HERÓIS
6 A volta dos Mortos-Vivos
Ágata entrou no necrotério se sentindo aflita. Cintia havia arrombado a porta enquanto Richard cuidava para que ninguém entrasse no local. Fernando também estava com eles sempre de olho no alto em busca de alguma câmera de segurança, mas não havia nenhuma no necrotério.
— Ian? – Chamou Ágata. Em questão de segundos, Ian se moveu e saiu de cima da maca de onde estava jogando um lençol branco para o lado.
Zacarias havia alegado que Ian havia tentado atacá-lo na sala de interrogatório forçando seu segurança a tomar uma atitude. Enquanto aquilo acontecia, Ágata se explicava na sala ao lado. Ela havia dito que estava perseguindo o fugitivo da polícia quando uma cabra apareceu no meio da estrada a obrigando a desviar rapidamente, o que provocou o acidente. Quando os policiais a alcançaram naquela tarde, Cintia e Richard já haviam desaparecido e Ian pediu para ser algemado por Ágata. A policial capturou o fugitivo e eles sofreram um acidente de carro.
Aquela história não pareceu convencer muito, mas assim que eles ouviram o tiro na sala de interrogatório, tiveram outra coisa para se distrair. O corpo de Ian havia sido levado para o necrotério, no fim de ser enterrado na manhã seguinte, já a câmera de segurança na sala havia sido desligada misteriosamente.
— Você está bem? – Perguntou Cintia.
— Sim – disse ele. – Graças ao Richard, Ian ainda possuía as habilidades de regeneração. – E agora o que a gente faz?
— Eu vou estar na inauguração da clínica – disse Ágata. – Nós vamos cobrir a segurança do evento, eu consigo por a Cintia para dentro, eu acho.
— Vai ter câmera de segurança no local – disse Fernando. – Eu já estou dentro do sistema deles – ele soltou um risinho. – Vou ficar no meu QG de olho em tudo.
— Richard pode ficar na espreita do lado de fora – disse Ágata. – Se alguém tentar fugir você captura – ele fez que sim com a cabeça.
— E como eu vou entrar sem que me vejam? – Perguntou Ian. – Eu estou, tecnicamente, morto para Zacarias.
Todos pareciam refletir sobre o assunto até que Fernando trouxe a resposta.
— Eu conheço alguém que pode te colocar para dentro da clínica sem esforço algum – disse Fernando. – Ele trabalha num bar aqui perto...
— Ótimo – disse Ágata – eu preciso mesmo de uma bebida bem forte.
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Ian encarou o garoto baixo e magro que usava uma camiseta cinza sem estampa, jeans preto e um par de tênis Adidas. Ele tinha os cabelos negros raspados dos lados e a parte de cima era penteada para a direita.
— Fernando – disse ele cumprimentando o rapaz com um aperto de mão e um rápido abraço – faz tempo que não te vejo. Mas você chegou tarde de mais, o bar acabou de ser fechado – o rapaz deu uma olhada ao redor parecendo um tanto sentimental – reformas... – disse ele.
— Na verdade a gente não está precisando de algo para beber – disse Fernando olhando ao redor em busca de alguém.
— Fale só por si – murmurou Ágata num canto enquanto dava uma conferida no local.
— Algum problema? – Perguntou o rapaz, ele olhou para Fernando e em seguida para Ágata, Cintia, desviou o olhar para Richard e finalmente parou em Ian – você parece tenso...
— Kayo – disse Fernando – nós precisamos colocar Ian dentro da inauguração da Pró-Z hoje à noite – Kayo parecia perdido. – Vamos precisar usar suas habilidades...
Kayo empalideceu.
— Relaxa – disse Ian notando o espanto do garoto. – Estamos todos no mesmo time.
Todos sentaram numa mesa um pouco afastada de onde ficava o balcão com as bebidas. O bar era grande, mas o espaço parecia mal aproveitado. Numa das prateleiras atrás do balcão havia uma folha grudada com fita adesiva onde se lia: Contratamos Bartender.
Ágata e Fernando alternavam para contar de forma resumida o que Tamires planejava fazer naquela noite e qual era o plano para tentar detê-la.
— Eu vou comandar a operação do meu QG – disse Fernando. – Eu tenho acesso a todas as câmeras de segurança daquele lugar, vou avisar a Ágata de cada passo que Tamires tentar dar.
Kayo ouvia tudo atentamente.
— Eu vou estar na festa – disse Ágata. – Maria, minha superior, ordenou que alguns policiais ficassem disfarçados de convidados caso algo saísse do controle. – Ágata soltou um suspiro. – Eu consegui colocar a Cintia na lista da equipe de segurança – ela olhou para a mulher sentada ao seu lado – nós já estamos dentro.
— Eu vou ficar do lado de fora – disse Richard – se ela tentar fugir eu vou de encontro com ela.
Kayo olhou para Ian.
— E você precisa entrar – aquilo não havia sido uma pergunta.
