Gênesis
31 Chunnin Shiken - Insanidade.
Notas iniciais
Sarutobi Hiruzen, com seus oitenta e oito anos bem vividos, se achava um homem bastante sábio. E de facto, a sua mente era afiada como de nenhum outro homem e a sua perspicácia em batalha, havia o levado a vencer duas grandes guerras shinobis, o rendendo o apelido de “Deus Shinobi”. Mas mais do que isso, ele podia se gabar de ser o mais velho Hokage de sempre, uma vez que nenhum dos seus antecessores –ou mesmo sucessores- usufruíram desse cargo por tanto tempo. Mas ao mesmo tempo que era bastante proveitoso viver tanto tempo, também era uma maldição. Ele era assombrado por mais fantasmas do que qualquer outro homem.
Rostos de pessoas que ele havia matado, amigos que ele não havia salvado, pessoas que ele havia traído, mulheres que ele não havia conquistado...enfim, eram inúmeras as escolhas das quais ele se arrependia... mas se algum anjo ou demónio aparecesse à sua frente, e o dissesse que ele tinha uma oportunidade de voltar no tempo e mudar alguma coisa do passado, ele não salvaria nenhum dos seus amigos, ou conquistaria alguma mulher. Não, não. Na verdade, só tinha uma coisa que ele se arrependia mais do que qualquer outra coisa. E nem era algo tão longínquo, na verdade, havia acontecido há pouco mais de um mês atrás, mas ainda o assombrava como se fosse ontem.
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“O Sandaime Hokage suspirou pesadamente, deixando o pergaminho cair pesadamente na sua mesa. Ele usou os seus dedos enrugados e calejados para esfregar os seus olhos, se sentindo de repente cansado. Demasiado cansado. Ele estava prestes a abrir o compartimento secreto da sua secretária, quando se lembrou que a sua erva havia acabado.
“Que saco... um cachimbo cairia bem nesse momento...”
—Etto... Hokage-sama?
O velho homem pareceu se lembrar que Kurenai ainda estava diante dele. Em pé no meio do seu escritório. Parecendo há espera de alguma resposta.
Mas o que ela queria que ele dissesse, depois de ela relatar tudo o que havia acontecido naquela missão? Eles haviam falhado. E agora a filha de um dos maiores produtores de minerais do continente estava morta, morta por uma gennin de Konoha. Morta pela herdeira do clã mais influente da vila, isso depois de ter sido estuprada. Céus... Aquilo era péssimo de tantas formas diferentes...
Ele suspirou novamente.
—Me deixe pensar criança... –O velho Hokage sussurrou, juntando as mãos, e ficando estranhamente silencioso por longos segundos, como se pensasse em algo, enquanto Kurenai apenas continuava à espera- ...Você tem noção do quão importante era essa missão?
—Me perdoe Hokage-sama... mas não vejo como a segurança daquela garotinha poderia afectar a vila...
—A garota em si não era importante. Mas sim o pai dela...
—O pai dela?
Hiruzen assentiu.
—Hanebado Jin... ele é um dos maiores, se não o maior, exportador de minerais de todo continente... e eu vinha tentando fazer um acordo com ele há bastante tempo. O próprio Daymiou-sama estava me pressionando para conseguir esse acordo. Nós estávamos tão perto de assinar um contrato exclusivo... mas com esse falhanço...
E então Kurenai entendeu a gravidade de toda aquela situação. Ela se prostrou rapidamente.
—Mil perdões Hokage-sama. Sendo uma jounnin, é inaceitável esse meu erro. Eu aceitarei qualquer punição... mas por favor seja clemente com aqueles três... são apenas crianças...
O Hokage suspirou.
—Levante-se, Kurenai. Você é uma das melhores jounnins da vila. Não me ocorre muita gente que teria se saído melhor nessa missão. Bem... não podemos manchar os registros dos nossos queridos gennins, pois não? –Kurenai viu o Sandaime pegar o pergaminho com o relatório da missão, e queimá-lo usando chakra Katon, as chamas crepitando ficaram refletidas nos olhos escuros e saudosos do sandaime- Sem relatório, sem missão, sem fracasso, sem punições...
Ela olhou para aquilo parecendo muito espantada.
—Hokage-sama... O senhor...
Hiruzen girou a sua cadeira, ficando de costas para a jounnin e passando a encarar a lua cheia e brilhante pela janela do seu escritório.
—Está dispensada, Kurenai. Por hoje é tudo...-Ela entendeu que continuar aquele assunto seria desrespeitoso, então apenas fez uma pequena reverência, antes de caminhar até a porta, os seus dedos estavam na maçaneta quando ela ouviu o restante- e mais uma coisa. Isso fica entre nós. Só entre nós.
Ela apenas assentiu em concordância.
—Hai. Com sua licença Sandaime-sama. — Antes de finalmente sair da sala.
O velho Hokage suspirou profundamente, olhando com melancolia, para o quão bela Konoha era durante a noite. Ele sentia que podia olhar para aquelas luzes para sempre...
“E agora... que tipo de desculpa eu vou inventar para o Daimyou-sama? Estou com um mal pressentimento...”
Hiruzen sentiu os seus pelos se eriçarem e o seu joelho esquerdo começar a doer. Ele sabia o que aquilo significa. Ele sempre sentia aquilo quando algo ruim iria acontecer. Era um mau agouro...
E ele não estava errado. No momento, ele não sabia, mas ele viria a descobrir, uma semana depois, que aquela era a pior escolha que ele já havia tomado na vida.
Ele havia subestimado o “quanto” o Daymiou queria aquele acordo com a Vila da Fechadura. E os seus Shinobis haviam falhado miseravelmente.
Uma semana depois, um falcão trouxe uma carta, escrita à mão pelo próprio Daymiou. E isso nunca era um bom sinal. Hikari Azuma estava furioso. Embora não aparentasse, Hiruzen sabia que aquele homem estava furioso. Ele só não esperava que ele fosse pedir aquilo.
