Gênesis

52 Cinzas Remanescentes - ATO II - A Máscara do Ridículo.


Notas iniciais
Sorry, meu Notebook morreu de vez. E ainda estou De luto. Comprar um novo vai ser difícil no momento. A grana está apertada devido a pandemia, tenho que ser racional. Enfim... Escrever pelo celular é muito complicado para mim, principalmente pelo número absurdo De palavras que EU escrevo. E essa desgraça adora comer a pontuação das palavras. É muito frustrante. Anyway... Sei que disse que seriam dois extras, mas decidi que serão 3. Boa leitura!

Seu corpo inteiro se arrepiou, enquanto afundava na água fria daquela banheira. Naruto fechou os olhos, se concentrando na tensão dos seus músculos, enquanto eram abraçados por aquela sensação gélida.

Ele podia aquecer a água, mas não queria. O frio cortante o distraía da dor dilacerante, quase física, do seu coração.

Seus olhos piscaram, quando ele percebeu que estava tremendo completamente de frio. Quanto tempo estava ali? Ultimamente, estava tendo muitos momentos como aquele, em que ele ficava pensando em absolutamente nada, e não via o tempo passando.

Suspirando, ele se levantou da banheira e encarou o seu reflexo. Ele passou à sua mão pelo vidro embaçado, limpando às gotículas de vapor que haviam se colado no espelho do banheiro. Seus fios longos e loiros caíam como uma cascata dourada, emoldurando o rosto pálido, e com enormes olheiras ao redor dos olhos azuis e opacos.

Naruto sabia que devia fazer alguma coisa com o seu cabelo. Estava enorme. Cortá-lo, talvez?! Mas ele não podia estar se importando menos. Então, ele simplesmente o prendeu em um rabo de cavalo. Apertou os lábios, quando terminou. Estava minimamente apresentável.

Um choque atravessou o seu corpo nu, pelo ar extremamente frio que entrava pela janela aberta do seu quarto. Os seus olhos imediatamente caíram sobre o envelope dourado sobre os lençóis da sua cama. Segundo os detalhes que leu naquele papel, ele sabia que seria uma cerimônia meio...formal, mas não tinha que se preocupar com as vestimentas. Tinha apenas que chegar meia-hora antes, que os estilistas o deixariam apresentável.

É, Naruto sabia o que aquilo significava. A arena era diferente, mas ´´As Tribulações da Redenção´´... ainda não haviam terminado. Não realmente.

Enquanto vestia uma roupa qualquer, não pode deixar de reparar no quanto estava magro. Naruto cutucou às suas costelas proeminentes sob a pele pálida. Além de não ter se alimentado direito durante o exame, não se lembrava de ter comido algo nos últimos dois dias, desde que saiu da arena.

Ele olhou para o relógio no alto da parede. Eram quase seis horas, e o ar estava ficando absurdamente gélido. Ele tinha que estar no local da cerimônia às sete da noite. Ainda tinha tempo para comer qualquer coisa.

Naruto abriu a geladeira na cozinha. Precisava fazer umas compras. Haviam alguns ingredientes que dariam para fazer um prato minimamente comestível, mas...só de se imaginar cozinhando, sentia seu estômago se embrulhando.

Naruto encarou a sua carteira sobre a mesa da sala. Não seria de todo mal, ir comer fora. Ele a guardou no bolso da sua calça. Quando colocou os pés fora do seu apartamento, foi abraçado por um ar extremamente frio.

Seus pés se arrastavam de forma lenta pelas ruas absurdamente cheias de Konoha. Tudo parecia...diferente. Desde as luzes decorativas e brilhantes que adornavam os estabelecimentos, até os rostos que passavam diante dos seus olhos. Rostos estranhos e desconhecidos. Muitos estrangeiros e nobres em roupas e maquiagens extravagantes.

Vez ou outra, ele reparava em certas pessoas olhando para ele, e cochichando. Ele nem precisava prestar atenção nos lábios se movendo, para entender o que eles diziam. Havia um misto de reações, quando o reconheciam. A maioria dos aldeões, o olhavam assustados, e desviavam do seu caminho. Os poucos shinobis que o encaravam, no entanto, pareciam bastante orgulhosos dele, enquanto outros o olhavam com certa...pena. E então....haviam os nobres, com suas roupas coloridas e maquiagens estranhas. Eles o olhavam de uma forma intensa, meio lasciva, como um dono olhando para um gato que havia finalmente aprendido a defecar em uma caixa de areia. Particularmente, ele odiou aquele olhar.

