Gênesis
70 Perdas - Uma mulher sem propósito (UM).
Notas iniciais
"Às vezes penso que o coração das pessoas é como um poço profundo. Ninguém sabe o que há no fundo. Tudo o que você pode fazer é imaginar o que vem flutuando na superfície de vez em quando." –Haruki Murakami
~X~
Uma mulher sem propósito
Shizune olhou para as lápides em transe. Depois de tantos anos, nada além de uma dor entorpecente enchia seu coração ao ver os nomes entalhados em ambos os túmulos.
Kato Risa. Kato Dan.
Ela se sentou em seiza, ignorando os joelhos ralados sobre a grama áspera cobrindo o cemitério no fundo do terreno do clã Kato.
—Mãe. Tio Dan. Me desculpem por não vir visitar vocês recentemente. A Aldeia tem estado bastante caótica desde o ataque da Raposa alguns meses atrás. Perdemos tantos shinobis que até eu tive que ser promovida à Jounnin. –Ela suspirou, enquanto massageava as olheiras escuras sob seus olhos- Fiz tantas missões ultimamente que eu mal tive tempo de dormir. Foi tão ruim que eu aparentemente desmaiei depois de chegar da minha última missão. Já contei para vocês que eu me inscrevi no programa médico aos doze anos, então a maioria do pessoal médico me conhece. Minha professora de Ninjutsu médico estava especialmente preocupada e... Ela decidiu me examinar e... –Ela fez uma pausa, e cerrou seus punhos, enquanto lutava para não se engasgar- Aparentemente, eu vou morrer em breve. Minhas próprias células estão me matando. Câncer terminal.
Shizune ficou um minuto em completo silêncio, nada além dos rostos tristes de seus companheiros e professora a assombrando. Eles haviam tentando todos os métodos no hospital de Konoha, mas...nada funcionava. A dor insuportável de cada um dos tratamentos era a única coisa nos seus pensamentos. Ela só queria desistir da dor surda, e simplesmente...descansar. Mas ela não conseguia. As últimas palavras da sua mãe moribunda foram viva. Então ela continuou tentando, e tentando até vomitar sangue. E então, na noite anterior, o próprio Sandaime Hokage, que havia reassumido o cargo depois da morte do Yondaime alguns meses atrás, a chamou pessoalmente no seu escritório, e permitiu que ela finalmente visse uma fina luz no fim do túnel.
Ela se curvou para os túmulos três vezes seguidas, antes de finalmente se levantar, com seus joelhos rangendo de dor a cada movimento.
—Eu...vou tentar viver. Por vocês. Isso é um até logo, mas...se eu não conseguir, é uma despedida.
Seus passos eram decididos enquanto ela saía do cemitério no fundo do terreno do clã. Ela cumprimentou com um aceno o chunnin na entrada, e ele apenas se curvou em resposta. Ela logo foi cumprimentada por uma pequena rua, com casas tradicionais separadas por uma rua adornada de árvores altas.
Sendo um clã de pequeno porte, o número total de membros do clã Kato mal chegava à trinta membros, com menos de dez deles sendo shinobis ativos. Tirando seu tio, o atual líder do clã, ela era a única Jounnin em suas fileiras.
Foi difícil não se lembrar das palavras do Hokage. As costas dele estavam eretas, sendo iluminadas pela lua cálida, quando ele a chamou ao seu escritório. Apesar da sensação de opressão que ele emanava, havia algo gentil e terno na sua aura, que a lembrava um avô carinhoso. Sarutobi Hiruzen era uma contradição ambulante.
Eles tiveram uma longa conversa, enquanto bebericavam xícaras de chá morno e doce. Mas as palavras que ele falou a chocaram. Ele a elogiou profundamente, chegando a chamá-la de kunoichi mais talentosa em Ninjutsu médico desde Senju Tsunade, e o quanto seria uma perda sua morte, quando Konoha precisava desse tipo de talento. Afinal, a princesa das lesmas passava seus dias bebendo e apostando em decadência ao redor do continente. Ele chegou a desabafar por uma longa hora sobre Tsunade gastando metade da herança Senju na Província de Ōsumi. A princípio, ela não entendeu as suas palavras doces, até ela perceber as palavras nas entrelinhas. Primeiro, ela estava à beira da morte. Segundo, ela era talentosa demais para Konoha tolerar sua morte. Terceiro, ninguém em Konoha poderia curá-la. Quarto, a melhor médica do mundo estava bebendo em uma das províncias no País do Fogo.
