HL: Blue Skies
4 Máquina de guerra
Em 1838, Adriano tinha trinta e dois anos, mas aparentava dez. Desde que Joaquim tentara lhe matar, ele vivia pelas ruas do Rio de Janeiro. Se escondendo de tudo e de todos, com medo de que tentassem matá-lo novamente.
E assim foi por anos, ele se escondia de tudo o que lhe parecia uma ameaça. Nunca mais viu Joaquim, o irmão ou os sobrinhos. Era tudo parte do passado dele.
Em 1841 tinha trinta e cinco anos, mas continuava a aparentar apenas dez. Envolveu-se em uma confusão na qual os únicos presos foram ele e um velho liberto, Adriano tentou usar os poderes para fugir, mas ainda não sabia controlá-los, e assim, ele e o velho foram colocados na mesma cela.
— Eu vi o que fez — O velho comentou chamando a atenção do menino, que ficou confuso.
— Eu não entendo — O menino o encarou, tentando entender o velho
— O que tentou fazer com a arma dos soldados — O velho lembrou. — Não é humano, é?
— Como sabe? — Adriano perguntou preocupado, temeu que o colega de cela contasse a um dos guardas.
— Meu filho é como você — O velho contou com um sorriso no rosto. — Ele é especial.
— Onde ele está? — Adriano quis saber.
— A essa hora bem longe daqui, se ele tiver juízo — O velho respondeu. — Sou Batista.
— Adriano.
— Quantos anos tem, Adriano? — Batista quis saber.
— Acho que trinta e cinco — coçou a cabeça tentando lembrar se estava certo.
— Trinta e cinco é tempo considerável — Batista comentou. — Não deve ter sido fácil para os seus pais te esconderem.
— Não, não foi.
— Papai? — Ouviram uma voz surgir do nada. Era bastante familiar a Batista.
— Miguel? — Após dizer aquilo, Batista viu o filho aparecer, ele havia entrado lá invisível. — O que está fazendo aqui? Era para estar longe.
— Não vou sem você — Foi quando Miguel finalmente viu Adriano confuso ali na cela.
— Miguel, esse é o Adriano, ele é como você — apontou para o menino. — Ele tem trinta e cinco anos e faz uma coisa muito estranha com metais.
— Metais? Consegue quebrar essas grades? — O rapaz perguntou a Adriano, que não conseguia responder. Estava muito confuso. — Menino?
— Eu... nunca tentei — Adriano respondeu gaguejando.
— Sempre tem uma primeira vez — Miguel fitou o garoto, que se aproximou das grades e as tocou.
Então sentiu-as se quebrando ao meio e levantando-se, o ruído foi alto o suficiente para chamar a atenção dos guardas, que correram até lá para verificarem o que aconteceu, e tiveram a surpresa de encontrarem grades quebradas, Adriano e Batista fora da cela e Miguel perto deles.
— Nem mais um passo! — Um guarda apontou uma arma para eles. Antônio segurou na mão do pai e do menino e os três ficaram invisíveis.
— O que foi isso? — Um guarda perguntou assustado.
— Assombração, cruz credo — O outro também estava assustado. — Você não vai contar isso a ninguém, levaremos esse segredo aos nossos túmulos, entendeu?
Longe dali, Miguel voltou a ficar visível, juntamente de Batista e Adriano, que ainda estava bastante impressionado. Era a primeira vez que ele conhecia alguém com "talentos especiais" como ele.
— Como faz isso? — Adriano perguntou impressionado.
— É como andar, bem fácil para mim — Miguel respondeu. — Assim como quebrar grades deve ser bem fácil para você.
— Bom, foi a primeira vez que fiz isso — Adriano disse acanhado. — Você costuma estar sempre invisível?
— Só quando preciso — Miguel respondeu simples.
— Tem família? — Batista perguntou para Adriano.
— Minha mãe morreu — disse de cabeça baixa ao lembrar da mãe. — O marido dela tentou me matar e não sei onde meu irmão está.
— E seu pai? — Miguel ficou curioso.
— Ele foi embora antes de eu nascer — Adriano explicou. — Ele não era do Brasil. Trabalhava no porto.
— Sabe o nome dele?
— Jack... — Adriano tentava se lembrar. — Jack Smith.
— Conheço um homem no porto que se você o pagar, ele pode fazer alguns favores — Miguel comentou. — Talvez ele possa te falar algo sobre o paradeiro do seu pai.
— Mas não tenho nenhuma moeda — Adriano lamentou.
— Devo ter algumas moedas comigo — Miguel disse.
— Me ajudaria?
— Claro, você me ajudou a tirar meu pai da prisão, lhe devo isso — Miguel respondeu.
Logo que amanheceu, Miguel entregou algumas moedas a Adriano que foi até o homem indicado no porto, ele estava próximo a um navio que havia acabado de chegar.