Quando Naruto finalmente percebeu, estava diante da barraca do Ichiraku, e imediatamente os seus pés travaram, enquanto encarava aquelas luzes douradas.

Que tipo....que tipo de olhar eles dariam para ele?

Ele saiu dos seus devaneios, quando sentiu um corpo se chocando contra às suas costas e alguma coisa caindo no chão.

Quando Naruto se virou, seus olhos se alargaram quando ele reconheceu o corpo caído no chão, e os olhos castanhos que o encaravam de forma surpresa. Era Ayame, a filha do Teuchi.

—Desculpe. –Ele soltou um pequeno suspiro, quando percebeu que a sua voz saía estranhamente rouca. Há quanto tempo ele não falava? Ele estendeu a sua mão e a ajudou a se levantar- Está...tudo bem?

—Hai...

Ela apenas acenou positivamente, enquanto espalmava as suas mãos nas suas roupas. Quando ela terminou, ela fez algo surpreendente.

Naruto arregalou os olhos, quando sentiu os braços dela à volta do seu corpo, bem no meio daquela rua. O que...O que ela estava fazendo?

—Eu soube o que aconteceu com ela. Sinto muito. –A voz dela saía estranhamente embargada, como se tivesse um choro entalado na garganta, e Naruto logo entendeu de quem ela falava. Mas ele não conseguia reagir, simplesmente continuou estático- É realmente...uma pena. Ela sabia apreciar um bom Ramén.

Se lembrando de todas às vezes que eles dois haviam ido comer Ramén naquele lugar, ele sentiu um gosto estranho na sua boca. Se ele fechasse os olhos, ele conseguia se lembrar da expressão surpresa, e do sorriso que se esticou nos lábios bem desenhados de Hinata, na primeira vez que ela provou Ramén.

Era doloroso. Muito doloroso.

Sem saber o que dizer, Naruto apenas acenou positivamente, e retribuiu aquele abraço, bem no meio da rua. Não se importando com os olhares de algumas pessoas que passavam pelo local.

Quando Ayame finalmente se afastou, Naruto a viu esboçando um pequeno sorriso de canto, enquanto os olhos dela marejavam. Era um sorriso incrivelmente triste.

Sentindo os seus olhos ardendo repentinamente, Naruto apenas se agachou, e apanhou a caixa com utensílios de cozinha que ela havia deixado cair.

—Obrigada. –Ela disse, enquanto Naruto a acompanhava em direção à barraca, carregando aquela caixa. A voz dela ainda continuava embargada. – Cheguei, papai.

—Ah, você foi rápida. –Teuchi gritou, virado de costas e concentrado no lume. Quando ele se virou e viu Naruto, os seus olhos brilharam de um sentimento estranho por um segundo, mas ele logo sorriu – Seja bem-vindo, Naruto-kun.

—Boa noite. Onde coloco?

O cozinheiro franziu as sobrancelhas ao ver o jeito meio frio do rapaz, mas o olhar que Ayame lhe deu enquanto colocava o avental e entrava na cozinha, o fez ficar calado. Ele sabia que ela depois contaria tudo para ele.

—No balcão, Naruto-kun. Obrigada.

Naruto assentiu, antes de colocar a caixa sobre o balcão e se sentar.

Depois de ter terminado de colocar o avental, ela sorriu novamente em sua direção, antes de perguntar o que ele queria comer.

Alguns minutos depois, com uma expressão apagada, ele encarava aquela tigela fumegante de Ramén de porco.

Ayame apertou os lábios, o vendo tão...vazio. Ela quase conseguia imaginar o que ele estava pensando naquele momento. Quando sua mãe faleceu, alguns anos atrás, seu pai ficava com aquele mesmo olhar, sempre que fosse hora do jantar, e ele encarava o lugar vazio na mesa.

Aquilo...foi à última coisa que Naruto havia comido com ela, na arena.

