Gênesis
30 Especial - Mea culpa, mea maxima culpa.
Notas iniciais
Sangue. O líquido quente e escarlate borrava tudo à sua volta. Manchando tudo de vermelho. Manchando a sua alma de vermelho. Aqueles olhos azuis a encaravam de forma vazia, como se fizessem uma pergunta: Porquê?
Hinata sabia. Aquilo era sua culpa. Sua inteira culpa.
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Ela acordou com os raios solares batendo na sua face, e enquanto se espreguiçava, não pode impedir que um singelo sorriso rasgasse o seu rosto.
Suspirando, ela finalmente abandonou as suas quentes cobertas naquela fria manhã, sentindo os seus pés se arrepiarem quando em contato com o piso frio. Após se despir do pijama que usava, ela se dirigiu para o enorme banheiro que havia no seu quarto.
Depois de passar quase um mês fazendo missões ridículas de nível D, no dia anterior, enfim, o Hokage havia atribuído uma missão de um nível maior para o seu time. Uma de Rank B ainda por cima. Eles tinham que escoltar a filha de um nobre de volta para a Vila da fechadura, e normalmente um time recém-formado não poderia realizar uma missão desse calibre, mas uma vez que a guarda pessoal da princesa era composta por três Shinobis nível Chunnin, eles não teriam realmente problemas. E mesmo se tivessem, ela sabia se virar. Infernos, ela não havia passado por todo aquele treinamento infernal na infância por nada.
Ela suspirou, enquanto sentia o seu corpo afundando lentamente na água rosada e perfumada da sua banheira. Os seus pensamentos flutuavam, tomando formas indistintas, enquanto a água morna penetrava os seus poros, a sua pele, os seus ossos... a livrando de qualquer tensão. Ela não podia deixar de apreciar as regalias de ser a herdeira do mais influente clã da Vila...
Sentindo a sua pele enrugando, após se limpar, ela caminhou de volta para o quarto. Parando no meio do caminho, apenas para se enxergar no enorme espelho que havia no meio do seu quarto. Jogando a toalha no chão, ela não conseguiu se impedir de analisar o seu corpo...Céus... a adolescência estava sendo generosa com ela.
O som de batidas na porta interrompeu os seus pensamentos nada modestos.
—O que foi?
—Sou eu, Hinata-sama.
Ela reconheceu a voz como sendo de uma das suas empregadas.
—Entre.
—H-hinata-sama! -A empregada corou fortemente por ver a herdeira nua, diante do enorme espelho- A senhora não devia...
Ela deu de ombros. Enquanto abria o seu enorme closet e escolhia uma roupa para vestir.
—Que seja. –Ela atirou uma calça preta e uma costumeira blusa preta para cima da cama, estava um pouco frio, então ela escolheu também uma jaqueta roxa- então... desembuche...
A empregada assentiu fervorosamente.
—Hai, Hinata-sama... –ela tomou um longo fôlego- Hiashi-sama pediu para avisá-la que o café-da-manhã já está servido...
Ela deslizou as suas pernas torneadas pela calça negra, antes de colocar a blusa preta, consciente do olhar um tanto estranho da sua empregada sobre o seu corpo... aquele olhar era...
—É mesmo? Obrigada, pode se retirar...
A empregada demorou um bom tempo para sair do torpor, ela corou ainda mais, antes de gaguejar um monte de palavras inaudíveis e fazer uma pequena reverência, saindo do quarto.
Hinata se olhou no espelho. O seu cabelo estava curto, chegando na linha da mandíbula, então não tinha realmente muita coisa que ela pudesse fazer com ele. Ela apenas passou um delineador negro ao redor dos olhos, contrastando ainda mais o perolado dos seus olhos e um hidratante nos lábios cheios e carnudos. Ela se analisou. Havia ficado bom... Era impressão sua ou aquela blusa tinha encolhido? Parecia apertada demais, principalmente na região dos seios... ela havia crescido, novamente. Deu de ombros, antes de colocar a jaqueta roxa por cima e sair do quarto.
Descendo as escadas, ela encontrou o seu pai sentado na enorme mesa que havia na sala de jantar. Todos os lugares da mesa estavam vagos, tanto Hanabi quanto Neji não estavam presentes. Hanabi provavelmente estava na Academia, enquanto Neji estava fora em uma missão. Clássico.
Ele se levantou, apenas para recebê-la com um abraço apertado, seguido de um beijo na sua testa. Ela fechou os olhos, parecendo apreciar as sensações que aquele gesto carinhoso provocava.
—Bom dia, raio de sol. –Ele sorriu, voltando a sentar, enquanto Hinata ocupava a cadeira vaga ao seu lado-Dormiu bem?
—Hai... –ela sorriu- e o papai?
—Como um bebê.
Hinata sabia que aquilo era mentira, ele tinha enormes e profundas olheiras.
—Papai... –ela suspirou- eu já falei para o senhor dormir direito... e você tem se alimentado pouco também...
—Me desculpe flor... não tem sido fácil... o conselho shinobi parece ter se tornado um completo circo...
Ela olhou para ele preocupada.
—Tá tudo bem papai? Aconteceu alguma coisa?
—Não não, tá tudo bem-Hiashi sorriu a tranquilizando, a sua filha não precisava saber das suspeitas que ele e o Sandaime tinham sobre Danzou e as restantes ovelhas.