“Hiruzen, parece que a idade está, finalmente, começando a afetar o teu discernimento. E isso é uma pena. Tu sempre foste tão perspicaz... parte-me o coração saber que estás a ficar senil... Enfim...Uma vez que os teus Shinobis parecem ter... decaído miseravelmente no que toca a qualidade, eu sugiro fortemente que tu me mostres, neste exame, uma safra de shinobis digna dos fundos que eu invisto nesse vilarejozinho. Eu quero resultados. Imediatamente. Caso contrário... veremos como Konoha se sai, recebendo um Terço dos fundos que recebe atualmente...”
Hiruzen sabia a gravidade daquela pequena carta. Basicamente, ele estava se questionando sobre a eficácia dos shinobis da nova geração. Ele queria, à todo custo, uma vitória no Shiren Shôkan... caso contrário... e aquilo trouxe um gosto amargo na boca de Hiruzen. Ele sabia o que aquilo significava. Significava que, mais uma vez, eles próprios teriam que escolher os candidatos daquele exame.
Depois de uma reunião de emergência extremamente longa e cansativa com o conselho shinobi, os líderes dos clãs e os jounnins mais reputados da vila, foi decidido –depois de uma calorosa discussão-, os gennins que participariam naquele exame. E a cada nome que o Sandaime via naquela lista, ele se sentia cada vez pior. Quer dizer... ele viu a maioria deles crescer. Não era nada, senão doloroso, mandá-los para uma morte certa. Ainda mais, tendo em conta o tema que os cinco Kages haviam escolhido para aquele exame...
Uzumaki Naruto
Uchiha Sasuke
Haruno Sakura
Hyuuga Hinata
Inuzuka Kiba
Aburame Shino
Nara Shikamaru
Akimichi Chouji
Yamanaka Ino
Hyuuga Neji
Mitsashi Tenten
Rock Lee
Kato Risa
Yamanaka Akai
Yakushi Kabuto
E é claro, que aquela lista, era mais “tendenciosa” do que propriamente de nível de poder. Tinha gennins ridículos de tão fracos naquela lista. Mas a maior parte dos líderes dos “grandes clãs” da folha, sabiam da glória que vencer um Shiren Shôkan trazia, por isso não pensaram duas vezes antes de indicar os próprios filhos. E é claro, tinha os “danos colaterais”. Naruto e Sakura, por exemplo, só foram indicados porque “supostamente” o último Uchiha precisava de dois outros companheiros para participar. Só por isso mesmo.
Mas é claro, tinha aqueles líderes de clã que não estavam tão satisfeitos com tudo aquilo, Hiashi por exemplo, ficou pálido quando ouviu o nome de Hinata e Neji, e parecia estar a ponto de matar Danzou, que parecia bastante entretido em frisar a importância do clã mais forte da vila, indicar dois candidatos.
Aquela resolução, que ordenava o alistamento dos gennins mais promissores, teve 90% de votos. Impossível até o próprio Hokage negar. Hiruzen apenas lamentou terrivelmente por dentro. Aquilo... o assombraria todas as noites, disso ele tinha certeza.
E ele não estava errado. Ao longo daquele mês, ele mal pregara os olhos. Sempre sonhando com cada um daqueles gennins, sendo mortos de maneiras horrendas, enquanto as suas cabeças decepadas sussurravam sem parar “sua culpa...sua culpa...”
Hiruzen se sentiu um pouco aliviado quando o time sete decidiu se inscrever “voluntariamente” naquele exame. Foram os únicos, na verdade. Há maioria provavelmente já haviam recebido a notícia de que iriam participar, uma vez que os seus pais haviam sido convocados naquela reunião, e agora provavelmente estavam...ou treinando, ou fazendo coisas que eles sempre quiseram fazer, antes de morrerem...
Quer dizer, é lógico que Kakashi sabia que era obrigatório, mas provavelmente ele tinha ocultado aquilo dos seus alunos, e deixado eles fazerem a “própria escolha”. Apesar de que, aquilo não adiantava muito. Mesmo que não quisessem, eles participariam de qualquer forma... mas enfim, menos um time para Hiruzen sonhar sobre. Se ao menos isso diminuísse o buraco no seu coração....”
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Já eram por volta da meia-noite. E Naruto ainda não conseguira pregar os olhos por um minuto sequer. Ele sabia que devia estar descansando para o dia seguinte, mas ele estava estranhamente ansioso. Quer dizer, que tipo de arena ele encontraria? Um deserto escaldante? Uma floresta fria? Ele não sabia dizer. Mas provavelmente seria algo incrível, afinal eles estiveram planejando aquilo durante vinte e cinco anos.
Essa constatação fez com que o seu estômago se embrulhasse ainda mais. Ele estava ancioso. Tão ancioso que beirava a insanidade. Ele se arrastou para fora das suas quentes cobertas. Sabendo que não conseguiria dormir. Muito silenciosamente, ele se esgueirou pela janela do seu quarto e subiu no telhado.
Era uma noite muito fria, uma brisa gélida deslizava pelo seu rosto, esvoaçando os seus longos fios de cabelo loiros e a lua, cheia, brilhante e prateada cintilava no céu escuro. Realmente bonito, Naruto pensou. Ele inspirou o ar muito lentamente, decidido a aproveitar aquela vista, era a última vez que ele veria a lua prateada antes do Shiren Shōkan pintá-la de um vermelho-sangue.
— Sem sono?
Naruto olhou de soslaio na direcção da voz. Era Tobirama. E sob a cálida e prateada luz da lua, o seu corpo parecia muito mais brilhante e fantasmagórico.
Naruto assentiu.
—Sabe – Tobirama murmurou, flutuando até estar ao seu lado – eu passo quase todas as noites aqui. Simplesmente apreciando a lua.