Naruto finalmente sorveu aquele caldo, e seus olhos imediatamente se encheram de lágrimas, mas nenhuma deslizou pelo seu rosto. Seus olhos haviam secado de tanto chorar.

Quando ele terminou, Naruto apenas abriu a sua carteira, e quando estava prestes a colocar algumas notas sobre o balcão, as mãos quentes e macias de Ayame se envolveram ao redor das suas, o impedindo.

—Fica por conta da casa, Naruto-kun.

Vendo o pequeno sorriso triste nos lábios de Ayame, Naruto apenas assentiu lentamente, ainda com aquela expressão indecifrável no rosto, enquanto voltava a guardar a sua carteira.

—Estava...delicioso. Obrigado.

Enquanto via Naruto se levantando, os lábios de Ayame se abriram, como se ela quisesse dizer algo, mas ela logo os fechou, o vendo se afastar naquela noite fria, negra e sem estrelas.

O que ela deveria dizer para alguém com um olhar tão quebrado?

Naquela noite fria, Naruto estava correndo, velozmente, pelos telhados dos edifícios de Konoha. As imagens passavam como um rápido e indistinto borrão de cores nos seus olhos estreitados e angulosos. Azul, verde, laranja e muitas outras cores.

Konoha sempre foi uma vila alegre e tão cheia de cores e vida.

E se, naquele instante, ele soubesse sequer metade das coisas que aconteceriam... o sangue, o suor, as lágrimas, as chamas, as cinzas e o cheiro de morte que tomariam conta de suas ruas, ele congelaria aquele momento, aquele singelo e simples instante, e aproveitaria cada mísero som nos seus ouvidos, cada cheiro que adentrava às suas narinas e cada imagem que chegava aos seus olhos.

Mas ele não sabia.

XXX

Seus olhos se abriram, quando ela ouviu batidas na porta do seu quarto. O rosto da sua mãe espreitou pelas frestas da porta de madeira.

—Posso entrar, Sakura?

Vendo aqueles olhos tão verdes quanto os seus, a encarando de forma preocupada, Sakura não teve escolhas a não ser assentir, enquanto abandonava as cobertas que a aqueciam naquele fim de tarde, e se sentava na sua cama.

—Tomou os remédios? -Ela assentiu, enquanto a sua mãe a olhava de forma analítica- Certeza? O médico falou que a ferida pode infeccionar se você não tomar nas horas certas...

Ela acenou novamente, mas algo na sua expressão fez a sua mãe suspirar e se mover pelo quarto.

A cama rangeu, quando Mebuki se sentou ao seu lado. Os seus lábios se apertaram, ao ver o estado da sua filha. Os seus dedos se moveram até à face pálida dela, afastando alguns fios róseos que escondiam à sua expressão. Olhos vermelhos e inchados de tanto chorar, a encaravam sem nenhum entusiasmo.

—Assim está melhor, filha. Você é demasiado bonita para esconder o rosto.

Vendo aqueles olhos gentis a encarando, os olhos de Sakura se encheram de lágrimas.

—Isso não é justo.

—O que não é justo?

—Você. Toda essa situação...você não devia me olhar dessa forma, como se eu fosse uma garota normal e gentil. Eu não sou.

Mebuki apertou as sobrancelhas.

—Do que você está falando, querida? Claro que você é uma garota normal.

Sakura apenas balançou os fios róseos negativamente, enquanto lágrimas silenciosas deslizavam pelo seu rosto.

—Mamãe...você se lembra daquela boneca de trapos que eu tinha na infância? –Vendo a sua filha derramando lágrimas enquanto falava, Mebuki apenas assentiu- Eu amava ela, e passava o dia inteiro brincando com ela. Mas depois...um dia a mamãe chegou com uma boneca nova e melhor, e pediu que eu jogasse a antiga fora. Eu sabia que eu gostava da boneca velha, mas ela estava em fiapos e suja, então eu joguei ela no lixo. Porque eu sabia que a nova, seria igualmente útil. Não passava de uma boneca, afinal. Algo sem utilidade...Me olhando no espelho, essa manhã...eu me lembrei daquela boneca de trapos. Eu pareço igual à ela...um lixo...