Ela não pareceu acreditar. Hiashi apenas sorriu ainda mais, tentando tranquilizá-la. Antes de fazer um gesto com a mão, no instante seguinte, a empregada que estava em pé no canto da sala, se aproximou para começar a servir o prato de Hinata... apesar de que era só o café da manhã... coisa de gente rica.
—Pronta para a sua missão? –Hinata apenas assentiu, com a boca ocupada mastigando calmamente- O que é que vocês têm que fazer mesmo?
Ela bebericou o seu chá. Fez uma careta. Estava quente e amargo. Ela pegou alguns cubos de açúcar e colocou dentro do seu chá. Mas depois pareceu pensar melhor e aumentou mais alguns. Ela odiava coisas amargas. Ela ficou observando com um olhar saudoso enquanto os cubos eram dissolvidos pelo chá quente.
—Temos que escoltar uma nobre de volta para a Vila da Fechadura...
Hiashi fez uma expressão estranha. Mas depois suavizou.
—Entendo...
Eles não mais falaram nada, apenas se concentraram em terminar o café-da-manhã. Alguns minutos depois, Hiashi teve que se levantar. Ele tinha que passar no prédio do fogo, para resolver algumas questões do conselho.
—Bem... anjinho, eu tenho que ir –ele depositou um beijo na testa de Hinata- Boa sorte na sua missão. E cuidado com o pirralho do clã Inuzuka. Não gosto da forma como ele olha para você. –ele fez uma expressão emburrada, Hinata apenas abafou o riso, era meio óbvio que o garoto tinha uma queda não, um precipício por ela- Te amo meu anjo.
—Também te amo, papai.
Ele sorriu mais uma vez. Antes da expressão carinhosa dele desaparecer, como se fosse um truque de mágica. Hiashi cerrou os lábios e uniu as sobrancelhas de uma forma dura, enquanto os seus olhos perolados se tornavam mais escurecidos. Automaticamente a aura a volta dele mudou. Hinata suspirou, aquele não era o pai carinhoso que acordava as filhas com beijinhos toda a manhã. Aquele era o líder do clã mais forte e influente da vila. Aquele era um dos Shinobis mais fortes da vila. Aquele era Hyuuga Hiashi.
O seu pai começou a caminhar altivamente para fora da sala, ao mesmo tempo que dois membros da família secundária apareciam a seu lado, o flanqueando. Aqueles eram a sua guarda pessoal.
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Quando Hinata chegou no portão da Vila, ela encontrou Kurenai e Shino em um clima um tanto estranho. Enquanto que o Aburame parecia quieto como sempre, Kurenai parecia desconfortável por não conseguir puxar assunto com ele. Ela pareceu bem aliviada quando viu Hinata.
—Ohayo, Shino-kun. Kurenai-Sensei. –Ela se curvou ligeiramente. Shino acenou minimamente, e Kurenai apenas sorriu para ela – Kiba-kun ainda não chegou?
—Não... mas ainda é cedo. Faltam quinze minutos para a hora combinada...
—Entendo...
E então eles caíram em um estranho silêncio. Kurenai suspirou, ela tinha um time... peculiar. Um Inuzuka cuja única coisa que sabia fazer era gritar e agir feito idiota, um Aburame para lá de quieto, e uma Hyuuga que agia tão polidamente que era irritante... como se eles não fossem dignos da sua real atenção.
Alguns minutos depois, no entanto, eles viram uma garotinha surgir no seu campo de visão. Tão bonita e branca quanto uma boneca de porcelana, com olhos azuis como o céu num dia ensolarado, e longos fios escuros, como uma cascata negra. A garotinha não devia ter mais do que oito aninhos, e ela trajava um longo e rodado vestido rosa. Vinha acompanhada por três homens grandes, que trajavam uniformes chunnins da vila da fechadura. Aqueles três shinobis formavam um contraste tão bizarro ao lado dela. Como três leões rodeando uma gatinha fofinha.
O que parecia ser o líder, sorriu em direção a Kurenai, enquanto estendia a sua mão, a cumprimentando.
—Ohayo... é a Kurenai-San certo? –Ela assentiu- Eu sou Hiro Teppei. O líder desse esquadrão, e o responsável pela guarda da Naomi-sama... é um prazer.
Kurenai assentiu, sorrindo ligeiramente. Mas ela percebeu que deve ter parecido demasiado sensual, uma vez que o homem corou.
A pequena nobre deu um passo em frente, antes de sorrir timidamente e corar, parecendo envergonhada. O sorriso mais doce que Kurenai já havia visto.
—E-eu sou Hanebado Naomi... –Kurenai arregalou os olhos, ela tinha uma voz incrivelmente baixa, mas era doce e fina como mel, capaz de provocar arrepios no seu corpo, como se um anjo estivesse sussurrando no seu ouvido- Espero não dar muito trabalho...
Kurenai levou um bom tempo para responder. Ainda estava em transe. Ela pigarrerou:
—O prazer é todo nosso. Esses são... Aburame Shino e Hyuuga Hinata. Espero que possamos trabalhar sem quaisquer problemas...
Kurenai franziu o cenho ao ver a expressão abobalhada no rosto de sua aluna. Normalmente ela não mostrava muitas expressões... mas aquela era a primeira vez que a via fascinada com algo... ou no caso alguém. Ela encarava a pequena garotinha como se fosse um tesouro...