— Olá — Adriano se aproximou. — Você é o Paulo?
— Eu mesmo — se virou para o menino. — O que quer?
— Um amigo me disse que você faz favores se pagam — Adriano comentou.
— Duvido que um pequeno como você tenha condições para pagar qualquer coisa — Então o homem se virou, tentando ignorar o menino.
— Só preciso de uma informação — Adriano disse, mas o homem continuava a ignora-lo. — Posso pagar.
E o homem voltou a olhar para ele.
— Que tipo de informação? — Paulo questionou.
— Estou procurando um homem chamado Jack Smith, ele trabalhava aqui há mais de trinta e cinco anos atrás — Adriano mostrou as moedas, Paulo tentou pegá-las, mas Adriano não deixou. — Primeiro a informação.
— Eles têm uma lista onde anotam o nome de alguns estrangeiros que trabalharam aqui, posso checa-la e procurar o nome desse Jack — Paulo disse. — Me encontre aqui a noite e te darei a informação que precisa.
Assim, Adriano voltou para onde estava se escondendo com Batista e Miguel e esperaram anoitecer, com isso, ele voltou ao porto e encontrou Paulo novamente.
— Tem a informação?
— Ele trabalhou em um navio que estava indo para Salvador em mil oitocentos e cinco e não mais voltou — disse. — Agora, as moedas.
— Como sei que está falando a verdade? — Adriano questionou.
Paulo pegou um pedaço de papel, provavelmente arrancado de um caderno, e entregou para o menino.
— Está tudo aqui. — Então entregou o papel para Adriano, que lhe entregou as moedas. — Foi um prazer fazer negócios com você. — Então se afastou de Adriano, que saiu dali e foi encontrar Batista e Miguel.
— O que descobriu? — Miguel quis saber.
— Ele foi para Salvador.
Aquele seria o destino de Adriano, onde o menino tinha esperanças de encontrar respostas. Apesar de estar escuro pela noite, a lua e as estrelas brilhavam intensamente, quase como se quisesse guia-los em uma direção.
1914
Mais uma batalha. Adrien, Michel e Henri ficaram nas posições de tiro com outros soldados defendendo a trincheira, enquanto vários outros saíam correndo para encontrar o inimigo do lado de fora.
Adrien tinha que atirar em qualquer um que tentasse chegar na trincheira, assim como vários outros que estavam ali. Ele nem sabia em quantos haviam atirado, ou se havia acertado alguém. Atirava em qualquer alemão ali perto. Se questionava sobre o que estava fazendo e sobre o que estava acontecendo. Aquilo lhe parecia muito surreal.
Viu um garoto que há alguns dias havia dividido um pedaço de queijo com ele sendo baleado na Terra de Ninguém. Outro rapaz que geralmente trocava de posto com ele foi baleado pelo inimigo. Outro estava caído agonizando sem uma das pernas.
Olhou para os lados e viu Michel e Henri em uma espécie de piloto automático. O que estava acontecendo?
Mais um rapaz ferido, levou vários tiros antes de cair, este havia lhe dito "bom dia" uma vez. Ele não se lembrava quando, mas lembrava que ele tinha dito aquilo. Então outro caiu, aquele havia jogado cartas com ele e Henri uma vez.
Adrien continuou atirando, mesmo pensando em tudo aquilo, estava completamente automatizado. Tinha de atirar. Ou quem estava ali do seu lado também morreria, isso incluía Henri e Michel.
Um jovem que estava sempre falando de sua noiva levou vários tiros. Ele não retornaria para ver a jovem de quem tanto falava. Outro que sempre falava com Adrien sobre o clima entrou em uma luta corporal com um alemão, aquilo não durou muito, logo o jovem caíra. Assim como o alemão, que levou um tiro de Michel. E Adrien atirou em mais pessoas. Quantas? Ele nem estava contando.
Um britânico que uma vez havia tentado falar francês com ele perdeu o braço, e logo também perdeu a cabeça. Um alemão próximo dali estava completamente desorientado, Adrien não entendia se ele estava perdido ou apenas transtornado. Mesmo assim atirou nele. Por quê? Nem ele sabia, mas precisava continuar atirando.
Se lembrou de quando morou na Alemanha tempos antes. Do velho que havia lhe dado um emprego. Ele tinha um filho. Estaria ele ali também? Adrien havia atirado nele?
Outro alemão então se ajoelhou ao lado do caído. Eram amigos? Irmãos? Ele não se mexia. Parecia chorar. Não queria mais lutar. Adrien não importou, apenas atirou nele.
