Gênesis
32 Chuunin Chiken – Intragável verdade. PARTE UM. - The Lake Surface.
Notas iniciais
Ela sentiu um gosto ruim subindo lentamente pela sua garganta, e se misturando com a sua saliva. Se misturando com o salgado das suas lágrimas. Se misturando com a podridão da sua alma. Era doloroso. Odiosamente doloroso.
A culpa era como um atraente lago cristalino na superfície, mas que escondia um terrível monstro nas profundezas, e o pior? Ela estava afundando cada vez mais nele. Sendo tragada, lentamente, para mais fundo...e mais fundo...e mais fundo...
Ela sentiu braços a envolvendo e o cheiro inebriante de canela e limão adentrando as suas narinas. Alguém a estava abraçando, embora ela não soubesse exatamente quem. Ela apertou o cachecol vermelho de sangue –sangue dele- entre as suas mãos, não se importando em manchar a sua pele branca e imaculada com o líquido quente e escarlate. E como podia? Afinal era sua culpa. Ela fora uma completa covarde, e agora ele estava morto. O seu melhor amigo estava morto.
Era uma intragável verdade, escondida sob a superfície cristalina do lago.
*************************************************************************
TRÊS HORAS ANTES.
Naruto fechou os seus olhos, e pareceu pensar por alguns longos segundos. Ele ficou assim por alguns instantes, antes de piscar os seus cílios longos e dourados, e abrir os seus olhos, que brilhavam azuis. Tão azuis quanto o céu ensolarado.
—Oiçam...O nosso objetivo é só um. Além de passarmos nessa fase, a nossa prioridade é conseguir coletar o maior número de equipamentos shinobis, antes que a coisa fique feia. Kunais, Shurikens, fios de aços... tudo isso fará diferença entre a vitória ou a derrota. –Sakura e Sasuke pareciam prestar atenção no que ele falava- A nossa formação nessa fase será simples, eu estarei na frente, Sakura no meio e Sasuke no final. E antes que perguntem, essa é a melhor formação para essa fase. Nós estamos num labirinto, esses corredores estão longe de serem ideias para combates shinobis. A maioria dos ninjutsus, são desaconselháveis em locais tão apertados. Sasuke, por exemplo, não poderá usar a maior parte dos seus jutsus katon, pois existe o risco de sermos atingidos. Por isso eu irei à frente. Com os meus reflexos e velocidade, aliados à minha habilidade sensorial, eu conseguirei detectar ataques frontais e reagir a tempo. Já a Sakura... bom, ela usa genjutsu. Então é a única que poderá usar jutsus sem restrições. Por isso ela servirá de apoio, ou para mim, ou para você Sasuke, que vai estar cuidando da retaguarda. Bem... isso é só um esboço... tenham em mente que essa formação não é imutável. Teoricamente, não existe tal coisa de “formação perfeita”. Há algumas situações específicas, nas quais precisaríamos fazer alguns ajustes na formação. Mas no momento, esse é o melhor plano. Entenderam?
Eles olharam para ele abismado. Para Naruto ter pensado em tudo aquilo só naquele exato momento, quão afiada era a mente daquele garoto?? Eles apenas assentiram.
—Mas sinceramente Naruto...-Sasuke murmurou- Tem algo me incomodando... isso é um labirinto. Tem oito corredores nos rodeando. E estou certo de que, muitos deles, levam para um beco sem saída. Não há qualquer tipo de pista. Então teríamos que atravessar cada um deles, até acharmos o correto. E isso seria idiotice. Não sabemos que tipo de armadilhas nos esperam.
Sasuke viu um sorriso insano nascer no rosto de Naruto. Ele se arrepiou.
—Não necessariamente. Você lembra o que o chunnin disse? “Só os primeiros cinquenta e seis times que chegarem na saída irão participar do exame de fato, quem morrer ao longo do percurso, ou chegar depois, para todos os efeitos, será eliminado.” Analisando essa frase, o que você consegue entender?
Sakura ergueu uma mão. Naruto passou pelo olhar que ela podia falar.
—Etto...isso quer dizer que não há restrição de tempo, certo?