—S-sugoi...-a pequena garota gritou, apontando para Hinata- V-você tem olhos muito lindos onee-san!
Hinata pareceu congelar por um instante, como se não acreditasse, antes dela suspirar e se agachar, ficando na altura de Naomi... ela sorriu.
—Você acha? –Ela parecia ligeiramente envergonhada- Você também... me lembra alguém muito querido... posso... pegar no seu cabelo... Naomi-sama?
Ela assentiu.
Hinata conteu um suspiro de prazer, enquanto passava os dedos nos fios escuros e lisos.
E então Kurenai entendeu o motivo dela estar tão estranha. Ela se lembrou do dia em que teve que visitar o clã Hyuuga, para conversar com Hiashi. Ela havia visto uma foto no canto da sala, com uma mulher morena e linda, que nem essa garotinha. Provavelmente era... a falecida mãe de Hinata. Analisando, eram bastante parecidas... inclusive a forma como apareciam covinhas profundas quando sorriam.
Kurenai decidiu acertar os detalhes da missão com o líder da guarda da princesa. Basicamente, uma tensão política pairava sobre a Vila da fechadura. Um grupo revolucionário, insatisfeito com a nobreza, estava atrás de qualquer um que fosse um nobre. E isso incluía os seus familiares. Não havia muita possibilidade de eles serem atacados, uma vez que o pai da garota nem era tão influente, mas era melhor prevenir do que remediar. E Kurenai logo percebeu uma coisa, aquela missão seria...
Quando eram exatamente nove da manhã, Kiba decidiu aparecer, gritando que nem idiota o quanto lamentava pela sua demora. Kurenai apenas suspirou. Seu aluno era muito idiota...
Kurenai desviou o seu olhar para Hinata. Ela estava conversando animadamente com aquela garota, nem parecia a sua aluna polida e indiferente. Ela se sentiu um pouco preocupada. Não era ideal se afeiçoar tanto à um cliente... mas ela deu de ombros. Não tinha como dar errado, pois não?
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A lua cheia brilhando no alto. Os músculos retesados e tensos, prontos a se moverem a qualquer sinal de perigo. Os pelos eriçados, as pupilas afiadas e dilatadas, o suor escorrendo pela sua pele pálida, o cheiro de sangue, o cheiro de fuligem, o cheiro de carne humana queimando, o cheiro de morte e a incrível nuvem de intenção assassina permeando o ar. Kurenai teve que se controlar para não sorrir. Não importa quanto tempo passe, mas a sensação de estar num campo de batalha sempre continuaria a mesma.
—Gatsuga!
Ela viu Kiba se tornando um redemoinho negro e sair avançando como uma broca por aquela clareira, rasgando corpos com uma brutalidade anormal.
Kurenai, com movimentos simples e precisos, desviou habilmente da enxurrada de shurikens que visavam a acertar, e com um giro, jogou as quatro kunais que estavam entre os dedos da sua mão direita, e elas cumpriram com maestria suas funções, se alojando nos pescoços de quatro daqueles estranhos shinobis que haviam os cercados havia horas naquela clareira. Ela suspirou. Ainda faltavam vinte.
Uma repentina sensação de calor a sua direita chamou a sua atenção. Uma enorme bola de fogo, lançada por um dos inimigos, ia em direção a Shino, que estava demasiado distraído comandando uma nuvem de insetos que sugavam o chakra de um pobre coitado que se contorcia no chão. Kurenai sabia que não conseguiria chegar à tempo, mas então, ela viu Hinata se lançando em frente do companheiro e girando o próprio corpo, libertando chakra pelos poros.
—Kaiten!
A enorme bola de fogo embateu contra a gigantesca redoma de chakra, se dispersando no ar, provocando uma sensação de calor. Kurenai suspirou de alívio.
—Kurenai-Sensei! O que faremos?
Kurenai apenas desviou o olhar, parecendo momentaneamente espantada. Ela levou um bom tempo para responder Hinata. Mesmo para padrões Hyuugas, o Kaiten da sua aluna era maior do que de muitos jounnins do clã.
Com os sentidos estranhamente afiados, ela se tornou consciente que o corpo de Teppei jazia no chão, completamente carbonizado por um jutsu katon -cortesia dos outros dois chunnins da fechadura- que também estavam mortos — cortesia de Kurenai.
Eles os haviam surpreendido com aquele jutsu em um momento de pura distração. Num momento o time de Kurenai e eles estavam acampando e jantando calmamente naquela clareira, e no outro eles lançaram um jutsu Katon em Teppei, enquanto um pelotão de quarenta shinobis aparecia naquela clareira e os cercava. Eles haviam sido traídos. Kurenai só não conseguia esquecer os gritos de Teppei enquanto ele queimava até a morte, gritando: PORQUÊ?!
Porque os seus dois melhores amigos desde o tempo da Academia haviam o matado sem sequer hesitar?
Ninguém realmente sabia...
Olhando para a expressão preocupada da sua aluna, acentuada pelas grossas veias ao redor dos olhos dela, denunciando que ela estava com a kekkei genkai do seu clã ativa, Kurenai tomou uma decisão.
—Eu sei... eles estão em um número superior... eu tenho uma ideia...