Naruto assentiu novamente. Ele sabia que, por ser um espírito, Tobirama não conseguia durmir. E só naquele momento ele se apercebeu de algo... ele sabia melhor do que ninguém, o quanto os pensamentos poderiam ser os piores monstros que um homem poderia enfrentar... mas pelo menos os gentis braços da deusa dos sonhos conseguiam aliviar um pouco dessa dor... Mas Tobirama não. Ele era assombrado por pensamentos tenebrosos vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana... céus...
—É por causa de amanhã, não é?
Naruto ficou um longo minuto em silêncio. Antes de sussurrar:
—O meu estômago parece estar congelando…
—É, eu sei – Tobirama falou – Isso me lembra daquela vez com Hiruzen…
—O Sandaime? – Naruto perguntou. Tobirama assentiu. – Ele venceu, não?
Tobirama assentiu novamente.
—Eu vou ser sincero… eu não queria que você participasse do Shiren Shōkan – Naruto não ficou surpreso, ele sabia daquilo melhor do que ninguém – Mas… bem, eu não posso simplesmente te impedir. Você... você cresceu o suficiente pra vencê-lo…
—É — Naruto ficou com uma expressão pensativa. — Eu acho que cresci… um pouco...
—É... você cresceu… — Tobirama murmurou, com uma voz rouca e profunda. – Você cresceu.
Naruto o analisou por um instante e finalmente se apercebeu do quão difícil tudo aquilo deveria estar sendo para Tobirama. Quer dizer, ele de repente é ressuscitado uns setenta anos depois de morrer, e descobre que o seu clã está quase (ou completamente) extinto. E ainda teve que treinar um moleque idiota durante o quê? Uns seis anos. E agora teria de o ver partir para um exame completamente sádico que, ironicamente, fora criado por ele. O mesmo exame que enlouqueceu o seu próprio filho. Aquilo era mais do que uma pessoa normal poderia aguentar.
Naquele instante, o seu respeito e admiração por Tobirama aumentou ainda mais, como se fosse possível. E então ele se lembrou de uma coisa...
—Sensei… — Tobirama olhou para ele curiosamente — tenho algo pra te contar…
E então ele contou o mesmo estranho sonho que estava tendo há semanas. A floresta escura. Tobirama desaparecendo. Ele correndo atrás da esfera cintilante e dourada. A maldita esfera!
Tobirama era um bom ouvinte. Ele não falou nada durante o seu relato, embora o seu rosto ficasse cada vez mais pálido e translúcido. E no final, dentre todas as coisas que Naruto imaginava que Tobirama iria lhe dizer, ele apenas suspirou, e falou uma outra coisa:
—Então já começou… — Ele murmurou, com um olhar sereno e enigmático no rosto fantasmagórico e brilhante.
—Começou? – Naruto franziu o cenho, e a sua voz subiu alguns tons – Começou o quê?
Tobirama suspirou, e ficou alguns segundos em silêncio.
—A verdadeira razão pela qual eu criei aquele pergaminho. O motivo pelo qual eu decidi treinar você…
Os olhos de Naruto se afiaram em sua direção. Que merda ele estava falando?
—Você não me treinou para que eu fosse um Hokage? – A voz de Naruto adquiriu um tom de irritação. – Para que eu protegesse a vila?
—Em parte. Mas… o verdadeiro motivo é outro.
—Qual?
Tobirama abriu a boca, prestes a dizer alguma coisa, mas depois pareceu pensar melhor.
—O pergaminho onde eu estava selado... você nunca se perguntou como é que o seu sangue conseguiu abrir aquele pergaminho? Sendo que somente alguém com o meu sangue seria capaz de abri-lo...
—Naquela vez... –Naruto olhou para ele incrédulo- naquela vez você disse que era porque eu sou um Uzumaki, parente de sangue dos Senjus.
—É mesmo? Eu menti. Você conseguiu porque... –Mas depois ele pareceu pensar melhor- Esquece. Você ainda é muito novo. Não vai entender.
—Eu tenho doze anos. Não sou uma criança.
—É claro que é. – Tobirama olhou pra Naruto como se ele fosse louco -Você tem noção de quão ridículo você acabou de soar? É como um velho de setenta anos dizendo que ainda é jovem…
Naruto segurou um grunhido de irritação.
—Quando é que você pretendia me dizer… o-que-quer-que-seja que você está escondendo?
Tobirama franziu o cenho e pareceu demorar um bom minuto para entender o que Naruto falara.
—Pra ser honesto… quando você fizesse dezesseis anos…
Naruto olhou para Tobirama, parecendo horrorizado.
—Mas isso é… — ele fez um rápido cálculo mental — daqui há cerca de três anos, dezoito dias, duas horas e… dois minutos.
—Ah, é mesmo. Daqui há dezoito dias você fará Treze anos, não?
—Não fuja do assunto!
—Está bem. Vamos fazer assim: Se você se tornar um Chunnin, eu conto a verdade a você. Toda a verdade. O porquê de você ter conseguido abrir o pergaminho. O porquê de eu ter treinado você... e o mais importante... esses sonhos que você vem tendo...
—Isso não é justo! – Naruto o cortou – você estava prestes a me dizer!
Tobirama apenas deu de ombros, com um olhar quase divertido no rosto espectral.
—Oh, sim. Sobreviva ao Shiren Shōkan, e eu te direi. Pense nisso como… uma pequena motivação. Sobreviva e saberá. É tão simples quanto isso.
Naruto resmungou algo como: você estava prestes a dizer. Mas depois decidiu se calar. Aquele podia muito bem ser o último dia que ele veria Tobirama. Aquela podia ser a última vez que ele falaria com Tobirama. Era estranha aquela sensação. De um dia para outro ele poderia deixar de existir. Ninguém nunca mais teria notícias dele. Ninguém nunca mais o veria... ele simplesmente deixaria de existir. Para sempre... a morte era algo muito estranho.
Mas ele depois afastou esses pensamentos. Ele não ia morrer. Ele agora tinha um motivo muito forte para permanecer vivo. Um motivo para vencer.