Mebuki envolveu os seus braços ao redor da sua filha, quando ela percebeu que Sakura estava tremendo. E Mebuki só percebeu que também estava chorando, quando sentiu um gosto salgado nos seus lábios.

—Filha...

Sakura continuou, tremendo nos braços da sua mãe.

—Então, não me olhe assim de forma tão gentil. Eu sou um lixo. Eu coloquei você e o papai em um genjutsu, só para participar de um exame hediondo. Eu matei pessoas na arena, mamãe. Muitas pessoas. Minha melhor amiga foi...enfim. Um companheiro morreu por minha culpa. Alguém abriu um buraco na barriga da minha outra amiga, e ela agora é um cadáver... Sem falar que eu perdi um braço. Não passo de uma garota amputada agora. Uma boneca quebrada. Deficiente. Sem concerto... Então...você não devia estar me olhando dessa forma, como se eu ainda fosse normal e digna de amor. Eu não sou...

Os braços de sua mãe a apertaram ainda mais, como se fosse possível. E ali, inalando o cheiro à madressilva que era emanado nos braços da sua progenitora, Sakura desabou completamente.

—Vai ficar tudo bem, filha. Esse é o caminho que você escolheu. E não importa o que você faça, você sempre será a minha bebê. Sempre. Eu prometo.

Elas não sabiam quanto tempo haviam ficado simplesmente abraçadas, mas uma hora Sakura acabou repousando a sua cabeça no colo da sua mãe enquanto ela passeava os dedos gentis pelos seus fios róseos, e cantava uma canção de ninar que na infância sempre fazia os olhos de Sakura pesarem, e ela adormecer.

Mas ela já não era a mesma. Por mais que os seus olhos pesassem, ela logo voltava a abri-los, quando rostos estranhos e contorcidos de dor, de cada uma das vidas que ela havia ceifado, apareciam diante dos seus olhos, gritando sem parar:

Assassina.

E Sakura sabia o quanto eles estavam certos.

Mebuki ergueu os olhos quando viu a porta sendo aberta, e o seu marido entrando por ela. Ela fez um sinal para que Kizashi ficasse em silêncio.

—Ela acabou de adormecer. O que foi, querido?

Foi impossível um sorriso triste não cruzar os lábios de Kizashi, ao ver a expressão cansada no rosto de sua esposa.

—Está quase na hora da Cerimônia. Tem um garoto esperando ela lá fora. -Sakura abriu os olhos lentamente, enquanto se levantava do colo da sua mãe. -Ah, desculpe ter te acordado, florzinha.

—Eu não estava dormindo. Quem é?

Kizashi suspirou, antes de forjar um sorriso de canto.

—Aquele garotinho Uchiha. O que você vivia falando que ia casar com você.

Sakura sentiu os seus músculos ficarem tensos, enquanto os seus olhos automaticamente caíam sobre o envelope dourado na escrivaninha no canto do quarto. Só de imaginar que teria que ir naquela cerimônia horrível, seu estômago se embrulhou.

Seu pai pareceu perceber isso. Ele se aproximou com passos lentos, e colocou a sua mão sobre o seu ombro.

—Filha...se você não quiser ir, não vá. Tenho certeza que o Sandaime vai entender.

Ela mordeu o lábio, realmente ponderando. Mas ela logo afastou aqueles pensamentos, enquanto se levantava. O próprio Daymiou estaria lá, claro que ela não podia faltar. Então, ela apenas forjou um sorriso para os seus pais, que a encaravam preocupados.

—Não. Eu...estou bem. Eu vou.

Ela continuava sendo uma mentirosa.

XxX

Quando Sakura finalmente terminou de se preparar, ela encontrou o seu companheiro, escorado no poste que iluminava fracamente a rua estreita diante da sua casa.

Os olhos negros a encaravam fixamente, entre um rosto pálido e calado, como um fantasma. Ele se afastou do poste, quando a viu se aproximando. Eles ficaram se encarando, em um silêncio fúnebre. Sakura tentou forjar um sorriso, mas não conseguiu.

E sem esperar uma palavra sua, ele começou a caminhar. Eles não deram mais do que dois passos, antes da voz alta do seu pai cortar aquela rua silenciosa.

