ousa, seu garçonzinho — O outro ficou enfurecido e também deu um soco em Adriano. O caído se levantou e assim como o amigo, começou a bater em Adriano, enquanto Serafina gritava para que eles parassem.

Atraído pelos gritos, Bernardo, acompanhado por Antônio, viu aquela cena e eles partiram para cima dos agressores, conseguindo fazer com que parassem de surrar Adriano e fossem embora.

— Você está bem? — Bernardo perguntou ajudando Adriano a se levantar.

— Aqueles idiotas covardes — Antônio comentou.



Eles levaram Adriano de volta para dentro do clube, onde colocaram gelo sobre os ferimentos de Adriano, que precisou sentar-se em uma cadeira.

— Obrigada — Serafina agradeceu enquanto ajudava Adriano com o gelo.

— Só fiz minha obrigação — Adriano sorriu fraco, tentando esconder as dores que sentia com os ferimentos.

— Tem certeza que consegue voltar para casa assim? — Antônio questionou preocupado.

— Se eu não voltar Felícia ficará bastante brava.

— Mas ela teria de compreender, não? — Bernardo perguntou incrédulo. — Pelo menos dessa vez.

— É complicado — Adriano se levantou. — Vejo vocês amanhã.



Então, Adriano foi embora. Ao chegar no apartamento, encontrou Felícia a sua espera, ela ficou chocada ao ver os ferimentos dele.

— O que aconteceu? — Ela perguntou preocupada e leu a mente dele, descobrindo sobre a briga. — Por que fez isso?

"Ela precisava da minha ajuda"

"Não deveria ter feito isso"

"Eu não poderia deixar que fizessem alguma atrocidade com ela"

"Atrocidades piores acontecem, acostume-se"

"Queria que eu deixasse que eles fizessem algo com ela?"

"Talvez fosse o melhor a ser feito"

— Meu deus, Felícia, você é maluca — Ele se afastou dela, bravo, chocado, confuso.

— Adriano…

— Deixe eu adivinhar? Vai começar com a conversa de que está apenas nos protegendo? — Adriano questionou, Felícia sempre usava aqueles argumentos. — Eu jamais deixaria que alguém fizesse mal a ela assim como nunca deixaria alguém te machucar, teria feito o mesmo por você, ou até pior, talvez até tivesse usado os meus poderes.

— Sim, mas eu sou o seu amor, ela é só uma vadia forasteira — Felícia respondeu aumentando ainda mais o sentimento de descrença de Adriano.

— Ela é minha amiga — Adriano gritou. — Eu nunca deixaria que machucassem um amigo meu, consegue entender isso?

Ele se virou de costas ignorando qualquer coisa que ela tentasse dizer e foi dormir, ainda sentia dores e precisava espairecer a cabeça.



No dia seguinte, ele se levantou, se arrumou e foi trabalhar, fez o máximo de esforço possível para não falar com Felícia, não queria brigar com ela, já estava cansado daquilo. Quando chegou no trabalho, ele encontrou o chefe, que ficou chocado ao ver os ferimentos no rosto de Adriano.

— O que aconteceu? — O homem perguntou chocado.

— Foi minha culpa — Serafina interferiu, ela havia chegado mais cedo naquele dia. — Alguns rapazes me atacaram e Adriano me defendeu.

— Bom... — O homem respirou fundo. — Adriano, não posso deixar que sirva os clientes com essa cara, vai espantá-los. — E ficou pensativo por alguns instantes. — Hoje você vai ajudar na cozinha, tudo certo?

— Sim senhor — Adriano concordou e naquele dia, ao invés de servir as mesas, ele trabalhou na cozinha.

Quando todos os clientes foram embora, Adriano ajudou os outros funcionários a limparem o local e quando estava quase terminando, ficou surpreso ao ver Felícia entrando no lugar.

— Oh deus, Adriano — Bernardo disse tentando conter um riso. — Você deve estar tão encrencado.

— Com certeza — Antônio também riu.

Serafina estava ao lado deles, completamente confusa quanto as risadas, enquanto Adriano tinha uma feição séria, não sabia porque Felícia estava ali, mas sabia que não era algo bom.

— Adriano — Ela sorriu ao se aproximar.

— Felícia — Adriano disse apreensivo. — O que está fazendo aqui?

— Vim para te buscar — Felícia disse de maneira simpática. — E para ver o seu trabalho. Não posso?

— Você me pegou de surpresa — Adriano justificou.

— Não só ele — Bernardo sorriu para a mulher. — Bom te ver, Felícia.

— Então você é a famosa Felícia? — Serafina questionou surpresa. — É um prazer finalmente conhecê-la. — A cantora estendeu a mão para cumprimentar a outra mulher. — Meu nome é Serafina.

