HERÓIS

5 Velozes e Furiosos


Ágata acelerava a todo vapor pela estrada. Ian estava sentado no banco do carona, enquanto Cintia e Richard estavam no banco de trás. A paisagem rural era apenas um borrão na vista panorâmica da policial que continuava a acelerar ainda mais o carro.

— Correndo desse jeito – disse Richard num resmungo – vai chamar a atenção da polícia. – Ele ajeitou o cabelo com a ponta dos dedos e encarou Ágata pelo retrovisor.

A policial esboçou um leve sorrisinho de ironia no rosto.

— Eu sou da polícia – respondeu sem tirar os olhos da pista.

Quando o carro da policial virou numa curva próxima a uma fazenda de criação de cabras, foi quando ela viu o carro de Tamires, Ágata pisou no acelerador e se aproximou ainda mais do Ford Ka. A direita dela uma grande plantação de eucalipto se materializou.

— Quem são os outros dois no carro? – Perguntou Ágata vendo três sombras se movendo no carro da frente.

— Eric é quem está dirigindo – disse Richard se aproximando um pouco dos dois bancos da frente para olhar melhor para as três sombras no Ford Ka.

— Jaqueline também está com eles – disse Cintia. – Continua magra, linda. – Ela revirou os olhos e passou a mão na barriga. – Já eu...

Ágata encontrou os olhos de Richard quando olhou pelo retrovisor.

— Vocês os conhecem? – Perguntou ela sem se mostrar muito interessada na gordura localizada de Cintia.

Foi Ian quem respondeu quando o carro foi tomado por um breve silêncio.

— Estávamos todos no mesmo time – disse ele. – Até que as coisas saíram do controle. – Ágata o encarou e arqueou uma sobrancelha. Ela estava cansada de informações vagas.

— Ela matou minha namorada – disse Richard. Aquela informação pegou Ágata de surpresa. – Eu demorei muitos anos até encontrar alguém que me fizesse sentir do jeito que a Eliza me fazia sentir e ela a matou quando eu não quis me unir ao plano de vingança maluco dela.

Ninguém falou nada. Tudo o que se conseguia ouvir era o barulho do motor. A perseguição continuou até que Ágata sacou a arma e tentou atirar no pneu do carro da frente, mas foi sem sucesso, já que era ela quem dirigia o veículo também.

— Droga – resmungou ela.

Uma movimentação no carro da frente chamou a atenção deles. Jaqueline, sem muito esforço havia aberto o porta malas que, com a velocidade do vento o jogou para o alto quebrando-o de um lado.

— O que ela vai fazer? – Perguntou Ágata diminuindo a velocidade e encarando o porta malas pendurado para o lado esquerdo do carro. – Ela vai pular?

Jaqueline olhou fixamente para eles e levantou o braço direito como se pedisse para o carro parar. Seu cabelo louro balançava de um lado para o outro com o vento.

— Ela vai matar a gente – disse Ian.

Num movimento leve e gracioso com a mão, ela simplesmente jogou o carro onde Ágata e os outros estavam para o lado direito. O carro foi arremessado para fora da estrada com a mesma velocidade que Ágata mantinha na perseguição, capotando quatro vezes até cambalear uma quinta e parar no meio de um vasto pasto.

Ágata, amarrada ao cinto de segurança, não conseguia se mover direito. Sangue escorria pela sua testa, seu corpo inteiro doía e ela sentia que ia desmaiar. No banco de trás, Cintia deu um murro no que havia sobrado da porta e saiu cambaleando para fora, em seguida ajudou Ian, que sem o cinto de segurança havia se machucado gravemente. A mulher o tirou do carro e o colocou deitado na grama gemendo de dor.

Richard saiu do outro lado do carro sem um único arranhão no rosto. Ele olhou para o braço esquerdo onde uma parte do osso estava fora e sem dificuldade alguma o colocou no lugar certo. Em questão de segundos o braço estava regenerado e em perfeito estado. Ele andou até a porta do motorista e quando tentou abri-la, não conseguiu.

— Cintia – disse ele – me da uma mãozinha aqui...

Cintia foi até ele em questão de segundos e com um solavanco puxou a porta que saiu inteira e caiu próximo ao carro. Ágata se desvencilhou do cinto de segurança e saiu do carro com a mão na testa.

— Filha da mãe – sussurrou Ágata se abaixando ao lado da porta do carro numa tentativa de recuperar o fôlego. – Ela quase matou a gente.