A ideia era simples Kurenai, Shino e Kiba, tentariam atrair a atenção deles, correndo numa direção e para isso ela usaria um genjutsu para fazer parecer que eles estavam fugindo com a garota nobre, enquanto Hinata fugia com a verdadeira, na direção oposta. Era incomum deixar uma gennin com uma responsabilidade daquelas, porém... Kurenai não era burra. Ao longo daquele tempo, ela já havia percebido uma coisa.
A suavidade e precisão com que Hinata se movia ao redor dos inimigos, era incomum, mesmo para uma Hyuuga. Ela era estranhamente flexível e esguia, era como ver uma felina caçando, graciosa e mortal, enquanto as suas presas caíam, uma por uma. A prova disso era o tanto de corpos que haviam na grama daquela clareira, cortesia de Hinata. Ela não os havia matado, é claro, mas a grande maioria estava desacorada depois de ter os seus tenketsus completamente fechados pelo taijutsu do clã Hyuuga. Era meio óbvio que a sua aluna estava longe do nível de um gennin. Nível de um chunnin de alto nível ou talvez mesmo...
Enfim... Não faziam mais do que dois dias que eles haviam saído da vila. Com sorte, ela conseguiria voltar e avisar o Hokage. Aquela missão havia se tornado nível A.
Após Kurenai jogar uma bola de fumaça no chão, a clareira foi envolvida em uma densa nuvem de fumaça, e eles colocaram o plano em ação. Kurenai usou um genjutsu em Akamaru, para que parecesse que Kiba estava levando a princesa no colo, ao invés do cachorro, enquanto Shino fazia um monte de insetos assumirem a forma de Hinata. Felizmente, pareceu ter dado cedo, uma vez que mais de metade dos shinobis haviam se movido na direção deles.
Enquanto isso, Hinata pegou a garota deitada na grama. Ela fora desacordada por Kurenai devido os gritos que ela emitia enquanto Teppei carbonizava até a morte.
Concentrando chakra nos pés, ela pegou impulso até uma árvore, correndo o máximo que podia para longe daquela clareira. Porém, ela conseguiu ver pelo byakugan, que cerca de três shinobis estavam no seu alcance, ela apertou o passo.
Ela viu, pelo canto dos olhos, uma chuva de kunais e shurikens vindo em sua direção. Com movimentos leves e precisos, ela desviou habilmente, de cada uma delas, e eles continuaram jogando mais kunais. Hinata era rápida, porém, levar aquela garota desacordada, e ainda ter que desviar daquelas kunais, estavam a cansando mais rápido do que podia. Ela viu uma Kunai passando ao lado do seu pescoço, e se fincar num tronco que estava a sua frente, ela percebeu, tarde demais, que havia uma tarja explosiva anexada. Reagindo rápido, ela envolveu o corpo de Naomi com o seu próprio e se jogou na estranha clareira que havia a sua esquerda, no mesmo tempo que a bomba explodia.
Ela sentiu os seus tímpanos sangrarem pela onda de choque, e o seu corpo rolar na terra gramada. Ela conteu um gemido de dor. O seu ombro estava deslocado pelo impacto.
Ela viu os olhos azuis de Naomi se abrindo lentamente, Hinata tratou de sorrir, um sorriso manchado de sangue.
Naomi viu Hinata se levantar e estender a mão pra ela. Ela analisou a garota diante de si. Haviam veias ao redor dos olhos dela, e ela tinha um pequeno ferimento na testa, manchando o lado esquerdo do rosto dela com sangue, mas ainda assim ela estava sorrindo de uma forma estranhamente gentil. A roupa dela estava cheia de fuligem e poeira, e naquele momento, Naomi a achou ainda mais bela do que já era. Ela pegou a mão estendida de Hinata e usou o impulso para se colocar em pê.
—Hi-hinata-onee-san você está-
—Eu estou bem... bem, pelo menos vou ficar, quando nos livrarmos desses três chatos...
Só naquele instante Naomi se tornou consciente dos três estranhos shinobis que as estavam observando na extremidade daquela clareira. Ao ver os uniformes deles, Naomi de repente se lembrou do corpo de Teppei carbonizando e o cheiro de carne humana queimando impregnou novamente suas narinas... ela se debruçou e vomitou na grama, vomitou até o seu estômago doer, sentindo os seus olhos lacrimejando.
—E-eles queimaram-
—Ouça, Naomi-chan. Eu sei que pode ser meio difícil para você no momento, mas eu preciso que você se acalme. Ou eu não vou conseguir protegê-la...
—M-mas eles-
—Naomi! –Hinata gritou, colocando ambas as mãos no rosto dela, ela suspirou, suavizando sua expressão – Vai ficar tudo bem, eu prometo. Eu vou proteger você...
Naomi apenas assentiu, com lágrimas se acumulando nos cantos dos olhos. Enquanto Hinata se colocava em posição de guarda, no mesmo instante que aqueles shinobis começavam a se mover naquela direção.
Hinata fletiu ambos os joelhos, colocando a perna esquerda ligeiramente para frente, e o braço esquerdo a frente do corpo. Normalmente, ela colocaria ambos os braços à frente, mas ela não conseguia mover o direito, provavelmente estava quebrado pelo impacto. Ela pegou uma Kunai, e colocou na sua boca. Ela não precisou dizer nada para aqueles três shinobis, eles entenderam o olhar feroz e sombrio no rosto dela, parecendo prometer um mundo de dor a quem fosse tolo o bastante para se aproximar, e naquele momento, a aura à volta dela aumentou, provocando um arrepio naqueles dois, como se estivessem vendo uma pantera protegendo uma cria.