—Não tente fazer nenhuma gracinha, garoto!

Sakura esboçou um curto sorriso constrangido, enquanto Sasuke apenas apertava as sobrancelhas negras de forma confusa.

—Ele é...meio louco. Desculpe.

Sasuke apenas assentiu, ainda com aquela expressão.

A única coisa que se ouvia, enquanto eles se moviam, era o som das suas sandálias tocando no chão de terra. Sakura mordeu o lábio inferior, incomodada com o silêncio.

—Ontem você não foi... No velório dela. O Naruto também...

Demorou alguns segundos para ela ouvir a voz de Sasuke.

—Eu fui. –A voz dele não passava de um sussurro, mas estava tão silencioso naquela rua, que ela conseguia ouvir perfeitamente- Mas depois de passar na residência dos Inuzuka, e dos Akimichi... E ver tanta gente chorando... Eu não consegui passar dos portões do clã Hyuuga. Eu...simplesmente congelei. Como um covarde.

Os lábios de Sakura se apertaram, enquanto os seus olhos verdes marejavam.

—Amanhã será o enterro dela. E do Kiba. E do Lee. E do Chouji...e do Akai. O Sandaime decidiu fazer...uma única cerimônia. Não falte.

A mandíbula de Sasuke se cerrou, mas ele logo acenou, caindo novamente em silêncio.

XxX

Naruto encarou a estrutura diante dos seus olhos. A Estação de Emissão da Vila da Folha era um prédio alto, e com um emaranhado de estranhos aparelhos na cobertura. Antes de sequer mostrar o envelope dourado para os seguranças, os dois chunnins logo o reconheceram. Eles sorriram, aparentemente de orgulho, antes de indicarem que ele deveria se dirigir à recepção.

Ele apertou o pequeno sino que havia no balcão. A garota de óculos sentada atrás do balcão -e concentrada em uma estranha revista de moda,- teve um sobressalto, derrubando uma xícara de café sobre alguns papéis. Ela praguejou baixinho, enquanto arrumava a bagunça. Um suspiro de alívio escapou dos seus lábios, quando ela viu que os papéis importantes haviam se salvado.

—Olá. Como posso...-Erguendo o rosto, seus olhos verdes sob os óculos, se arregalaram quando ela reconheceu a face diante dos seus olhos. Ela ajeitou os óculos- Desculpe, Uzumaki-dono. Presumo que estejas aqui pela cerimônia?

Naruto apenas assentiu, e ela sorriu de canto, prestes a dizer algo mais, porém seus olhos brilharam de forma estranha quando ela pareceu ver algo atrás do loiro.

Virando minimamente os olhos, Naruto viu Sasuke e Sakura adentrando o prédio, e virem em sua direção. Eles pareciam...pálidos. Ele percebeu que Sasuke ficou tenso quando o viu, mas Naruto apenas continuou com aqueles olhos inexpressivos.

Sakura forçou um sorriso, quando notou a estranha tensão.

—Oi.

—Oi.

Foi tudo o que Naruto disse, antes de se voltar para a recepcionista, que apenas os encarava de forma...estranha. Ela ajeitou os óculos.

—Bom...já que estão aqui...me acompanhem, por favor.

Ela se levantou e começou a caminhar. O som estridente dos saltos dela perfurando o piso de mármore, era a única coisa que quebrava aquele silêncio assustador. Ela parou, quando eles estavam diante de um elevador.

Logo que as portas se abriram, ela os informou que deviam subir até o terceiro andar, onde os outros gennins da folha estavam. Eles subiram no elevador, em completo silêncio.

Quando as portas se abriram, no terceiro andar, eles perceberam que haviam estranhos estilistas se espremendo desenfreadamente por aquele apertado corredor. Todos eles pareciam apressados, e andavam de um lado para o outro, enquanto carregavam diferentes peças de roupas.

Eles relaxaram as suas feições, quando viram os rostos conhecidos da Senhorita Kaneko e de Seiji, os chamando em meio à confusão. O som daquele burburinho finalmente desapareceu, quando eles fecharam a porta de um dos quartos –ou melhor, camarotes— que haviam naquele corredor.