Ian continuava deitado no chão com o braço num ângulo não muito normal ou confortável. Havia sangue em sua testa e nariz. Ele tentou tossir, mas só conseguiu fazer seu corpo explodir ainda mais em dor. Richard e Cintia foram até ele com uma expressão de preocupados no rosto. O braço dele estava realmente muito feio. Assim que Ian encontrou o olhar de Richard, ele levantou seu braço bom e com um pouco de dificuldade disse:

— Mão... – ele fez uma careta de dor – a mão...

Richard pareceu confuso.

— Acho melhor você ficar deitado – disse ele passando a mão pelo cabelo levemente preocupado. – Se eu te ajudar a levantar agora seu braço pode piorar.

— A mão... – repetiu Ian se contorcendo de dor. Richard e Cintia se entreolharam.

— Da à mão para ele – disse Ágata aparecendo ao lado de Richard. – Não é para colocá-lo de pé, só de a mão para ele.

Ian esticou o braço bom com muito esforço e Richard, ainda sem entender direito, pegou na mão dele. Depois de alguns segundos, Richard a largou como se tivesse levado um choque.

— Isso dói – reclamou ele esfregando os dedos um nos outros.

Em instantes o corpo de Ian começou a se regenerar, ele sentou na grama e arrumou o braço torto, aos poucos o rosto dele foi adquirindo a cor normal. O braço voltou para o lugar e parecia que nada de estranho com ele havia acontecido há meio minuto. Ele se colocou em pé e encarou os três.

Todos se encararam sem dizer absolutamente nada por exatos três segundos, até que Ian quebrou o silêncio.

— Eu to com fome – disse ele tirando a sujeira da calça jeans com as mãos.

— Yo tambien – disse Cintia rindo.

Ágata estava prestes a fazer um comentário quando seu celular tocou. Era uma ligação de Fernando, qual ela atendeu rapidamente.

— Diz.

— A polícia está indo para ai – disse ele do outro lado da linha. – Eles receberam uma ligação sobre um acidente nessa área onde você está, tentei rastrear algumas das vítimas e encontrei seu celular – ele fez uma pausa. – Está tudo bem?

Ágata encarou os outros três que a olhavam com expectativa.

— Está – respondeu ela. – Mas a garota fugiu. Fique de olho nela e se você conseguir qualquer coisa me ligue imediatamente – e sem se despedir ela desligou. – A polícia está a caminho – disse ela para os outros.

— Pensei que você fosse da polícia – resmungou Richard. Ágata lançou-lhe um olhar fulminante que fez o garoto se encolher.

— Eu não sei o que fazer – disse Ágata encarando a estrada – como eu vou explicar essa loucura? – Ela olhou ao redor como se buscasse uma resposta lógica para solucionar aquele impasse. – É capaz de eu ir presa ainda...

Ian encarou Ágata.

— Foi por isso que ela nos jogou da estrada – disse ele, em seguida começou a encarar um ponto qualquer como se juntasse as peças de jogo em sua cabeça. – Se a polícia nos prende, nenhum de nós vai atrás dela na inauguração da clínica e ela vai conseguir o que quer.

— Hija de La puta – disse Cintia se escorando no carro.

— E o que a gente faz? – Perguntou Ágata. O carro da polícia parou ao longe na estrada. Ela olhou para trás, mas o carro estava longe de mais para identificar qualquer pessoa. – A deixamos vencer?

Ian encarou o carro da polícia também. Uma ambulância parou ao lado bloqueando a visão deles da viatura.

— Você tem uma algema? – Perguntou ele para Ágata. Ela fez que sim com a cabeça e ele sorriu. – Certo. Cintia e Richard vocês dois fujam e se escondam até que eu e Ágata entramos em contato com vocês outra vez – eles dois assentiram. – Eu tenho um plano.

○○○

Ian estava mais uma vez sentado na sala de interrogatório com as mãos algemadas encarando um ponto qualquer da sala. No canto estava Mauro, um tanto alterado com Ágata.

— O que está acontecendo? – Perguntou ele num sussurro alto de mais. – Você sabe o quão grave é acobertar um fugitivo? – Ele lançou um olhar irritado para Ian. – Ele é suspeito de ter matado duas pessoas, Ágata!

Ágata parecia impaciente.

— Não foi ele – disse ela por fim. – Essa é a história mais complicada de se explicar, mas você precisa acreditar na minha palavra.

Mauro lhe lançou um olhar furioso.