Um rapaz que uma vez havia lhe mostrado uma carta da mãe caíra por um tiro amigo. Adrien olhou para o lado e viu um dos atiradores transtornados. Na tentativa de acertar um inimigo acabou acertando um amigo. Ele parou de atirar e começou a rezar, mas não Adrien, ele continuou atirando.
Um jovem alemão corria em ziguezague para não ser atingido. Funcionara até então, mas não funcionou por muito mais tempo. Adrien conseguiu acertá-lo, e ele caiu tão rapidamente quanto corria. E Adrien continuou atirando.
Um homem que não sabia quem era corria entre os alemães. Ele levou um tiro no pescoço e também caíra rapidamente. Adrien estava desgastado, vira tanta gente morrendo e nem sabia quantas delas estavam do seu lado ou do inimigo, ele procurou pela roupa um objeto antigo e finalmente encontrou seu terço, que estava sujo pela lama. Deus estava vendo aquilo? Apenas vendo? Por quê? Qual era o sentido de tudo aquilo?
Um alemão que corria, tropeçou e caiu, e assim, levou um tiro de um britânico, que também acertou outros alemães atrás dele. Adrien então guardou o terço e voltou a atirar. Parecia o inferno, a morte estava para todo o lado, o barulho de tiros, explosões e gritos lhe atormentava. Ele então atirou em mais alemães.
A morte parecia banal ali. Pelo menos para os que estavam próximos a Adrien. Quando aquilo havia acontecido? Por quê? Aquela era a natureza humana? Aquilo acabaria algum dia. Aquela era mesmo a Guerra que terminaria com todas as guerras? Ela se chamava assim porque depois viria um tempo de paz ou porque ninguém sobreviveria a ela? Pelo que via ali, parecia mais a segunda opção.
Diziam para os recrutas que a guerra os tornaria em heróis. Heróis? O que havia de heroísmo naquilo? Heróis deviam matar daquele jeito? Agirem como selvagens? O que aqueles alemães haviam lhe feito? Heróis deveriam matá-los?
Um atirador que estava ao seu lado foi atingido na cabeça e no mesmo momento caiu. Adrien atirou em alguns alemães que estavam perto demais dali. Atiravam em qualquer alemão perto dali.
Aquela batalha durou mais tempo do que as outras que havia lutado. Dessa vez foi um mês. Com pequenos intervalos e mais lutas, mais matanças, mais tiros, mais questionamentos, mais caos. Pensava por que as pessoas haviam criado a guerra?
Em um dia, Michel quase foi atingido, por sorte, Adriano desviou a bala com seus poderes e logo se virou para que não suspeitassem. Em outro o mesmo aconteceu com Henri, duas vezes. Ele quase foi atingido duas vezes, e Adriano duas vezes usou os poderes para salva-lo, mas tomando cuidado para não ser pego.
E depois daquele longo mês, eles venceram, mas com um grande preço. Houveram muitas perdas dos dois lados. A vitória ali era que conseguiram manter sua posição, mas ao custo da vida de várias pessoas. Ser um herói era uma posição?
— Quantos do nosso lado? — Alguém perguntou.
— Até agora foram contados mais de cinquenta mil.
— Cinquenta? — Não parecia acreditar.
Adrien se perguntava quantos do outro lado estavam também mortos. Será que eles também pensavam que era heróis? Ser herói é matar cinquenta mil pessoas? Por quê?
— Adrien — Henri o chamou tirando-o de seu devaneio. — Como está?
— Estranho — Adrien disse. Havia visto muitos morrerem, assim como havia matado muitos. Ainda tentava se recuperar psicologicamente daquilo. — E você?
— Acho que atirei em alguém do nosso lado — Henri disse tremendo. — Eu deveria ter visto melhor. Eu matei um dos nossos.
— Henri...
— As vezes acho que estamos todos mortos e esse é o inferno.
— Henri, Adrien — Michel os chamou. — Como estão?
— Para ser sincero, eu não sei — Adrien responde transtornado. — Estão falando que morreram cinquenta mil do nosso lado.
— Ouvi que eram sessenta — Henri corrigiu.
— Sessenta? — Michel estava espantado. — Malditos alemães.
— Dezembro está logo aí — Henri lembrou. — Passaremos o natal aqui.
— Quanto tempo mais acha que isso vai durar? — Adrien perguntou.
— Queria dizer que isso terminaria amanhã, mas pela situação, eu não tenho ideia — Michel respondeu desesperançoso. — Se pelo menos esses malditos alemães se rendessem.
— Aposto que nos mandariam para lutar contra os austríacos — Adrien comentou. — Ou em algum outro lugar.
— Droga — Henri resmungou. — E eles disseram que isso acabaria antes do natal.
O céu estava completamente cinzento, indicando que logo choveria novamente. O cinza era tão dominante que parecia até mesmo que tudo estava coberto de fumaça, como em um Inferno de Fumaça.
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