A gota final foi quando ele murmurou sobre ela não estar respondendo suas cartas ultimamente, e o quanto ele estava preocupado com sua saúde. Tudo nele parecia o ato de um Sensei gentil, mas ela conseguia notar as intenções nas entrelinhas.
Shizune, então, sugeriu que ela precisava espairecer à mente estando tão perto da morte, e a Província Ōsumi, famosa por seu distrito de entretenimento no País do Fogo, seria um bom destino. Ela então sugeriu levar a mensagem que ele não conseguia entregar.
O Sandaime apenas deu o seu costumeiro sorriso de avô gentil, antes de agradecer.
Shizune saiu do seu escritório pensando no quão assustador o Hokage poderia ser.
Ela saiu de seus devaneios, quando a saída do clã surgiu diante dos seus olhos, e logo seus passos pararam ao ver as pessoas ao redor. O mais novo do trio de irmãos Kato parecia uma mistura de Dan, e sua mãe Risa. Seus traços faciais eram gentis como de Dan, mas seus cabelos azuis eram bagunçados e arrepiados, de alguma forma lembrando sua mãe. A expressão de Kato Han era indecifrável enquanto ele via sua sobrinha se aproximando.
—Kato Shizune.
—Han-sama. -Shizune se curvou perfeitamente. Antes de se virar para a mulher parada ao lado de seu tio, e repetir o gesto – Mabui-sama.
Sinceramente...Mabui era...deslumbrante. Facilmente uma das mulheres mais bonitas que Shizune já havia visto na vida. Sua pele escura acentuava o branco de seus cabelos longos e sedosos. Seus olhos de corça pareciam conter a própria lua no seu tom prateado, e seus lábios cheios e carnudos sempre brilhavam como se tivessem mel escorrendo por eles. Cada um dos movimentos do seu corpo curvilíneo e esculpido, emanava a graciosidade de uma nobre.
Shizune não conseguia compreender como uma criatura tão bela poderia caminhar na terra. A fada logo sorriu, e foi como se o sol estivesse nascendo. Mabui estendeu os braços para Shizune, e só naquele momento ela percebeu a menina adormecida nos braços da mulher do seu tio.
—Você ia embora sem se despedir da pequena Risa?
Até sua voz era como ouvir sinos tocando. Shizune logo sorriu, antes de estender a mão para bagunçar os cabelos da menina adormecida que havia herdado o nome de sua mãe. Kato Risa. Seu tio claramente ainda não havia esquecido a irmã mais velha que o criou depois da morte dos pais. Exceto seus cabelos azulados, Risa herdou a beleza completa de Mabui. No futuro, ela certamente seria uma Kunoichi extremamente bela. Ela continuou afagando seus cabelos.
—Como eu poderia me esquecer? Vou sentir bastante falta dela.
Mabui aumentou seu sorriso.
—Como não? Minha pequena Risa é muito adorável.
Foi nesse momento que seu tio pigarreou, desconfortável por estar sendo ignorado. Ele levou algum tempo para reunir suas palavras.
—Tenha cuidado na viagem e...–ele se aproximou com braços estendidos, mas ele hesitou por um momento, e acabou colocando sua mão no ombro de Shizune- Saiba que você tem uma casa para voltar. Então...volte. Sempre.
Shizune sentiu seus olhos marejarem. Ela entendeu o conflito dentro do seu tio. Ela não tinha dúvidas que ele a amava, da sua maneira. Ela ainda se lembrava de quando sua mãe e tio Dan estavam vivos. Ele passava o dia brincando com ela. Mas...nada podia se comparar com a forma como ele amava sua filha Risa. E enquanto Shizune estivesse na Vila, a posição da sua filha como herdeira sempre estaria ameaçada. Afinal, ela era uma criança mestiça com uma Kunoichi desertora da Vila da Nuvem. Não havia como os anciões aceitarem que sua herdeira tivesse sangue estrangeiro de uma vila inimiga. Afinal, até aquele dia, ainda haviam suspeitas de espionagem sobre a esposa do líder do clã. Era possível sentir o esquadrão ANBU a seguindo toda vez que ela saía da residência do clã. Toda vez que os anciões saíam nas ruas, tinham que ouvir outros shinobis zombando que seu líder de clã havia se vendido para os inimigos.
