Gênesis
25 Parte 01: As Tribulações da Redenção – Prévia - A beleza da serpente.
Notas iniciais
"Longo e árduo é o caminho que leva o homem à Redenção
Assim como infortuno, é o homem que nasce para a tribulação
Na execução de algo temeroso e sucinto
No primeiro ato, todo o ínterim é entorpecedor
E inebriante, e turbulento, como um fantasma, ou um sonho terrível:
O mortal e as relíquias dos deuses
Estão, enfim, em concílio;
Como anjos e demónios dançando em uma felicidade selvagem e secreta;
Enquanto faíscas, voam para cima
De volta ao céu prateado e negrume "
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Ele ergueu o archote acima do rosto, iluminando, com uma fraca e trémula luz esverdeada, o selo vermelho cravado no chão. Ele franziu o cenho e analisou o papel na sua mão com uma expressão concentrada. Com os olhos afiados, brilhando amarelados como de uma serpente. Bem, talvez ele fosse realmente uma serpente. A sua pele era macilenta e completamente branca, como um cadáver que há mil anos não via o sol, os seus fios de cabelos eram negros como as águas dos riachos do Yomi e os olhos eram completamente insanos e ofídicos. Ele era o mais próximo que um homem podia chegar de ser uma serpente. Depois de segundos analisando o papel na sua mão, ele voltou a encarar o complexo selo cravado no chão de pedra. Não eram completamente iguais. Ainda faltava alguns pequenos e chatos ajustes.
Com um suspiro resignado, ele se debruçou, ao ponto de seus joelhos tocarem no chão áspero e frio. Ele mergulhou o pincel no pote de sangue que havia no chão. Sangue de dez recém-nascidos, nascidos de mães estupradas, exatamente conforme pedia o macabro ritual. Foi incrivelmente fácil de encontrar. Ele só teve de invadir um orfanato (locais onde, normalmente, iam os considerados dejectos humanos) de um vilarejo próximo e degolar vinte (dez por engano) crianças no berçário e... Bem, o resto é o resto. Ele não se orgulhava daquilo, mas tampouco estava arrependido. Ele gostava de pensar que havia salvado aquelas crianças de um futuro sombrio e cruel. Ah, ele era tão altruísta!
Com uma expressão incrivelmente concentrada, ele segurou o pincel por entre os dedos pálidos e longos, e traçou, suave e delicadamente, um pentagrama escarlate na ponta do selo.
Limpando o suor do rosto com o antebraço, ele ergueu ainda mais o archote e observou o seu trabalho. Ele sorriu. Um simples e doentio arquear dos lábios pálidos. Estava completamente perfeito. Ele caminhou, calmamente, até o centro do selo, e franziu o cenho, tentando se lembrar do que deveria fazer a seguir. Já faziam cinco anos desde a última vez que ele tinha feito aquilo.
Ele ficou um bom tempo pensando, até se lembrar do papel em sua mão. Com uma risada seca, ele ergueu novamente o archote e apertou os olhos ofídicos, tentando ler as palavras impressas naquele pedaço de papel. Ah, sim. Era a parte do cântico.
Ele limpou a garganta, e com uma voz incrivelmente rouca e profunda, começou a sussurrar as palavras para a invocação. Era uma língua muito antiga, perdida ao longo do tempo, e o último povo que a falara fora morto havia mais de mil anos atrás.
O cântico era lento e muito melodioso, as palavras subiam esganiçadas, como se contessem um grito gutural. Na época, o povo que a falara era muito mais ambíguo que os humanos atuais e, como tal, as palavras eram cheias de significados. Não tinham realmente uma tradução literal para a língua moderna. Mas se fosse para colocar em sentimentos, diria que era algo sobre a tristeza da perda e morte, e uma terrível necessidade. E a esperança de dias melhores. Mas só que esses dias melhores não vieram. E então eles decidiram colocar a sua esperança em um deus. Mas eles haviam sido enganados. Eles não invocaram um deus. Foi algo mais sombrio.
Quando ele terminou de sibilar, inconscientemente, lágrimas escorriam pelo seu rosto pálido, e escorriam para o selo escarlate, como água da chuva correndo para as raízes das árvores. O selo brilhou ainda mais, até se tornar vermelho-vivo. Como a magma do mais quente vulcão.
Depois de limpar as lágrimas com o antebraço, ele puxou uma Kunai das suas vestes, e cortou a palma da sua mão. Imediatamente, o sangue pingou no chão de pedra, formando uma pequena e brilhante poça sobre o selo. Mas ela durou apenas três segundos, antes de ser engolida pelos Kanjis do selo.