Os três chunnins se entreolharam, eles não eram burros. Sabiam que mesmo com um braço inutilizado, aquela garota ainda conseguiria derrubá-los num combate corpo-a-corpo. Então eles fizeram a coisa mais óbvia a se fazer. Eles apostaram num combate a longa distância.
Eles se concentraram na tarefa de lançar enxurradas e enxurradas de kunais e shurikens em direção a Hinata, que trincou os dentes de raiva. Eles eram mais espertos do que ela esperava. O seu chakra estava quase no fim, depois de passar horas lutando, então ela não poderia usar outro Kaiten. E normalmente Hinata tentaria diminuir a distância entre eles, mas aquilo era impossível quando ela tinha que proteger alguém. A não ser que ela fizesse um clone e... não, não era viável também. Ela não tinha chakra suficiente restando.
Reagindo em instantes, ela usou a sua mão boa, a esquerda, para pegar a Kunai que estava na sua boca e se concentrar na tarefa de rebater cada uma delas. Mas aquilo era bem difícil com uma única mão, então ela apenas desviava as que tinha certeza que poderiam atingir um órgão vital dela, ou que poderiam machucar Naomi. Como resultado, ao final daquela enxurrada, ela tinha três shurikens alojadas no seu corpo. Duas na coxa esquerda e uma entre as costelas.
Ela sentiu o corpo de Naomi tremer atrás de si e as suas costas molharem, onde a cabeça de Naomi estava enterrada. Ela provavelmente estava chorando.
—Chega...Hinata-onee-san... não quero que você se machuque mais...
—O que você está dizendo Naomi-chan? Eu disse que iria te proteger. E eu vou cumprir minha promessa.
Naomi queria gritar com ela que aquilo era idiota, e que ela acabaria morrendo. Exatamente como a sua mãe durante o seu parto, ou o pequeno gato que ela tinha quando mais nova. Ele também tinha morrido, tentando protegê-la de um cachorro vadio e violento. Ela se lembrou exatamente das palavras que seu próprio pai havia dito para ela, enquanto enterrava o gatinho no enorme jardim da sua casa:
“Você traz a morte nas pontas dos dedos, Naomi. Tudo o que você toca, morre.”
Hinata havia tocado nela. E agora ela ia morrer.
Ela abriu a boca, tentando dizer isso para ela. Mas nenhum som saiu, a não ser um choro inaudível.
Meia hora depois, eles ainda continuavam naquilo. Hinata estava ofegante e cansada, mas nada grave, enquanto os chunnins finalmente tinham ficado sem kunais e shurikens.
—Viu... Naomi, eu disse que protegeria você –ela sussurrou, tendo sorrir, com a voz entrecortada pelo cansaço.
Naomi apenas assentiu. E antes que Hinata dissesse qualquer outra coisa, ela começou a sentir algo estranho. De repente se tornou difícil levar ar para os seus pulmões e a sua vista começou a embaçar lentamente.
“O que...porque...porque o chão está tão perto? eu tou... caindo?”
Hinata sentiu o seu corpo afundando na grama e a sua vista escurecer, enquanto ela ouvia os gritos de Naomi ficando cada vez mais distantes, ela via lentamente as silhuetas daqueles shinobis se aproximando dela.
Até que ela sentiu um deles se agachando ao seu lado e sentiu um hálito quente, enquanto ele estava sussurrando no seu ouvido:
—Como você está se sentindo? Gostou do presentinho?
Presentinho? E então a mente de Hinata finalmente entendeu. As kunais estavam... envenenadas. Ela havia sido ingénua.
—Devo parabenizá-la... você resistiu muito bem... a maioria perde a consciência em menos de cinco minutos, e quinze minutos depois... paragem cardiorrespiratória... –ela arregalou os olhos, ele continuou- isso mesmo... você vai morrer em menos de meia hora... –ela sentiu a língua áspera dele passando pelo seu pescoço- o que é uma pena, cá entre nós. Um desperdício. Você é bem... gostosa. Se eu tivesse mais tempo poderia te mostrar o que é um homem de verdade... vocês pegaram a garota?
Os seus outros companheiros assentiram, com a pequena garota desacordada nos ombros. O líder sorriu, antes de se virar novamente para Hinata.
—Só mais uma coisa...
Hinata prendeu um gemido de dor, enquanto sentia o dedo daquele shinobi, revestido com chakra Katon, se afundar na pele do seu pescoço, a queimando intensamente.
—É um hábito meu, desculpe... eu sei que é... rude. Mas eu gosto de marcar as minhas... vítimas... adeus, ojou-sama...
Hinata tentou abrir a boca em desespero, para gritar enquanto ela via aqueles três shinobis, caminharem lentamente para fora da clareira com uma Naomi desacordada. Ela sentiu o seu corpo se afundando em um poço negro de desespero, enquanto braços negros a puxavam para o fundo. Não, não, não. Aquela sensação... não de novo. Ela a havia sentido anos trás... quando havia pegado na mão fria e pálida da sua mãe, enquanto ela, gentilmente, era abraçada pela morte.