— Então eu acho bom você começar a descomplicar essa história antes da Tenente chegar Ágata, porque, caso contrário, você pode esquecer desse seu distintivo.

Ágata olhou para Ian aflita, mas tudo o que ele fez foi encarar a câmera de segurança.

— Essa câmera grava áudio? – Ágata fez um sinal positivo com a cabeça. – Qual a probabilidade dele estar nos assistindo nesse exato momento? – Ian continuava encarando a câmera.

— Alta – disse Ágata olhando para ele e depois para a câmera, imaginando que ele se referia a Fernando.

— Fernando – disse Ian para a câmera. – Você consegue uma ligação com o Dr. Zacarias? É urgente. – A luz vermelha no canto inferior da câmera piscou.

— Com quem ele está falando? – Perguntou Mauro intrigado.

O celular no bolso de Ágata tocou. Ela o pegou com cuidado e abriu a mensagem com um número de um celular.

— Fernando... – disse ela. Ágata apertou no número e iniciou uma ligação. Rapidamente ela colocou o celular no viva-voz e o deixou em cima da mesa para que Ian pudesse falar.

— Alô – disse uma voz do outro lado da linha.

— Dr. Zacarias, aqui é Ian Ribeiro do Projeto DNA. – Ele fez uma rápida pausa. – Estou no departamento de polícia do condado de Itacorá prestes a ser preso pelo homicídio do Dr. Gasparini e sua esposa. Se o senhor não aparecer aqui em cinco minutos o mundo todo também vai ficar sabendo do Projeto DNA, e para sermos honestos, não ia cair nada bem, ainda mais hoje, no dia da nova inauguração da sua clínica – não ouve resposta do outro lado da linha. – Será que o senhor aguenta mais uma de suas criações destruindo outra de suas clínicas?

— Você não tem como fazer isso – disse Zacarias segundos depois.

— Vai querer apostar? – Perguntou Ian num tom desafiador. Depois de alguns segundos em silêncio, Zacarias voltou a falar.

— Já estou a caminho.

○○○

Ian encarou Zacarias. Aquela era a primeira vez que ele ficava de frente com o idealizador do Projeto que fez seus poderes se tornar real. Ele era um homem baixo e um pouco curvado, calvo e com o pouco do cabelo que tinha bem branco. Seus olhos castanhos eram bem escuros, o nariz era um tanto torto e as rugas de expressão do tempo estavam por todo o seu rosto. Estava dentro de um terno preto feito sob medida e usava um par brilhoso de sapatos italianos.

— Tamires fugiu da ilha com o único propósito de se vingar. Isso que começou com o Gasparini e vai terminar em você – disse Ian. Ágata e Mauro não continuavam mais na sala, mas havia um homem, que Ian sabia que trabalhava para Zacarias, encostado na porta bloqueando a entrada e a saída de qualquer pessoa.

Zacarias, em pé e de frente a Ian, o encarou.

— Não foi difícil fugir da ilha – disse Ian. – Só levou tempo. Dez anos para ser mais especifico. Eu consegui alguns arquivos com algumas pessoas do Projeto DNA – ele falava pausadamente – então começamos a recrutar os super-humanos para lutar a nossa guerra. Tudo o que eu queria era poder viver minha vida como alguém normal, mas Tamires estava envolvida de mais no seu plano de vingança e eu envolvido de mais com ela para simplesmente deixá-la.

Zacarias continuava prestando a atenção em cada palavra de Ian. Seus olhos negros sempre atentos.

— A primeira que nos recrutamos foi a Jaqueline – continuou Ian. – A família a mantinha no antigo Filadélfia, o hospício. Não foi difícil tirar ou convencê-la a se unir a nós. Tudo o que ela queria era ser tratada como normal, e não havia nada de anormal com ela no nosso mundo.

Zacarias permanecia sem dizer nada.

— Eric se uniu há nós meses depois – voltou a falar Ian. – Logo depois dele colocar fogo na própria casa sem querer. A família toda dele morreu no incêndio provocado pelo fogo que saia de suas próprias mãos. Quando nós chegamos até ele – Ian parecia distante, preso em lembranças – nós contamos de quem era a culpa de termos nascidos assim... foi fácil despertar o desejo de vingança nele.

— Não tenho todo o tempo do mundo garoto – disse Zacarias irritado. Ian ignorou o velho e voltou a falar.