Ele sentiu um sorriso a caminho da sua boca. Mas ele forçou a sua boca a não sorrir. Não daria aquele gostinho para Tobirama. Com um suspiro, ele murmurou um "boa noite" e se esgueirou de volta ao seu apartamento.
Enrolado na sua cama quente e macia, ele teve os lampejos daquele mesmo sonho.
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O seu dia começou cedo. Quando Naruto acordou, ainda eram seis horas e o sol mal tinha nascido, e como tal, estava muito frio. Mas não tanto quanto o seu estômago. Ele continuava ancioso. Ele conhecia aquela sensação que permeava o seu corpo. Era a sensação que ele tinha quando estava face à face com um inimigo poderoso, os pelos eriçados, as pupilas dilatadas, os músculos tensionados... prontos a se moverem a qualquer sinal de perigo... era a ansiedade de um eminente confroto.
No dia anterior, depois de voltarem da floresta dos cachorros, Kakashi os avisou que, no dia seguinte, eles deveriam se dirigir para o edifício da divisão de inteligência, antes das sete da manhã. Então, ele se arrastou até o chuveiro e tomou um banho quente, o que acalmou um pouco os seus pensamentos.
Ele encarou o seu reflexo no espelho enevoado do banheiro e finalmente se lembrou de algo. O seu cabelo... ele estava enorme, céus... no mês que ele havia passado treinando, o seu cabelo havia crescido ainda mais, assim como o seu próprio corpo. Ele estava três ou quatro centímetros mais alto. Provavelmente pelo tanto de energia natural que o seu corpo havia absorvido naquele mês.
Pelo tão longo que o seu cabelo estava -agora chegava quase no meio das suas costas- o seu cabelo havia perdido um pouco daquele ar “arrepiado nas pontas”. Ele pegou uma tesoura que havia esquecido na pia do banheiro, e estava prestes a diminuir os longos fios, quando se lembrou de algo... com o cabelo curto, ele ficava praticamente idêntico ao Yondaime Hokage, não que ele se importasse com o que as pessoas diriam, é claro, mas ele não gostava da sensação que tinha quando se olhava no espelho... ele quase sempre imaginava o rosto do seu pai no lugar do seu... com aqueles olhos azuis o fitando intensamente... como se ele fosse um monstro...
Suspirando, Naruto decidiu pegar uma escova e domar aquele emaranhado de fios loiros que ele chamava de cabelo. Daquela forma, ele conseguiu ver o quanto estavam realmente longos, os fios caíam como uma cascata dourada, chegando quase no meio das costas. Ele pegou um prendedor de cabelos e fez o melhor que pode para prender os fios atrás. Ele passeou os seus dedos na frente, bangunçando os fios frontais. Bem melhor.
Ele se olhou no espelho. Havia ficado... bom. Apesar de que... ele suspirou pesadamente. Apesar de ter pais fortes como demónios, em contraste, eles eram bonitos. Demasiado bonitos. Ele sabia daquilo porque, dentro do pergaminho que o Sandaime lhe entregou, havia algumas fotos deles, fotos essas que trouxeram lágrimas nos seus olhos... mas enfim, eles eram bonitos. Inclusive o seu pai, ele tinha traços gentis. Demasiados gentis. Junte isso ao rosto angelical de Kushina... não tinha como Naruto ter um rosto rústico, propriamente de homens das cavernas. Não que fosse exatamente feminino é claro, mas os seus traços faciais, de tão bonitos, eram um tanto suaves e angulosos. E aquele novo penteado piorava um pouco... mas enfim, ele havia gostado. O lembrava das figuras antigas que ele viu em alguns livros sobre samurais...
Quando voltou ao seu quarto, Naruto vestiu uma roupa qualquer, afinal, ele sabia que quando chegasse na arena, ele trocaria as suas roupas pelo uniforme que os gennins de Konoha deveriam usar. Não era necessário colocar a sua bolsa Shinobi, afinal, era proibido levar armas para a arena. Então, ele foi direto para a cozinha e se esforçou a engolir o seu café da manhã.
Naruto estava prestes a sair, quando se lembrou da sua bandana Shinobi. Ele voltou ao quarto e quase no mesmo instante em que amarrava a sua bandana no pescoço, Tobirama entrou pela janela do seu quarto.
—Novo penteado? –Naruto assentiu- Ficou bom. Me lembra o meu irmão Hashirama... enfim...Você está pronto? – Tobirama perguntou. Naruto assentiu novamente. – Entendo... então, boa sorte...acho.
—Espere, você não vai comigo? Quer dizer...nesse exame?
Tobirama olhou para ele de cenho franzido.
—O que você acha que as pessoas vão pensar, quando virem você com um espírito flutuante?
—Mas eu pensei que…
—Câmeras – Tobirama murmurou – câmeras, Naruto.
—Elas conseguem filmar você?
—Não realmente – Tobirama deu um sorriso divertido – Mas eles conseguirão ver uma forma escura e misteriosa. Você consegue imaginar as manchetes dos jornais? Exame suspenso, por estar assombrado por um fantasma muito másculo.
Naruto consegue sorrir. – É...seria realmente horroroso.
Eles ficaram estranhamente em silêncio. Quer dizer, havia tanta coisa para dizer. Tanta coisa para falarem naquele momento. Mas eles sabiam, melhor do que ninguém, que se eles comessassem a falar, aquilo pareceria uma espécie de despedida. E eles odiavam despedidas... sobretudo Tobirama, ele sempre sentia um bolo se formando na sua garganta.
Mas ele sabia que tinha que falar alguma coisa. Mas realmente, ele não tinha ideia do que falar para alguém que estava prestes a se lançar para a morte.
Naruto olhou para o relógio no alto da parede. 6h: 43min. Ele tinha que chegar no edifício da Divisão de Inteligência às 7:00. Ele ainda tinha muito tempo de sobra, mas era melhor jogar pelo seguro.
