Gênesis
71 Perdas - A quebradora de Promessas (DOIS)
Notas iniciais
Quando Tsunade abriu os olhos, o sol mal havia nascido. Uma sensação horrível rastejava por cada centímetro do seu corpo, mas ela apenas cerrou os lábios. A sensação metálica do sangue encheu seu corpo com repulsa suficiente para ela finalmente se levantar. Ela viu os lençóis da cama ao lado dobrados, o que significava que a sua companheira já havia se levantado.
Companheira.
Agora que ela finalmente tinha tempo para refletir, a menina evocava sentimentos confusos. Seu corpo alto e os traços angulosos do seu rosto eram um lembrete constante do homem que ela desesperadamente não conseguia esquecer, mesmo depois de anos. Até a forma como ela ficou estoicamente ao seu lado enquanto ela quebrava era dolorosamente familiar para ela.
Shizune.
Tsunade nunca esqueceria o dia em que conheceu a jovem sobrinha de Dan, três dias após sua morte em batalha, uma década atrás. Ver o rosto sem vida de seu amante quebrou algo frágil dentro dela, algo incapaz de endurecer após a pressão.
Por muito tempo, ele era como a luz em sua vida repleta de sombras. Algo que ela poderia reclamar como inteiramente dela, em uma vida que ela não possuía nada. Afinal, ela era amaldiçoada por perdas. Seus avôs, seu pai e mãe, seu irmãozinho, seu clã inteiro... Ele foi uma lufada de ar para uma naufraga que estava acostumada ao fracasso e, quando ela também o perdeu, ela caiu tão fundo que nem mesmo o chão poderia impedir sua queda. Ela não conseguia simplesmente se levantar e tentar de novo, afinal, ela não era Jiraiya, com sua determinação inesgotável.
Então ela se trancou no pequeno apartamento de Dan, esquecendo que havia outra pessoa que ela havia deixado sem ter para onde ir e uma porta trancada olhando para ela. Mas Tsunade não conseguia ouvir as batidas na porta, os pequenos punhos batendo e batendo até a noite cair. Ela estava muito envolvida com o estoque de saquê de Dan e com o cheiro de Dan que manchava seus travesseiros e as fotos dele e dela, porque ele tinha sido um homem gentil e insubstituível.
Na manhã seguinte, ela acordou com a cabeça dolorosamente inclinada no sofá e uma garrafa de saquê ainda semicerrada na mão. Diante dela estavam Jiraiya e Orochimaru, e atrás deles havia uma porta quebrada, com uma garotinha espiando por trás dela.
Jiraya a olhava com preocupação, enquanto Orochimaru estava encostado na parede, seus braços cruzados e rosto abaixado escondendo sua expressão. Mas ela sabia que a sua mera presença era o equivalente de outras pessoas gritando de preocupação.
—Hime! — Jiraiya implorou, ajoelhando-se ao lado dela. — Vamos, você não pode ficar assim. Acabou, a guerra acabou. É por isso que estávamos lutando, não é? Levante-se, por favor.
Ele olhou preocupado para a porta.
Tsunade seguiu sua linha de visão e a cabeça desapareceu rapidamente atrás do batente da porta antes de olhar para fora com olhos grandes. Lentamente, a menina se separou da porta e se aproximou. Ela era uma criança pequena, entre seis à oito anos, mas a bandana em sua testa indicava que, apesar de sua aparência extremamente jovem, ela já havia se formado. Tempos sombrios, de fato. Tsunade vasculhou memórias confusas antes de reconhecer a garota, e seu coração caiu mais uma vez. Inúmeras memórias de uma pequena criança perambulando pela vila nas costas de Dan.
—Hum... você é Tsunade-sama, certo? -Shizune perguntou hesitante. — Você... você sabe onde meu tio está? Sempre venho visitá-lo depois das minhas missões... –ela sorriu de forma envergonhada – Ele sempre fica preocupado comigo.
—Ela sonha em ser uma ninja médica, — Orochimaru relatou rispidamente. — Tenho certeza que você a reconhece, ela foi recentemente promovida à Chunnin
durante a guerra. Sobrinha de Dan.
O nome trouxe consigo uma súbita pontada de dor, e ela teve que parar e piscar os olhos antes de olhar para a garota.
—Ele morreu em batalha.
Tsunade disse sem qualquer emoção.
Os lábios de Shizune estavam pressionados em uma linha apertada quando ela se afundou no sofá e segurou a cabeça entre as mãos, mas ela não chorou, porque parecia que ela era mais forte que isso. E enquanto observava a garota e via suas próprias manchas de lágrimas no sofá, Tsunade quase imaginou uma vida em que a aceitaria como aprendiz, e cuidaria dela, assim como Dan cuidava. Ela tinha certeza que ele adoraria isso. Mas então ela se lembrou de quem ela era, de como tudo que ela tocava, quebrava. Tsunade decidiu contra isso.
