Gênesis
33 Chuunin Chiken – Intragável verdade. PARTE DOIS. – Deep Waters.
Notas iniciais
“É minha culpa.
Eu vi as nuvens escurecendo...
Eu senti o vento, violento, acariciando o meu rosto...
Eu vi a tempestade se formando...
Eu vi as ondas se agitarem...
Mas ainda assim, ainda assim eu deixei vocês se afogarem na água escura e fria...
Se debatendo por uma lufada de ar...”.
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Os gennins ficaram um longo minuto em silêncio. Apenas encarando aquele homem. Não havia realmente muito a se falar diante daquela cena. Havia uma estranha tensão presente no ar e uma estranha sensação se alastrando, lentamente, pelos seus ossos. Como chamas consumindo um camundongo. Somente Shinobis que já haviam olhado nos olhos da Morte saberiam que sensação era aquela. Aquele arrepio se espalhando pelo corpo, era um mau agouro. Eles sabiam.
Eles acharam terem visto a sombra de um sorriso de canto no estranho homem, antes de ele, calmamente, se erguer do chão. Era um senhor de idade bastante avançada, beirando os noventa e poucos anos. Ele possuía longos fios de cabelos cinza, que nem o uniforme da penitenciária que ele trajava, com o número #1992 estampado no peito.
Naruto apenas continuou com uma expressão indecifrável. Ele havia lido em algum lugar que... os números dos prisioneiros eram dados tendo em conta o número de assassinatos que eles haviam cometido... E aquele homem era o #1992.
—Nós...Vamos lutar, não é?
Ele viu a sombra de um sorriso rasgar o rosto daquele homem, como se lesse os seus pensamentos.
—Hai...
A voz daquele homem não passava de um sussurro profundo, desprovido de qualquer traço de emoção. Era semelhante ao som de um vento sussurrando em uma montanha.
Naruto não falou nada. Não havia realmente muito a ser dito.
O velhote colocou a sua mão direita no cabo ebanizado da espada, a sua mão permaneceu aí repousada, como se ele pensasse se devia ou não desembainhá-la...
—Naruto...-O loiro desviou o seu olhar para Sakura e Sasuke, e imediatamente ele se lembrou do combate que tiveram contra Zabuza no País da Névoa. Aquela sensação de antecipação que os permeava era incrivelmente familiar. – O que faremos?
Mas qualquer semelhança com o País das Ondas se esvaiu quando ele finalmente reparou nas expressões nos rostos deles. Eles estavam serenos, estranhamente serenos. Ele esperava os ver tremendo de medo, mas ele de repente se lembrou que eles haviam mudado. Todos eles haviam mudado nesse tempo. Naruto não conteu o sorriso:
—Os “Organizadores” devem estar realmente com vontade de eliminar concorrentes... Sasuke, Sakura. Desculpe, mas eu vou ficar um pouco sério.... -eles viram os dois orbes azuis do loiro escurecerem em uma expressão completamente vazia, mas, estranhamente, havia uma fagulha de excitação naqueles olhos. Era meio insano.
Sakura, muito lentamente, retirou três fechas da alijava presa nas suas costas e as colocou na corda do arco. Os seus olhos acendiam como esmeraldas, em um contraste com a sua expressão vazia enquanto mirava o arco no #1992.
—Bem...eu também...acho...
Naruto apenas ouviu Sasuke soltar um ´´humpf´´ antes de ativar o seu doujutsu. Os seus orbes brilharam escarlates como sangue, com três tomoe girando absurdamente no seu interior. Aquilo fez Naruto arquear uma sobrancelha. Quando foi que o Uchiha havia atingido o último nível do doujutsu?!
Ele deixou aquele pensamento para raciocinar depois. Quando estivesse deitado na sua cama confortável e sem nada para fazer. Por agora...ele tinha alguém bastante problemático para lidar...
—Sasuke, Sakura...Formação Beta...-Eles assentiram, se posicionando de maneira estratégica ao lado do loiro- e...alguém me dê uma Kunai...-Sasuke bufou, antes de tirar uma Kunai na sua bolsa e entregar para o loiro- Obrigado...
Todo esse tempo, #1992 apenas continuou os analisando, o braço pendendo, com a mão repousada no cabo da katana e a mesma expressão vazia, não parecendo interessado em atacar.
Naruto firmou o seu aperto na Kunai entre os seus dedos, antes de concentrar chakra Raiton nela. A sua lâmina se alongou, em um formato elétrico e rodeado de raios crepitando e afiados. Era uma pseudo-Lâmina do Trovão. Era o melhor que ele podia fazer no momento...