— Ó destruidor. O deflorador de virgens e devorador de homens. Eu invoco-vos, arauto da morte. O Primeiro.
Quase que automaticamente, a temperatura da sala aumentou.
A sala aqueceu ao ponto de as pedras entalhadas no chão passarem de marrons para vermelhas incandescentes, e o ar se encher de pequenas e cintilantes fagulhas vermelhas. Como centelhas de um vulcão. Aquela sala parecia uma macabra pintura sobre o inferno. Ele sentiu o suor escorrendo pelo seu rosto pálido. Era como estar dentro de um vulcão que estivera mil anos adormecido, mas subitamente, tivesse sido despertado e estivesse prestes a ter a sua maior erupção. Depois de mais alguns segundos, justamente quando ele achava que a sua pele iria derreter e ele ia morrer de calor, as sensações pararam e a sala voltou o mais próximo possível do normal. Embora as pedras no chão estivessem completamente negras, e o cheiro de cinzas e fumaças enchesse completamente o ar, como um perfume barato. E foi nesse preciso instante, que ele se apercebeu de uma coisa.
O silêncio. A mais completa e simples ausência de sons.
Não havia um único som no ar. E depois de segundos, ele quase achou que tivesse errado alguma coisa no ritual… quase…
Ele observou a fumaça e as cinzas que enchiam a sala, muito lentamente, começarem a se mover em direcção à um único ponto da sala. A princípio, ele achou que fosse normal, mas quando viu que a fumaça estava se tornando mais densa e escura, formando a negra e pesada silhueta de um homem, ele sentiu um sorriso nada normal rasgar o seu rosto ofídico.
Ele se prostrou de joelhos e deixou a sua cabeça tocar o chão carbonizado. Em uma profunda e doentia reverência. A sensação de calor voltou novamente, no mesmo instante em que um forte cheiro à enxofre, cinzas, cadáveres e sangue enchia a sala. Uma risada completamente seca e desprovida de emoções ecoou pela sala. Ele sentiu um arrepio involuntário atravessar a sua espinha. Ele, percebeu, surpreso, que estava com… medo. E ele não era humano o suficiente para sentir medo.
— Ora, ora. – Murmurou uma voz, vinda da escura e pesada silhueta. Era incrivelmente rouca e seca, como um vento gélido que estivera preso há milénios, e só naquele instante fora libertado – É o homem-cobra.
Ele não se atreveu erguer o olhar.
— O meu nome é Orochimaru, milorde. – A sua voz saía praticamente em um sussurro entusiasmado e doentio. Parecia que ia ter um orgasmo só de ficar na presença de tamanho ser.
— Que seja. – Murmurou o Outro — Eu não costumo perder o meu tempo com nomes. É que vocês, humanos, não costumam durar muito tempo nesse mundo. São tão… frágeis e indefesos. Mas ainda assim, incrivelmente arrogantes. Acham que são o centro do Universo. Não têm a menor graça e utilidade. A não ser, é claro, para vos comer ou foder. Principalmente as fêmeas. Elas são a única coisa boa entre vocês. Elas são tão… qual é mesmo a palavra? Fodíveis.
— Milorde… — ele arrastava as palavras como se fosse um gato se esfregando no dono — essa palavra não existe.
— É mesmo? Então me lembre de registá-la quando eu… bem, não importa. Porque você me invocou, homem-cobra? Eu pensei que havia sido claro: Só me invoque quando você tiver algo importante para dizer. Apesar de eu ser mais antigo que o primeiro dos homens, eu tenho um tempo estranhamente limitado.
Orochimaru se atreveu a erguer, minimamente, o olhar e o que viu fez com que o seu estômago se embrulhasse e as suas mãos suassem, em uma mistura de medo e excitação. Olhos incrivelmente vermelhos, como uma lua pintada de sangue, o encaravam por entre uma forma escura e humanóide. Até o mais corajoso homem tremeria diante daquele olhar.
Ele viu um sorriso insano e animalesco rasgar aquela silhueta, como se ele apreciasse o seu medo. Engolindo em seco, Orochimaru murmurou:
— E-eu consegui localizar a espada, meu lorde.
— Excelente. — A sua voz, apesar de incrivelmente fria e seca, possuía um leve tom de satisfação. – Mas no entanto, devo dizer que estou desapontado Homem-cobra. Há cinco anos atrás, eu te dei uma simples missão. Você só tinha que descobrir onde Senju Tobirama escondera a espada. E você demorou cinco anos pra descobrir isso.