Suas memórias foram interrompidas pelo som da porta sendo aberta, e Shizune entrando com um olhar hesitante.
—Hmm...bom dia.
Tsunade apenas grunhiu, enquanto a olhava de forma pensativa. Até a forma como ela desviava o olhar nervosamente era dolorosamente parecida com a de Dan. Ela logo suspirou, sentindo que não era justo com ela.
—Você já comeu? -A menina balançou a cabeça. – Venha comigo.
Ela não esperou que a menina a seguisse enquanto descia as escadas até o andar de baixo da pousada. Ela se sentou em uma mesa livre, enquanto Shizune se sentava ao seu lado. O simples som da cadeira sendo arrastada enviou dores de cabeça para seu corpo com ressaca. Uma mulher de meia idade com um sorriso gentil logo veio fazer seus pedidos.
Vendo a forma como Tsunade estava distraída massageando a cabeça, Shizune fez os pedidos, pedindo duas refeições quentes, antes de ser interrompida por Tsunade pedindo saquê para acompanhar.
A atendente pareceu surpresa por ela querer beber tão cedo, mas um único olhar intenso de Tsunade foi suficiente para ela sair correndo.
—Hmm...-Shizune começou, de forma hesitante – Não é muito saudável beber tão cedo.
Tsunade rangeu os dentes.
—A única pessoa que me impediria de beber seria a minha mãe, e pelo que me lembro, ela está morta.
—Ah, me desculpe.
Tsunade logo suspirou ao ver a sua expressão abatida. Seu humor estava horrível desde que ela conheceu a garota. Ela trazia memórias dolorosas.
—Não, não é sua culpa. Eu só...não dormi muito bem.
Flashes de um corpo ensanguentado piscaram na sua mente. Shizune fingiu não ver seu olhar melancólico.
—Tudo bem. E...quanto à nossa conversa?
—Depois da refeição.
A atendente logo voltou com seus pedidos. Elas não voltaram a conversar até terminarem a refeição, e Shizune ainda teve que esperar Tsunade terminar quatro garrafas de saquê, antes de finalmente voltarem para o quarto. Não sem Tsunade pedir outras garrafas para levar.
Logo que a porta se fechou, Shizune ficou sem palavras ao vê-la se jogando de forma desleixada na sua cama, e abrindo outra garrafa de saquê. Tsunade tirou o pergaminho lacrado, e o abriu, e quase lutou contra as memórias ao ver a caligrafia do Sandaime. Aquilo mais uma vez a lembrou do seu falhanço.
Seus olhos percorreram a caligrafia cursiva do seu mestre, e ela ficava cada vez mais irritada quanto mais lia. No final, ela jogou o pergaminho de lado, e deu um gole na garrafa em sua mão.
—Esse velho maldito...ainda querendo que eu ensine alguém, mesmo com todo o trabalho sujo que tenho que fazer por ele...
Shizune arregalou os olhos. Era aquilo que a carta dizia?
—Me desculpe, Tsunade-sama.
Ela suspirou.
—Você não tem culpa de nada. Isso é entre mim e o velho. Além disso...se você realmente é tão talentosa quanto o velho diz...não vejo nenhum problema em ensinar você.
Shizune lutou contra a sensação de alegria no seu interior, mas ela logo se lembrou de algo. Sua expressão ficou cabisbaixa.
—Mas...e a minha doença?
Logo a expressão de Tsunade ficou séria.
—Sobre isso...tenho que ver por mim mesma...tire a roupa e deite-se.
Shizune mordeu os lábios, antes de assentir e tirar a parte de cima do seu quimono preto. Ela logo se deitou de bruços. Tsunade largou sua garrafa de saque, e colocou sua palma fria contra as costas nuas de Shizune. Ela fingiu não notar a forma como o corpo dela estremeceu. Logo, um chakra verde a cobriu, enquanto ela movia sua mão pelo seu corpo.
Alguns minutos depois, Tsunade se afastou e suspirou.
—Vista-se e sente-se.
Shizune assentiu, e se sentou. Ela logo viu a expressão sombria de Tsunade.
—Sua situação é...complicada. Suas células já entraram em metástase. Você tem, no máximo, um ou dois meses.
Shizune cerrou as mãos no seu quimono.
—Você pode me curar?
Tsunade ficou alguns segundos em silêncio.
—Eu...poderia. Mas eu teria que examinar você por mais tempo, antes de criar um tratamento eficaz. Eu preciso de pelo menos dois meses para fazer isso. Você não tem tanto tempo. –Enquanto Shizune arregalava os olhos, ela continuou – Claro, eu posso desenvolver drogas que podem desacelerar a proliferação das células cancerígenas por até seis meses.