Sem dizerem qualquer palavra, Sakura e Kaneko desapareceram atrás do longo e espesso cortinado que separava aquele camarote em dois.

Naruto apenas continuou encarando o nada, enquanto Seiji trazia uma dezena de diferentes roupas para o Uchiha, cada uma mais estranha que a outra. Quando ele finalmente pareceu achar algo apropriado para Sasuke, ele se voltou repentinamente para si.

Depois de vê-lo quase que totalmente despido, Seiji suspirou de forma completamente exagerada, e descartou o kimono azul-marinho que queriam que ele usasse inicialmente, devido à magreza.

Ao invés disso, ele escolheu um smoking negro que assentava perfeitamente na sua silhueta magra, alta e esguia, e um par de sapatos negros e envernizados. Apesar daquele visual ser um tanto incomum em Konoha, ele sabia que muitos nobres gostavam de se vestir daquele jeito em suas galas extravagantes.

Vendo às enormes olheiras ao redor dos seus olhos, Seiji passou um pouco de maquiagem na pele do seu rosto, mas ele deixou os seus fios de cabelo presos em um rabo de cavalo. Naruto agradeceu mentalmente por aquilo. Ele estava exausto, como se estivesse em um sonho extremamente longo, e do qual não conseguia acordar.

Se olhando no espelho, Naruto percebeu que daquela forma ele parecia um daqueles garotos ricos e mimados da capital. Inofensivo e inocente. Não um assassino com uma sanidade mental questionável.

Ele ouvia Seiji, no seu terno rosa e ridículo, tagarelando sem parar sobre o exame. Sobre o quanto ele ´´ficou surpreso com as cenas´´ ou quase teve ´´um ataque cardíaco´´. Os habitantes da capital eram mesmo assim. Tudo era sobre eles, não sobre centenas de garotos e garotas se matando em uma arena, enquanto eles apenas assistiam. Naruto apenas cerrou os lábios e fingiu não ouvir, ou ele ia realmente acabar matando ele.

Quando eles finalmente terminaram, eram quase sete horas, e Naruto finalmente reparou nos seus companheiros.

Sasuke estava trajando um kimono que era composto por um haori tão negro quanto seus olhos, e uma hakama cinzenta que contrastava com à sua pele pálida. Ele parecia ainda mais centrado que o normal, naquelas indumentárias.

Sakura, no entanto, parecia uma daquelas princesas de países distantes, em seu kimono fino e de um tom vermelho-claro, com flores de cerejeiras estampados ao longo do tecido; as mangas eram mais longas que o comum –provavelmente em uma tentativa de disfarçar o seu braço decepado-, e os seus fios de cabelos róseos estavam presos por um Kanzashi de flores.

Pelo que haviam lido naquele envelope, a cerimônia seria dividida em duas partes. Primeiramente, eles teriam uma espécie de entrevista com todos os sobreviventes –razão pela qual eles estavam na Estação de emissão de Konoha- e logo no final, eles teriam um banquete com os cinco kages, lordes feudais, nobres e os shinobis de elite. Eles sabiam que haviam preparado o último andar daquele edifício só para isso...

E depois...liberdade, finalmente.

Eles foram conduzidos para uma outra sala, aparentemente de espera, onde eles finalmente encontraram os restantes gennins de Konoha, todos perfeitamente preparados em roupas brilhantes e luxuosas. Tudo aquilo era esquisito demais para os olhos de Naruto. Eles eram Shinobis, mas naqueles quimonos e ternos luxuosos, eles pareciam...normais e inofensivos.

Os seus olhos automaticamente se moveram pela sala estranhamente circular na qual eles estavam. Além de o piso e as paredes estarem completamente pintados de vermelho, havia um gigantesco e luxuoso sofá verde-escuro no meio da sala, no qual eles foram obrigados a se sentar; ele tinha um formato semi-lunar, e cabiam facilmente, umas vinte pessoas.

Naruto não estava exatamente com vontade de conversar com ninguém, então simplesmente se sentou em um canto mais afastado do sofá, e cruzou as pernas, mas foi impossível seus olhos não passearem por cada um daqueles rostos diante de si.

