HERÓIS

4 Caçada mortal


Ágata encarou o filho dormindo em seu quarto enquanto repassava aquele dia insano em sua mente. Ian escapou com a ajuda dela e ela estaria bem encrencada se Fernando não tivesse dado um jeito com as imagens da câmera de segurança.

— Pane no sistema – alguém explicou. Maria estava dando saltos de tanta raiva.

Fernando havia entrado em sua vida no dia em que ela pagou para ele formatar seu velho notebook. Eduardo havia entrado num site de jogos online e baixado uma série de vírus acidentalmente. A princípio, Ágata achou que Fernando era um simples nerd high tack, mas quando ela entrou em seu QG, descobriu que ele realmente entendia do assunto.

Por um momento ela pensou em mandar o garoto acabar com seu local de trabalho, ela era uma policial e tinha o poder para isso. Fernando não era um simples nerd, ele era um hacker de primeira. Os eletrônicos, simplesmente conversavam com ele. Seria ele como ela? Aquilo até passou pela mente de Ágata, mas ela não podia tirar a prova se arriscando daquela forma.

Eles então fizeram um acordo. Fernando a ajudaria sempre que ela precisasse sem cobrar um centavo se ela não impedisse que ele continuasse com seu QG com acesso a basicamente qualquer computador de Itacorá, era uma jogada arriscada, mas ela não havia se arrependido daquele acordo.

Agora ela tinha a morte mal contada de um casal, um possível assassino e um fugitivo da polícia com habilidades como as dela. Aquilo realmente a assustava, Ágata jamais imaginou que alguém pudesse fazer o que ela fazia.

Ela seguiu em direção ao banheiro na intenção de um longo banho quando se deparou com uma sombra se movimentando em direção a cozinha. Rapidamente ela sacou a arma da cintura e andou cautelosamente em direção à sombra.

— Nem mais um passo! – Disse ela ao chegar à cozinha e se deparou com um estranho perto da geladeira.

A pequena cozinha da casa era composta por uma pia branca que ficava ao lado de um armário pequeno embaixo da janela. Ainda na mesma parede estava um balcão de madeira com um forno elétrico em cima. Em outra parede havia uma grande geladeira branca com ímãs grudados nela. A pequena mesa de madeira com quatro cadeiras brancas de metal ocupava boa parte da cozinha e basicamente separava a geladeira do fogão. Na parede oposta à janela havia um único armário branco que ocupava quase toda a parede.

O estranho virou e sorriu para ela.

— Você não precisa apontar essa arma pra mim, precisa? – Disse Ian. Ele ainda usava a mesma roupa de mais cedo.

— Como você entrou aqui? – Ela sabia que a porta estava trancada. Se havia uma coisa que Ágata fazia bem era verificar cada tranca da casa onde morava.

— Eu usei a chave reserva – disse ele puxando uma cadeira de metal branca e sentando a mesa. – Aquela enterrada no vazo de planta perto da porta. Você precisa colocar água nela de vez em quando sabia?

Ágata estava confusa, ela mantinha a arma apontada para ele.

— Como você sabia dessa chave? – Perguntou ela.

Ian riu.

— Eu sei de tudo sobre você – disse ele. – Quando encostei em você hoje mais cedo, eu não só absorvi seu poder. Absorvi suas memórias, seus medos... toda a sua vida está na minha cabeça... – ele encarou algumas maçãs na fruteira de plástico em cima da mesa e pegou uma. – Esse é o meu poder. Inclusive, a conta de luz vence amanhã, não vai esquecer de pagar.

Ágata abaixou a arma, mas não ousou desviar os olhos daquele rapaz.

— Eu sempre achei que fosse a única... – disse ela aflita. Instantaneamente ela pensou em Fernando.

Ian riu.

— Sinto desapontá-la – disse ele. – Mas nós somos muitos, espalhados por esse mundo. Alguns bons, outros nem tanto...

— Isso tem relação com a morte dos Gasparini, não tem? – Perguntou ela.

Ian mordeu a maçã.

— Tamires – disse ele. – Ela os matou. Eu tentei impedir, mas só consegui quebrar um vazo de cerâmica... – ele olhou para ela de um jeito travesso. – Ainda bem que eu não preciso pagar por ele se não eu tava frito.

— Como ela os matou? – Perguntou Ágata. – E por quê? – Ela tentou colocar a mente no lugar. Eram tantas as perguntas que ela tinha. – Quem é Tamires?

Ian soltou um suspiro.

—Nem todos nós tivemos a mesma sorte de nascer ou crescer numa família normal – disse ele. – Eu não sei até que ponto você sabe sobre isso, mas em resumo, nós nascemos para sermos armas de guerra.

Ágata estava pensativa e prestava a atenção em tudo o que Ian falava.

