Desci correndo. Estavam todos na mesa, menos Jared. Todos me olharam, principalmente dois homens, um errou o lado da boca e esbarrou a torrada na bochecha. Eu ainda estava de camisola. Era simples, de malha, mangas longas. Mas ainda assim era uma camisola.

"Bom dia querida." Nanny sorriu.

"Bom dia." cumprimentei-a. "Nanny você viu se aquele menino que chegou comigo ontem?" perguntei.

"Ele disse que ia comprar pão, querida. E disse que não ia demorar."

"E há quanto tempo ele saiu?"

"Uns 40 minutos."

Quarenta minutos para comprar pão parece muito tempo. Grunhi.

"Tudo bem, obrigada." dei um sorriso amarelo e subi para o quarto para me trocar.

Usando roupas normais desci já com as mochilas nas costas e me juntei aos outros para o café da manhã. A mesa estava farta e então percebi a fome que eu estava sentindo. Comi tudo o que tinha pela frente.

A porta se abriu de repente e Jared apareceu.

"Como é difícil achar uma padaria por aqui..." falou pondo os pães na mesa

"Mas tem uma padaria a três ruas daqui." disse Nanny. Jared olhou para ela, mas não disse nada. "Bom, não importa." prosseguiu ela. "Por que não se senta aí ao lado da sua namorada?"

Ele fez uma careta ao ouvir a palavra namorada e se sentou ao meu lado, servindo-se de tudo o que estava na mesa. Eu só queria entender como Jared conseguia comer daquele jeito e não engordava.

Tomamos o café da manha, Jared pagou a nossa estadia e com muito peso no coração me despedi de Nanny. Ela havia sido tão gentil e tão doce. Um dia, talvez, se eu sobrevivesse ao meu desconhecido destino, voltaria para visitá-la.

Jared caminhou, tirou um óculos do seu bolso pondo no rosto, e parou em frente a um carro. Era um carro esportivo e me fez lembrar de Rod, irmão da Emma. Ele adorava carros esportivos como aquele.

"Onde conseguiu esse carro, esses óculos e o dinheiro?" perguntei a Jared, franzindo os olhos para ele, desconfiada.

"No mesmo lugar onde consegui os pães. Agora cala a boca e entra."

Como ele conseguia ser tão insuportável logo de manhã? Não é todo mundo que nasce com o talento de ser um completo idiota. Fiz uma careta para ele e entrei no carro.

"Você roubou esse carro, Jared?" perguntei em tom acusatório.

"De jeito nenhum. Eu só pedi pra dona dele sair do carro porque eu estava precisando de um. Ela não quis, a princípio, mas eu dei um jeito de convencê-la." sorriu para mim. "Eu sei ser bastante convincente. Tanto foi que ela me deu o dinheiro dela também." Ele girou a chave na ignição e deu a partida. Sem ter muito o que fazer, coloquei o cinto.

"Você sabe que o que você fez é crime, certo?"

"Não. O que eu fiz foi pegar um empréstimo ilimitado. Agora cale a boca porque você já está me irritando." ele disse sem tirar os olhos da rua.

"Onde estamos indo?" perguntei.

"Que parte do "cale a boca" você não entendeu?" ele perguntou. Revirei os olhos.

"Apenas responda a minha pergunta." insisti e ele bufou.

"Estamos saindo de San Diego."

"Jared, eu preciso falar com Emma." eu disse alarmada.

"E eu preciso que você fique quieta, mas aparentemente ninguém vai fazer o que o outro quer, não é?"

"Falo sério, Jared. Eu não posso simplesmente ir embora assim!"

Seus olhos se mantiveram focados na rua, mas ele parecia pensativo.

"É, e vai dizer o que a ela?"

Pensei por um momento.

"Adeus, sei lá. Qualquer coisa. E se a polícia me procurar, ela vai dizer qu eu sumi e tudo vai ficar muito pior pra você."

Ele deu um sorriso de humor e fez um som irritado.

"Ela mora na sua rua?" ele cedeu. Tentei esconder o sorriso que nascia em meu rosto.

"Eu te mostro o caminho."

Paramos em frente a casa de Emma. Eu havia enviado uma mensagem de texto para ela e logo em seguida Jared me obrigou a jogar o chip fora.

Ela apareceu no portão e atravessou a rua como eu havia pedido a ela. Emma parecia desconfiada, então desci a janela do carro e uma onda de alívio passou por seu olhar. Correu na minha direção e abri a porta de trás do carro para ela entrar.

"Kate, o que está fazendo aqui? Que carro é esse? E por que você está com ele?" perguntou olhando para Jared.

"Fazer um milhão de perguntas é coisa de mulher ou é só entre vocês duas?" Ele revirou os olhos. Nós o ignoramos.

"Em, não posso te explicar agora. Eu mesma não sei bem o que está acontecendo, mas o ponto é que estou indo pro Texas com Jared."

"Texas? Como assim você está indo pro Texas?" ela pareceu simplesmente horrorizada com a ideia.

"Emma, não se preocupe. Apenas diga a eles que fugi com... um namorado" revirei os olhos com a ideia. "Mas pode afirmar que eu estou bem e que mando notícias todos os dias. Faça de tudo para que não venham atrás de mim. Por favor."

"Kate, eu não estou entendendo. Por que quer que eu faça isso? E quanto ao James?"

Meu coração se apertou e engoli em seco.

"James... ah... Eu não o vi mais." menti "Agora eu preciso ir. Tenho muitas coisas pra resolver antes de chegar lá."

"Isso está tão confuso..." ela passou a mão no cabelo. "E a escola? Kate, eu..."