—Correto.
Sasuke estreitou os olhos.
—Então... essa fase pode durar dias... ou semanas?
Naruto balançou a cabeça.
—Não seja tolo. Ele disse que eles fizeram essa fase “às pressas”, devido ao número exorbitante de participantes. Os nobres que vieram assistir esse torneio, não têm tanto tempo livre assim. Eles não desperdiçariam dias numa fase “preliminar” como essa. Não quando eles querem ver o banho de sangue principal. Na verdade, acho que essa fase terminará daqui há seis... não...cinco horas? Ou pode ser menos que isso. Que seja, nós faremos em duas horas.
—Como assim?
Naruto concentrou chakra Raiton no seu indicador, e começou a rabiscar uma estrutura complexa no chão de pedra.
—Tem algo que ele disse que me deixou incomodado... “nenhum dos cento e doze times inscritos conseguirão se encontrar antes de chegarem à saída”. E isso é impossível. Não tem como terem elaborado um labirinto diferente para cada um dos cento e doze times. Isso é virtualmente impossível. Então provavelmente, esse apenas é um enorme labirinto, com milhares de rotas falsas construídas às pressas. E umas centenas de rotas que fazem parte da estrutura “antiga” que levam ao centro... –Ele fez uma pausa- ou seja, temos que achar o labirinto dentro do labirinto. Fazendo um cálculo rápido...–Naruto franziu o cenho- entre esses oito corredores, apenas um é o correto. Os outros nos fariam vagar por dias. O que não é, de forma alguma, viável.
Sakura ergueu a mão novamente.
—Então...como saberemos qual é a rota correta? Digo, para adentrarmos o “verdadeiro” labirinto.
Naruto fez um gesto para que eles se levantassem.
—É só descobrirmos qual é o corredor mais antigo... e isso é uma completa brincadeira de criança... –ele apontou para o próprio nariz- O cheiro...
Eles olharam para ele como se fosse louco. Naruto suspirou, antes de escolher um corredor qualquer e começar a caminhar calmamente. Eles correram atrás dele.
—Espere, imbecil...-Sasuke murmurou- não vá escolhendo ao acaso...
—Quem disse que foi ao acaso? Como eu disse... o cheiro...
Sasuke franziu o cenho. E passou pelo olhar que queria que Naruto explicasse.
—Logo que nós entramos aqui eu senti um cheiro estranho... um cheiro metálico e pungente. À princípio achei que fosse sangue... mas... é cheiro de ácido, na verdade...-Naruto suspirou novamente, ao notar que eles mesmo assim não haviam entendido- Vocês gostam de Botânica? Eu gosto.
Sakura pareceu arregalar os olhos, como se finalmente entendesse. Não era à toa que ela tinha as melhores notas nas disciplinas teóricas. Sasuke, no entanto, os olhou como se fossem loucos.
—Continuo não entendendo.
Naruto suspirou novamente. Antes de apontar o indicador para cima.
Sasuke estreitou os olhos, quando percebeu que as paredes estavam revestidas por uma camada verde e bolorenta.
—As paredes rochosas estão cheias de musgos... Tá e daí? Isso não quer dizer nada, os outros corredores também têm musgos. Eles pensaram em tudo. Os fizeram exatamente iguais.
Naruto suspirou, parecendo concentrado no caminho à sua frente. Os seus olhos estavam estreitados, com as suas pupilas dilatadas para se ajustarem à pouca luminosidade do local.
—Você tem razão. Não seríamos capazes de escolher o corredor certo só por isso. E aqui é que entra o meu olfato... o que a maioria das pessoas não sabem, é que, esses fungos... depois de meses, ou anos, vivendo num local... a fim de detorarem os minerais presentes nas superfícies rochosas, eles liberam um ácido com um odor bem característico,... ou seja...
—O corredor mais antigo é aquele com um... cheiro ácido.