Clãs Shinobis eram...complicados. Ela apenas acenou, diante da hesitação do seu tio. Era o máximo que ela podia fazer no momento.
Logo ela deixou a residência do clã para trás, com nada além de seus pertences em um pergaminho. Independentemente do resultado de sua busca, ela não planejava retornar. Ela nunca teve intenção de herdar aquele clã, então, morrer longe ou não voltar, era o mínimo que ela poderia fazer pelo tio que a criou depois de perder ambos irmãos, e a pequena prima que ela amava como sua própria irmã mais nova.
O sol ainda estava no alto quando ela saiu de Konoha. Olhando para trás, ela podia ver a Vila ainda em reconstrução depois do ataque da Kyuubi, e o pesado miasma de luto que envolvia a vila devido as milhares de vidas perdidas.
A Província de Ōsumi ficava ao Norte do País do Fogo, quase na fronteira com o País das fontes termais. Por essa razão, era um destino turístico famoso. O País do Fogo, com suas Treze Províncias, era enorme. A Província de Konoha, administrada pelo Hokage, e cuja capital era Konohagakure no Sato, estava na borda Oeste do País, bem na fronteira com as outras Nações Elementais. Eles eram claramente a primeira linha de defesa.
Shizune era uma Jounnin, e sua velocidade era muito superior à de cavalos civis, mas mesmo assim, ao final do dia, ela só havia saído da Província de Konoha. Ela parou para descansar em uma floresta, e só continuou a jornada no dia seguinte.
Quanto mais ela adentrava o País, as aldeias rurais eram substituídas por aldeias mais desenvolvidas, estradas de terra se transformavam em estradas pavimentadas, e os shinobis patrulhando foram substituídos por Samurais em armaduras vermelhas e imponentes patrulhando as estradas e mantendo a ordem. Como ela estava intencionalmente evitando rotas comerciais, ela não os encontrava com muita frequência.
Três dias depois, uma Shizune exausta finalmente chegou à Província de Ōsumi. Ela teve que parar constantemente com as crises aleatórias de dor, que só podiam ser amenizadas por descanso e medicamentos com gostos horríveis.
Ela entrou na primeira cidade animada que viu, e logo ficou surpresa pela cacofonia de sons. Multidões de pessoas se espremendo pelas ruas com roupas coloridas, e luzes brilhantes em estabelecimentos devassos. Ela finalmente percebeu algo, enquanto estava perdida na multidão. Como ela acharia a Sannin das Lesmas? Tinham dezenas de cidades como essa nessa Província, e milhares de casas de apostas e bares.
Suspirando, ela se transformou em um homem corpulento, e assumiu a identidade de um cobrador de dívidas enquanto perguntava sobre ela na cidade. Algumas horas depois, Shizune finalmente desfez a transformação e suspirou de exaustão. Ela não teve qualquer pista. Todas as casas de jogos que ela passou simplesmente rangeram os dentes quando ela perguntou sobre Senju Tsunade. Aparentemente, depois de perder milhões de Ryous, ela geralmente conseguia escapar antes que eles percebessem. Shizune não ficou muito surpresa. Senju Tsunade era uma Kunoichi nível Kage. Se ela quisesse, o que aqueles humildes seguranças nível Gennin e Chunnin podiam fazer para ver através de seus truques, e a impedir de escapar?
Sem ela perceber, ela foi parar no Distrito da luz vermelha, e as casas de jogo foram substituídas por estabelecimentos opulentos com mulheres e homens seminus na entrada. Shizune hesitou por um momento. Geralmente, esse era o melhor local para conseguir informações, mas...seu coração acelerava só de se imaginar entrando em um daqueles estabelecimentos. Shizune se arrependeu de ter desfeito a transformação. Teria sido mais fácil obter informações em um daquelas casas de prazer como um homem. Ela deve ter ficado muito tempo parada diante de um estabelecimento, porque uma das mulheres seminuas se aproximou sem que ela percebesse.
Um aroma cítrico inundou seu olfato, enquanto um corpo curvilíneo envolveu seu braço.
—Olá, querida...procurando companhia?
Shizune travou de choque ao ouvir a voz melodiosa soprando ar quente no seu ouvido. O que estava acontecendo? Ela ficou genuinamente curiosa ao olhar para a mulher a abraçando de lado.
Ela pesou os prós e os contras na sua mente, antes de finalmente suspirar e se deixar ser arrastada. Era a maneira mais realística de obter informações.
—Mostre o caminho.