Felícia apenas a encarou, sem apertar as mãos dela.

— Imaginei que fosse — Felícia disse de maneira desdenhosa.

— Bom, Adriano sempre fala de você — Serafina disse. — Ele te ama bastante.

— Eu sei — A mulher respondeu da mesma maneira de antes e olhou para Adriano. — Vamos?

— Sim, vamos, Felícia — Adriano tratou de sair logo com Felícia dali, deixando Serafina confusa juntamente de Bernardo e Antônio.

— Qual o problema dela? — Serafina perguntou se referindo a Felícia.

— Acho que ela estava com ciúmes de você — Bernardo deduziu.

— Ciúmes? — Serafina ficou confusa. — Por quê ela teria ciúmes de mim?

— Por que ela não teria? — Antônio riu.



Quando chegaram no apartamento, Adriano olhou pelas janelas e respirou fundo antes de decidir conversar com Felícia.

— Por que foi até lá? — Adriano decidiu perguntar.

— Pensei que talvez assim conseguisse que você falasse comigo — Felícia justificou. — Então aquela vadiazinha é a tal Serafina?

— Sério que quer começar uma discussão? — Adriano perguntou cansado, sabendo o que aconteceria. — Não podemos passar pelo menos um dia sem brigar?

— Poderíamos se não ficasse olhando para aquela vadiazinha — Felícia respondeu ríspida.

— Eu não olho para ela, não desse jeito, somos amigos — Adriano tratou de dizer. — Você pode ler a minha mente, sabe que estou falando a verdade.

— Se não olhou ainda olhará — Felícia disse. — É só questão de tempo, eu não vou suportar que me traia, Adriano, não você.

— Felícia, eu nunca te trairia, você sabe disso — Adriano tentou convencê-la, mas sabia que aquilo era caso perdido.

— Sei? Sei mesmo? — Felícia questionou cética.

— Por deus, Felícia, eu não aguento mais — Adriano disse. — O que quer de mim?

— Quero que me obedeça, que seja fiel — respondeu.

— Já disse que nunca vou te trair, mas se não acredita em mim então talvez devêssemos terminar tudo — Foi a primeira vez que Adriano havia falado em término, embora aquela ideia já houvesse lhe passado pela cabeça.

— Terminar? Diz que não me trairia, mas está cogitando me largar? — Felícia questionou, brava.

— Eu não quero te largar, Felícia, mas não sei se conseguimos continuar juntos — Adriano justificou. — Não passa um dia em que não brigamos.

— Você me largaria e o que faria depois? Correria para a tal da Serafina?

— Por deus — resmungou.

— Por deus digo eu! — Ela gritou nervosa, ela levantou a mão e um impulso telecinético jogou Adriano longe.

Ele a viu caminhando em sua direção e rapidamente se levantou. Adriano decidiu também usar os poderes, ele levitou uma faca e a apontou para Felícia, que parou de andar.

— Você me machucaria, Adriano? — Felícia perguntou com um tom que parecia assustada, embora Adriano soubesse que seria impossível que Felícia estivesse assustada.

Ele apenas deixou que a faca caísse, por um momento, sentiu-se parecido com o padrasto, Joaquim, e aquilo o assustava. Ele jamais machucaria Felícia, mas tinha dúvidas se ela sentia o mesmo.

— Desculpa — Adriano pediu de maneira involuntária, ele não queria pedir desculpas, mas algo em sua cabeça o fez fazer aquilo.



No dia seguinte, o clima tenso continuava entre o casal, que trocou poucas palavras naquela manhã. No começo da tarde ele saiu para trabalhar e como sempre, encontrou Bernardo e Antônio, que praticamente chegaram no mesmo horário que ele.



— Teve muitos problemas em casa? — Antônio perguntou assim que viu Adriano.

— Só o de sempre — Adriano respondeu simples.

— Não sei porque deixa ela ficar mandando em você — Bernardo comentou. — Você é o homem da casa, não deveria deixar isso acontecer.

— Eu entendo — Antônio disse. — Se eu tivesse alguém como a Felícia eu faria o mesmo.

— Alguém como a Felícia? Maluca? — Bernardo questionou.

— Bonita — Antônio explicou. — Com todo o respeito, Adriano, mas a Felícia é a mulher mais bonita que eu já vi, claro, depois da Serafina.

— E você não teria chances com nenhuma das duas — Bernardo comentou dando alguns tapinhas no ombro de Antônio.

— Bom, a Serafina está solteira, se alguém como o Adriano teve alguma chance com a Felícia, então ainda tenho chances com a Serafina — Antônio respondeu de certa forma esperançoso.