—Bem… adeus… — Naruto murmurou, com uma voz estranhamente rouca. Era meio estranho estar indo para um sítio sem o seu Sensei – Um último conselho?
—Durante a primeira fase, na Colheita, eles geralmente têm armas e outros instrumentos Shinobis espalhados pela arena. Encontre uma espada. É a sua maior chance.
—Ah sim… eu não vou poder usar a Raijin no Ken. — Tobirama assentiu, com uma expressão estranha. -E depois, o que eu faço?
—Encontre uma fonte de água. Encontre comida. Faça aliados. O resto… bem, o resto é o resto. Eu estarei te assistindo.
—Você não consegue ligar aquela velha TV na sala…
Tobirama olhou para ele, quase ofendido.
—Ela fica doida quando eu me aproximo. E, não se preocupe, eles colocarão ecrãs por toda a vila.
Naruto apostava que em outras vilas também fariam o mesmo. Ao contrário de um exame normal, o mundo inteiro iria assisti-lo, literalmente. Inclusive o Senhor feudal do País do Fogo. O Sandaime e o Yondaime Hokage venceram os seus. Se ele quisesse ser Hokage, ele tinha que vencer aquilo. Hokage. Se bem que... ultimamente...
—Ah, mais uma coisa – Tobirama murmurou, com os lábios fantasmagóricos tremendo num sorriso — Que Raijin… — Ele começou.
—Esteja do nosso lado – Naruto terminou. Antes de sorrir, nervosamente.
—Bem, adeus…-A voz de Tobirama possuía um sentimento que Naruto não soube identificar- discípulo tolo.
Naruto se virou, muito lentamente, e começou a caminhar para fora do apartamento. Ele conseguia sentir os olhos de Tobirama fixos em si, enquanto o Nidaime observava, pela Terceira vez na sua vida, uma pessoa querida mergulhar para a morte. Kageyama. Hiruzen... e agora Naruto...E naquele instante, Tobirama conseguiu sentir o cheiro de fuligem e de todo o sangue que seria derramado... e o pior é que a maior parte seria do seu discípulo.... Ele teve a estranha sensação, de que aquela seria a última vez que veria Naruto. Odiava estar certo.
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Logo que chegou no lugar combinado, Naruto avistou Sakura de olhos fechados, apoiada em uma árvore, com os fios róseos e curtos disfarçando as suas feições. Aparentemente, ela estava distraída. Mas ele não deu mais do que dois passos, antes de ela abrir lentamente os olhos, os olhos verdes brilhando afiados e as pupilas dilatadas, os músculos tensos e retesados, o cérebro repassando mentalmente milhares de diferentes situações de ataque e como escapar de cada uma delas....
No entanto, ao ver que era Naruto, os seus músculos relaxaram, embora os seus olhos continuassem afiados como navalha. Ela, muito lentamente, sorriu na sua direção.
—Naruto... você está bonito, hein. –Naruto suspirou, aparentemente aquele tipo de comentário seria comum- gostei.
Naruto apenas sorriu para ela. Em cumprimento. Antes de passarem os minutos seguintes jogando conversa fora. Uma curiosidade. Ultimamente, ela já não era tão irritante. Então, era agradável conversar com ela. Claro, que vez ou outra ela parecia se lembrar de algo e passava a agir de forma irritante. Mas ela fazia aquilo em uma tentativa de convencer a si mesma que ela não havia mudado. Naruto sabia que aquilo era uma causa perdida, ele via nos olhos escurecidos dela. Sakura Haruno havia mudado. Todos eles tinham uma máscara que mostravam para as pessoas. E acontece que aquela era a dela. Era só uma questão de tempo até ela perceber isso.
Voltando a realidade, eles viram Sasuke, acompanhado de Kakashi, surgir, caminhando calmamente. Sasuke apenas acenou para eles, em cumprimento.
—Oi crianças... –Kakashi sorriu com os olhos- Estão prontos??
O enorme edifício da Divisão de Inteligência ficava afastado do centro da vila. Em uma enorme floresta no extremo da Vila. A sua localização era desconhecida pelos civis. Mesmo gennins não possuíam tais informações. Somente Chunnins e superiores recebiam tal conhecimento.
Por isso, Kakashi havia marcado o encontro nos limites daquela enorme floresta. E após uma corrida de breves minutos, eles enfim chegaram. Sendo que eles tiveram que mostrar as suas identificações com a assinatura do Sandaime para puderem entrar.
—Eu só posso chegar até aqui. –Kakashi falou, quando eles estavam logo na porta do edifício- Daqui em diante só os participantes podem entrar. Boa sorte, crianças. –Ele pareceu enfrentar um dilema por alguns minutos, antes de tacar o foda-se e abraçá-los apertadamente, um por um, aquilo os surpreendeu – Sobrevivam...
Vendo o quanto aquele homem estava abalado, eles apenas assentiram em concordância, ainda processando a cena...
—Obrigado, Sensei. –Naruto sorriu- Pode crer que nós vamos...
Um chunnin os acompanhou por aqueles longos corredores, até pararem numa porta com a escrita “Time Sete”. Ele deu dois leves toques, e a mesma se abriu revelando a Srª Kaneko por detrás dela, com os seus cabelos loiros platinados brilhando como sempre.
—Eu trouxe eles, Kaneko-san. –O Chunnin murmurou.
—Muito obrigada –ela murmurou, com a sua típica expressão de mármore endurecido- você pode vir buscá-los daqui há alguns minutos. –Ele assentiu, antes de se curvar e desaparecer- Entrem, meu caros.
Quando eles entraram naquela sala, perceberam que se tratava na verdade, de um vestiário. Havia um monte de peças de roupas espalhadas pelo local. Naruto e Sasuke passaram a olhar compulsivamente para os lados, procurando Seiji e o seu ridículo terno rosa, aparentemente ele não estava ali.