—Correto. Mas provavelmente deve ter mais formas de descobrir isso. Os gennins da Vila da Pedra, por exemplo... eles poderiam saber a idade de uma rocha só tocando nela... os gennins de Kiri, podem tentar detectar a umidade infiltrada nessas paredes...enfim... tem um monte de métodos diferentes para saber qual é o corredor correto. Aposto que se pensássemos melhor acharíamos uma outra pista. Mas que seja. São meros detalhes...esse apenas foi o que mais me chamou a atenção–Repentinamente, o loiro parou de caminhar. Eles haviam chegado à uma espécie de bifurcação, em que aquele longo corredor, dividia-se em dois- Mas é claro... isso apenas significa que estamos no verdadeiro labirinto. Ainda assim temos que descobrir como sair daqui...-Naruto parou o que dizia, e um sorriso, muito lentamente rasgou o seu rosto- Não acredito....
Sasuke e Sakura olharam para ele como se tivesse endoidado. Ele continuou sorrindo.
—Não me olhem assim...Tem o chakra de alguém mais à frente... e ele está sozinho, muito curioso...
Sasuke e Sakura arregalaram os olhos.
—Tem alguém mais à frente? –A rosada parecia genuinamente confusa- Mas aquele Chunnin disse que não tinha como encontrarmos outros concorrentes!
Naruto escolheu deliberadamente o corredor à sua direita, de onde ele sentia o chakra.
—Correcto. –Naruto ainda continuava sorrindo- Ele disse outros “concorrentes”. Pode ser que seja... bom, fiquem atentos.
Eles caminharam por mais alguns minutos, antes de finalmente avistarem uma estranha silhueta, alguns metros à frente. As tochas presas nas paredes daquele labirinto, dançavam lentamente, iluminando o local com chamas douradas.
Era um homem, no mínimo esquisito. Altura mediana, cabelos escuros e arrepiados, e vestia um uniforme completamente cinza, com o número #34 estampado. Mas é claro, não foi isso que chamou atenção de Naruto. Envolvido pelas pesadas sombras das tochas, o rosto daquele estranho homem parecia estranhamento macabro e o seu chakra... ele até parecia ser forte. Nível chunnin... não. Nível Jounnin, definitivamente.
O homem estalou o pescoço, sorrindo macabramente ao vê-los.
—Eu estava esperando vocês...
Naruto não era burro. Ele conhecia aquele uniforme que ele estava usando. Era o uniforme da Penitenciária da Nação do Fogo, ou como era carinhosamente chamada, “O Purgatório”. Uma prisão de segurança máxima para Shinobis de Nível Jounnin e acima. Então Naruto finalmente entendeu quais seriam as surpresas que eles encontrariam naquele local... Naruto suspirou.
“Eles liberaram criminosos em prisão perpétua? Isso é sério? Em um exame Chunnin? Agora que eu presto atenção...Eu consigo sentir os chakras. Tem criminosos de nível Jounnin aqui... espera... tem até ex-ANBUS... isso é insano...”
—Me deixe adivinhar...você está aqui para nos impedir, certo?? –Eles viram o sorriso daquele homem se alargar, tomaram aquilo como um sim, Naruto suspirou novamente- Eu não vou, sequer, tentar dissuadi-lo. Mas... porque você está fazendo isso?
—Por cada gennin que nós matarmos... eles reduzirão um ano da nossa pena... vocês são três... –Ele murmurou, e só então Naruto notou algo: Aquele homem tinha uma espécie de arco na sua mão direita. Ele retirou três flechas na alijava que estava presa nas suas costas, e colocou na corda do arco- faltam apenas noventa...
—Entendo... então eles te ofereceram algo bom o bastante para você oferecer a sua vida. Não foi obrigatório. Bom saber.
Foi tudo o que Naruto disse, antes de ver o estranho homem endireitar o tronco, e apontar as três flechas para os gennins. Como se fosse um truque de mágica, eles viram as setas das flechas pegarem fogo, antes dele soltar. Aquilo era... ele estava revestindo as flechas com chakra Katon. Muito esperto, Naruto pensou. Elas cortaram o ar com uma velocidade assustadora, em direção a Naruto, que estava diante dos seus companheiros. O loiro apenas sorriu, antes de concentrar chakra suiton na ponta dos dedos e fazer três simples movimentos com o braço, cortando as flechas ao meio com o chakra afiado e aquoso.