Shizune sentiu uma pedra desaparecendo do seu coração.
—Obrigada.
Tsunade acenou a mão com descaso.
—Não precisa agradecer. Não há nada nesse mundo que eu não possa curar.
—__________
Honestamente, para Shizune, viver com Tsunade era...surpreendentemente fácil, e sem esforço, apesar de seus hábitos nocivos e temperamentos explosivos e aleatórios. Elas irritavam uma à outra e se acalmavam com a mesma rapidez, iam e voltavam, para cima e para baixo, e nunca deixavam de retornar à mesma lousa em branco.
Tsunade tinha uma rotina metódica que consistia em beber logo ao acordar, e dormir fazendo o mesmo, enquanto seus dias eram preenchidos perdendo dinheiro em apostas sem sentido.
Mas ainda assim, Shizune notou que havia algo bastante estranho nos padrões de movimento da Tsunade. Às vezes agia de forma diferente, como se não fosse ela mesma. Isso, e a quantidade preocupante de álcool e cigarros que ela consumia por dia, enquanto torrava a herança Senju em apostas.
Logo Shizune aprendeu à fazer o mínimo barulho possível durante às manhãs, enquanto ela lidava com sua ressaca, mas passou a ser mais vocal sobre o desperdício de dinheiro em apostas sem sentido. Dessa forma, um equilíbrio lentamente se formou, quando Tsunade passou a tolerar e reduzir às horas passando jogando, para as substituir por pequenas lições de Ninjutsu médico.
Durante a primeira semana, depois de ver os medicamentos que ela tinha que tomar, Tsunade os jogou no lixo enquanto os chamava de desperdício, e em seguida a levou para uma loja de botânica. Ela tratou aquela como sua primeira lição, enquanto Tsunade a ensinava a preparar as novas drogas que ela tinha que tomar.
Marcas vermelhas de agulhas logo preencheram sua pele pálida, pelo sangue que Tsunade tinha que colher diariamente para a analisar. Shizune, no entanto, fingiu não notar o pequeno tremor nas mãos de Tsunade enquanto ela segurava as seringas com o líquido vermelho.
Semanas se transformaram em um mês, um mês em dois, e depois em três. A cada dia, sua pele ficava cada vez mais pálida, e as vezes, às dores eram fortes ao ponto de que ela mal conseguia caminhar. Mesmo com as drogas, ela sentia que estava alcançando um limite.
Esse era um daqueles dias. Nessa altura, ela estava esparramada em uma cama em uma pousada algures no País do Fogo.
—Desculpe, Tsunade-sama. Não acho que poderei me levantar hoje.
A Sannin apenas suspirou ao ver a garota cada vez mais pálida e magra na cama.
—No fim, acho que finalmente chegamos à isso.
Shizune ficou confusa, antes de ver Tsunade fazendo selos de mão, antes de bater no chão. Logo, um pergaminho lacrado surgiu na sua mão.
—Isso é...
—Pergaminho de contrato das lesmas. Assine.
Shizune ficou confusa enquanto o recebia. Tsunade mal havia mencionado que a deixaria assinar o contrato das lesmas, por que ela o faria em um momento que ela estava especialmente fraca?
Ela o desenrolou, vendo diferentes nomes passando diante dos seus olhos, mas todos eles tinham algo em comum: O sobrenome Senju ou Uzumaki. Estava realmente tudo bem ela assinar? Mas vendo o olhar decidido de Tsunade, ela continuou a desenrolar, até parar no nome antes de Tsunade: Senju Hashirama. Ela ficou confusa. O Shodaime tinha um contrato com as lesmas?
Ela decidiu pensar em outro momento. Mordendo seu dedo, ela escreveu seu nome no pergaminho, que logo desapareceu em uma nuvem de fumaça.
—Ainda não entendo.
Tsunade franziu o cenho.
—Não faça perguntas sem sentido. Os selos são esses...
Shizune prestou atenção nos movimentos da sua mão, antes de replicá-los de forma desajeitada. E logo uma pequena lesma surgiu na sua cama. Ela corou de vergonha. Era suposto ser tão pequena?
—É...me desculpe.
Tsunade apenas balançou a cabeça.
—Por que você está se desculpando? Ao contrário dos outros animais de invocação, Katsuyu na verdade é a única lesma vivendo na floresta Shikkotsu. Ela é tão grande que seu corpo inteiro cobre a floresta e além. Toda vez que a invoco, estou apenas invocando cinco por cento do seu corpo real, e mesmo assim, esses cinco por cento têm um tamanho que rivaliza com o de Gamabunta e Manda. -Shizune arregalou os olhos-. Com suas reservas de chakra, já é muito bom você conseguir invocar um pequeno clone. A única pessoa que era capaz de invocar pelo menos metade do seu corpo real era o meu avô. Bijuus pareceriam animais de estimação perto do verdadeiro corpo dela.
