Quando acordei já estava escuro. Jared ainda dirigia e não parecia estar com sono ou cansado. Na verdade, ele parecia tranquilo e concentrado. Ainda assim, eu não confiava nele.

"Não está com sono?" perguntei para quebrar o silêncio.

"Não." respondeu apenas.

"Para onde estamos indo?"

"Vamos para Phoenix, Arizona."

"O quê?" Phoenix? Ele só podia estar brincando...

"Preciso resolver algumas coisas por lá." ele disse sem olhar para mim. "Agora olte a dormir, Katherine."

"Não dá mais. Ainda mais sabendo que o mundo está cheio de demônios por aí procriando com humanos." esfreguei os olhos, sonolenta. "Aliás, eles saem do inferno quando der na telha?"

"Sim e não." ele suspirou. "Há alguns demônios que tem força o suficiente para vir à Terra quando quiserem. Esses geralmente são os príncipes e os duques. Mas os outros não tem tanto poder assim e só podem sair quando bruxas os invocam sem os métodos completos, ou em feriados de oferenda."

"Feriados de oferenda?" o termo me pareceu ligeiramente ridículo.

"Adoradores de Lúcifer." explicou ele. "Às vezes são grupos de pessoas, às vezes sociedades inteiras..."

"Satanistas?" indaguei.

"Posso continuar contando ou você vai me interromper de novo?" me olhou de um jeito reprovador.

"Desculpe."

"Respondendo à sua pergunta, sim e não. Há sociedades grandes, como as que vemos nas igrejas, só que adoram a outra 'divindade'. Em seus calendários há alguns dias que oferecem almas de pessoas, corpos de animais, ou até mesmo mulheres. Vivas."

Eu tive um vislumbre de um sorriso no canto da boca de Jared, mas não tive certeza. Estava escuro para ter certeza e era mais confortável pensar que ele não sorria para esse tipo de coisa. Abri a boca para perguntar mais alguma coisa, mas ele me lançou outro olhar e eu sabia que era para me manter calada.

"Virgens para que possam procriar com elas, dando origem aos Baalihans." ele prosseguiu.

"Isso tudo é muito... estranho. Demônios se alimentam de humanos?"

"Geralmente de almas, mas também se alimentam da carne. Não só de humanos, mas de animais também."

Um calafrio percorreu pelo meu corpo.

"E por que eles não saem por ai comendo pessoas?"

"Porque existem regras, Katherine. O mundo não é um caos completo. Para que você acha que existem os anjos?"

Pensei por um momento.

"Não faço a menor ideia." confessei.

"Eles cumprem a parte deles colocando certos limites nas atividades dos demônios. Mas eles também tem suas limitações. Assim como os demônios não podem fazer livres aparições para os humanos, eles também não podem. Isso é o equilíbrio.

"Tudo isso é muito complicado." voltei a olhar para o trânsito iluminado pelos faróis dos carros. Minha cabeça chegava a doer nas têmporas com toda aquela informação. "Há quanto tempo estamos rodando?" perguntei depois de um tempo.

"Cerca de três horas." ele disse.

"Estou com fome."

"Isso porque não se alimentou direito quando saímos."

"Então é por isso que você come feito um animal?"

"Sim e não. Eu não posso me dar o luxo de ficar fazendo paradas para comer, Katherine. É muito arriscado. E além disso, eu preciso de muita energia para sustentar o tipo de coisa que eu faço."

Olhei para ele, mas ele não continuou. Pensei em perguntar o que ele quis dizer com "o tipo de coisa que eu faço", mas deduzi que seria melhor não saber.

"Tudo bem, mas eu estou com fome e também preciso ir ao banheiro."

Suas mãos apertaram o volante e vi os nós de seus dedos ficarem brancos. Pensei que o volante fosse quebrar com tamanha força que ele usou. Sua mandíbula ficou rígida e eu vi claramente que ele tentava conter a raiva respirando profundamente.