Um misto de emoções passou pelo rosto velho e enrugado do espadachim. Antes de ele inspirar o ar de forma longa e profunda. Ele, muito lentamente, foi deslizando a lâmina ebanizada para fora da bainha completamente negra... a cada milímetro retirado, um som gutural, semelhante à uma besta roçando as garras em metal, ecoava pela sala, assim como o miasma negativo se tornava mais pesado...aquela espada era...a muramasa. Uma lendária lâmina amaldiçoada.
Reza a lenda que, certa feita, a Vila da Névoa requisitou sete espadas ao maior artesão que já andou por aquelas terras. As suas mãos eram talentosas e calejadas, ao ponto de forjarem as sete lâminas lendárias da Névoa em menos de um ano. Mas... aquelas katanas formidáveis, estavam longe de serem a sua obra-prima. Ele passou o resto dos seus dias forjando uma katana em especial. Ele passou, manhãs, tardes e noites, simplesmente martelando. Mesclando o metal incandescente ao seu suor, suas lágrimas, suas mãos calejadas, sua alma... não era exagero dizer que ele havia colocado a sua alma naquela katana, literalmente.
Dizem, inclusive, que ele chegou a fazer uma oferenda à um demônio, ele queria que aquela fosse a melhor katana de todas. O demônio aceitou, em troca da sua alma. Amaldiçoando a Katana com uma sede insaciável em ser a melhor, assim como o seu forjador, que queimou pelos restos dos seus dias nas chamas do Yomi, com um sorriso no rosto.
Ao longo dos anos, ela passou de mãos em mãos, dilacerando mais carnes e coletando mais sangue do que qualquer outra lâmina, tanto sangue que a Katana passou a ter vida própria. Dizem que a sua sede insaciável a fazia consumir lentamente a personalidade de quem a empunhava, o transformando em um assassino de centenas. Assim como aquele homem diante de si.
Ele havia lido o BINGO BOOK. Se Naruto bem se lembrava, ele era um antigo monge do templo do fogo. Antes de achar a katana selada numa sala secreta do templo. Ele acabou enlouquecendo, acabando por fatiar os próprios companheiros. Mas não parou por aí. Ele se voltou para os vilarejos próximos do Templo do fogo, e muito simplesmente, fatiou todo mundo. A terra ficou completamente escarlate naquele dia, como se houvesse chovido sangue...
Aquilo aconteceu há um bom tempo atrás, bem na época do Nidaime Hokage. Por isso Naruto sabia daquela história. Tobirama havia contado para ele vezes sem conta. O próprio Nidaime havia derrotado aquele homem, e aquilo não havia sido uma tarefa fácil...
Quando #1992 terminou de desembainhar a lâmina Negra, a gravidade pareceu aumentar absurdamente naquele local. Assim como uma estranha névoa negra passou a cobrir aquela sala. Toda aquela sede de sangue que era desprendida pela lâmina era insana. Absurdamente insana. A própria aura à volta daquele homem havia mudado.
Até àquele instante, ele passava a sensação vazia de um animal morto, mas a partir do instante que ele desembainhou aquela katana...a sua aura mudou assustadoramente. Ele, inclusive, passou a ostentar um sorriso insano no meio dos lábios. Parecia uma outra pessoa, até.
Durou menos que um segundo. Eles ficaram se analisando por segundos, procurando aberturas nas posturas um do outro. Em um momento tão rápido quanto um bater de asas de uma borboleta, Naruto viu os músculos daquele homem se tencionarem, e no instante seguinte, ele havia quebrado a distância entre eles.
Naruto moveu a sua kunai elétrica, impedindo que aquela lâmina negra separasse a sua cabeça do restante do seu corpo. Ele sentiu o suor escorrendo pela sua face. Um milésimo a menos de reação, e ele estaria morto. Aquele homem era um monstro.
Sentindo um calor à sua direita, #1992 se afastou com um mortal, antes que uma enorme bola de chamas o engolisse.
—Katon-Goukakyuu no Jutsu.
Mal os seus pés tocaram o chão, ele balançou a sua katana negra, rebatendo uma saraivada de flechas velozes disparadas por Sakura. No exato instante em que ele cortava ao meio à última flecha, por puro instinto, ele prestou atenção para o alto, percebendo o Uzumaki, com as sandálias coladas no teto apedregulhado daquela salda. O loiro, concentrando chakra nas solas, tomou impulso, disparando como uma bala envolta por raios em sua direção.