—Então...essa pequena lesma...
Tsunade assentiu.
—É a própria Katsuyu.
Nesse momento, a pequena lesma finamente falou. Sua voz fina parecia de uma criança falando.
—Tsunade-sama. Essa menina é...
—Ela será sua nova invocadora.
Nesse momento, Shizune fez um esforço de se levantar e se curvar.
—Sou Kato Shizune, por favor, cuide de mim, Katsuyu-sama.
A pequena lesma se remexeu de forma nervosa, antes de se curvar.
—Não, não. Por favor, Shizune-sama, cuide de mim.
Tsunade tossiu, as interrompendo antes que entrassem em um ciclo interminável de reverências.
—Tudo bem, parem com isso. Preciso da sua ajuda, Katsuyu.
A lesma se animou ao ouvir aquilo.
—Como posso ajudá-la, Tsunade-sama?
—Você vai entender.
Tsunade realizou os selos de mão ela mesma, e dessa vez, uma lesma do tamanho de um cavalo surgiu no quarto. Ela se voltou para a lesma ao seu lado.
—Katsuyu, eu preciso que você se fragmente em duas, depois, envie uma parte para a floresta Shikkotsu e faça a invocação reversa daqui há cinco minutos.
—Hai, Tsunade-sama.
Shizune ficou confusa ao ver a lesma da Tsunade se dividindo, e uma delas desaparecendo em uma nuvem de fumaça.
Tsunade estendeu a mão para o clone ao seu lado.
—Katsuyu tem uma habilidade simbiótica com seu invocador. Ela consegue se ligar remotamente às linhas de chakra do invocador, dessa forma, uma via de mão dupla é formada. Katsuyu pode usar essa ligação às redes de chakra para curar qualquer ferimento que o invocador tiver. Mas tem um outro benefício, que é...
Para a surpresa de Shizune, a lesma ao lado de Tsunade lentamente derreteu, como se fosse líquida, antes de lentamente se erguer em uma imagem esculpida da Tsunade. O que estava acontecendo?
—Katsuyu também pode se transformar em um clone do invocador. E por estar ligada à minha rede de chakra, ela é totalmente idêntica à mim. Cheiro, aparência física, assinatura de chakra...é praticamente impossível diferenciar.
Shizune ficou chocada enquanto o clone ao lado replicava cada ação de Tsunade. Mas ela logo franziu o cenho.
—Por que você precisa de um clone idêntico?
Tsunade balançou a cabeça, antes de sua expressão ficar séria.
—Nós precisamos de clones idênticos. Por que você acha que eu fiz você assinar o contrato e invocar um clone da Katsuyu? E a razão pela qual precisamos de clones indetectáveis, é porque eles não podem saber para onde vamos.
Sob o olhar chocado de Shizune, a pequena Katsuyu ao seu lado, também assumiu uma forma idêntica à sua. Ela olhou de forma frenética entre a cópia sua e de Tsunade, tentando enxergar quaisquer diferenças. Shizune mordeu os lábios inconscientemente.
—Eles...?
Tsunade franziu o cenho.
—Isso mesmo...não é estranho que você não tenha notado. Afinal, você é apenas uma Jounnin. Shizune...nós estamos sendo seguidas há meses.
Ela arregalou os olhos.
—Quem e por quê?
A loira balançou a cabeça.
—Eles seguem meus rastros desde que eu saí de Konoha, há mais de dez anos. No início, eu achei que fossem espiões de uma vila inimiga, mas... eles são demasiado sorrateiros e profissionais. Seus rastros são inexistentes, e seus membros desaparecem como se não existissem. Quase como se fossem...Sombras. Só há uma organização capaz de fazer isso...os cachorros dos Nobres Celestiais. Quanto ao seu objetivo...eu tenho minhas suspeitas, mas nada concreto.
Shizune cerrou suas mãos com tanta força que elas quase ficaram brancas. Mas do que medo dos Nobres que governavam os Países Elementais, ela estava era...decepcionada. Decepcionada por Tsunade não ter contado aquilo para ela mais cedo.
—Por que você não me contou? Eu poderia ter-
—O que você poderia fazer? –Tsunade percebeu que sua voz estava mais ríspida que o normal, então ela logo suspirou – Eu não contei nada para você...Pela mesma razão pela qual eu não curei você na primeira semana que você apareceu.
A morena a olhou com uma expressão chocada.
—O que você disse?
Tsunade suspirou.