A maioria dos garotos – Sasuke, Shikamaru e Shino- estavam trajando kimonos, e obviamente, eram de cores e ornamentos diferentes. Somente Kabuto e ele, estavam vestidos daquela forma incomum, apesar de o casaco sobre os ombros de Kabuto ser branco.

Todas as outras garotas –Sakura, Ino e Risa,- estavam em kimonos de cores e tecidos distintos, assim como diferentes penteados ornamentados estavam adornando as suas cabeças; mas todas tinham algo em comum: Um incrível ar de inocência, que não combinava nem um pouco, com os olhos vazios nos seus rostos.

E então Naruto entendeu o porquê de eles darem aqueles dois dias de intervalo, entre o término do exame e a cerimônia de premiação. Era para transformarem aqueles shinobis cansados e feridos, em garotos e garotas minimamente apresentáveis. Era para transformarem lobos, em simples ovelhas, como se não tivessem devorado ninguém.

Era como se nada tivesse acontecido.

Alguns minutos depois, a porta foi aberta e Tenten adentrou a sala em seu kimono branco, enquanto a sua cadeira de rodas era conduzida por Neji. Só naquele momento Naruto se lembrou que ela havia perdido uma perna.

Neji estendeu a mão para ela, e com uma delicadeza que não combinava com o olhar distante no seu rosto, a ajudou a se mover até o sofá e a sentar.

Quando eram exatamente sete horas, a estranha sala começou a se mover para cima, como se fosse uma plataforma, enquanto o ´´teto´´ se abria lentamente, até eles emergirem em um estranho e gigantesco palco.

Era completamente negro, a não ser os oito círculos coloridos sobre ele. Acima de cada um daqueles círculos, havia um sofá, o qual era preenchido por diferentes rostos. E Naruto logo entendeu quem eram. Eram os gennins sobreviventes. E cada um dos círculos com sofás, representava uma das vilas, com suas respetivas cores.

Folha, Areia, Névoa, Pedra, Nuvem, Cachoeira e Fechadura. No último círculo havia um sofá, com um homem vestido em roupas coloridas e extravagantes, e uma estranha maquiagem. Naruto logo deduziu que deveria ser o ´´apresentador´´.

O palco era bem decorado e iluminado, o que tornava tudo ainda mais estranho. Ele não deixou de reparar que haviam mais de quinze shinobis do clã Yamanaka, -escondidos atrás das gigantescas câmaras que os encaravam-, com aqueles grossos tubos ligados aos estranhos aparelhos semelhantes à capacetes que eles tinham na cabeça. Naruto sabia que eles estavam bombeando chakra para aquelas máquinas, e eram os responsáveis por transmitirem ´´aquelas cenas´´ para todo o continente shinobi, em tempo real.

Ainda faltavam alguns minutos para a transmissão começar, mas como o bom profissional que era, o apresentador –que logo se apresentou como ´´Koneko Choumei´´- começou uma conversa suave e divertida, tentando deixá-los mais confortáveis.

´´Vocês são as estrelas. Não eu. E eles já adoram vocês! ´´

A voz dele era esganiçada, e carregada do forte sotaque da capital, mas havia algo no sorriso radiante que se esticou nos seus lábios pintados de roxo, que imediatamente aliviou a tensão entre os vinte e um sobreviventes das Tribulações da Redenção.

Apesar das palavras ocasionais que alguns dos gennins começaram a soltar enquanto conversavam com ele, ainda assim havia uma estranha tensão, quase como eletricidade estática, permeando o ar. E, olhando para os vinte garotos e garotas sentados naqueles sofás, em roupas ridículas e luxuosas, Naruto bem sabia o que aquilo era...

Ódio. Rancor. O desejo de vingança...

Tirando os dez shinobis sentados no sofá de Konoha, haviam três outros sentados no de Suna – Temari, Gaara e Matsuri-, uma única kunoichi no de Iwa – Kurotsuchi-, Três no de Kiri –Haku, Akane e Suigetsu-, dois no de Kumo –Kei e El-, havia uma garota da cachoeira de pele bronzeada e cabelos verdes, e por fim, uma garota da fechadura com longos cabelos negros e olhos vermelhos.

Entre os mais de Trezentos inscritos naquele exame, só aqueles vinte e um haviam sobrevivido. Era surreal.