Como se lesse os seus pensamentos, Kaneko sussurrou:
—Ele está noutro camarote. Vendo outros times. A propósito... –Kaneko murmurou, antes de ir até um enorme closet e voltar com três embrulhos nas mãos- As vossas roupas...
Eles receberam de bom grado.
—Então... –Sakura começou- onde podemos nos trocar?
Kaneko suspirou. O pessoal de Konoha tinha um sério problema com a nudez. Na capital do País do Fogo, as pessoas eram mais desinibidas.
—Bom... aqui mesmo...
—Mas... eles são garotos...
Ela suspirou.
—Então tudo bem. Eles vão se trocar primeiro, depois você entra e se troca. Tudo bem?
Ela assentiu, antes de sair do vestiário por alguns minutos. Dando de ombros, Naruto se despiu das roupas que usava, ficando apenas de roupa interior, ele estava prestes a desembrulhar o uniforme pronto para o vestir, quando ele viu Kaneko diante de si. Com uma bandeja, contendo um tinteiro e uma estranha seringa.
Entendendo o olhar curioso nos rostos dos gennins, ela decidiu explicar:
—Essa seringa contém um pequeno dispositivo... que vai permitir aos...organizadores saberem a vossa exata localização na arena... e também, monitorar os vossos batimentos cardíacos...só assim saberemos se vocês... ainda estão... bem, vocês entenderam.
—E o tinteiro?
—Fuuinjutsu... eu tenho que colocar um selo em vocês –Eles viram, por um instante, os olhos inexpressivos dela pedirem desculpa- É um selo de contenção física... quando ativado... a vítima vai sentir um impulso elétrico atravessar o seu corpo... é só uma questão de minutos até chegar no coração e então...-ela suspirou- desculpe, é para evitar que os participantes fujam da arena... apesar de isso ser impossível... é só uma medida cautelosa...
Naruto apenas assentiu, com uma expressão indecifrável. Aquele exame era insano.
Ele sentiu uma pontada quando Kaneko inseriu a agulha na sua nuca, e uma dor ainda maior à medida que ela introduzia aquele líquido nele. Ele teve que ranger os dentes para não gritar.
Nos minutos seguintes, ela se ocupou em desenhar aquele complexo selo no peito desnudo de Naruto, bem encima do coração. Era um selo negro, semelhante a uma mão esquelética escura, bem sobre o seu coração, como se o apertasse.
Quando Kaneko foi fazer o mesmo no Uchiha, o loiro desembrulhou o uniforme e começou a vestir. Naruto era bastante alto para a idade, e o corpo dele era estranhamente esguio, com músculos densos e longos construídos para velocidade, não tão densos é claro, apenas o ideal para a velocidade e precisão que ele necessitava. Então, ele ficou surpreso com o quão bem lhe caiu, a contragosto, teve que admitir que Seiji havia feito um bom trabalho.
—Ficou ótimo... –Naruto viu Kaneko ficar ligeiramente enrubescida com o elogio, apesar dela disfarçar, parecendo entretida em desenhar o selo no Uchiha, que fazia pequenas caretas- Obrigado, Kaneko-san...
Ele olhou na figura refletida no espelho. Aquele uniforme era... lindo. Era bastante parecido com o usado pela ANBU. Ele usava uma regata e uma calça meio apertada completamente preta, como a ANBU, mas a diferença é que o tecido do colete que ele usava por cima, era feito de um material flexível e resistente, que ele sabia se chamar couro, que era de uma cor verde escura, tão escura que beirava o negro e possuía um capuz. Os protetores de braço também eram de couro e da mesma cor verde.
Naruto se lembrou que o uniforme de cada vila devia ter as principais cores que as representava. No caso de Konoha era aquele verde escuro, que lembrava as folhas de orvalho da enorme floresta do fogo... enfim, ele havia gostado do uniforme.
Naruto e Sasuke, já vestidos, saíram do vestiário por um instante, enquanto Sakura o adentrava, não sem ela antes os olhar afiadamente, parecendo admirada com o quão bem aquele uniforme assentava nas suas silhuetas.
—Naruto...
—Sim, Sasuke-kun?
Sasuke o olhou levemente irritado pelo ´´kun´´ sarcástico, mas depois pareceu suspirar longamente, para se acalmar. E só foi aí que Naruto reparou de verdade nele. Sasuke também tinha mudado. Fisicamente não muito, o cabelo dele tinha crescido um pouquinho e ele parecia um pouquinho mais alto, mas o que prendeu a atenção de Naruto foi a aura a volta dele. Ele estava mais... leve e calmo. Ele lembrava, e muito, o Sasuke antes de todo o seu clã ter sido assassinado. Calmo e sério, mas de vez em quando soltava um ou dois sorrisos. Mas ao mesmo tempo que ele parecia mais leve, os seus olhos estavam estranhamente afiados.... Se antes ele passava a sensação de uma shuriken, ele agora parecia uma katana longa e afiada... muito curioso. Ele voltou a realidade com a voz de Sasuke:
—Sakura...
—O que tem ela?
—Eu pensei bastante nela nesse último mês...-Sasuke tratou de se corrigir, ao ver o olhar malicioso de Naruto- não nesse sentido. Eu percebi que, realmente fui muito idiota ao obrigá-la a participar desse torneio... então... se algo acontecer comigo... você... você pode me prometer que vai protegê-la?
Naruto olhou para Sasuke longamente. Todo o humor havia se esvaído da expressão do loiro. Naruto de repente se lembrou da expressão quebrada de Sakura na floresta dos cachorros...
“Era uma noite fria. Mas não aquele frio desagradável ao ponto de você esfregar as mãos ao longo do corpo, ou se agasalhar em baixo das cobertas. Era mais... um frio gentil. Tão gentil quanto os dedos delicados de uma mãe que parecia acariciar os rostos serenos de Sakura e Naruto, sentados na grama úmida e verdejante, cada um parecendo entretido na tarefa de ler pergaminhos.