Ela fingiu não notar o sorriso crescente nos lábios bem desenhados da ruiva. Não deveria ser fácil conseguir clientes com tanta competição. Quando Shizune finalmente percebeu, elas estavam em um cubículo privado no bar do primeiro andar, e a música irritante tocando no fundo mal era ouvida com o perfeito isolamento sonoro naquele cubículo. Ela parecia desconfortável quando se sentou no largo sofá.
—Hmm...olá. Sou Shizune. Eu...ainda não sei seu nome.
A vendo tão desconfortável, a ruiva riu de forma coquete, enquanto servia um pouco de saque no copo na mesa, e o estendia em sua direção. Shizune obviamente não tocou no saquê. Que tipo de Shinobi bebia coisas servidas por estranhos? Essa era uma forma muito rápida de morrer no mundo ninja.
A ruiva não pareceu afetada, e simplesmente se aproximou dela no sofá. Shizune inconscientemente se afastou ao sentir o aroma cítrico do corpo ao seu lado.
—Sou Yotsune. –Ela sorriu, não parecendo afetada por sua recusa- Não precisa ficar nervosa, eu tenho experiência com todos os tipos de preferências. Meu desejo é sempre agradar meus clientes. Especialmente uma Kunoichi habilidosa como você.
Seus olhos se estreitaram, enquanto uma Senbon deslizava entre seus dedos, e era colocada na garganta da ruiva.
—Como você sabia?
Ela não pareceu afetada pela agulha apontada para a pele clara do seu pescoço. Seu sorriso coquete nunca falhou.
—A forma como você avaliou o ambiente, como se memorizasse possíveis rotas de fuga, seus passos silenciosos enquanto caminhava ou...a forma como você está olhando para cada parte do meu corpo, pensando nas formas mais fáceis de me matar.
Ahn? Na verdade ela estava olhando para seu corpo em roupas reveladoras, e se perguntando como era possível os seios de alguém crescerem tão grandes. Mas aquilo também serviria. Ela escondeu a senbon.
—Você é bastante observadora.
—Eu tenho que ser. Nesse ramo, é essencial saber ler as pessoas e seu caráter. Caso contrário, como eu poderia saber evitar clientes mais...violentos?
O ambiente repentinamente ficou sombrio. Shizune estendeu silenciosamente uma nota de dez mil Ryous. Era mais do que Yotsune fazia por semana.
—Já que você é uma pessoa observadora, então você deve saber que eu gostaria de algumas informações.
A ruiva fez beicinho.
—Pensei que iriamos nos divertir.
Shizune pigarreou de forma desconfortável.
—Você pode ou não?
Yotsune parecia emburrada enquanto guardava as notas entre os seios expostos de seu vestido revelador.
—Pergunte.
Shizune gastou aproximadamente um minuto explicando a aparência e os rumores sobre a Sannin para ela. A ruiva franziu o cenho.
—Perguntando sobre uma mulher para outra mulher interessada.... você fere os meus sentimentos. Não sou bonita o suficiente? –Ela suspirou de forma triste, antes de parecer pensar- Uma das garçonetes do cassino na cidade vizinha é minha cliente regular. Ela costuma visitar essa cidade todas às Quartas. Ontem, ela reclamou sobre como a Lendária Otária estava atormentando as casas de jogo da cidade vizinha.
—Entendo.
Shizune mergulhou em pensamentos. Ainda faltavam algumas horas para o sol se pôr, e a cidade não era tão distante. Ela se levantou, ignorando a decepção nos olhos dela. Shizune estendeu outro maço de notas para ela.
—Obrigada pela informação.
—Que pena...-A ruiva recebeu o dinheiro com uma expressão abatida, antes de sorrir e mostrar a língua para ela. — Se você mudar de ideia, eu garanto que irei levá-la ao céu.
Shizune sentiu seu rosto esquentar. Ela se virou e saiu correndo do estabelecimento.
Depois de ver Shizune desparecer pela porta, a expressão sedutora da ruiva se transformou em uma expressão fria e monótona. Ela se levantou e subiu um par de escadas, até chegar em uma sala no final do corredor. Ela bateu os nós de seu dedo em um ritmo específico. Ela logo ouviu uma voz rouca vindo de dentro.
—Sim?
Yotsune não mostrou qualquer reação ao ouvir a voz rouca e vazia por trás da porta.
—Alguém está tentando entrar em contato com o alvo.