“Suiton – Mizu no Yaiba.”
Antes que eles comemorassem, no entanto, eles viram aquele homem colocando quatro novas flechas flamejantes no arco, com um olhar assassino no rosto.
—Sakura...
Foi tudo o que Naruto murmurou. A rosada entendeu o recado, se movendo em uma velocidade absurda em direção ao inimigo.
Ele terminou de colocar as novas flechas, no exato instante em que Sakura apareceu à sua frente, ele sorriu doentiamente, antes de soltá-las, porém, quando as setas estavam à milímetros de trespassarem o peito da rosada, o corpo dela se esvaiu como névoa, se desmanchando em um monte de pétalas rosadas, rodeando o inimigo como um redemoinho de pétalas de cerejeiras.
Ele ficou repentinamente paralisado, os olhos completamente brancos e vidrados, até que ela apareceu sobre ele, de cabeça para baixo, com as sandálias coladas no teto rochoso daquele labirinto, e com um giro dos seus braços longos e finos, ouviu-se um som estalado, parecido com crack, enquanto a cabeça dele rodava completamente sobre o pescoço, em um giro de 360º.
Ele caiu no chão, os olhos completamente brancos enxergando o nada, o arco e as flechas abandonados no chão, e saliva escorrendo no canto da boca. Ele estava morto.
Sasuke olhou para aquilo espantado... tudo bem que Naruto tinha dito que ela havia ficado forte mas... Aquilo era insano.
Fisicamente, é claro que ela tinha melhorado. Estava mais rápida e os seus reflexos mais afiados e aguçados, mas não em um nível incomum para a maioria dos chunnins, é claro. O que assustava Sasuke, de verdade, era o quão insana ela estava em genjutsu.
Sendo um Uchiha, ele sabia que aquele genjutsu que ela havia usado foi usado com uma precisão assustadora, para não dizer perfeita.
A maioria dos shinobis evitavam usar genjutsu precisamente por aquele motivo. Era incrivelmente difícil ´´manter´´ um fluxo de chakra constante para prender a vítima em uma ilusão, a maioria em algum momento falhava a dosagem de chakra e a vítima, quando percebia isso, notava que estava em uma ilusão, conseguindo se libertar. Mas ele sabia que o jutsu de Sakura havia sido perfeito. Tão perfeito e entorpecedor que o nukenin nem havia sentido o momento em que ele deixou esse mundo. Mas mais do que isso, a expressão no rosto de Sakura enquanto o matava era... vazia. Tão vazia quanto a expressão que alguém faz depois de pisotear uma barata que havia pousado na sua comida.
Naruto sabia o que se passava na mente dela. Era o que todo shinobi sentia depois de matar alguém. Aquela sensação de vazio...Apenas um alvo riscado. Apenas um número qualquer em um relatório que teriam que escrever mais tarde. Apenas um...nada. Mas ele sabia que, alguns dias depois, Sakura choraria.
Poderia ser enquanto ela comia, ou enquanto ela escolhia uma roupa para vestir. Ela sentiria lágrimas deslizando pelo seu rosto, e ela ficaria admirada do porquê de estar chorando. Ser um assassino era... complicado.
Ele colocou, lentamente, a sua mão no ombro da rosada. Ela pareceu despertar do torpor.
—Sakura...-ela piscou os cílios longos, com se despertasse de um longo sono- Tudo bem?
Ela assentiu. Ainda com aquela expressão incrivelmente vazia. Tão vazia quanto um quadro em branco.
—Hai...-Naruto estava prestes a sorrir de alívio, quando ouviu o resto- Acabei de notar que, nem sei o nome dele... E isso é muito engraçado. Eu matei ele, e nem sei o seu nome.
Vendo a expressão vazia no rosto escurecido da Haruno, Naruto apenas soltou um longo suspiro.
—Bom... se te serve de consolo...eu também não sei o nome dele...
A rosada exibiu um curto sorriso de canto pela piada ruim, embora parecesse bastante forçado.