O silêncio era mais do que bem-vindo para o loiro, enquanto ele tentava entender aquele jutsu que o seu pai havia criado. Rasengan. Ele teria continuado por mais tempo, se não fosse o grito de Sakura:
—Ah, que jutsu complicado!
Naruto suspirou, abandonando por segundos a leitura.
—O que foi?
—Esse tal Kokuangyo no jutsu...
Naruto não conseguiu evitar sorrir:
—Óbvio. É um genjutsu rank S... claro que seria difícil. Mas se você aprendê-lo... até Jounnins têm dificuldades em se libertar. Até eu, na verdade.
—Mesmo?? –Ela parecia animada como uma criança que havia recebido doces, mas depois murchou- Eu não tenho chakra suficiente, eu conseguiria mantê-lo por um ou dois segundos no máximo...
—Entendo...
Naruto murmurou, antes de voltar a prestar atenção no seu pergaminho, não conseguiu realmente... ele ouviu aquela voz novamente, dessa vez parecendo estranhamente serena:
—Nee... Naruto, eu sou muito trouxa não?
Ele suspirou longamente. Abandonando o pergaminho de vez na grama. Ao que tudo indicava, ele não conseguiria ler naquele momento.
—Porquê você diz isso?
—Sasuke-kun...
Uma sombra de compreensão passou pelo rosto de Naruto.
—Ahm... aquilo que ele fez...
—Está falando de quando ele me beijou só para me convencer?
—Desculpe, isso foi... indelicado.
—Não. Tá tudo bem. –ela abraçou as próprias pernas por um momento- eu sou muito burra não? Colocando os meus pais em um genjutsu, colocando a minha vida em risco, e tudo porquê? Por alguém que simplesmente não dá a mínima para mim...
Naruto ficou sem palavras.
—Não sei o que dizer...
—Nem precisa –ela sorriu, meio quebrada- como você fez?
—Fiz o quê?
—Parou de gostar de mim? Quer dizer, antigamente você tinha um fraquinho por mim, não? Eu era muito cruel, e não dava a mínima para você. Então...Como você fez para seguir em frente?
Naruto ficou um longo minuto em silêncio, antes de sussurrar:
—Desculpe. Eu não acho que eu alguma vez tenha gostado de você...não realmente...você se lembra do quanto eu competia contra o Sasuke nessa idade? –ela assentiu- Então, acho que a minha obsessão por você era parte dessa rivalidade também, eu queria superar o Sasuke de alguma forma, e na minha mente ´´infantil´´, eu achava que conseguiria isso se “roubasse” você dele...
Naruto viu Sakura fazer uma expressão que ele não conseguiu identificar. O que era aquele olhar no rosto da rosada?
—Acho que... essa foi a coisa mais profunda que eu já ouvi de você...-Naruto assentiu. Antes de Sakura continuar, ainda com aquela expressão indecifrável.- Você realmente se tornou... esquece...
Naruto juntou as sobrancelhas de um jeito confuso:
—O que você quer dizer com isso?
—Nada, nada... -Ela apenas sorriu fraco, embora os seus olhos esmeraldas parecessem a ponto de chorar.- Um conselho?
—Bem...-os seus olhos azuis escureceram repentinamente, quase ficando negros- o amor leva ao caos, não a felicidade... só tenha isso em mente...
E então Naruto voltou a se concentrar no pergaminho sob os seus pés. Concentrado demais para reparar no olhar estranho no rosto de Sakura, enquanto ela observava a forma como ele cerrava os lábios quando tentava entender uma parte complicada daquele jutsu ou o quanto a pele bronzeada de Naruto parecia incrivelmente dourada pelas chamas da fogueira que haviam acendido... aquele olhar hipnotizado no rosto dela era definitivamente...”
Sasuke se arrepiou ao ver a expressão escura no rosto de Naruto. Era dura. Tão dura quanto mármore.
—Não. Você obrigou ela. Se algo acontecer, a culpa será sua. Inteiramente sua. –E acrescentou, quando viu Sasuke prestes a dizer uma outra coisa- Ela ficou forte, Sasuke... mas, se chegarmos a esse ponto...Você que vai fazer isso. Não eu. Então trate de ficar vivo.
Antes que ele respondesse, Sakura havia voltado.
—Uau... esse uniforme é...- ela parou, ao ver as expressões tensas e duras de Naruto e Sasuke- Eu perdi alguma coisa?
—Nada não, Sakura-chan. -O loiro tratou de sorrir, passando um braço, gentilmente, pelos ombros da rosada, ela corou ao sentir o cheiro da pele de Naruto. Canela e limão. — Uau. O uniforme ficou bom em você...
—Você acha?? –Ela colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha, as bochechas ligeiramente rosadas, parecendo envergonhada, mas os olhos estranhamente escurecidos- Aposto que vai ficar melhor quando eu pintá-lo de vermelho...
“Pintá-lo de vermelho...”
Naruto entendeu logo o que ela quis dizer. E aquilo trouxe um gosto estranho na sua boca. Antes que eles dissessem qualquer coisa, no entanto, o Chunnin apareceu novamente.
—Já estão prontos? Ótimo – A sua voz era mecânica- Então-
—Esperem –Kaneko murmurou, saindo do vestiário – Eu esqueci de algo... –Ela abriu a sua mão direita, ela tinha três broches prateados com um formato parecido à uma chama- O Daymiou-sama pediu que vocês usassem isso... ele simboliza as chamas do progresso da nação do fogo...
Os três entenderam logo que “pedir” na verdade era “ordenar”. Depois de prender os três broches no lado esquerdo do colete de cada um, bem no peito, ela sorriu para os três:
—Boa sorte... pode levá-los...
A expressão no rosto de Kaneko ao desejar boa sorte para eles ainda permanecia na mente de Naruto à medida que eles entravam em uma espécie de elevador. E com um som parecido à engrenagens rodando, o elevador se moveu para baixo, indo para o subterrâneo daquele enorme edifício. Aquela expressão no rosto dela... definitivamente era... pena. Ela tinha pena deles, como se soubesse o cruel destino que os aguardavam...