"Eu paro no próximo posto." murmurou.

Uma hora se passou e finalmente achamos um posto. Corri para o banheiro e depois fui para a padaria na loja de conveniências. Jared estava sentado ao balcão.

"O que você pediu?" perguntei a ele, sentando-me ao seu lado.

"Nada." respondeu.

Um rapaz se aproximou de nós.

"Qual o pedido de vocês?"

Jared pediu vários pães, frutas, cafés e sucos, me obrigou á comer em excesso também,o pessoal da padaria parecia até estar sorrindo mais depois que Jared pagou com a conta com duas notas de cem dólares. Depois ele pegou vários biscoitos e sucos de caixinhas, pagou e fomos para o carro.

Mais uma hora e meia e chegamos em Phoenix, Arizona, eram duas da tarde, o sol brilhava, haviam muitos carros na rua, lojas abertas, calçadas movimentadas, o que me fez estranhar já que uma vez me disseram que lá as coisas não eram tão movimentadas assim. Eu avaliava as pessoas na calçada, maioria mestiços, pele dourada, cabelos castanhos e lisos, a cada pessoa que passava corrida devido o meu movimento no carro, meus olhos iam caindo.Toda aquela comida fez meu metabolismo acelerar, deixando-me cansada, encostei minha cabeça no encosto do carro.

"Onde estamos?" perguntei.

"Phoenix."

"Movimentado por aqui."

"Estamos no centro, mas estou indo em direção ao interior"

"Por que para o interior?"

"É melhor você dormir, temos muito chão pela frente."

"Se preocupando comigo Jared?" perguntei olhando para ele através do retrovisor.

Ele soltou um meio riso debochado, não podia ver seus olhos por causa dos óculos.

"Não seja estúpida, talvez só não queira que veja o caminho."

O encarei irritada. Quem ele era pra me chamar de estúpida? Voltei a observar os habitantes de Phoenix, e meus olhos pesavam cada vez mais. Não queria dar o braço á torcer com Jared, abri a janela para sentir o cheiro da cidade, já que a fragrância predominante do carro era loção masculina, e terra molhada, cheiro de Jared, e aquilo já estava me enjoando.

Coloquei a cara para fora e fechei os olhos sentindo um cheiro forte de pipoca, devo ter passado por uma barraquinha. Senti algo gelado no meu queixo, então minha cabeça começou a subir, batendo em cima, esmagando minha cabeça ali. Tirei-a e o vidro por fim fechou, olhei Jared que olhava para frente e soquei-lhe o braço. Estava começando á odiá-lo de verdade.

Encostei-me de novo e continuei minha observação, e aos poucos meus olhos se fecharam.



Acordei com o sol incomodando meus olhos, tomei os óculos de Jared para por no rosto. A paisagem á minha frente era totalmente exótica. Montanhas laranjas, vegetação desértica, céu incrivelmente azul, a estrada á minha frente se destorcia com o calor, ainda bem que estávamos no ar condicionado. Vi um camaleão de verdade pela segunda vez, e dessa vez ele se transformou, estava na estrada na cor do asfalto, e ao nos aproximarmos, correu para a lateral ficando laranja igual á areia. A primeira vez que havia visto um, tinha sido num passeio escolar no Brasil, porém o bicho ficava lá, inerte nos olhando com cara de tédio.

Confesso que fiquei um pouco desapontada por em meio aquele deserto todo, não ter visto uma caveira de cabeça de um boi, afinal, nos desenhos, filmes, sempre tem um cacto, uma caveira, e uma tumbleweed, planta rolante, no meio da estrada.

A noite aos poucos se aproximava com um belo degrade do por do sol, de azul ao laranja. Jared virou numa estrada aparentemente abandonada, pois até que ligasse os faróis, não teria percebido que estávamos sobre asfalto e sim areia.A estrada ainda sim tinha muita areia por cima.