—Isso foi muito ruim, Naruto-kun...
Naruto apenas sorriu de canto.
—É mesmo? Apenas...Vamos continuar.
Antes que eles continuassem caminhando, no entanto, eles ouviram a voz de Sasuke, os chamando alguns metros mais à frente. Quando chegaram lá, eles o encontraram segurando uma estranha mochila.
—Onde você achou isso?
Sasuke apontou para o teto rochoso daquele labirinto, tinha um fio de aço preso cortado ao meio, provavelmente que conectava o teto e a mochila.
—Encontrei aqui pendurado... provavelmente é a nossa recompensa por termos... eliminado aquele cara...
—Entendo...então é assim que nós coletamos itens... –Naruto viu Sasuke assentindo, antes de pegar no zíper da mochila, pronto para abrir. Ele parou o Uchiha- O que diabos você está fazendo? Pode estar armadilhado... se afaste...
Ele fez um clone das sombras e o ordenou que fosse abrir a mochila alguns metros adiante. No entanto, nada aconteceu. Alguns segundos depois o clone voltou com a mochila.
—Tudo livre chefinho... -O loiro recebeu a mochila nas mãos do clone — Mais alguma coisa?
Naruto pensou por alguns segundos.
—Sim... você poderia, por favor, explorar o labirinto enquanto nós tentamos ver o que tem na mochila? –O clone assentiu, antes de desaparecer diante dos seus olhos, em um borrão de velocidade.
—Certo...- O Uzumaki viu Sasuke e Sakura se aproximando, curiosos. Ele abriu, muito lentamente, a mochila – Então... interessante... tem dois sacos de dormir... duas bolsas shinobi com vinte kunais e quinze shurikens cada... vinte metros de fios de aço...seis barras de rações para emergências... e três cantis de água, aparentemente vazios. –Ele deu uma risada- Isso foi muito cruel... acho que é tudo.
Eles se entreolharam. Sasuke levantou a mão.
—Eu proponho que a gente divida igualmente esses itens...
—Lógico que sim. — Naruto olhou para ele como se fosse louco. — Mas o fato de você ter dito isso em voz alta me deixa estranhamente desconfiado...
—O que você quer dizer com isso??
—Nada, nada.... enfim...
Foi tudo o que Naruto disse antes de, começar a dividir de facto. No final, tanto Sasuke quanto Sakura acabaram ficando cada um com uma bolsa shinobi, dez metros de fios de aço, duas barras de rações e um cantil de água. Os sacos de dormir, obviamente, permaneceram na mochila.
—Espere... Naruto...-Sakura finalmente murmurou, a voz não passando de um sussurro contido- eu sinto que isso ficou meio desigual...
O loiro deu de ombros.
—Eu raramente uso kunais e shurikens. Então vocês podem ficar com todas. Mas é claro... isso não será de graça...
—O que você quer?
—Caso a gente ache uma katana... ela será minha. Estão de acordo?
Eles assentiram. Era um pedido bastante razoável. Além de que... nenhum deles sabia kenjutsu. Sasuke e Sakura prenderam as bolsas shinobis nas barras das calças que usavam, e guardaram as rações nos bolsos do colete que usavam. Eles viram Naruto fechando a mochila, antes de jogá-la novamente para o Uchiha, que a colocou nas costas.
—E falando em Katana...isso me lembra que...-Naruto murmurou, se afastando dos seus companheiros por alguns segundos, apenas para voltar, no minuto seguinte, com um arco na mão esquerda, assim como uma alijava com flechas presa nas costas- Bem... alguém aqui sabe usar um arco?
Era bastante difícil ver shinobis usando um arco, porque segundo eles, kunais eram bem mais efetivas e fáceis de carregar. Apesar de que, Naruto, depois de ver aquele Shinobi lutando, passou a não concordar muito com aquilo. Veja bem, nas mãos de um shinobi habilidoso, arcos poderiam se tornar mais efetivos que kunais.