Naruto voltou a realidade, quando ele viu as portas do elevador se abrindo, e ele logo percebeu que aquele edifício era maior do que aparentava. Muito provavelmente a arena fora construída no subterrâneo daquele local. Caminhando por alguns minutos, Naruto se viu diante de uma estranha porta, coberta de selos.
-O que é isso?
O Chunnin olhou para o relógio que ele trazia no pulso. E estoicamente, murmruou:
—Faltam cinco minutos para o exame começar.
Naruto olhou para ele como se fosse louco.
—Você ainda não explicou nada.
—Certo...- Ele assentiu, meio mecanicamente.- Devido ao número exorbitante de participantes desse torneio...A fase preliminar do Shiren Shokan começará em exatos quatro minutos e quarenta e dois segundos, quarenta e um, quarenta... Essa porta... atrás dessa porta se encontra o local da fase preliminar. A “colheita”. Existe um complexo sistema de labirintos atrás dessa porta. O vosso objetivo é achar a saída. Ás exata oito horas, essa porta vai se abrir. Cada um dos cento e doze times inscritos, está nesse exato momento, diante de uma porta igual a essa, com um examinador. Nós só temos permissão para abrir essa porta às oito horas em ponto. –Ele parou para respirar- Quando isso acontecer, todos os times irão percorrer uma distância igual, até chegarem ao local destinado ao exame propriamente dito. O labirinto foi construído de modos a evitar que os times não se encontrem até que cheguem ao final. Ao longo do caminho... vocês acharão os equipamentos que irão usar quando o exame começar de verdade. Só os primeiros cinquenta e seis times que chegarem na saída irão participar do exame de fato, quem morrer ao longo do percurso, ou chegar depois, para todos os efeitos, será eliminado.
Os três se entreolharam. Sasuke murmurou:
—Bem... parece meio... simples. Eu esperava algo mais-
—Como eu já disse, é uma fase preliminar feita às pressas. Ninguém contava que tanta gente fosse participar. Esse ano será... –mas depois ele pareceu se lembrar de algo — E outra coisa... tenham cuidado com as... surpresas ao longo do caminho...
Naruto tinha um monte de perguntas, mas foi tudo o que o chunnin disse, antes do relógio apitar, e ele utilizar estranhos selos de mão para desfazer os selamentos sobre aquela porta de pedra. Ela se moveu lentamente para cima, provocando um som gutural ao deslizar pela superfície de pedra.
A primeira coisa que Naruto notou quando adentrou aquela porta, foi que eles estavam numa espécie de sala circular, e o quanto as paredes daquele labirinto eram... ásperas. Os rodeando, haviam cerca de oito corredores, tão longos que pareciam até infinitos, sendo iluminados pela luz dourada das tochas presas na parede.
E a terceira coisa que ele notou –talvez mais importante-, era o cheiro. Havia um estranho aroma no ar. Era algo meio metálico... definitivamente era...
A voz de Sakura o tirou de devaneios.
—Então... por onde nós vamos, Naruto-kun?
Naruto olhou para ela de cenho franzido pelo “Kun”, mas decidiu não comentar. Ele desviou o olhar para o Uchiha. Normalmente essa seria a hora em que Sasuke diria algo bastante idiota como “Eu serei o líder. Me sigam”. Mas, curiosamente, o Uchiha estava estranhamente calmo, e olhando para Naruto como se realmente esperasse que ele desse às ordens.
Naruto se agachou, os seus dois companheiros fizeram o mesmo.
—Bem...Primeiramente, nós temos que discutir algumas coisas...
Sasuke olhou para ele, parecendo prestar atenção.
—Como o quê?
—Bom... primeiramente, a nossa hierarquia e depois... o nosso plano de ação. Isso é a simulação de uma guerra no final das contas. Sem uma cadeia de comando clara, ou um plano de ação efetivo, a probabilidade de morrermos aumenta absurdamente. Então sugiro que nomeemos um líder.
Sasuke e Sakura se entreolharam, antes de soltarem risinhos. Naruto ficou confuso.
—Eu disse algo engraçado? -Eles se entreolharam, e sorriram novamente, Naruto trancou a cara- Falem logo...
—Naruto... –Sasuke murmurou, tentando parecer sério, quando na verdade se controlava para não rir- pensei que era meio óbvio... nós já temos um líder. Você.
Naruto viu Sakura assentir em concordância. Ele apenas suspirou. Não que fosse ruim mas...
—Posso saber o porquê?
—É difícil admitir isso mas... você é o mais forte entre nós, esticadinho.-Naruto arqueou uma sobrancelha, Sasuke agora fazia piadas sobre a sua altura? Tudo bem que ele era bastante alto para a idade mas... não esperava aquilo do Uchiha, ele continuou- E é claro que força não é tudo. Mas você é o melhor em analisar situações, e reagir da melhor forma possível. E também... caso algo der errado, é só culpar você.
—Sabia que aí tinha coisa, Uchiha maldito...
Sakura apenas colocou a mão na boca, para abafar o riso.
—Yare, yare... enfim, como agiremos, Naruto-taichou?
Ele sentiu um sorriso a caminho da sua garganta, mas ele se controlou para não sorrir. Antes de analisar atentamente os seus companheiros. Ambos estavam sorrindo e os seus olhos brilhavam de forma idiota, mas estranhamente, se você prestasse atenção, era visível nos seus orbes, ônix e esmeraldas, uma estranha chama. O tipo de chamas que se vê nos olhos Shinobis, enquanto assassinam bebés, queimam vilarejos e estupram mulheres. Aquela chama era... era o brilho de alguém que tivera olhado para o próprio demônio, e deste o encarou de volta, sorrindo. Aquilo era a insanidade pura.
“Esse exame será...”
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