— A Cintia morava em Foz do Iguaçu quando nós a encontramos. Ela tinha um caso com um homem chamado Martins Fonseca. – Zacarias empalideceu. – Ela achava que o homem era um bandido ou algo do tipo, já que vivia se escondendo da polícia – Ian riu. – Não era da polícia que ele se escondia e sim de você. Você queria o fim dele porque ele sabia sobre os projetos clandestinos que sua clínica fazia – ele encarou Zacarias. – Super-humanos... clones... o que mais você criou?

Zacarias não respondeu.

— Quando Martins desapareceu, Cintia resolveu investigar mais sobre o homem com quem tinha um caso e descobriu o envolvimento dele com uma clínica chamada Progênese – disse Ian. – Antes de desaparecer ele havia deixado um bilhete para ela dizendo que ela deveria sumir, até mesmo voltar para o Paraguai, porque certamente alguém viria atrás dela. – Ian fez uma pausa. – Ele estava certo. Certa noite, um dos clientes tentou matá-la, ele só não esperava que ela tivesse uma força sobre humana. O homem queria saber a respeito da filha do amante dele, uma tal de Amélia, mas Cintia não sabia nada sobre essa filha. Depois de uma surra, ela fez o cara falar pra quem ele trabalhava e ele disse que era para você Zacarias, para a Progênese, a sua clínica.

Ele parecia estático.

— No mesmo instante você apareceu no noticiário falando sobre um novo projeto que faria todas as crianças nascerem sem doenças genéticas – disse Ian – então só seguimos o rastro até você. Cintia se uniu a nós a fim de saber sobre o paradeiro de Martins... – ele encarou Zacarias de forma desafiadora. – Mas nós dois sabemos que ele está morto, não é?

— Volto a repetir garoto – disse Zacarias. – Estou ficando sem tempo e me cansando dessa baboseira que você está dizendo. – Ele discretamente olhou para a câmera de segurança.

Ian riu.

— Sua clínica foi fechada dias depois e você foi preso – disse ele. – Todo o seu império caiu e seus malditos projetos foram por água abaixo. – Ian sorriu. – nos mudamos para o Paraguai com a Cintia e vivemos por quatro anos com ela por lá até que você saiu ileso de toda a merda sobre a clínica e continuou com a sua maldita vida.

Quatro anos antes a Progênese havia anunciado um projeto de fertilidade um tanto duvidoso e a clínica acabou sendo fechada quando um vídeo de Zacarias caiu na internet com ele dizendo que sua empresa estava criando um poderoso vírus capaz de exterminar a raça humana com o único objetivo de criar uma nova, mais inteligente e absolutamente perfeita. O governo fechou a clínica no mesmo instante e o caso foi abafado, mas Ian sabia que entre esses projetos insanos, a criação de clones e de mutantes havia sido um sucesso.

— Eu e Cintia nos negamos a voltar a essa caçada a você, mas Tamires estava mais uma vez obcecada por essa história e Eric e Jaqueline acreditavam que deviam algo a ela. Richard entrou na história quando Tamires matou a namorada dele quando ele se negou a se unir a ela.

— O que ela quer de mim? – Perguntou ele por fim.

— Durante a inauguração da nova clínica ela vai atrás de você – disse Ian. – O sonho dela é te colocar dentro do seu pior pesadelo só para fazer você morrer dentro dele.

— Ela não vai conseguir chegar perto de mim – disse ele.

Ian riu.

— Uma garota telepata, um cara capaz de incendiar qualquer coisa e uma jovem que pode te colocar dentro do seu pior pesadelo, e você acha mesmo que um cara armado escorado numa porta vai ser o suficiente? – ele lançou um olhar irônico para o segurança de Zacarias. – Eu posso te ajudar se você me tirar daqui e me levar com você, ninguém conhece melhor aquela garota do que eu.

— E o que você quer em troca? – Perguntou Zacarias desconfiado.

— Liberdade – disse Ian. – Qualquer coisa que me desligue de vocês para sempre.

Zacarias concordou com a cabeça.

— Temos um acordo? – Disse Ian estendendo a mão, agora sem a algema. Zacarias encarou a mão de Ian e sorriu.

— Sabe Ian, – disse ele – foi dando a mão assim que você ficou sabendo de tudo o que sabe hoje. – Ele olhou para o segurança e ordenou – mate-o.

Ian encarou o segurança assustado, que sacou uma arma do coldre e deu um tiro certeiro no meio da testa do garoto que caiu morto no chão.