E aquele Shinobi era um bom exemplo daquilo. Ele revestia as flechas com chakra katon, antes de arremessá-las. Um modo de luta interessante, e bem raro na verdade. Ele atirava flechas atrás de flechas, com uma velocidade descomunal. Naruto sabia que a grande maioria dos Shinobis não possuíam reflexos rápidos o bastante para desviar de uma saraivada de flechas flamejantes... Eles só haviam conseguido vencê-lo tão rapidamente, por um simples motivo: arqueiros eram péssimos à curta distância. Em um labirinto estreito como aquele, era impossível lutar a longa distância, o que obrigava os oponentes a se aproximarem. Se eles tivessem lutado, por exemplo, em uma floresta... aquela luta poderia ter sido muito mais interessante...
Ele interrompeu os seus devaneios, quando, surpreendentemente, viu a rosada erguer a mão. Naruto estreitou os olhos, com a sombra de um sorriso tremendo nos seus lábios. Mas ele se controlou, antes de entregar o arco e a alijava contendo as flechas para a Rosada.
Sakura prendeu a alijava nas suas costas, enquanto firmava o aperto dos seus dedos no arco. Ela conteve um suspiro de prazer. Mesmo depois de tantos anos, a sua mão esquerda ainda se lembrava da sensação de segurar um arco.
Muito lentamente, ela testou a resistência da corda, e a qualidade do material que haviam usado para manufaturar aquele arco. Era um arco composto, um tipo bem moderno, em comparação com o velho arco de madeira entrelaçada que usava na infância.
O centro era feito totalmente de alumínio, com uma corda interligada à duas roldanas nas extremidades, o que diminuía absurdamente a força necessária para tensionar a corda, além de possibilitar uma maior potência e precisão do disparo. Resumindo, era um arco muito bom...
Ela usou a sua mão direita para pegar uma flecha –elas eram feitas de fibras de carbono- da sua alijava e colocá-la na corda do arco.
Ela endireitou o seu tronco, o que não foi difícil -O seu corpo ainda se lembrava perfeitamente daquela postura- e esticou o seu braço esquerdo, com o arco entre os dedos, antes de encaixar perfeitamente a seta no centro da corda, e puxar, muito lentamente, a corda. Sentindo os nós do seu dedo ficarem brancos pela força do aperto. Ela inspirou, muito lentamente, sentindo os seus pulmões se encherem de ar. As suas pupilas esmeraldas escureceram lentamente, enquanto ela mirava em uma tocha, bem no fundo daquele longo corredor. E, com uma suavidade assustadora, ela soltou.
Durou menos do que um piscar de olhos. Mas para Sasuke, que observava atentamente cada movimento rosada, pareceu uma eternidade. Ele ouviu o silvo agudo produzido pela flecha enquanto deslizava pelo ar em uma velocidade absurda, antes de acertar aquela tocha, penetrando no pedaço de madeira, como uma faca penetrando em um pedaço de manteiga.
Mas melhor do que aquilo, foi o sorriso que ele viu pintado nos lábios desenhados da rosada. Os mesmos lábios, que uma vez, haviam tocado os seus. O Uchiha fez uma nota mental: Sakura ficava incrivelmente bela sorrindo.
O som de Naruto batendo palmas interrompeu os devaneios de Sasuke.
—Uau, Sakura-chan... isso foi...incrível.
Ela colocou uma mecha dos fios róseos atrás da orelha, parecendo encabulada ao ver o sorriso radiante no rosto do loiro.
—Você acha?? –O loiro assentiu, novamente- Bem... meu pai me ensinou, quando eu era mais nova.
Sasuke, até então em silêncio, se pronunciou, finalmente.
—Achei que ele fosse civil...
—Ele é civil, isso é verdade. Mas ele descende de um clã de nômades que, antes da formação das vilas ocultas, dependiam, basicamente da caça para sobreviver. Quando mais nova, ele me ensinou a usar um arco, assim como o seu pai havia o ensinado, e o seu avô havia ensinado à seu pai. Não chegamos a caçar é claro... até porque... eu parei de praticar quando entrei na Academia. .... Mas ele ficou bem triste. Ele dizia que eu era muito... talentosa.
Naruto assentiu.