— Que gracinha, o pirralho é sonhador — Bernardo comentou e riu, assim como Adriano, que deu um soco fraco no braço de Antônio.

O resto do dia de trabalho foi normal, exceto que Adriano mais uma vez trabalhou na cozinha, por ainda ter alguns machucados no rosto. Quando o último cliente foi embora, os funcionários começaram a limpar o local e quando estavam quase terminando, Bernardo chamou Adriano para que comesse algo na Pensão, e Adriano estava receoso sobre se aceitava aquilo.

— Estou tentando passar um dia sem brigar com a Felícia — explicou.

— Por isso mesmo você deveria vir com a gente — Bernardo argumentou. — Precisa espairecer um pouco, descansar de tudo, sabe?

— Mas em algum momento eu vou ter que voltar para casa e ela estará lá, pronta para reclamar — Adriano argumentou receoso, embora cogitasse aceitar ir com os amigos.

— Mais um motivo para você vir, para poder pensar um pouco sobre isso — Bernardo argumentou e finalmente, Adriano decidiu ir com eles, ele sabia que estaria encrencado, mas decidiu que não viveria com medo de Felícia.

Quando terminaram de limpar tudo, os amigos saíram do lugar, mas antes que pudessem pelo menos virar a esquina, se depararam com Felícia.

— Felícia? — Adriano não conseguia acreditar.

— Interrompo algo? — Felícia questionou séria.

— O que você está fazendo aqui? — Adriano questionou.

— Vim te buscar para irmos para casa — Felícia respondeu e viu os amigos de Adriano ali. — O que estão fazendo?

— Estamos indo comer na Pensão — Bernardo respondeu. — Pode vir conosco se quiser.

— O Adriano deveria estar indo para casa — Felícia argumentou olhando diretamente para Adriano.

— São apenas alguns minutos, Felícia — Adriano argumentou.

— Você deveria vir comigo agora — Felícia continuava irredutível.

— Não pode ficar mandando nele sempre, Felícia — Bernardo interviu e Serafina segurou o ombro dele.

— Por favor, não se meta — Serafina pediu em voz baixa.

— Escute a rameira — Felícia disse surpreendendo a todos ali. — Vocês não tem nada a ver com isso.

— O Adriano é nosso amigo então nós temos sim — Bernardo respondeu. — Não acredito que ele se casou com uma maluca feito você.

— Não somos casados — Adriano disse em voz baixa, mas foi o suficiente para que todos ali ouvissem.

— Não são casados? — Antônio estava surpreso, assim como os outros.

— Então por que continua com essa maluca? — Bernardo questionou.

Foi apenas uma questão de segundos, Felícia encarou Bernardo e um impulso telecinético o jogou longe, fazendo com que Serafina e Antônio corressem até ele para ajudá-lo, Adriano ficou paralisado onde estava, não conseguia acreditar no que Felícia havia feito.

— O que aconteceu? — Serafina perguntou confusa enquanto Antônio ajudava Bernardo a se levantar.

— Eu não sei — Bernardo respondeu tão confuso quanto Serafina. — Alguma coisa... me puxou.

Adriano continuava paralisado no mesmo lugar, ainda sem acreditar no que havia acontecido. Ele decidiu que iria para casa e conversaria com Felícia, as coisas não podiam continuar como estavam.

Quando chegaram no apartamento, Adriano apenas esperou que Felícia fechasse a porta para conversar com ela.

— O que deu em você? — Adriano questionou. — Você usou os seus poderes nele.

— Ele mereceu — Felícia argumentou.

— Por não concordar com você? — Adriano não conseguia acreditar.

— Se você tivesse voltado direto para cá nada disso teria acontecido — Felícia continuou a argumentar.

— Nem tudo tem que ser sempre do seu jeito, sabia? — Adriano questionou cansado.

— Eu sei o que é melhor para nós dois — Felícia disse. — Precisa entender isso.



"Apenas seja um bom garoto, Adriano"

"Pare com isso!"



— Se soubesse realmente não teria feito aquilo — Adriano rebateu. — Eu... estou tão cansado de tudo isso!



"Apenas faça o que eu digo e tudo fica bem"

"Não, Felícia, você não entende?"

"Entender o quê?"

"Isso, você quer sempre controlar tudo, as coisas tem sempre que ser do seu jeito, por Deus, eu não sei se dá para continuarmos com isso"



— O que quer dizer? — Felícia questionou confusa.

— Talvez seja melhor cada um ir para um lado — Adriano disse com pesar na voz. — Isso não está dando certo.

