Notas iniciais
Não vou enrolar aqui, apenas sejam bem vindos, espero que gostem o/

Moscóvia – 1524

Aquela era uma região camponesa, a maioria ali vivia da criação de gado ou da plantação, servindo ao Senhor daquela terra. Era uma vida sem grandes mudanças, exceto por períodos de frio, guerra e fome. Todos os dias eram iguais para todos, incluindo para o homem que morava naquela pequena casa, onde conforto com certeza não era esperado. Mas ele já estava acostumado, já havia dormido em lugares piores durante algumas guerras que havia lutado. Naquele dia, ele com certeza não esperava por surpresas.

O dia ainda nem havia amanhecido, embora tal momento não estivesse longe, com o escuro céu da madrugada assumindo um tom azulado que aos poucos ficava mais claro.

De repente, o Homem foi acordado por batidas em sua porta. Quando conseguiu ficar consciente, estranhou aquilo, coçou os olhos e a cabeça, tentando entender quem poderia visitá-lo se ele não tinha ninguém, nenhum amigo, nenhuma família.

Ele se levantou, e ainda com sono, foi até a porta e a abriu, encontrando um jovem, que no máximo parecia ter em volta de quinze anos de idade.

— Posso ajudar? — O homem perguntou estranhando bastante aquilo.

— Вы, Николай? — O garoto perguntou em um russo com sotaque bastante carregado, ele definitivamente não era daquela região, um estrangeiro.

O jeito do forasteiro falar era bastante familiar ao homem que tentava lembrar de onde havia ouvido algo parecido.

— Sou eu sim — respondeu. — Posso ajudar?

— Меня зовут Жак — O garoto disse seu nome, ainda tentando falar russo. — Há cinquenta anos você foi embora da França antes que pudesse saber que uma mulher, com quem você se relacionou por algum tempo, de nome Leonor, estava grávida.

— Então, eu tenho um filho? — questionou cético.

— Sim, você entendeu bem — O garoto respondeu em francês e quando percebeu o que fez, repetiu o que disse anteriormente, mas dessa vez em russo.

— Bom, não estou vendo esse filho em lugar nenhum e você não parece ter cinquenta anos, então adeus — Ele tentou fechar a porta, mas o garoto o impediu.

— Eu não tenho a idade que pareço ter — explicou e respirou fundo. — Demorou algum tempo até que eu percebesse que não envelheço como as outras pessoas fazem. Envelheço devagar, e julgando que você é exatamente como minha mãe se lembrava da última vez que a vi, acho que sou como você.

— Você não parece nada comigo — O homem disse, e de fato, era verdade.

O garoto tinha olhos e cabelos escuros, enquanto o homem tinha o cabelo loiro escuro e olhos azuis, eram bastante diferentes fisicamente, exceto por algumas pequenas feições no rosto, mas eram tão poucas que era necessário um olhar muito atento para perceber tais semelhanças.

— As pessoas dizem que pareço com a minha mãe — explicou. — Ou pelo menos diziam. Mas eu também posso ver o que as pessoas pensam, exceto você, não consigo ver o que você pensa. Pensei, que talvez você também possa fazer isso.

— Garoto, você deve ter bebido muito, essas coisas fazem muito mal para a cabeça — O homem respondeu ainda descrente, embora estivesse em dúvida. — Ficar andando bêbado por aí pode lhe fazer bastante mal.

— Você não acredita em mim? — questionou.

— Não é a história de bêbado mais criativa que já ouvi — O homem respondeu e riu de descrença. — Mas confesso que você é maluco.

O garoto ficou em silêncio por alguns segundos, pensando sobre aquilo, ele olhou para o chão antes de voltar a olhar para o homem.

— Sinto muito por tê-lo incomodado. Adeus — O garoto se virou para ir embora.

O homem respirou fundo antes de chamá-lo de volta, ao que o garoto voltou a olhar para ele, mas dessa vez mais longe.

— Está mesmo dizendo a verdade?

— Acha que vim da França até aqui para não estar dizendo a verdade?

— Parece uma grande perca de tempo — O homem comentou. — Caso você seja mesmo meu filho, já viu essa merda de lugar? — Os dois olharam em volta, a casa em que o homem morava era muito pequena e caía aos pedaços. — Não sei quão ruim sua vida seja, mas com certeza não é pior que isso aqui.

— Então parece ser notável que sou um grande desperdiçador de tempo — Novamente, o garoto virou para ir embora, mas dessa vez, o homem foi até ele e o segurou. — O que quer? Você não acredita em mim, sou apenas um maluco para você.

— Pensemos em uma situação hipotética — O homem soltou o braço do garoto. — Digamos que eu veja tudo o que qualquer um pense, mas não consigo ver o que você pensa, o que nunca aconteceu antes, poderia isso acontecer por termos as mesmas habilidades?

— Eu não sei, nunca conheci alguém que pudesse ver pensamentos — respondeu. — Quando eu era criança eu achava que poderia ser o único.

— Conte-me sobre isso.

O garoto respirou fundo.

— Quando eu era criança, eu ouvia vozes na minha cabeça e não as entendia — explicou. — Achava que poderia ser o demônio falando comigo e por isso eu morria de medo. Até que em um momento, me dei conta de que não era o demônio, que eram os outros, que o que eu ouvia era o que eles pensavam. Foi por isso que fui atrás da minha mãe, pensei que talvez ela fosse como eu. Mas quando eu a encontrei, ela estava doente, eu vi na cabeça dela e o vi lá, vi que você poderia ser como eu.

— E por isso veio aqui? — questionou. — Para saber se eu sou como você?

— Eu só... — O garoto suspirou. —... esperava que existisse alguém como eu no mundo, para ter certeza de que não sou louco.

— Você atravessou o mundo para vir aqui — riu novamente. — Definitivamente é louco. Mas não se preocupe, existem pessoas mais loucas. — E encarou o menino, agora mais sério. — O que diz é mesmo verdade?

— Eu teria que ser muito mais louco para viajar tudo isso só para mentir para você — respondeu rindo de nervoso. — Pode mesmo ver os pensamentos dos outros? É mesmo o meu pai?

— Tudo leva a crer que eu sou.

Aquilo assustava o homem, que nunca havia pensado que tivesse um filho, alguém que era como ele, que até mesmo, o garoto iria atrás dele.

O Homem deixou o Garoto entrar em sua casa, enquanto o céu acima deles, um pouco mais claro, tinha um pequeno raio de luz vindo do horizonte, eram tímidos raios de um sol que ainda estava começando a aparecer.

Notas finais
Você deve estar se perguntando: "Mas isso não tava na sinopse! O que isso tem a ver com o resto da história? Quem são esses dois?" Calma que logo suas perguntas serão respondidas, meu jovem padawan