— Alguns de nós, pelo menos, fomos criados para sermos. – Ele deu mais uma mordida na maçã. – Eu tinha oito anos quando fui levado para o que eles chamam de A Ilha. Eu estava num orfanato e fui arrancado de lá quando meus poderes se manifestaram – Ian estava distante. – Eles me levaram à uma ilha para treinarem minhas habilidades.

— Uma ilha? – Perguntou Ágata.

— Eu só me lembro das celas brancas e dos experimentos que eles faziam com a gente – disse Ian. – Muitas pessoas morreram naquele lugar. Quando eu cheguei lá, Tamires já era uma das prisioneiras, um ano mais velha do que eu... – ele fez uma pausa, deu outra mordida na maçã e soltou um suspiro. – As crianças ainda ficavam juntas às vezes... foi assim que nos conhecemos.

Ágata estava pensativa.

— Com um pouco de sorte e talento a gente conseguiu fugir – continuou ele. – E ela descobriu que sua família havia sido vítima da companhia que nos criou. Então ela começou um projeto de vingança particular e eu estava muito envolvido com ela para deixá-la só.

— Assim como nós, ela também tem suas próprias habilidades especiais – continuou ele. – Ela faz a pessoa vivenciar seu próprio medo. A vítima entra numa espécie de realidade paralela dentro da própria cabeça onde seus maiores medos são expostos e viram uma armadilha.

Ágata estava a cada instante mais perturbada com toda aquela história. Até ontem ela era uma policial com uma estranha habilidade e agora ela era parte de um projeto cientifico de alguma empresa.

— Imagina você presa dentro do seu maior pesadelo – disse Ian. – Tão real que você não consegue sair dele, não consegue acordar... tão horripilante que te consome, faz seu corpo se mortificar de medo, o coração parar...

— Não gosto nem de imaginar isso – disse Ágata com um arrepio passando por seu corpo.

Seu maior medo era faltar para seu filho Eduardo. Quando Eduardo nasceu, seu namorado na época simplesmente a deixou alegando que ele não queria um filho e que era muito para ele. Os dois terminaram e ele sumiu da vida dela, coisa que Ágata até agradecia a Deus. No mundo era somente ela e seu filho e seu maior medo era faltar para ele.

Quando Ágata aceitou trabalhar para a polícia de Itacorá aceitou também os riscos daquele emprego. Diariamente ela era exposta a riscos e a situações imprevisíveis que poderiam pegá-la desprevenida. Se ela chegasse a morrer Eduardo certamente seria mandado para um abrigo ou coisa do tipo e essa ideia era torturante só de pensar.

— Foi assim que eles morreram – disse Ian. Ágata voltou a se concentrar nas palavras dele. – Presos dentro de suas próprias mentes, tendo que encarar seus piores medos.

Ágata colocou a arma no coldre e sentou na cadeira de frente a Ian.

— Isso é possível? – Perguntou ela.

— Da mesma forma que você pode fazer os outros sentirem dor e eu de absorver o poder dos outros – respondeu ele da forma mais casual possível.

— E o que ela quer? – Perguntou Ágata. – Como ela está atrás de vingança? O que os Gasparini tem a ver com isso?

Ian pareceu pensativo como se avaliasse se devia responder aquela pergunta ou não.

— Ela acreditava que sua família ainda pudesse estar viva – disse Ian. – Os Gasparini estavam ligados a empresa que nos prendeu por tantos anos e ela veio atrás deles para saber mais sobre seus pais e o irmão, mas eles disseram que a família dela havia morrido há muito tempo – ele fez uma pausa dramática – então ela os matou.

Ian deixou a maçã de lado.

— Vai haver a inauguração da clínica Pró-Z nos próximos dias e ela vai fazer uma exposição – disse ele. – Essa clínica é a mesma que financiou e executou o projeto de anos atrás, um novo nome para a mesma velha história.

A cabeça de Ágata dava enormes voltas.

— Ela vai matar todo mundo – concluiu Ian.

— Ela pode ter poder – disse a policial pensando nos Gasparini. – Um poder assustador por sinal, mas ela realmente acha que pode conseguir tudo isso sozinha?

Ian riu.

— E quem disse que ela está sozinha? – Perguntou ele. – Tamires reuniu alguns como nós com objetivos parecidos com os dela – ele encarou Ágata seriamente. – Eles juntos podem dominar essa cidade tranquilamente, e acredite quando eu digo que você não vai querer isso.

Ágata sentiu-se enjoada.

— E você vai fazer o que Ian? – Perguntou ela preocupada. – Você vai tentar parar essa desvairada?

Ian riu.

— Sim – disse ele com um estranho brilho nos olhos – nós vamos.