—Você realmente acha que eu não sei a origem da sua doença? Eu poderia ter curado você na primeira semana, mas não o fiz. Ao invés disso, passei os últimos três meses a entupindo de drogas e a arrastando de cidades em cidades, por um simples motivo: Eu não confiava em você.
Shizune ainda estava em choque enquanto Tsunade continuava.
—Você realmente acha que o Sandaime queria que eu a ensinasse medicina e nada mais? O que exatamente você acha que eu fiz perambulando pelo continente nos últimos dez anos?
Shizune franziu o cenho, mas ela não tinha nenhuma resposta.
—Um verdadeiro Shinobi sempre deve ver através da decepção. O que você acha que eu tenho feito nos últimos dez anos, construindo uma reputação de uma bêbada em decadência e viciada em apostas? Esse é o disfarce perfeito. As pessoas baixam a guarda perto de mim. O Sandaime queria que eu avaliasse se você é confiável o suficiente para trabalhar comigo.
Shizune ficou chocada. Espionagem? É isso que ela tem feito nos últimos dez anos?
—Pensei que o Jiraya-sama fosse...
Tsunade zombou.
—Um ‟mestre de espionagem” que até uma Jounnin recém-promovida como você sabe que é o responsável por gerir a rede de espionagem de Konoha. Quão confiável ele é. Não posso negar que ele é competente o suficiente para ainda assim obter informações importantes, mas sua identidade proeminente é mais um chamariz para fazer as outras aldeias baixarem a guarda do que qualquer coisa. Ele conseguir informações é mais devido às suas surpreendentemente boas habilidades. Nem o Hiruzen-sensei esperava tanto dele. Bem, prostitutas sempre sabem uma ou duas coisas, não?
—Você quer dizer...
—Isso mesmo. O próprio Sandaime vazou a sua identidade como mestre de espionagem de Konoha. Todos achávamos que a personalidade dele... não era adequada para esse tipo de trabalho. O melhor disfarce, é sempre o mais simples. Uma médica bêbada e em decadência, sofrendo com a perda de seu noivo. Para saldar as suas dívidas, de vez em quando, essa médica usa sua habilidade como a melhor médica do mundo, para curar um ou dois nobres em diferentes Países Elementais. Se alguns documentos importantes acabam desaparecendo da residência desses nobres, ninguém pensaria nela. Quem imaginaria que Konoha desperdiçaria sua melhor médica em algo tão mundano quanto espionagem, enquanto o hospital de Konoha precisa de mão de obra? De vez em quando, o Hokage me envia um pergaminho vermelho contendo uma ordem. Independentemente do que seja, eu devo executar. As folhas só conseguem desabrochar sobre os galhos das árvores, porque existem troncos fortes fornecendo nutrientes. Esse é o dever de um Hitobashira.
Por mais que Shizune estivesse irritada, e sobretudo decepcionada, por Tsunade ainda não confiar nela, mesmo depois de tanto tempo, ela simplesmente não conseguia odiá-la. Cerrando os dentes, ela confrontou a loira.
—Por que agora? Por que você está me dizendo isso?
Ela esperava quaisquer palavras vindas da boca de Tsunade, menos ver ela sorrindo, enquanto estendia a mão.
—Isso é simples. Agora eu confio em você.
Ela olhou em choque para a mão estendida. Ela realmente deveria aceitar? Ela não sabia se aguentaria descobrir que ela estava testando de novo. Mas algo no raro sorriso da loira a fez levantar hesitantemente a mão, apesar dos seus protestos internos.
Ela aceitou, e o mundo à sua volta mudou.
—_____________________
O mundo girou, como se colocado ao avesso, enquanto uma sensação abrupta de vômito se agitava no seu estômago. E foi exatamente o que Shizune fez depois que o mundo parou de girar.
Ela logo sentiu uma mão gentil acariciar suas costas, enquanto as náuseas passavam. Shizune murmurou um fraco agradecimento. Tsunade apenas balançou a cabeça.
—A culpa foi minha. Eu deveria saber que não seria uma boa ideia usar a invocação reversa com seu corpo frágil.
Shizune finalmente avaliou o ambiente ao seu redor, e logo percebeu que estavam em uma floresta enorme. Não era um eufemismo. Ela conseguia ver árvores gigantes e imponentes até onde sua vista alcançava, enquanto uma névoa gélida e espessa circulava entre elas. Então aquela era a floresta Shikkotsu? Uma das Três regiões sábias ao lado da Caverna Ryuchi e do Monte Myoboku?
Ela logo sentiu algo misturado com a névoa gélida e com as árvores. Ela não sabia o nome, mas seus músculos relaxaram e suas dores diminuíram enquanto aquela energia circulava pelos seus poros. Tsunade logo a olhou em reconhecimento.