Não de novo. Ela sentiu o seu coração batendo mais rápido, bombeando sangue com mais velocidade. Espalhando o veneno com mais velocidade. Quando ela se apercebeu disso, ela respirou fundo. Precisava se acalmar. Naomi ainda estava viva. Ela ainda podia salvá-la.
Ela, lentamente, suavizou a sua respiração, acalmando os seus batimentos cardíacos. Aquilo retardaria o veneno. Ela precisava se acalmar. Mas aquilo era difícil quando a cada fôlego, ela estava morrendo mais e mais.
“Você foi envenenada... pense Hinata...”
Muito lentamente, um som ruidoso foi invadindo os seus ouvidos. Aquele som lentamente foi penetrando os seus ouvidos... aquilo era...
Ela usou o pouco chakra que lhe restava para ativar o byakugan, e logo percebeu que estava certa, há cerca de trinta metros a sua direita havia um riacho. E só existia uma coisa à beira de riachos. Plantas e ervas.
Ela se concentrou em rastejar o seu corpo, muito lentamente, não se importando com o chão gramado abaixo de si. Ela levou um par de minutos para chegar à beira do riacho, e tal como imaginava, havia uma variedade de ervas e plantas aí. Até que ela viu aquela.
Ela sentia o seu coração batendo incrivelmente rápido, e nenhum exercício de respiração poderia acalmá-lo. Ela sabia o que era aquilo. Ela estava morrendo. Não perdendo tempo, ela enfiou o maior número de folhas daquela planta na sua boca, não se importando com o gosto amargo ou o cheiro forte. E enquanto mastigava, ela sentiu o seu mundo escurecer.
Quando ela recobrou a consciência, já era manhã e o seu corpo doía como o inferno. O sol iluminava timidamente no alto, fazendo os seus olhos doerem pela claridade repentina. Ela ergueu a sua mão diante do rosto, tentando amenizar os raios solares. Os seus lábios estavam ressecados e a sua garganta estava rouca e irritada. Ela levou um bom tempo para se levantar, tentando se acostumar com aquelas sensações. Ela tinha um objetivo, mas primeiro tinha que cuidar de si.
Ela caminhou até à beira do riacho, enxergando o seu reflexo. Céus... ela estava uma bagunça. O seu rosto estava manchado de sangue seco e fuligem, os seus fios de cabelos estavam grudados de sangue e as suas roupas estavam cobertas de terra. Ela se livrou delas, ficando completamente nua, e mergulhou no riacho, que não era fundo, ficando em pé, a água chegava até o seu pescoço.
Ela rangeu os dentes, sentindo as suas feridas arderem pela água fria. Ela deixou a água retirar a sujidade do seu corpo, mas não a da sua alma. Ela passou as suas mãos, delicadamente, em cada parte do seu corpo, observando com um olhar saudoso o quanto a água ficava cada vez mais vermelha de sangue. Seu sangue.
Ela podia aparentar estar calma, mas a sua mente estava à mil, pensando sem parar no que poderia estar acontecendo com Naomi. Mas ela sabia que devia manter a calma, de nada adiantaria sair correndo que nem uma doida. Ela precisava ser esperta. Se bem que.... era bem mais fácil falar...
Ela saiu do riacho, e colocou as suas roupas excepto a blusa e a jaqueta, e decidiu enfaixar as suas feridas. Em especial as suas costelas, elas estavam fraturadas. No final, colocou a sua blusa lentamente, devido ao seu braço direito, que estava quebrado. Ela amarrou a sua jaqueta a volta do pescoço, fazendo uma espécie de apoio para o braço quebrado.
Ela bebeu um pouco de água do seu cantil e mordiscou uma barra de proteínas que tinha na sua bolsa shinobi para emergências, antes de finalmente começar a se mover.
Pelos dois dias seguintes, a única coisa que ela havia feito era correr, parando apenas para breves minutos de descanso ou para se alimentar. Dormir havia se tornado desnecessário. Ela estava desesperada, afinal de contas.
Aquilo estava sendo fácil, fácil até demais. Nem havia necessidade de usar o byakugan. Eles nem haviam se preocupado em esconder o rastro, provavelmente pensando que ela estava morta. Ela sabia que em meio dia, ela os alcançaria. E ela estava certa.
Exatamente ao meio dia, ela havia os encontrado. Ou o esconderijo deles no caso. Usando o byakugan, Hinata conseguiu ver uma caverna há cerca de dois quilómetros de onde ela estava, sendo guardada por um par de chunnins. Era lá que ela estava sendo mantida. Hinata não conseguia enxergar dentro da caverna, porque a mesma possuía selos que impediam aquilo. E ela não gostava nem um pouco. Ela odiava situações iguais aquela.
Ela se sentia cega daquele jeito. Mas ela resolveu montar acampamento há uns quinhentos metros daquele local, e se concentrou em analisar as suas ferramentas. Ela possuía duas kunais, uma shuriken, dois papéis bombas e quatro metros de fios de aço. Além de um braço quebrado. As chances não estavam muito a favor dela. Haviam cerca de dois shinobis guardando a entrada do local e ela supunha que dentro haveriam mais. Ela estava desesperada, mas não era burra.
Ela montou um plano simples, mas eficiente. Quando escureceu, ela fez um clone das sombras e este levou um dos papéis bomba e explodiu uma árvore há alguns metros da caverna. Como esperado, um deles foi averiguar o local da explosão, enquanto o outro continuava atento naquele local.