A voz ficou alguns segundos em silêncio, como se pensasse.
—Hmm...Kato Shizune. O nosso cooperador em Konoha me informou sobre ela. Aparentemente, ela é uma Kunoichi talentosa com uma doença terminal. Ela está buscando tratamento com Senju Tsunade. Nada demais. Mas...Fique de olho nelas. Qualquer anormalidade, você pode neutralizar ela.
—Será que posso me divertir antes?
—Negativo.
Ela lambeu os lábios.
—Que pena. Ela era adorável.
—___________________
Demorou duas horas para Shizune chegar na próxima cidade. Estava escurecendo, e ela pretendia achar um lugar quente para dormir. Entrando em uma pousada, ela sentou no bar no primeiro andar e pediu um copo de água. O atendente a olhou de forma cética, antes de ir preparar.
Suspirando, ela se espreguiçou, antes de ouvir a mulher embriagada ao seu lado sussurrando. Nessa altura, sua água finalmente chegou, e enquanto ela bebia, ela mergulhou em pensamentos. Será que ela realmente a conseguiria encontrar? E se sim, ela seria capaz de curar sua doença? Ela mal conseguia ouvir seus pensamentos com o barulho irritante da mulher ao seu lado. Ela estava balbuciando sem sentido, claramente bêbada demais. Shizune se virou para ela, pronta para desabafar, quando congelou.
Ela estava cética. Não podia ser. Ela realmente a encontrou na segunda cidade em que parou? Quão sortuda ela era? Ou a informação de Yotsune era realmente boa?
Uma mulher loira estava apoiada no bar, rodeada de inúmeras garrafas de saquê vazias. Seus olhos nebulosos estavam semi-abertos, enquanto ela murmurava sem parar, com uma gota de baba escorrendo da sua boca.
Shizune ficou chocada. Aquela era realmente uma Sannin lendária?
Ela olhou para o amplo par de seios espremidos em seu quimono, e ficou quase convencida que era realmente a Lendária Otária. Shizune ficou travada por um momento, sem saber o que fazer. Ela decidiu continuar bebendo seu copo de água enquanto pensava. Eventualmente, um copo se transformou em dois, e depois três, e depois quatro, tudo sobre o olhar confuso do atendente. Shizune sentiu seu rosto ficar quente de vergonha. Ela estava apenas pensando na melhor abordagem. Apesar de Tsunade ser a ex-noiva de seu falecido tio, aquilo foi muitos anos atrás, ela provavelmente nem se lembrava de Shizune.
Enquanto Shizune estava sentada observando Senju Tsunade, inevitavelmente o esperado aconteceu. Uma mulher bonita e aparentemente bêbada, era um alvo claro para os homens naquele estabelecimento. Ela perdeu a conta de quantos tentaram abordar a Sannin, apenas para voltarem desanimados. Shizune podia ver a irritação crescente no rosto bêbado dela.
Pela expressão irritada, era apenas uma questão de tempo até que ela fosse embora.
Shizune decidiu finalmente se aproximar. Ela não temia por Tsunade. Shizune sabia que, mesmo bêbada e semi-consciente, ela ainda era milhas superior à qualquer homem naquele bar. E era exatamente por isso que ela temia que ela acabasse matando um pobre coitado que não conhecia seus limites.
Ela parou ao lado da mulher bêbada, e pigarreou. Tsunade mal levantou a cabeça, enquanto rosnava de irritação.
—Não. Não vou dormir com você. Desapareça.
Shizune ficou confusa por um momento, até perceber que ela provavelmente a estava confundindo com um pretendente.
—Ah, eu não quero dormir com você. Quer dizer, não que tenha algo errado com você. Você certamente é uma mulher atraente, e qualquer pessoa teria uma sorte enorme em passar uma noite com você.
Ela parou de falar quando percebeu que Tsunade havia levantado seu rosto, e a encarava de forma fixa. Era um olhar estranho em seu rosto vermelho pelo álcool. Shizune se perguntou se ela estava a reconhecendo?
—Hmm...você não é nada mal com as palavras. E ainda é bonita.
—Obrigada?
Tsunade resmungou qualquer coisa, mas era inaudível enquanto ela engolia uma garrafa abandonada de saquê ao seu lado. Ela limpou as gotas que escorriam do canto da sua boca, antes de suspirar de aparente prazer.
—Eu me decidi. Eu irei com você.