— Fernando disse que você pode se teletransportar – disse Ian. – Eu só preciso me teletransportar para dentro – ele sorriu. – Além disso, seria bom se alguém ajudasse o Richard a cobrir o perímetro, caso Tamires fuja.
— Eu não preciso de ajuda – disse Richard mal humorado. Ele trocou um olhar desconfortável com Ian.
— Quanto mais gente nessa captura – disse Ian – melhor. – Richard desviou o olhar para um ponto qualquer e pareceu aceitar a sugestão.
Kayo parecia aturdido com toda aquela história.
— Tudo bem? – Perguntou Fernando para Kayo. – Eu sei que é muita informação para você e que a gente te pegou de surpresa... mas é que essa história pode ter um final bem ruim – ele olhou para Ian.
— Não é isso – disse Kayo – eu só estou pensando numa forma de te colocar para dentro – ele soltou um suspiro. – Eu não entendo minhas habilidades direito... – ele encarou Ian com um olhar baixo – e eu só consigo me teletransportar para um lugar que eu já tenha visto ou estado.
Todos se entreolharam.
— Você não precisa me levar para dentro da clínica – disse ele estendendo o braço para Kayo. – Só me de a sua mão.
Sem entender direito, Kayo apertou a mão de Ian com relutância. Em segundos ele a soltou como se tivesse levado um choque.
— O que foi isso? – Perguntou ele.
— Peguei seus poderes emprestados – disse Ian. – Essa é a minha habilidade, legal, não é?
Kayo o encarou.
— Você vai ficar com meus poderes para sempre? – Perguntou ele.
Ian balançou a cabeça em negativa.
— O poder some assim que eu absorver as habilidades de outra pessoa – disse ele. – O poder só se torna definitivo se... – ele parou de falar por um momento.
— Se? – Perguntou Cintia o encarando de forma estranha.
Ian a encarou.
— Se eu absorver o poder até que a pessoa morra – todos se entreolharam visivelmente desconfortáveis.
— E você já fez isso? – Perguntou Fernando finalmente. O clima na mesa estava tenso, mas Ian sorriu relaxado.
— Não. – disse ele tentando soar convincente. – Eu só tenho uma única habilidade...
○○○
A Pró-Z era uma grande prédio de sete andares todo cinza com grandes janelas espelhadas. Ágata e Cintia haviam acabado de entrar na clínica pela porta da frente com a equipe de segurança enquanto Ian permanecia do outro lado da rua com Kayo e Richard ao seu lado.
— Eu cubro a parte da frente – disse Richard saindo de perto dos outros dois e se aproximando mais da clínica.
— Ele é sempre simpático dessa forma? – Perguntou Kayo. Ian notou o olhar de desaprovação dele para Richard.
— Richard tem seus motivos – disse Ian depois de meio segundo. Ele encarou Richard parado próximo a um carro atento a qualquer movimentação suspeita. Ele então pegou o celular que Fernando havia arrumado para ele mais cedo no bar e discou o único numero gravado no aparelho.
— No corredor do terceiro andar – disse Fernando do outro lado da linha. – Não tem ninguém lá e o segurança não vai te ver passar para o segundo ou o primeiro. Você pode se teletransportar para lá.
— Certo – disse Ian desligando o celular e apertando o aparelho com força entre os dedos.
Kayo olhou para Ian desconfiado.
— Como você vai fazer pra chegar até lá? – Perguntou ele. – Se você nunca esteve lá, é muito provável que meus poderes não vão funcionar... – Ian permaneceu calado olhando para frente. – Digo, meus poderes com você... você sabe...
Ian revirou os olhos. A noite abafada começava a ganhar forma. Ele olhou para o céu e pensou ter visto uma nuvem carregada de relâmpagos.
— Como eu faço? – Perguntou ele começando a ficar de saco cheio daquele papo. Ele sabia que conseguiria. Ele só não sabia direito como a coisa do teletransporte funcionava.
Kayo soltou um suspiro de derrota e coçou levemente o nariz.
— É bem simples – disse ele. – Primeiro você precisa deixar a imagem de onde você quer estar bem clara na sua mente. Depois você fecha os olhos e se imagina lá... – ele deu uma rápida olhada para Ian. – Depois disso você aparece lá – Ian olhou confuso para o garoto. – Pelo menos funciona assim comigo – disse ele dando de ombros.
Muitos carros paravam em frente ao prédio, o local estava cheio. Ian pensou que muita gente seria um forte agravante na situação. Ele precisava ser discreto e silencioso e que ninguém o visse, de preferência.
— Você cobre a parte dos fundos do prédio – disse Ian depois de meio minuto. Kayo balançou a cabeça afirmativamente e em questão de segundos seu corpo desmaterializou deixando apenas um rastro fino de uma fumaça estranhamente azul.