—Isso é energia natural das árvores dessa floresta. Ela tem um efeito bastante benéfico ao organismo. Mas tenha cuidado para não absorver muito, ou você vai se transformar em uma dessas árvores.
—Você quer dizer...
—Isso mesmo. Essas árvores são pessoas que tentaram assimilar a energia da natureza da Floresta Shikkotsu, e falharam.
Haviam mais árvores do que Shizune poderia contar em sua vida. Ela franziu o cenho.
—Deve ser bastante difícil então.
—De fato. Poucas pessoas foram capazes de dominar o Modo Sábio da Floresta. Meu avô Hashirama foi um dos poucos.
—E você, Tsunade-sama?
A expressão dela de indiferença não mudou.
—Quem sabe.
Shizune fez beicinho, mas não conseguiu esconder o sorriso de alívio no canto da sua boca. Depois da conversa tensa na pousada, e Tsunade dizendo que finalmente confiava nela, ela achou que algo na relação delas iria mudar, mas as coisas pareciam tão naturais quanto foram naqueles meses. A única coisa que ela podia dizer, é que havia algo mais leve nos ombros sempre tensos de Tsunade, como se ela pudesse finalmente ser ela mesma. A loira notou seu sorriso e arqueou uma sobrancelha.
—Por que você está sorrindo?
Ela ainda continuou sorrindo quando respondeu.
—Nada, Tsunade-sama.
A loira apenas balançou a cabeça, acostumada com o comportamento estranho dela, antes de começar a caminhar entre à névoa gélida e espessa. Shizune a seguiu, enquanto avaliava novamente o ambiente ao redor. Ela notou que o céu naquela floresta era anormalmente branco. Nem um sinal do sol era visível, mas ainda assim a floresta era estranhamente iluminada.
—Que céu esquisito...
Tsunade seguiu seu olhar, sua expressão indiferente.
—Isso não é o céu. É o corpo real da Katsuyu.
Shizune arregalou os olhos. O branco na sua visão cobria completamente o horizonte, e engoliu completamente o sol. Ela era absolutamente enorme. Se alguém a invocasse no meio de Konoha, ela esmagaria a aldeia inteira só com seu tamanho.
—Que incrível...-ela engoliu em seco, antes de rir de nervosismo- o que será que ela come para manter um corpo desse?
Tsunade franziu o cenho, antes da sua expressão finalmente mudar.
—As árvores. Vamos.
Uma sensação de horror encheu o corpo de Shizune, antes de seguir Tsunade através da névoa. Ela continuou em choque enquanto percorriam a floresta enevoada, até elas pararam diante de uma porta em uma das maiores árvores. Quando elas entraram, encontraram longas escadas espirais descendentes. Era como descer para o abismo.
O único som audível era o estalido provocado por suas sandálias enquanto elas desciam as escadas. Elas estavam descendo há alguns segundos, quando Shizune ouviu Tsunade.
—Você sabe por que você está morrendo?
Shizune imediatamente quase respondeu ´´porque estou com câncer´´ antes de perceber o olhar sério no rosto da Tsunade. Ela balançou a cabeça negativamente.
—Não. Por quê?
Ao invés de responder, Tsunade apenas suspirou, e lançou uma outra pergunta.
—O que você sabe sobre as naturezas Elementais do chakra?
Shizune ficou pasma, e quase parou de andar. Ela era uma Jounnin. Como ela não saberia algo tão básico? Era impossível se tornar uma jounnin sem dominar pelo menos duas transformações da natureza. Mesmo assim ela entendeu que Tsunade queria chegar à algum ponto, então, explicou.
—Existem 5 naturezas básicas de chakra: Água. Fogo. Vento. Terra e Raio. Todos os shinobis nascem com uma delas, alguns com duas ou três, ou mistura. E muito raramente, alguns sortudos nascem com cinco. Só existem registros de três ninjas em konoha que conseguiram essa façanha. O Primeiro, Segundo e Terceiro Hokage foram capazes de dominar os cinco elementos. Porém, além dos elementos básicos, também existem o Inton (Liberação Yin), e Youton (Liberação Yang). A maioria dos jutsus secretos que não pertencem aos elementos básicos fazem parte disso. O Reika no jutsu do meu clã, por exemplo, usa Inton para manipulação da alma.
Tsunade assentiu.