Shizune olhou para o rosto cada vez mais corado pelo álcool, antes de se voltar para o atendente.
—Há quanto tempo ela está bebendo?
—Desde manhã?
Shizune engasgou. Essa realmente era a Kunoichi número um do mundo ninja? Suas memórias da infância eram nebulosas, mas ela não se lembrava dela ser daquele jeito. A morte de seu tio realmente a mudou tanto? Ela suspirou.
—Hmm...Onde você está hospedada?
A loira pareceu confusa por um momento, antes de arregalar os olhos como uma criança.
—Hospedagem? Não tenho! Gastei todo meu dinheiro em bebida.
O atendente franziu o cenho.
—Você ainda deve cinco mil Ryous em bebida, loira-san.
Shizune massageou a testa, sentindo uma dor de cabeça chegando.
—Fique com o troco.
Cerrando os dentes, ela colocou seis mil Ryous no bar. Ela estendeu a mão para Tsunade, apenas para a ver tropeçar em seus passos. Ela passou o braço ao redor da cintura da mulher cambaleante, enquanto a carregava para fora do bar. Shizune era uma mulher alta, então, mesmo com os saltos, a Sannin mal chegava no seu ombro.
Cambaleando pelas ruas agora escuras, não foi difícil achar uma pousada disponível. Shizune em seguida demorou quase dez minutos discutindo com a moça da recepção sobre os preços da hospedagem, enquanto Tsunade a cutucava como uma criança.
Ela estava começando a odiar bêbados. Eventualmente, elas conseguiram às chaves de um quarto com duas camas, e subiram escada acima.
Depois de abrir a porta, ela deixou Tsunade entrar, antes de se virar para fechá-la com as chaves. Quando ela finalmente se virou, ela ficou confusa por ser empurrada contra a parede. O que a loira estava fazendo?
Até que ela viu a expressão corada e nebulosa de Tsunade mudar, enquanto uma mão coberta por um bisturi de chakra pressiona o seu pescoço, bem na jugular. Se ela empurrasse um centímetro, Shizune se esvairia em sangue até a morte.
Ela ficou finalmente assustada. A expressão absolutamente vazia no rosto de Tsunade parecia esculpida em mármore. De repente, Tsunade parecia tão assustadora quanto a melhor assassina do mundo deveria parecer.
—Então...me dê um bom motivo para eu não cortar sua garganta?
Ela engoliu em seco. Porra. A sensação de impotência era assustadora demais. Aqueles olhos...ela sentia que, não importa o que fizesse, Tsunade poderia matar ela com a mesma facilidade que uma Jounnin como ela mataria um estudante da Academia. Rank S...Eles eram monstros em pele humana.
O bisturi avançou ligeiramente, e um filete de sangue manchou seu pescoço alvo. A dor finalmente despertou Shizune.
—Hmm...eu vou morrer se você fizer isso?
A única resposta que ela recebeu foi o bisturi se afundando um pouco mais na sua pele. Ela entrou em pânico, e disse a primeira coisa que veio à sua mente.
—Espere! Sou eu, Shizune.
A loira inclinou a cabeça, enquanto seus longos cabelos caíam como cascata com aquele simples movimento. Havia algo verdadeiramente belo em sua expressão indiferente.
—Quem?
Ela cerrou os dentes, um pouco decepcionada, antes de engolir em seco e se acalmar.
—Shizune Kato. Eu sou... sobrinha de Dan.
Finalmente, a expressão vazia mostrou sinais de rachar, enquanto os olhos claros como mel ficavam nebulosos. Mas ela logo se recompôs.
—Me prove.
—O...quê?
—Qualquer Shinobi decente sabe que a Sannin das lesmas foi noiva de Kato Dan, e não é particularmente difícil saber que ele tinha uma pequena sobrinha. Matar uma garota ingénua e a substituir não deve ser difícil. Quem me garante que você não é uma impostora? Afinal, a única memória que tenho sobre você é de uma menina chorona de seis anos. Eu não conheço ou confio em você.
Shizune ficou chocada. Os rumores não diziam que ela era uma bêbada em decadência? Por que ela era tão cautelosa?
—Eu sou uma Sannin, e a Kunoichi que mais completou missões Rank S na história de Konohagakure. A quantidade de informações confidenciais que eu tenho na cabeça é suficiente para derrubar Konohagakure politicamente. Você tem ideia de quantos espiões tentam se aproximar de mim diariamente? Posso ser uma bêbada, mas não sou burra. Se você não me convencer nos próximos trinta segundos, eu vou cortar sua garganta.