—Raijin ryu-Raijin yari.(Estilo do Deus do Trovão-Lança do Deus do Trovão).
Com um simples movimento, ele balançou a lâmina negra diante do corpo, criando um vendaval negro.
—Karappo ryu- hachi katachi -Mayu. (Estilo Vazio-Oitava Forma-Casulo).
Quando a frágil kunai elétrica embateu contra a lendária lâmina negra, fagulhas incandescentes preencheram a sala mal iluminada, enquanto o instrumento de metal era separado ao meio pelo afiado corte da katana negra.
Aproveitando o facto de que o Uzumaki estava em pleno ar, com um giro do calcanhar, ele moveu o seu pé, violentamente, em direção ao rosto do loiro.
Rápido como um trovão, Naruto rangeu os dentes quando colocou o antebraço diante do rosto. O impacto foi forte o suficiente para ele sentir os seus ossos quebrando, e o seu corpo ser arremessado.
Mas o Uzumaki já havia cumprido o seu papel com maestria: Distrair.
—Agora, Sasuke!
#1992 percebeu, tarde demais, os fios de aço espalhados pelo chão. Antes que ele sequer processasse o pensamento de que estava prestes a mover a sua katana para fatiar os fios metálicos, ele sentiu a sua consciência sendo engolida por um buraco negro e indistinto...Aquilo era...genjutsu.
Kokuangyo no Jutsu, para ser mais preciso... e pela oscilação que ele sentiu ao seu redor... provavelmente foi utilizado pela garota rosada...
Durou menos que um segundo é claro, antes da própria muramasa liberar uma corrente eléctrica pelos músculos do seu corpo, foi meio doloroso, mas necessário para o libertar.
‟Acorde...”
Porém...aquele singelo segundo, foi o suficiente para atrasar os seus movimentos...
Com um simples movimento de mão, Sasuke levantou os fios metálicos ao redor do Velho homem. Em uma velocidade absurda, eles se envolveram ao redor do seu corpo.
—Últimas palavras...?
Sasuke moveu ligeiramente o mindinho, e os fios se apertaram ainda mais ao redor do homem, arrancando filetes de sangue.
—ESPLÊNDIDO! SIMPLESMENTE ESPLÊNDIDO!
Ele começou a rir, até que, no minuto seguinte ele realmente gargalhava feito louco.
Naruto estalou o seu pescoço, enquanto se erguia, muito lentamente. Aquele chute havia doído para cacete... mas nada preocupante. Ele sentia a Kyuubi regenerando os seus ossos quebrados. Ele quase a ouvia resmungando na sua cabeça...nada preocupante. O importante era que o plano havia sido um sucesso...
Com passos lentos, ele se aproximou do homem aprisionado.
—Voce é um cara bastante problemático...que medonho...
Ele agora entedia o porquê de Tobirama tê-lo avisado sobre aquela katana. Mesmo na mão de um cara velho, cego e desgastado pela idade como aquele, aquela espada ainda era insana. Se tivesse o enfrentado sem os seus companheiros e em pleno auge físico...
Um sorriso, muito lentamente rasgou os lábios de Naruto. O resultado poderia ter sido diferente...
Ele viu #1992 parar de gargalhar e, lentamente, sorrir sinuosamente em sua direção.
—Do que você está falando? Vocês é quem são os verdadeiros monstros... principalmente você moleque...-ele tentou se libertar, mas os fios afundaram ainda mais na sua pele- Parece...parece que eu estou com problemas...
Naruto apenas sorriu com os olhos, parecendo genuinamente envergonhado.
—Hai...últimas palavras, velhote?
O velho homem gargalhou novamente.
—Nunca imaginei que teria a chance de lutar dessa forma, mesmo na velhice...na verdade... tem algo que eu quero falar para você...se aproxime, gaki...
Naruto estava prestes a dar um passo, quando Sakura o parou.
—O que você está fazendo? Pode ser uma armadilha. –Os seus olhos faiscavam com um sentimento estranho, Naruto supôs que fosse raiva- Sasuke, mate ele logo...
Sasuke apenas soltou um suspiro entediado.
—Se o esticadinho quer morrer, então deixe ele, Sakura. Só...seja rápido.-Os seus olhos escarlates pareceram acender ainda mais- Meus dedos estão coçando...
Naruto apenas sorriu.
—Obrigado pela preocupação, Sakura. Mas...tá tudo bem. Ele não vai fazer nada.