— Está me deixando? — Felícia questionou com descrença em sua voz.

— Chame do que quiser, o fato é que não damos certo juntos — Adriano argumentou.

— Aposto que foram aqueles seus amigos que colocaram essas coisas na sua cabeça — Felícia disse. — Mas eles vão ver só…

— Não, Felícia, não é isso! — gritou. — Eu consigo pensar e fazer minhas decisões sozinho, sabia?

— Então por que quer me deixar?

— Você quer mesmo saber? — Adriano perguntou irônico olhando em volta antes de voltar o olhar para Felícia. — Leia a minha mente, como sempre, não é sempre assim, sabe-tudo? — Questionou. — Mas se quiser que eu diga, é porque não combinamos, é porque você quer controlar tudo, é porque não conseguimos passar um dia sem brigar, mas especialmente... — Respirou fundo. —... porque você é maluca!

Adriano se virou para ir embora, mas alguma força o paralisou e não o deixou se mexer, ele ficou confuso por um momento, era Felícia.

— O que está fazendo? — Adriano questionou.

— Não vou deixar você ir — Felícia disse, contra a própria vontade, Adriano andou até o sofá e sentou-se lá, ele não conseguia acreditar, Felícia estava o controlando.

— Você está me controlando?

— Estou fazendo o que é melhor para nós — Felícia argumentou.

— Você já fez isso, não? — Adriano questionou lembrando-se de vários momentos em que não queria fazer algo, mas fez, por causa de alguma força misteriosa o controlando, aquilo acontecia com certa frequência naqueles últimos dois anos, e sempre quando Felícia estava por perto. — Você já fez isso comigo, não fez?

— Só quando necessário — Felícia respondeu. — Eu só quero que você entenda…

— Entender o quê? — Adriano questionou. — Não podemos ficar juntos, Felícia, isso não faz bem para nenhum de nós dois.

— Eu não vou deixar você ir então é melhor que mude de ideia — Felícia se sentou ao lado de Adriano.

— Vá em frente, me faça mudar de ideia, entre na minha cabeça — Adriano desafiou. — Porque só assim eu aceitaria continuar com isso.

— Adriano, tente ser racional, por favor…

— Eu estou sendo racional — Adriano respondeu. — Felícia, me deixe ir, por favor.

— Você está me deixando sem escolhas — Felícia fechou os olhos e respirou fundo. — Pare de ser cabeça dura.

Algumas tesouras e facas voaram pela casa, e todas ficaram apontadas na direção de Felícia, que ficou surpresa com aquilo.

— Me deixe ir — Adriano pediu com a voz pesada, não conseguia se mexer, mas ainda conseguia usar os poderes.

— Você me machucaria? — Usou o mesmo tom triste de antes, Adriano não caíria naquilo, não de novo.

— Geralmente não, mas você machucaria, então só estou respondendo da mesma maneira — Adriano argumentou, ainda mantendo as facas e tesouras no ar.

— Eu sinto muito...

Então tudo se apagou, um completo escuro...



Adriano acordou tonto, estava em um lugar grande e vazio, amarrado, com Felícia ali.

— O que aconteceu? — perguntou confuso e se lembrou da briga que tiveram. — Felícia, o que está fazendo?

— Resolvendo nossos problemas — Ela se aproximou, se abaixou e segurou o rosto de Adriano. — para que possamos ficar juntos.

— Felícia, o que vai fazer? — Adriano perguntou preocupado, não sabia do que Felícia era capaz, percebeu que praticamente mal a conhecia.

Felícia apenas se levantou e deixou Adriano sozinho ali. Ele sabia que precisava fugir, mas as cordas estavam bem amarradas e não havia metal por perto, Felícia havia escolhido aquele lugar exatamente por isso. O único metal que tinha era o da sustentação e se ele tentasse usá-lo o prédio inteiro caíria em cima de si.

Ele gritou por um tempo na esperança de que houvesse alguém ali que pudesse ajudá-lo, mas ninguém apareceu, sua única chance era conseguir se desamarrar e fugir.

Ele fez bastante esforço e ficou por horas retorcendo as próprias mãos até finalmente conseguir afrouxar as cordas e desamarrar as cordas. Em seguida, ele conseguiu desamarrar as cordas que prendiam os braços, depois desamarrou as pernas e finalmente conseguiu se levantar.

Enfim, ele arrombou a porta e correu para ficar o mais longe o possível daquele lugar no menor espaço de tempo possível.

Ele decidiu ir até a Pensão onde os amigos moravam, para saber como Bernardo estava e talvez pedir a ajuda deles, ao chegar lá, ele encontrou Serafina que imediatamente o abraçou.