—Mas e se eu realmente for Shizune? Você não pode simplesmente me matar!
A loira pareceu pensar.
—Seria uma pena, isso é verdade. Mas você realmente acha que nunca abati companheiros de Konoha? Nem todas as folhas da árvore estão saudáveis, infelizmente. Um, dois, três...
Shizune queria dizer que ela estava brincando, mas havia algo nos seus olhos vazios que a convenciam que ela iria realmente fazer aquilo. Ela mordeu os lábios. Como ela poderia provar que não era uma espiã? Por mais que ela a achasse estranhamente paranoica, não tinha como negar a precaução dela depois de mais de dez anos perambulando pelo continente. Por mais poderosa que fosse, Tsunade não estaria viva se fosse ingenuamente acreditar em qualquer estranho que se aproximasse.
Shizune finalmente se lembrou da carta do Hokage.
—No meu quimono...eu tenho uma carta do Hokage-sama.
—Por que você não começou com isso?
A mão livre de Tsunade mergulhou no interior de seu quimono, até voltar com um pergaminho lacrado com o selo oficial do Hokage. De relance, ela conseguiu analisar os intricados fuuinjutsus imbuídos no selo. Ela quase se convenceu de sua autenticidade. Sua expressão relaxou ligeiramente, enquanto ela afastava o bisturi de chakra da garganta dela.
Shizune suspirou de alívio, mas ainda assim não ousou se aproximar da Kunoichi paranoica. A Sannin se esparramou desajeitadamente na sua cama, enquanto rolava o pergaminho na sua mão.
—Por que aquele pirralho loiro enviaria você como mensageira?
Shizune ficou confusa por um momento, antes de pensar em uma possibilidade.
—Você quer dizer...O Yondaime Hokage? – Tsunade grunhiu em reconhecimento – Espera...você não sabe?
—Sei o quê? Nos últimos meses eu estive...ocupada.
Shizune suspirou. Assim como ela imaginava, a Sannin provavelmente estava distraída demais para prestar atenção às notícias de Konoha. Sem falar que o Sandaime suprimiu as informações enquanto a Vila ainda estava em reconstrução.
—Há dois meses atrás...A Kyuubi atacou Konoha. Infelizmente, o Yondaime e sua família...não sobreviveram.
O pergaminho que ela estava rolando nas mãos quase caiu no chão, enquanto as mãos de Tsunade tremiam. Ela se levantou silenciosamente, enquanto caminhava até a janela fechada do quarto. Ela a abriu com um movimento, antes de tirar um cigarro de dentro do seu quimono. Ela tentou acender o cigarro na sua mão, mas sua mão trêmula de alguma forma não conseguia acender o isqueiro. Ela lutou por alguns segundos, antes de umas mãos delicadas receberem o isqueiro em sua mão, e acenderem o cigarro por ela.
—Obrigada.
Ela não sabia o quanto sua voz estava trêmula até ela falar. E se Shizune viu as lágrimas correndo por seu rosto, ela fingiu não notar. Tremulamente, ela colocou o cigarro em seus lábios, antes de inspirar profundamente. A sensação entorpecente que se seguiu ajudou seu corpo a parar de tremer.
Seus olhos cor de mel estavam turvos enquanto ela olhava para o céu noturno. Memórias de uma mulher de cabelos brancos entregando uma criança loira em seus braços, enquanto lágrimas manchavam seu rosto.
No fim, eu não consegui cumprir a minha promessa. Eu não pude proteger o seu filho. Me desculpe, aneue. Ele está morto. Assim como o resto do nosso amaldiçoado clã.
Horas devem ter se passado, antes que o último dos cigarros se apagassem. Ela não tinha certeza. Era difícil contar a passagem do tempo quando tudo à sua volta era cinza.
—Falaremos amanhã.
Ela mal olhou para a menina que ficou ao seu lado por horas, antes de se jogar na sua cama. Seu estômago se embrulhou. Ela certamente podia usar seu chakra médico para curar quaisquer efeitos de um dia inteiro de álcool e nicotina no seu corpo, mas por que ela faria isso? Uma quebradora de promessas como ela não merecia aquilo. Ela deixou que a névoa de álcool e sentimentos confusos a engolfassem, enquanto ela mergulhava em um sono agitado repleto de imagens do corpo ensanguentado de Minato.
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