— M-meu senhor, eu…
— Ah, cale a boca. As suas desculpas não poderiam me interessar menos. – A figura sombria ficou um longo e estranho minuto em silêncio. E Orochimaru apenas ficou olhando nervosamente para o chão enegrecido, evitando o encarar, enquanto esperava que ele dissesse qualquer coisa. – Sabe, homem-cobra, eu achava que você fosse mais esperto. Mas parece que eu me enganei. Essa é a parte em que você devia estar desembuchando.
Orochimaru ficou ainda mais pálido, como as nuvens nos céus.
— H-hai, milorde. – Ele se atrapalhou — Conforme eu ia dizendo, eu… consegui localizar a espada do Deus do-
— Cale a boca!
Aquele grito completamente gutural fez com que a sala tremesse completamente.
— M-mas meu senhor, eu…
— Não, pronuncie, esse, nome. – Ele murmurou pausadamente, em um tom que não deixava dúvidas do quanto estava irritado — Não se você quiser sair daqui vivo.
Orochimaru assentiu, com uma voz falha.
— Si-sim, meu senhor. Eu… consegui localizar a espada dele. — A forma escura e espectral assentiu, como se o incentivando – ela está em Konoha.
— Está?
- Sim. Infelizmente, ainda não está na mi… nossa posse.
— Quem está com ela?
— Um garoto chamado Uzumaki Naruto.
— Uzumaki…? – A sua voz se tornou repentinamente fria.
— H-hai, milorde.
— Continue.
— A espada se encontra sob forte protecção, milorde. Mas, felizmente, tudo conspira a nosso favor, milorde. Konohagakure irá sediar o Shiren Shōkan e eu aproveitarei a ocasião para pegar a espada e…
— O que mais?
— B-bem, eu gostaria que o senhor cumprisse parte do nosso acordo e me ajudasse a destruir Konoha.
— Não se preocupe, a destruição de Konoha também faz parte dos meus planos. Considere-o feito.
Um sorriso se iluminou nas feições de Orochimaru.
— Agradeço a sua Generosidade, milorde. – A sua voz praticamente brilhava de uma admiração doentia.
— Não se entusiasme. Eu não vou directamente. O corpo que você arranjou pra mim ainda não está… pronto para a transfiguração. Ao invés disso, vou mobilizar metade das nossas forças. Acho que está, finalmente na hora.
— Isso é uma pena. – A sua voz murchou, como uma flor – Eu gostaria de ver o senhor em acção.
A figura nas sombras soltou um som exasperante e frio, como se bufasse.
— Tsc. É só isso que você tinha pra me dizer?
— H-hai, milorde.
— E as outras relíquias da Redenção?
— Eu tenho dado o meu melhor, milorde. – Ele murmurou, a voz soando astutamente cautelosa — A única relíquia que achei foi a espada. Embora, eu já tenha uma ideia vaga de onde o clã Hyuuga está escondendo o cálice.
— Devo dizer que estou desapontado. Eu esperava mais de você, garoto-cobra. Em cinco anos, essas foram as únicas coisas que você descobriu?
— S-sim. Mas…
— Mas o quê?
— B-bem… — Ele engoliu em seco – eu não sei se isso importa mas…o garoto… ele sabe lutar…
— Quem? – A voz seca parecia genuinamente confusa.
— O garoto Uzumaki.
— Tsc, eu estou surpreso por ainda existir um membro daquele clã de vermes. Eles são… — Ele soltou uma risada, completamente seca e inexpressiva — eram incrivelmente irritantes. Mas ainda assim, ele não representa qualquer perigo, pelo menos por agora. Mas só por via das dúvidas, eu quero que você o mate. Presumindo que você consiga, não é?
— É claro que consigo! – Orochimaru praticamente gritou, mas quando se apercebeu que havia levantado a voz, rapidamente se desculpou – p-perdão, milorde.
— Ótimo. – Ele murmurou, com a voz incrivelmente seca e ácida — Eu preciso que você use esse seu entusiasmo… jovial e mate o garoto. E é claro, me traga a espada.
Orochimaru levantou o olhar, e quando os seus olhos se cruzaram, ele pensou ter visto reflectido naqueles olhos insanos, como se olhasse para um espelho escarlate, as imagens de cidades douradas ardendo, homens, levados à loucura, se jogando em uma enorme fogueira, milhares de mulheres sendo estupradas até a exaustão e uma horda de demónios, cercados por uma pilha de cadáveres e se alimentando das suas carnes. Eram imagens completamente assustadoras e nauseantes. E queimavam os seus olhos, como olhar por muito tempo para as chamas de uma fogueira. Um sorriso bestial rasgou o rosto escuro e espectral. E Orochimaru reconheceu as palavras praticamente estampadas nos dentes afiados e cruéis: Sim. Garoto-cobra. Eu fiz tudo isso.
— Hai, milorde.
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