—Isso mesmo. Você fez seu dever de casa. O Inton utiliza energia espiritual que governa a imaginação, e podem ser usadas para criar forma a partir do nada. Genjutsus fazem parte dessa categoria, assim como a manipulação mental dos Yamanakas, e o domínio das sombras do clã Nara. Quanto ao Youton, utiliza energia física para controlar a vitalidade, garantindo vida à formas que não tinham. O clã Akimichi utiliza a Liberação Yang para modificar o tamanho dos seus corpos, e o mesmo pode ser dito dos Inzuka, que o utilizam na Imitação da besta do seu clã. Mas...você esqueceu algo...e o que acontece se você juntar a Liberação Yin e a Liberação Yang?
Shizune hesitou.
—Isso...você obtém o Onmyouton, mas...isso beira às lendas...
A voz de Tsunade parecia intrigada.
-Realmente?
Shizune assentiu.
—Sim, quer dizer...segundo as lendas...somente os deuses têm acesso à Liberação Yin-Yang, e ela permite a chamada ‟Criação de Todas as coisas”. A imaginação é o limite dessa habilidade. Nos mitos de criação...os deuses usaram essa habilidade de manipulação de realidade para criar o mundo e tudo que nele contém. Não tem como algo assim existir...assim como os deuses.
Tsunade ficou em silêncio por alguns momentos.
—De fato, é isso que as lendas dizem. Mas você está equivocada sobre algo. Não sei nada sobre os deuses, mas...A Liberação Yin-Yang...de fato existe.
Shizune parou de andar.
—O...quê? Isso...como é possível?
Tsunade respondeu com outra pergunta.
—Shizune, quem você acha que é a pessoa mais forte do mundo?
Ela respondeu automaticamente.
—O Hokage?
Tsunade balançou a cabeça.
—O Velho Sarutobi? Ele certamente está no topo do Rank S, mas...quem disse que o Rank S é o final? Acima disso...ainda existe o nível SS.
Shizune franziu o cenho.
—Você pode parar de brincar? Esse Rank nem existe nos livro bingo.
Tsunade apenas arqueou as sobrancelhas, e Shizune logo se sentiu envergonhada, como se tivesse dito algo muito tolo. Isso mesmo, elas viviam em um mundo em que decepção e disfarce eram a coisa mais importante. Não era inadmíssivel que existissem pessoas poderosas no escuro que não gostassem de ser incomodadas. Ela se lembrou de algo importante. O continente era governado pelos Nobres Celestiais. Se os Shinobis de nível Kage fossem o auge, isso não significava que qualqer shinobi desse nível poderia facilmente derrubar o sistema dos nobres? Tsunade poderia estar se referindo a...
—Os Nobres Celestiais. –Ao ver o olhar apreciativo de Tsunade, ela sabia que estava certa.- É assim que eles mantêm o controle.
—De fato. Se o nível S fosse o auge desse mundo, qualquer ninja rank S aleatório poderia matar todos eles e instaurar um regime. Mas isso é impossível. Por exemplo, entre as Treze espadas da Corte Celestial do Fogo, os Treze maiores espadachins sob o comando da Imperatriz, alguns deles estão além do nível S. Pelos documentos de um nobre que eu tive acesso, eles estão organizados por nível de poder. Quanto menor o número, mais forte. Na verdade, eu tenho certeza que Pelo menos a Quarta espada, Buzen Kaen é um nível SS. Afinal...ele enfrentou meu avô quando ele ainda estava vivo, e o meu avô só venceu depois de quase um dia de combate. Sua força deve ter aumentado consideravelmente com o tempo...
Shizune ficou pasma.
—O Shodaime era...?
—É claro. Assim como Uchiha Madara. Como você acha que eles dois poderiam unificar tantos clãs shinobis em guerra? Muitos líderes de clãs naquela altura eram nível Kage. Cada um dos dois poderiam enfrentar grupos de shinobis de nível Kage como se estivessem brincando com crianças. Na verdade, é graças à ele que eu sei a existência do Onmyouton. Pelas informações que ele deixou em seu diário, o caminho para o aperfeiçoamento além do nível Kage tem a ver com a Liberação Yin-yang.
Shizune ainda estava chocada.
—Eles realmente eram tão fortes?
Tsunade assentiu.
—Há um nome que foi dado às existências desse nivel...Kaihō... também querendo dizer-
Shizune completou.
—Calamidade? Por que esse nome?
—Por que eles eram Calamidades ambulantes. Terramotos, Inundações, Furacões,Erupções vulcânicas... Alguém desse nível pode trazer desastres para civilizações.
Shizune franziu o cenho.
—E quanto aos Imperadores Celestiais?
Pela primeira vez, Tsunade franziu o cenho em uma carranca.
—Meu avô só viu o Imperador anterior uma vez, antes dele abdicar do Trono, quando ele e Madara foram perdir permissão para a criação da Vila da Folha no País do Fogo. Ele apenas usou uma frase para o descrever: Era como se o próprio mundo se curvasse ao seu redor.