Hinata usou um henge, e se transformou no shinobi que havia saído. Ela sorriu para o guarda, antes de desacordá-lo com uma pncada na nuca.
Logo que entrou na caverna, Hinata se concentrou em atravessar os estranhos e escuros corredores daquela caverna, até, finalmente chegar ao que parecia ser um quarto. Havia um cheiro levemente adocicado no ar... que ela sabia pertencer a Naomi. Ela gostava de doces, assim como Hinata. A herdeira Hyuuga de repente se lembrou de usar o byakugan para ver o que havia atrás da porta, e ela gostaria de não ter visto.
Hinata odiava coisas amargas. Aquela sensação de ardor na língua, seguida de uma estranha acidez. Ela odiava coisas amargas. Talvez por ter sentido aquele estranho sabor descendo pela sua garganta, se emaranhando nas suas entranhas, na sua alma... enquanto assistia a sua mãe, a sua doce e gentil mãe, ficando cada vez mais pálida e fria, enquanto braços negros a envolviam e puxavam o seu corpo para o poço da morte. Era apenas uma metáfora é claro.
Mas sempre que Hinata pensava na morte da sua mãe, aquela era a única forma que ela conseguia achar para explicar os seus sentimentos. Por isso ela amava doces. Inebriavam os seus sentidos ao ponto de ela esquecer aquelas cenas. Enfim...ela odiava coisas amargas. E aquilo diante dos seus olhos era a coisa mais amarga que ela tinha provado a vida inteira.
Levar ar para os pulmões de repente se tornou difícil, as suas mãos começaram a tremer e ela ouvia um estranho tinido agudo nos seus ouvidos. Como se fosse um zumbido, ou como se alguém estivesse enfiando uma kunai nos seus ouvidos.
Hinata se debruçou e vomitou, vomitou até as suas entranhas doerem e os seus olhos lacrimejarem. Ela ficou encarando o conteúdo gástrico por longos segundos, parecendo estática e incrédula. Os seus poros suavam e a sua vista estava embaçada. Não, não, não, não.
Céus...aquilo não.
Ela abriu, muito lentamente, a porta do quarto, como se temesse que algum monstro fosse saltar nela. Ela deu um passo hesitante, e depois outro, e mais outro... até que, finalmente, adentrou o quarto, e a viu, completamente despida, naquela enorme cama de casal, como uma boneca de porcelana quebrada.
Naomi sempre fora branca e pálida, que nem porcelana, mas dessa vez estava pálida que nem um cadáver que há anos não via o sol, o rosto bonito estava completamente inchado e com enormes manchas rochas, e o seu vestido, o seu lindo e inocente vestido rosa estava jogado num canto qualquer, em fiapos.
Havia enormes manchas vermelhas nos brancos lençóis, e Hinata sabia que aquilo era sangue. Os seus olhos azuis se moveram lentamente, como se acompanhando os movimentos hesitantes de Hinata. Completamente vazios. Completamente sem vida.
Hinata estendeu lentamente a sua mão, colocando a mão esquelética de Naomi entre as suas. Ela não precisava falar ou tampouco perguntar nada. Hinata sabia. Ela havia visto com o byakugan. Naomi tinha escoriações ao longo do corpo, tinha quatro costelas quebradas, que inclusive, haviam perfurado os pulmões, a traqueia estava completamente esmagada, os seus dentinhos de leite haviam sido completamente arrancados, assim como as suas unhas, e ela tinha fissuras vaginais e anais profundas... não era preciso ser um génio para entender. Ela havia sido... estuprada.
A sua doce e inocente garotinha, sem mais nem menos. Simples assim. Como uma flor cuja as pétalas tivera sido arrancadas, ela havia tido a sua inocência tirada. E pela gravidade dos... ferimentos... aquilo havia sido por vezes sem conta.
Lágrimas se acumularam nos olhos perolados de Hinata. Até ela começar realmente a chorar.
—Naomi... gomen... gomen...
Hinata viu ela fazer um som profundo e engasgado, como um suspiro e os seus lábios rachados e ressecados se abrirem ligeiramente, como se tentasse emitir um som.
Hinata teve que abaixar a sua cabeça para conseguir ouvir. Na primeira vez, ela não entendeu absolutamente nada do que saiu da boca dela, até que Naomi repetiu, e Hinata congelou.
“M-me...mate...”
Hinata arregalou os olhos, e levantou o rosto pelo susto, olhando nos olhos de Naomi, tentando enxergar algo. Não havia nada naqueles orbes vazios, a não ser sofrimento. Um profundo sofrimento. Ela era como uma casca vazia, oca por dentro.
Sangue. O líquido quente e escarlate borrava tudo à sua volta. Manchando tudo de vermelho. Manchando a sua alma de vermelho. Aqueles olhos azuis a encaravam de forma vazia, como se fizessem uma pergunta: Porquê?
Hinata sabia. Aquilo era sua culpa. Sua inteira culpa.
—Baka...
Hinata juntou a sua testa a de Naomi, consciente das lágrimas geladas deslizando pela sua face. Hinata não era médica, mas ela sabia que... com aqueles ferimentos Naomi iria... os seus pulmões...cada fôlego, era como inalar agulhas ao invés de ar. Ela estava sofrendo. E doía ainda mais saber que era sua culpa...