Naruto sabia daquilo, simplesmente olhando para ele. A sua respiração estava pesada e lenta, e a sua pele enrugada, murcha e velha estava recheada de filetes de sangue, mas...ele ainda assim possuía um sorriso travesso nos lábios. O loiro conhecia aquele sorriso. Era o sorriso de alguém...
Em passos lentos, Naruto quebrou a distância entre eles. Como o loiro era mais alto, ele teve que se abaixar um pouco para ficar em direção à aquele homem.
Ele sentiu um arrepio em sua orelha, enquanto os lábios daquele homem se moviam, sussurrando suas últimas palavras.
‟Seus olhos...ela gostou do vazio dos seus olhos. Ela ceifará por você. Porém...tudo tem um preço. Pague o preço com Sangue. ˮ
Ao final, Naruto tinha uma expressão indecifrável no rosto, tornando difícil para os seus companheiros saberem o que se passava na sua cabeça.
Àquela distância, Naruto finalmente reparou em algo...era difícil de ver por causa do uniforme que ele usava, porém...aquele velho homem possuía manchas escuras um pouco abaixo da clavícula, não...agora que reparava, elas se estendiam por todo o seu tronco...inclusive sob as mangas longas do seu uniforme...então ele entendeu...a cegueira daquele homem...as manchas escuras...aquilo era...
Ele havia pago o preço.
Naruto apenas envolveu as suas mãos ao redor da mão direita daquele homem, à qual tinha os punhos cerrados ao redor do cabo ebanizado da muramasa. Muito lentamente, dedo por dedo, aquele homem começou a afrouxar o seu aperto, até finalmente soltá-la.
O loiro ouviu um som estranho, parecido à uma tesoura cortando um fio invisível, um fio que ligava almas, enquanto o peso confortável daquela katana repousava nas suas mãos.
Imediatamente, ele sentiu uma corrente eléctrica percorrendo o seu corpo, e os seus olhos serem engolidos pela escuridão. Durou apenas um segundo, porém...
‟Sayonnara...”
Foi tudo o que Naruto sussurrou, antes de lançar um olhar para o Uchiha, e murmurar:
—Faça...
O Uchiha exibiu um sorriso, antes de mover o seu indicador, apertando os fios de aço.
Naruto teve a impressão de ver #1992 sorrindo de alívio, como um pássaro que passou a sua vida inteiramente engaiolado finalmente liberto aos céus, enquanto sentia os fios metálicos se afundando na sua pele, gordura, músculos e ossos, o fatiando completamente.
Ele não teve sequer tempo de gritar, ou sentir dor, de tão rápido que aconteceu. Ao final, ele era um monte indistinto e sangrento de cubos de carne, cujo maior pedaço era do tamanho de um dedão...
—Vamos embora...
Foi tudo o que o loiro sussurrou, começando a caminhar. Em um suave e rápido movimento, Naruto embainhou a lâmina amaldiçoada, sentindo o seu metal chorando, enquanto era confinada às suas amarras. Era meio triste o seu choro... melancólico até, como uma viúva que perdera recentemente o companheiro.
‟Tá tudo bem. Você me tem agora...”
Ela pareceu calar...
Naruto despertou, quando sentiu a mão delicada de Sakura pousando no seu ombro. Ela não disse nada, e ainda continuava com aquela expressão indecifrável. Mas havia um traço de preocupação nos seus olhos esmeraldas. Naruto apenas sorriu de canto, tentando tranquilizá-la. Prestando atenção, ele reparou que a rosada trazia uma mochila verde-escura apoiada num dos seus ombros. Ele nem precisava perguntar. Sabia que era a recompensa por terem eliminado #1992.
Eles iriam analisá-la depois.
Com passos lentos, eles atravessaram o restante da sala, até chegarem à porta de pedra que havia no final. Não haviam muitos detalhes, a não ser um selo negro no centro daquela estrutura de pedra. Eles trocaram olhares, antes de Naruto soltar um suspiro e colocar a sua mão sobre o selo.
Como uma espécie de mágica, o selo emitiu um forte brilho amarelado, que foi desaparecendo à medida que a porta se movia lentamente para cima. Eles adentraram a sala.
Era bastante semelhante à primeira sala que haviam achado. A não ser, obviamente, pelo enorme e circular selo negro cravado no chão de pedra. Tão logo eles pisaram sobre, o selo começou a brilhar, emitindo uma luz forte e dourada.