— O que está acontecendo? — Adriano perguntou confuso ao desfazer o abraço.

— Você ficou sumido por dois dias — Serafina explicou. — Todos ficaram bastante preocupados.

— Dois dias? — Adriano não conseguia acreditar. — Onde estão Antônio e Bernardo?

— Você não soube? — Serafina perguntou surpresa. — Pensei que tinham te contado.

— Soube do quê? — questionou preocupado. — O que aconteceu.

— Eles se mataram — Serafina respondeu e percebeu como Adriano ficou chocado. — Ninguém esperava, não consigo entender porque eles fariam isso.

Mas Adriano sabia. Sabia que Felícia havia feito aquilo. Ele não podia ficar ali nem mais um minuto. Precisava ir para bem longe antes que Felícia o encontrasse. Ele juntou algum dinheiro que tinha e se escondeu em um pequeno apartamento na cidade, ficaria ali por apenas um dia, planejava ir embora logo, antes que Felícia pudesse acha-lo.

Porém, quando Adriano se virou, encontrou Felícia atrás de si, o que o assustou.

— Como me achou? — Ele perguntou assustado.

— Achou que poderia fugir de mim? — Felícia questionou.

— Eu precisava tentar — Adriano respondeu. — E ainda bem que fugi, assim pude descobrir que você é uma assassina... monstro.

— Eu só fiz o que era necessário — Felícia argumentou. — Agora nada pode nos separar…

—... exceto você e sua loucura — Adriano a interrompeu. — Você os matou e não sente nada? Nem arrependimento?

— Por que eu sentiria? — Felícia questionou. — Eles mereceram.

— Eles nunca te fizeram nada — Adriano respondeu chocado, realmente não conhecia a verdadeira Felícia, tudo havia sido uma mentira.

— Eles tentaram nos separar — Felícia respondeu.

— Não, não foram eles quem nos separaram — Adriano respondeu. — Foi você, Felícia, pare de culpar os outros, foi você quem causou tudo isso, meu deus... você matou inocentes, Felícia!

— Ninguém é inocente — Felícia respondeu em um tom sombrio.

— Felícia, por favor, apenas vá embora, vamos cada um para um lado, sem mais sofrimento — Adriano pediu, tentando trazer a tona qualquer pingo de racionalidade que pudesse existir em Felícia.

— Não fale assim, Adriano — Ela se aproximou. — Eu sei que me ama.

— Não, Felícia, eu não te amo, não mais — Ele recuou alguns passou. — Felícia, você... você é um monstro... você me assusta…

— Então é isso? — Felícia começou a rir, deixando Adriano confuso. — Você acha que eu te assusto? — Felícia pegou uma arma e entrou na cabeça de Adriano, fazendo com que ele segurasse a arma contra a própria cabeça.

— O que você está fazendo? — Adriano tentava largar a arma, mas não conseguia, Felícia não deixava.

— Você achou tudo isso assustador? — Ela questionou, estava completamente insana. — Você ainda não viu nada.

— Felícia, por favor, não faça isso!

— Você me decepcionou — Algumas lágrimas escorreram pelo rosto de Felícia. — Pensei que você fosse diferente.

— Por favor, não faça isso.

— Por que não? — Ela questionou. — Sabia que eu matei minha própria mãe? Sabe por quê? Porque ela sempre me odiou, porque ela me vendeu para um monstro e não sentiu remorso por isso, mas eu senti... senti remorso quando a matei. Sabe o que fiz com o monstro do meu marido? Eu também o matei, admito que fiquei feliz ao ver ele morrendo. Mas não para por aí, porque eu me apaixonei, sabe por quem? Por um pirata. Ele era... charmoso e eu fiquei completamente apaixonada por ele. O maldito me usou de todas as maneiras possíveis e quando se cansou de mim, jogou fora e me trocou por uma qualquer, mas eu não deixei barato, eu matei os dois. — Riu. — Quer saber como é o barulho que o corpo faz quando está sendo cortado ao meio?

Ela encarou Adriano que estava completamente chocado e assustado.

— Esse mundo foi construído por monstros, Adriano, e eu aprendi com cada um deles — Ela continuou. — Então diga, por que eu deveria poupá-lo?

— Vá em frente — Adriano disse, desistindo de lutar. — Me mate, como o monstro que é.

Felícia o encarou por alguns instantes antes de deixar que ele soltasse a arma, Adriano enfim, respirou aliviado, pelo menos por alguns segundos.

— Eu queria que você conseguisse me entender — Felícia disse com pesar na voz.

Adriano apenas a encarou em silêncio antes de ir embora, tentando ir para o mais longe possível daquela pessoa.