"Por favor, Emma. Apenas faça o que pedi. Se pessoas estranhas te procurarem perguntando sobre mim, diga que não sabe, que brigamos." ela estava assustada. Suspirei. "Amiga, por favor, não esqueça que eu te amo muito."

Vi seus olhos se encherem de lágrimas.

"Kate, por favor, me mande notícias, está bem?" disse forçando um sorriso "Se cuida Kate. E quanto a você," cutucou Jared no ombro "É melhor cuidar dela, senão eu mesma vou pessoalmente cuidar de você."

Ele ergueu a sobrancelha para ela, mas não discutiu. Dei um rápido e apertado abraço em Emma e então partimos.

A viagem até a Escondido Fwy foi estranhamente silenciosa. Jared dirigia sempre atento às ruas e não parava de checar os espelhos retrovisores.

"Afinal, o que você é?" perguntei quebrando o silêncio.

"Isso não é problema seu."

"É claro que é. Eu estou com você, tenho direito de saber o que você é." rebati.

"Não tem não." respondeu apenas. O tom displicente em sua voz me irritou.

"Não vai nem me contar quem são aqueles caras? O que querem com você? E o que era aquele cara que me quase me queimou viva? Saía fogo das mãos dele..." a lembrança me provocou arrepios apavorantes.

"Você disse que te encurralaram." disse Jared. "Foram até sua escola e sua casa?" perguntou.

"Sim." respondi. "Os mesmo que me encurralaram estavam na minha escola. Na minha casa apareceu uma mulher."

"Uma mulher?" seu cenho se franziu de leve. "Como ela era?"

"Era loira, alta, e muito bonita." respondi com sinceridade.

"Merda." trincou os dentes.

"O que foi?"

"Katherine, os caras que te encurralaram são Baalihans."

"Bali o que?"

"Híbridos entre humanos e demônios."

"Como assim?" indaguei, confusa.

"Muitas vezes demônios vem à terra, tomam posse de corpos humanos para se reproduzir e dar origem aos Baalihans."

"Então existem essas coisas de anjos e demônios? E Deus?" perguntei.

"Acredito que sim." deu de ombros.

"E como você sabe de tudo isso?"

"Meu criador me contou." respondeu.

"Criador? Não quer dizer pai?"

Ele se virou para me olhar e depois olhou voltou sua atenção para a rua novamente, mas não respondeu.

"E o que você é?" me arrisquei a perguntar. Ele fez uma pausa dando um logo suspiro.

"Eu sou um... Nephilim." disse engolindo em seco.

"E o que é isso?"

"Híbridos entre Anjos e humanos. Geralmente os caídos."

"Ouvi dizer que Anjos expulsos do Céu são demônios."

Ele deu um meio sorriso.

"Tipo Lúcifer e seus anjos? Não, não. Esses foram os primeiros. Hoje em dia anjos são expulsos pelo desejo de ser homem, por cometer os sete pecados, essas coisas."

"E como são expulsos?"

"São expulsos pelos arcanjos. Eles estão no topo da hierarquia angelical."

"Existe uma hierarquia infernal também?"

"Claro. Existem reinos e legiões..."

Olhei para ele durante algum tempo. A forma como ele falava daquela loucura toda era tão natural. Por algum motivo comecei á rir.

"Acha isso engraçado?" perguntou Jared fazendo uma carranca.

"Isso tudo é muito... Uau" falei.

"Aquele cara que te torturou era um demônio, Katherine." ele disse em tom sério. "Era um dos pequenos, se apossou de algum corpo."

"Aquela não é sua forma?"

"Não. Nunca vi um demônio em sua real forma, mas sei que são horrendos, e por isso tomam corpos de humanos adoradores. Assim eles se reproduzem e criam Baalihans."

"E a mulher? Ela também é uma Baalihan?"

"Não. Se ela é tão bonita quanto você diz, imagino que seja uma dos anjos."

"E por que está todo mundo atrás de você?" perguntei.

"Eu sou um cara atraente. É normal que venham atrás de mim." sorriu. "De qualquer forma, eu sou... perigoso. Estão atrás de mim desde que eu nasci e querem me matar. Ultimamente isso tem piorado."

"Perigoso? Por que?"

Ele me lançou um olhar reprovador.

"Eu apenas sou. Agora chega de perguntas. Eu não aguento mais ouvir sua voz."

O encarei e me joguei contra o banco do carro prestando atenção no transito lá fora. Como assim humanos tinham filhos com anjos ou demônios? Aquilo tudo seria mesmo real ou Jared estava apenas sendo um babaca? Se eu não tivesse visto tudo com meus próprios olhos eu não acreditaria. Infelizmente, eu vi. E quase morri por isso. Passei um bom momento me questionando quanto aquilo tudo. Minha vida estava uma loucura, um pesadelo. Se Jared era mesmo perigoso, será que foi uma boa ideia ter vindo nessa viagem com ele?

Eu não tinha resposta para nenhuma das minhas perguntas. E quanto mais eu meu perguntava, mais medo eu tinha de ouvir as respostas. Meus pensamentos vagaram em anjos, demônios, Nephilins e Baalihans. Caí no sono preocupada com o perigo que eu estava correndo e no que eu estava me metendo. A verdade é que eu não me importava mais. Agora minha vida não passava de uma tremenda farsa.

Notas finais
Estou postando constantemente, mas e a historia, estão gostando? Quais as sensações, emoções sentem quando leem Híbrido? O que acham dos personagens? O que acham da escritora? Preciso de respostas hahaha besos