○○○

Ágata usava óculos de sol e avistava de longe o enterro do casal Gasparini no cemitério da cidade. Era a hora de almoço dela e ao invés de ir levar Eduardo para a escola como sempre fazia, Ágata pediu para Andressa, a eventual babá dele, levá-lo no lugar dela.

Quanto mais cedo eu pegar essa garota e fazê-la confessar sobre esse assassinato— pensou Ágata – mais cedo eu posso voltar para a minha vida normal.

Do lado de fora do cemitério estava alguns jornalistas cobrindo o enterro como se fosse um grande evento. Não havia se quer uma resposta sobre a forma de como o casal havia sido morto e Ian era o único suspeito. O rosto dele estava estampado em todos os jornais da cidade, mas ele não parecia preocupado com aquilo. Ao lado de Ágata, ele estava confiante, com uma postura diferente daquela na sala de interrogatório. Ele usava um jeans que lhe caia bem, uma camiseta branca, um par de óculos de aviador que disfarçava bem seu rosto e um boné da Nike.

— Onde você passou a noite? – Perguntou Ágata. – Você é um fugitivo da polícia, ninguém te ajudaria.

Ian permanecia olhando para o enterro que acontecia ao longe. Eles estavam embaixo de uma grande árvore, próximos a entrada do cemitério.

— Cintia tem um apartamento aqui em Itacorá – disse ele. Ian havia dito que dois de seus amigos estavam com ele na caçada a Tamires. Cintia e Richard, ambos com habilidades especiais. Os dois estavam de tocaia do lado de fora do cemitério prontos para agir caso Tamires aparecesse.

— Por que você acha que ela apareceria aqui? – Perguntou Ágata.

Ian deu uma olhada para Ágata, mas ela não pode ver seus olhos devido ao par de óculos que ele usava.

— O pessoal importante da cidade está todo aqui – disse ele. Ágata olhou para as pessoas que acompanhavam o enterro, ela notou que o prefeito e diversas figuras políticas de influencia estavam lá. – Talvez ela tente alguma coisa aqui.

Ao longe Ágata avistou Maria ao lado de um senhor de idade dentro de um terno preto. Ela pensou na pressão que Maria deveria estar sofrendo para resolver esse caso. O que aconteceria se ela abrisse o jogo para Maria sobre essas pessoas com habilidades especiais? Será que mais gente atrás de Tamires não seria mais eficiente? Porém, Ágata se lembrou mais uma vez da expressão de pavor no rosto daquele casal e pensou que se ela era capaz de fazer isso com eles, também seria de fazer com qualquer outro policial, ou até mesmo com ela.

— É ela – disse Ian olhando em direção ao portão do cemitério.

Ágata olhou na mesma direção e viu o vulto de uma garota ganhando vida por entre as sombras.

— Vamos! – Disse Ian indo rapidamente na mesma direção de Tamires, que por sua vez notou a aproximação dos dois e saiu correndo para fora do cemitério.

Ágata e Ian correram até a calçada, mas não havia sinal algum da garota. A policial estava com a mão na cintura pronta para qualquer coisa sacar sua arma, mesmo sabendo que uma arma seria inútil para alguém que podia lhe colocar dentro de seu próprio medo.

— Droga! – Disse Ian chutando uma pedra na calçada.

Cintia, uma mulher não muito alta de cabelos negros encaracolados, apareceu suada e irritada. Ela usava um jeans justo, uma blusa cinza um tênis da Adidas. Os jornalistas estavam do outro lado da rua, mas ninguém pareceu prestar a atenção no que acontecia ali.

— Ela não veio sozinha – disse a mulher num forte sotaque em espanhol. Richard apareceu do outro lado da calçada com uma expressão de derrota e irritação no rosto.

— Eric e Jaqueline estão com ela – disse Richard. – Eu segui Eric até duas quadras daqui, mas ele me despistou.

— Jaque fez o mesmo comigo – disse Cintia.

O celular de Ágata começou a tocar, ela olhou o nome de Fernando na chamada e atendeu rapidamente.

— Olhe para o alto e sorria – disse ele do outro lado da linha. Ágata olhou para o alto e se deparou com uma câmera de segurança.

— Ela entrou num carro duas quadras daí. A câmera de segurança de uma casa os pegou – disse Fernando. – Eu consigo te mandar a localização dela... – um barulho de tecla de computador chegou aos ouvidos de Ágata. – Ela esta num Ford Ka dirigindo para a área rural, na missal 351. Acabou de passar pelo radar.

— Eu não sei o que faria sem você Fer – disse Ágata. Fernando sorriu do outro lado da linha e desligou. Nem dois segundos depois o celular de Ágata voltou a apitar e uma mensagem de Fernando piscava na barra de notificação. Ela abriu a mensagem e uma foto de uma câmera de segurança surgiu em sua tela com a foto de um carro numa estrada rural.