—Não é justo, Naomi-chan. –Ela olhou para a garotinha, tentando parar de chorar, e colocando o seu indicador no lado esquerdo do peito dela, bem no coração – Você sabe que eu não consigo dizer não para você...
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Quando Kurenai, Shino e Kiba, finalmente encontraram Hinata, ela estava sentada na entrada daquela caverna, e tinha dois corpos aos seus pés. E pela expressão vazia no rosto de Hinata, Kurenai logo percebeu que tinha algo muito errado com ela.
—Hinata?
Ela precisou chamar mais quatro vezes, até que finalmente a sua aluna olhou para ela, ainda parecendo vidrada. E Kurenai não gostou daquele olhar...aquilo era...
—Sensei... vocês estão vivos...
—Hai...-ela sussurrou, se sentando ao lado da sua aluna, ainda meio hesitante – o que aconteceu?
A Hyuuga levou um bom tempo para falar.
—Ahm... esses dois? Eu os matei. Foi fácil até... um golpe certeiro no coração... e eles caíram duros que nem pedras...
—Entendo... e a Naomi-sama?
—Ela? Ah, ela morreu. Eu a matei na verdade.
Os seus companheiros arregalaram os olhos. Kiba surtou:
—Você fez o que Hinata?! Nós quase morremos tentando despistar os inimigos!
—Se acalme Kiba... ela não falou sério... falou?
—Falei sim. Ela está lá dentro.
Kurenai fez um gesto para que Kiba e Shino fossem verificar, e quando eles finalmente voltaram, pareciam pálidos e estranhamente abalados. Shino inclusive parecia a ponto de vomitar.
—O que aconteceu?
Nenhum deles falou nada. Pareciam estranhamente em choque. Kiba caminhou até o pé de uma árvore que havia ali, e se sentou lá, colocando os braços na cabeça, parecendo em choque, enquanto Akamaru passou a lamber a sua face, tentando o trazer de volta á realidade.
Shino finalmente pareceu não aguentar, e procurou uma moita para vomitar.
Kurenai suspirou e adentrou a caverna, e tão logo entrou no quarto, sentindo o forte cheiro de sémen no ar, e vendo o corpo de Naomi, ela entendeu tudo. Ela havia visto aquilo mais vezes do que seria capaz de contar. Ela suspirou, antes de enrolar o corpo de Naomi com aqueles lençóis e carregá-la para fora da caverna.
Hinata pareceu genuinamente confusa quando viu o corpo no colo de Kurenai.
—O que é isso?
—Como assim o que é isso? É a Naomi-san...
Hinata gargalhou longamente, como se Kurenai tivesse dito algo muito engraçado, antes de mover negativamente a cabeça.
—Não seja ridícula Sensei. Isso é um corpo. A Naomi não é um corpo...
Kurenai suspirou. Olhando para ela com profunda tristeza.
—Hinata...
—Não é ela!
—Sinto muito. Mas... é ela sim.
Hinata se levantou irritada.
—Não é ela! Essa coisa sem vida não é a Naomi!
Kurenai atravessou a distância que as separava e envolveu os seus braços no corpo de Hinata, antes que Hinata percebesse, lágrimas começaram a escorrer pelo seu rosto. Ela estava... chorando?
—Não é... não é... não é ela...-E de repente o pequeno choro se tornou audível- Ela se foi. Eu tive que... eu não tive escolhas... ela estava sofrendo tanto... eu tive que...
—Shh... eu entendo. Tá tudo bem, Hinata.
Kurenai sentia as lágrimas de Hinata molharem cada vez mais o seu peito.
—Porque...porque eles fizeram isso com ela?
—Bem, nós... interrogamos os outros caras... eles disseram que fizeram isso para cobrar um resgate, mas ao que parece, o nobre não estava disposto a pagar um centavo por uma filha que era a última na linha de sucessão... então...
—ENTÃO ELES A ESTUPRARAM?! –Ela gritou, mas depois abaixou a voz, não passando de um sussurro- eles a estupraram... e eu não pude fazer nada, não pude protegê-la...
Ela se afastou do abraço, apenas para exugar as lágrimas de Hinata com o polegar. Ela tentou sorrir para a aluna.
—Não é sua culpa Hinata...
Vendo a sua aluna quebrada daquela forma, Kurenai não pode deixar de sentir uma pontada de culpa. Ao longo daquela missão, Hinata e Naomi passaram o caminho inteiro conversando e sorrindo, ela havia notado o quanto Hinata havia se apegado aquela pequena garota, sobretudo quando ela descobriu que, assim como ela, Naomi também havia perdido a mãe... aquilo foi a gota de água, Kurenai sabia. Sabia, mas mesmo assim não havia feito nada... a não ser assistir. Aquilo...aquilo também era sua culpa... ela queria gritar aquilo, mas não conseguiu.
Ela era falsa. Mil vezes falsa.
Hinata a olhou profundamente nos olhos, um olhar que Kurenai não imaginava ver no rosto de Hinata, não tão cedo. O mesmo que Kurenai se lembrava de ter despertado quando era uma simples chunnin, há dezasseis anos atrás, e viu seus companheiros de equipe sendo mortos, um por um, enquanto ela só assistia, completamente petrificada. Era o olhar de alguém quebrado.
—É minha culpa. Minha inteira culpa.
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