Tsunade suspirou, quando percebeu que o lance escadas finalmente havia terminado.
—Na verdade, eu acabei me desviando do assunto. Peço desculpas por isso.
Shizune apenas assentiu, enquanto a seguia através da porta que apareceu no fim das escadas. Elas entraram em um quarto escuro, antes que Tsunade acendesse um interruptor, que acabou iluminando uma grande sala coberta de equipamentos médicos de última geração. O cheiro de desinfetantes era forte demais. Ela apenas olhou para os inúmeros frascos contendo o que pareciam pedaços de corpos e órgãos dentro de liquídos de cores estranhas. Ela sentiu um arrepio. Shizune se virou, apenas para ver Tsunade tirando seu haori verde, e o trocando por um jaleco branco.
A vendo meio assustada e perdida, Tsunade apenas indicou que ela se sentassem em uma cadeira que estava ao pé de uma mesa com um microscópio. Shizune o fez de forma desajeitada. Tsunade se sentou em outra cadeira, e cruzou os braços de forma séria.
—Isso é...
—Meu laboratório principal. Só eu...e suponho agora, você, temos acesso a ele. É absolutamente seguro.
Shizune entendeu a lógica nas suas palavras. A menos que alguém tivesse contrato com a Katsuyu, era impossível acessar a Floresta Shikkotsu.
Ela voltou à realidade com o olhar sério de Tsunade.
—Na verdade, eu queria saber seu conhecimento sobre as naturezas de chakra, antes de explicar o verdadeiro motivo da sua doença. Infelizmente, acabei me distraindo. — Vendo Shizune acenando de forma encorajadora, ela continuou- Você vê... Há algo que a maioria não sabe, talvez devido a Liberação Yang ser muito rara, então é compreensível. É preciso um corpo muito especial para se usar Liberação Yang. Os Uzumakis e Senjus são um exemplo disso. Os dois clãs com a mais forte afinidade com o Youton. Isso nos garante corpos absolutamente monstruosos. Reservas de chakra gigantes, chakra poderoso, Resistência anormal, força física anormal, Regeneração, e um talento inigualável em combate corporal. Taijutsu, Kenjustsu, Bukijutsu...o corpo poderoso permite uma facilidade assutadora em dominar qualquer arte ninja também. Ninjutsu, Genjutsu, Fuuinjutsu, cada Senju era um mestre em diferentes áreas, e essa versatilidade tornou esse clã o número um na Era dos Estados Combatentes. Tirando os Uchihas, nenhum clã shinobi era páreo. E na batalha final da Era dos Estados combatentes, os Senjus foram os vencedores finais. Aposto que você deve ter se cansado de ouvir sobre isso nas aulas de história. Nada além da nossa misericórdia permitiu a criação de Konoha.
Shizune conseguia sentir o orgulho em sua voz. Apesar de ela achar que provavelmente Tsunade havia sido manipulada pelos contos da sua família ao crescer. Provavelmente os livros de história também foram manipulados. Quer dizer, não tem como o Primeiro e Segundo Hokage terem sido realmente tão superiores aos irmão Uchihas. Provavelmente lutaram por dias e mal venceram no final. Shizune olhou para Tsunade com pena. Infelizmente, ela sofreu lavagem cerebral na infância.
—Por que você está me olhando assim? Seus olhos não parecem nem um pouco confiáveis.
Shizune tossiu de forma nervosa.
—Enfim, Tsunade-sama. O que isso tem a ver comigo?
Ela estreitou os olhos, antes de continuar.
—Eu já ia chegar lá. A conclusão é: Você precisa de um corpo excepcionalmente poderoso para usar a Liberação Yang, ou...assim como os clãs infelizes que não têm a linhagem Senju e Uzumaki, devem usar metódos especiais para controlar a energia Yang, por seus corpos não forem fortes suficiente. Os Akimichis e Izunukas não têm físicos inatos tão poderosos, mas ainda assim usam a Liberação Yang. Os Inuzukas utilizam jutsus em conjunto com seus cachorros ninjas, para minimizar a excessiva energia Yang. Quanto aos Akimichis, para manipular seus corpos, eles controlam a ingestão de calorias de forma rigorosa. Por isso todos eles são...err, você sabe.
Shizune finalmente entendeu.
—Espere, você quer dizer que eu-
—Você teve um azar tremendo. Você herdou da sua mãe o corpo frágil do clã Kato, que é adequado para jutsus mentais, e uma quantidade assustadora de chakra Yang do seu pai. Isso fez com que sua energia Yang ficasse bastante descontrolada, e suas células sofressem mutações, causando metástase.
Shizune franziu o cenho. Porra.
—E como você poderá me curar?
Tsunade sorriu para ela.
—Simples. Você só terá que morrer.
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