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Ela se sentia caindo. Como se tivesse sido jogada do mais alto penhasco, e a cada segundo que se passasse, ela ficasse mais próxima do chão apedregulhado com rochas afiadas. Era só uma metáfora, uma forma de narrar, é claro, mas ela preferia que aquilo fosse verdade.
Quer dizer... Ser perfurada por espinhos de pedra não deveria doer tanto quanto a cena diante dos seus olhos. Morto. Chouji estava morto.
Havia tanto sangue nas suas mãos brancas e imaculadas, carinhosamente esfoliadas três vezes por semana, para evitar que ficassem calejadas de tanto manejarem kunais. Havia sangue no chão de pedra, e havia sangue no lugar aonde a cabeça dele, supostamente, deveria estar ligada ao restante do corpo.
Ela se sentia congelada, petrificada. Como uma criança indefesa, se afogando em um frio e profundo lago. Indo cada vez mais fundo...e fundo...e fundo...
Ela despertou para a realidade, ao ver os olhos chorosos, mas ainda assim carregados de preocupação, de Shikamaru diante do seu rosto. Ele estava chamando o seu nome, ao mesmo tempo que a sacudia, como se para dispertá-la. Pelo tom da voz do Nara, aquela, sem dúvidas, não era a primeira vez que a chamava.
—Ele está morto... -a voz de Ino não passava de um sussurro fraco- Ele está morto, Shikamaru.
O garoto parecia a ponto de chorar. Mas ele se controlou. Sabia que tinha que ser forte pelos dois, e também, se derramasse uma lágrima sequer, não pararia nunca.
—Eu sei Ino. Eu sei. Mas... Você... Nós temos que ser forte. Pelo Chouji... -Ele desviou o seu olhar para o corpo sem cabeça do seu melhor amigo, aquilo era doloroso de uma forma insana, era como se tivessem arrancado o seu coração. Ele não evitou de olhar para um outro corpo jogado no chão, com o uniforme cinza, marcado com o número #324, completamente ensanguentado e coberto de feridas profundas. Havia uma kunai ensopada de sangue jogada ao lado do seu corpo. Céus... Ino havia exagerado... Ele, de repente se lembrou do cachecol branco firmemente preso entre os dedos manchados de sangue de Ino — Esse cachecol ...
—Eu não vou largá-lo! -Ela balançou freneticamente a cabeça, Shikamaru temeu que ela fosse sair do lugar- Nunca...
—Eu sei... -ele não pode evitar um sorriso fraco ao se lembrar do quanto foi difícil convencer os organizadores a deixarem Chouji usar o cachecol, apesar de contra as regras, não era realmente uma arma- Eu me lembro do quanto ele estava feliz no dia em que o seu pai deu esse cachecol para ele. Chouji não parava de sorrir... Ele amava esse cachecol...
Amava. Passado. Ele sentiu lágrimas se acumulando nos seus olhos escuros como carvão. Céus... Aquilo era doloroso demais.
—Foi tudo minha culpa... -Ela voltou a soluçar, dessa vez mais alto- se eu não tivesse congelado... Se ele não tivesse se colocado diante de mim...
—Mas aí você estaria...
—Mas ele ainda estaria vivo! -Ela socou o peito de Shikamaru repetidas vezes, enquanto ele a abraçava- Ele ainda estaria... A minha cabeça deveria estar jogada no chão! Como um pedaço de merda! Não a dele!
—Ei, pare com isso! -Ela continuava socando o seu peito repetidas vezes, enquanto tremia compulsivamente- Cacete, Ino!
Antes que ela gritasse novamente, ele a cortou. Colando os seus lábios aos dela. Sentindo o gosto salgado das suas lágrimas se mesclarem com o gosto adocicado dos lábios de Ino. Ela tentou resistir, mas acabou perdendo forças, e decidiu se entregar, aproveitando extravasar toda a sua fúria em um beijo completamente selvagem. Eles se separaram alguns segundos depois. A respiração lenta e profunda, os lábios vermelhos e as testas coladas.
—Baka... -ela ainda continuava soluçando, mas havia parado de tremer.
—Não é sua culpa. Ouviu? Não é sua culpa.
Ele completou, em pensamento: É minha. Eu vi as nuvens se escurecendo...eu senti o vento, violento, acariciando o meu rosto...eu vi a tempestade se formando...eu vi as ondas se agitarem...mas ainda assim, ainda assim eu deixei vocês se afogarem na água escura e fria. Se debatendo por uma lufada de ar.
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