"Aonde vamos?" eu quis saber.

"Você vai ver."

Ficamos naquela estrada por mais meia hora até que a estrada acabou no meio do nada.

"Ótimo." murmurei.

Jared aumentou a luz dos faróis então pontinhos brilhantes surgiram, como uma trilha, a qual Jared seguiu, e ao nos aproximarmos dos primeiros pontos, outros surgiram, nos guiando á um caminho. Colei a cara no vidro para saber o que eram, se eram um daqueles sinalizadores que tem nos quebra molas, mas na verdade eram pedras, pedras de espelho.

Mais meia hora seguindo as pedras espelhadas que nos levaram á uma grande casa de dois andares.

Estava aos pedaços, tinha uma varanda com a cerca quebrada e podre, o teto acima dela caia, a escadinha que levava a tal, aparentava estar boa. Jared parou o carro em frente a casa, me dando mais visão,porta e janelas pareciam intactas, embora a madeira parecesse velha, haviam vidros limpos e inteiros.Ele piscou com os faróis, o encarei, mas ele fitava sua frente.Uma janela emanou luz, e outra, e logo a porta também, saindo de lá, um homem. Tal pôs as mãos sobre os olhos.Vestia jeans surrados e um xale de etnia. Jared desligou os faróis e o carro. Desci do carro, estava muito frio lá fora, e eu estava apenas de regata, avaliei o céu por uns segundos, estava infestado de estrelas, Jared começou a caminhar e eu o segui até a casa.

Estava subindo a pequena escada de 3 degraus, mas o segundo falhou, fazendo meu pé afundar, Jared me agarrou pelo pulso não me deixando cair, mas seu rosto estava virado para frente. Me puxou e eu tirei meu pé do buraco. Pulei o ultimo degrau, logo estando na varanda. O homem acendeu um lampião e nos fitou, mais á mim do que Jared. Seu rosto parecia jovem, cabelos castanhos ondulados até as orelhas, uma barba grande em seu rosto, olhos escuros.

"Quem é ela?" perguntou a Jared acenando a cabeça para mim.

"Um encosto que encontrei no caminho." falou e logo passou pelo homem entrando na casa.

Encosto? Que imbecil!

Fiquei ali fora, o homem me encarava com uma sobrancelha erguida.

"Não vai entrar?" perguntou.

"Oh. Posso?"

"Se preferir dormir aqui fora á mercê dos insetos e cobras..." disse ele com simpatia no olhar. Dei um sorriso tímido e entrei com ele atrás de mim fechado á porta.

Por dentro, de velha, a casa não tinha nada. O estilo era rústico mas as madeiras eram polidas, espelhos com bordas de porcelanas com traços em prata e dourados, os móveis também tinham esses detalhes.

Assim que entrei deparei-me com um extenso e cômodo corredor, á minha direita havia um pequeno sofá e um lugar para pendurar casacos, também muito bonito e detalhado, mais á frente uma escada, em frente, á minha esquerda, um portal, mais á frente outro, á esquerda e direita e no final, uma porta dos fundos.Percebi que as luzes eram elétricas.

Segui o homem até o primeiro portal á esquerda, dando de cara com uma grande, bela e rústica sala. Sofás grandes de couro, uma mesa de centro de madeira bem polida com um desenho no centro, tapetes com couro de boi, havia dali um portal para a outra sala, onde avistei uma grande mesa, acima da sala uma grande e linda iluminaria, as luzes de tal eram de chama, mas os abajures eram movidos á energia. Jared entrou na sala bebendo um copo d’água e se jogou no sofá. O homem de barba acendia a lareira, acima dela um quadro de uma família, um homem, uma mulher e 3 filhos, duas meninas, um menino. O homem no quadro me parecia feliz e um tanto familiar.

"Senta aí." falou Jared indócil atrás de mim.

Me sentei no mesmo sofá que ele, mas alguns centímetros de distância.O homem se sentou no sofá á nossa frente e nos encarou.