Ian fechou os olhos e soltou um suspiro nervoso. Imaginou o corredor onde deveria se teletransportar e depois de contar até três mentalmente se imaginou parando nele. Em questão de segundos seu corpo também foi substituído por uma estranha fumaça azul.
○○○
Ágata encarou aquelas pessoas andando de um lado para o outro dentro de ternos elegantes e vestidos caros. Tudo ocorria bem no primeiro andar onde acontecia a festa de inauguração.
A recepção era um grande espaço amplo e bem iluminado. Havia algumas pessoas sentadas nos sofás de lona próximas as grandes janelas, mas a maioria circulava pelo ambiente com taças nas mãos cumprimentando umas as outras sem ter a mínima noção de que algo estava acontecendo dentro daquele prédio.
— Você fica bem dentro dessa roupa – disse Mauro parando ao lado dela.
— Eu sei – disse ela meio segundo depois fazendo Mauro esboçar um sorrisinho bobo nos lábios.
Ágata usava um terninho preto elegante, salto alto e tinha os cabelos platinados presos num coque no alto da cabeça.
— Aquela história não fez sentido – disse Mauro ainda parado ao lado dela. – Você precisa me explicar o que está acontecendo – ele então pegou na mão dela. Ágata instantaneamente se virou e encarou Mauro. – Eu me preocupo com você – disse ele quase que num sussurro.
Ágata encarou aqueles olhos amáveis sentindo um estranho formigamento no peito. Mauro usava um terno cinza feito sob medida e parecia ainda mais charmoso do que o habitual.
A policial estava prestes a dizer algo quando encontrou o olhar de Cintia do outro lado do salão. Ela apontava para o elevador e quando Ágata olhou na direção que Cintia apontava, teve tempo de ver Zacarias acompanhado de uma figura baixa e estranha, antes das portas se fecharem.
— Eu preciso ir – disse Ágata se desvencilhando de Mauro, mas quando ela deu um passo em direção ao elevador, ele a segurou pelo braço.
— Não. – Disse ele irritado. – Não sem me explicar o que está acontecendo!
— Eu já disse que é complicado – ela tentou se desvencilhar mais uma vez, mas os dedos continuavam firmes em seu punho. – Me solta!
— Não! – insistiu ele.
Ágata tentou mais uma vez se livrar dele e no calor do momento, encarou seriamente Mauro e disse com raiva:
— Dor!
Mauro caiu na mesma hora no chão gritando de dor. Algumas pessoas se assustaram com a cena enquanto outras se aproximaram para ajudar o homem de quatro no chão que gritava em agonia.
Ágata parou de exercer seu poder sobre ele quando a cena começou a chamar muito a atenção. Mauro ergueu o olhar lentamente para Ágata sem acreditar no que havia acabado de acontecer.
— Como... – disse ele incrédulo. – Como...?
— Eu disse que era complicado – disse ela segundos antes de virar as costas para ele.
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Cintia subiu os degraus da escada de dois em dois. O elevador havia parado no segundo andar e ela sabia que se não fosse rápida, Zacarias estaria em sérios apuros.
A mulher não conseguia correr direito dentro daquele sapato fechado de salto médio, além disso, o terninho preto que fazia parte do uniforme da segurança deixava seus movimentos limitados. Cintia dobrou um corredor quando bateu com tudo em outra pessoa que corria na direção oposta a ela. Ela caiu para o lado enquanto o outro caiu de bunda no chão.
— Andarte a la mierda – murmurou Cintia acariciando o braço.
Ian levantou do chão também acariciando o ombro. Ele olhou para Cintia e riu.
— Ela está com ele em algum andar – disse Cintia começando a andar pelo corredor, Ian se colocou ao lado dela. – Mas eu não vi Jaque ou Eric.
O corredor de paredes brancas era liso e a cerâmica no chão formava um estranho mosaico em preto e branco. Os dois passavam por várias portas de madeira com pequenas placas de metal indicando para o que a sala servia.
— Fernando me avisou que eles estão no primeiro andar – disse Ian erguendo o celular. Os dois andaram pelo um longo corredor sempre esperando a presença de alguém, mas o local estava deserto. O celular na mão de Ian começou a tocar, era uma ligação de Fernando.
— Estamos no segundo andar – disse Ian parando de andar. Cintia parou ao lado dele e colocou as mãos na cintura. – Nenhum sinal deles dois.
— Eu sei – disse Fernando do outro lado da linha. – Eu estou vendo vocês. – Ian ergueu os olhos e encarou a câmera de segurança, Cintia acompanhou o olhar de Ian e encarou a câmera também, feliz ao saber que Fernando estava de olho em tudo.
— E então? – Perguntou Ian parecendo impaciente.
— No último andar – disse Fernando. – Faz uns dois minutos que eles entraram na sala da presidência, a última no final do corredor.
— Certo – disse Ian encarando Cintia e desligando o celular na mesma hora. – Cintia – disse ele colocando a mão em seu ombro – cierra lós hojos – em seguida os dois se teletransportaram para o último andar do prédio.
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