—Ele tem razão. Você é muito boa...Porque parou?
Ela ficou com um quase imperceptível rubor na face pálida.
—Porque eu achava que não era algo muito feminino... e eu precisava ser mais feminina...
Naruto colocou uma mão no ombro dela, antes de arquear os lábios, em um sorriso- Bem... isso eu não sei não. Mesmo com um arco, eu ainda te acho bastante feminina...
—B-baka....
Ela corou violentamente, enquanto ajeitava nervosamente a alijava nas suas costas e firmava o seu aperto no arco na sua mão esquerda. Naruto apenas continuou sorrindo.
Sasuke apenas observava a interação deles com as sobrancelhas franzidas. O Uchiha, desde muito novo, sempre foi um excelente observador. O tipo de criança que procurava sempre saber o porquê das coisas. Além de ser excelente em montar quebra-cabeças. E, naquele momento, ele finalmente viu todas as peças se encaixando, como um puzzle. A forma estranha como Sakura vivia agindo ultimamente na presença do loiro...aquele brilho nos olhos dela eram... estranhamente, aquilo trouxe um sabor muito ruim na boca do Uchiha...
Repentinamente, eles viram o rosto de Naruto mudar, ao ver loiro fazendo uma expressão estranhamente séria e profunda:
—O que houve, Naruto-kun?
Ele ficou estranhamente em silêncio, por um longo minuto.
—Bem, vocês querem as boas, ou as más notícias?
Sasuke pareceu perder a paciência.
—Que seja...apenas, fale logo...
Naruto apenas suspirou, antes de começar a caminhar. Sakura e Sasuke apenas o acompanharam, enquanto ele começava a falar.
—O meu clone acabou de se dissipar, e eu recebi as suas memórias. A boa notícia? Ele achou a saída...A má notícia? Tem alguém bastante problemático lá... Tanto que esse alguém acabou de fatiar o meu clone com uma facilidade assustadora...é só um clone, é claro...nem chega perto da minha força real... mas aquela lâmina negra que ele viu antes de ser cortado...
—O que é que tem?
Naruto apenas olhou para o Uchiha de soslaio.
—Digamos que, se for a lâmina que eu estou pensando... os “organizadores” são mais insanos do que eu pensava...
Eles caminharam por mais alguns minutos, e então Sasuke e Sakura finalmente entenderam do que Naruto estava falando. Em um dado ponto, quanto mais eles se aproximavam da saída, maior era aquela sensação sufocante. Havia um estranho e pesado miasma de emoções negativas permeando o ar.
Era difícil caminhar, como se houvesse uma lama negra afundando cada vez mais os seus pés, a cada passo que dessem... mais difícil era levar ar para os pulmões, como se estivessem inalando névoa negra ao invés de ar. Imediatamente eles se lembraram da Floresta do Cachorro. Se a atmosfera daquela gentil floresta era comparável ao abraço carinhoso de uma mãe, que os livrava de qualquer tipo de dor...a atmosfera daquele local, era exatamente o oposto. Era como se houvessem correntes negras e invisíveis comprimindo os seus corações.
Mas o mais estranho era...que eles ainda assim continuavam caminhando.
Eles entraram por corredores cada vez mais estranhos, se embrenhando cada vez mais no labirinto. Realmente, se não fosse o clone de Naruto, eles teriam levado bastante tempo para achar aquele caminho...
Até que finalmente, eles viram a fonte de toda aquela sensação. Estavam em uma sala circular, bastante similar a primeira sala no início do labirinto. Esta sala, assim como aquela, tinha o piso, paredes e teto, completamente entalhada pelas mesmas pedras, e haviam um monte de tochas presas nas paredes, iluminando aquele local, e tinha uma porta de pedra no fundo da sala, onde, provavelmente, era a saída da sala.
Mas o mais importante, provavelmente, era o homem de olhos vendados, sentado em forma de lótus no meio da sala, com uma katana negra repousando no colo. Bastou um olhar, apenas um olhar. E imediatamente, todos eles sentiram. Aquele homem era... um monstro, no verdadeiro sentido da palavra.
Fale com o autor