"E então, o que faz aqui?" perguntou olhando para Jared.

"Não tenho tido notícias de meu criador, pensei que ele estivesse aqui, e se não, imaginei que também talvez pudesse saber onde se encontra.

"Harahel foi embora daqui há pouco mais de um mês. Ele disse que ia te procurar."

"Mas não me procurou, nunca mais ligou ou deu notícias." falou irritado pondo-se para frente com os cotovelos na coxa. — Isaac, as buscas sobre mim aumentaram.

"Acha que isso tem haver com o sumiço de Harahel?"

"Não sei, mas, um anjo veio atrás de mim. Quer dizer dela."

"Ah sim, ela." apontou para mim "O que a trás aqui?

"Ela se meteu no meio de uma briga minha com anjos caídos, então eles perseguiram ela, um anjo foi atrás dela, e um demônio.Ele ia matá-la,mas eu o matei. Ela... implorou pra eu trazê-la comigo, então, cá está.

"Qual é o seu nome?"

"Katherine." falei.

"Katherine... me diz, por que se meteu numa briga de desconhecidos?"

"Por que eram muitos contra Jared" ele olhou para Jared que deu de ombros "então fiquei com medo de que o matassem."

"Sempre toma conta de estranhos?"

"Jared não é um estranho. Fomos vizinhos e amigos quando crianças, quando morávamos na Romênia."

"Ah" ele pareceu surpreso ao ouvir aquilo. "Jared?" perguntou sorrindo para Jared.

"É." ele deu de ombros. "Ela acha isso."

"Katherine o que você sabe sobre ele?"

"Não muito. Na verdade, ultimamente descobri que quase nada."

"Hm, Katherine, você tem religião ou algo do tipo?"

"Não."

"Bom, muito bom. Imagino que tenha mil perguntas á fazer, mas esse rapaz aí não lhe deu muitas respostas, estou certo?"

"Sim."

Ele sorriu.

"Venha, depois do jantar farei algumas explicações." falou levantando-se

Na cozinha havia fogão à lenha e à gás, geladeira, e até microondas.

Jared se manteve na sala até Isaac gritar seu nome.

"Me ajude aqui na cozinha." falou para Jared. "E você." apontou para mim "Aguarde na sala, é visitante da casa."

Segui suas ordens e fiquei lá na sala, fitando tudo, principalmente aquele quadro. Isaac se parecia muito com aquele homem, talvez se tirasse a barba estaria perfeito. Mas aquela foto, pelas vestimentas, parecia muito antiga, não seria possível, talvez Isaac fosse bisneto, tataraneto do homem da imagem.

Os ouvi pondo a mesa e me direcionei para a sala do jantar, tinham feito macarrão com queijo, haviam pratos uma garrafa de vinho e taças.

Isaac se sentou na ponta, Jared e eu ficamos um de frente para o outro, nos servimos em silêncio, Isaac me serviu uma taça de vinho, serviu apenas para mim. Não bebi pois era menos, embora ninguém fosse saber, achava aquilo errado, e talvez aquilo tivesse veneno ou quaisquer coisa. Não conhecia Isaac e não confiava em Jared.

O jantar aconteceu em silencio até que todos terminaram de comer, até Jared depois e bater seu quarto prato.Isaac pigarreou então nos olhamos.

"Bem Katherine, tudo que vou lhe contar começa com os 72 nomes de Deus."

Notas finais
Me desculpem pela demora, mas espero que gostem!Não esqueçam dos comentários!Oh, e leiam essa história aqui...minha amiga quem escreve,e não é por ela ser minha amiga, mas as história é MUITO BOA, vocês se apaixonaram pelos personagens e enredo logo de cara! Passem lá, deem uma olhada e deixem comentários lá também.http://fanfiction.com.br/historia/313810/Fogo_Contra_Fogo/beijuuus