Quando um dos homens escondidos atrás das câmeras começou a fazer uma estranha contagem regressiva, Choumei esboçou um pequeno sorriso, antes de dizer um último aviso:

´´Somos só nós aqui. Esqueçam eles. Só...sejam vocês mesmos.´´

Imediatamente, Choumei mudou a sua postura e quando a contagem finalmente terminou, ele exibiu um sorriso branco como marfim para às câmeras.

A audiência, era composta por inúmeras pessoas célebres: Os Kages, os Nobres, e os shinobis mais influentes. Eles estavam perfeitamente enfileirados em assentos ao redor do palco, e quando o programa finalmente começou, o som de risos atravessou aquela sala, pela piada engraçada com a qual Choumei iniciou a cerimônia.

Durante a meia-hora seguinte, os gennins entenderam o porquê de Choumei ter sido escolhido para aquilo. Ele era incrível. Ele conseguia conversar com aqueles vinte e um garotos e garotas mentalmente quebrados e exaustos, de uma forma surpreendente. Na maioria das vezes, ele sempre estava se dirigindo à todos eles, mas às vezes ele se focava em uma vila em específica, ou mesmo em uma única pessoa.

Ao contrário do que achavam, ele sabia respeitar o espaço pessoal. Perguntava estritamente o necessário, e quando notava que a pessoa estava tensa ou nervosa, ele aliviava o clima com uma ou duas piadas, que rendiam muitas gargalhadas, antes de continuar perguntando.

Às exata oito horas da noite, Choumei chamou o Daimyou da vila anfitriã para o palco, para que finalmente fizessem a cerimônia de premiação. Azuka inicialmente fez um pequeno discurso, parabenizando os sobreviventes e lamentando as perdas terríveis, mas necessárias—palavras do mesmo, embora seus olhos não esboçassem qualquer emoção enquanto falava-.

Enquanto o Daymiou permanecia em pé no centro do palco, uma garota loira em um kimono rosa-claro e florido, como uma boneca de porcelana, caminhava lentamente para o palco, carregando a coroa negra e metálica em uma almofada escarlate.

Naruto se aproximou, com passos lentos, enquanto os olhos frios e impiedosos, como de uma serpente, o encaravam fixamente no rosto marcado por rugas de Azuka. Naruto entendeu imediatamente o que deveria fazer. Ele se prostrou de joelhos e abaixou a sua cabeça, enquanto o Daymiou pousava a coroa negra sobre os seus fios dourados.

—Levante.

Ele colocou os seus dedos enrugados ao redor do queixo de Naruto, enquanto o erguia lentamente. E então, ele fez algo surpreendente. Azuka envolveu os braços ao redor do loiro, no que seria um abraço amigável, mas Naruto sentiu vontade de vomitar.

A àquela distância, o cheiro nauseante de Azuka, rosas e sangue, adentrou às suas narinas e embrulhou o seu estômago.

—Naruto-kun você foi bem. Muito bem. -Ele sentiu o hálito dele na sua orelha, enquanto ele sussurrava com aquela sua voz nauseante- Mas...você está com uma expressão bastante desagradável no rosto. Parte-me o coração ver você assim.

Por um instante, os olhos de Naruto se abriram em choque, mas ele logo forjou um sorriso, enquanto se afastava daquele abraço. Ele entendeu perfeitamente o que o Daymiou quis dizer.

Ao longo daquela entrevista, a expressão no rosto de Naruto era dura e distante, e por mais piadas que Choumei fizesse, ele falava pouco, e nas poucas vezes que algo lhe foi perguntado, Naruto se limitava a responder tudo monossilabicamente.

Ele tinha que atuar.

Aquele sorriso radiante ainda persistia nos seus lábios, enquanto que, sob o som de palmas avassaladoras e com aquela coroa sobre a cabeça, Naruto atravessava o palco, e com a suavidade de um nobre, se sentava no mesmo sofá que Choumei, para a ´´entrevista com o vencedor´´.

Aquele sofá era grande, ainda caberiam duas pessoas no espaço entre Naruto e Choumei.

Enquanto Choumei o felicitava, os seus olhos negros brilhavam de uma forma estranha, mas Naruto apenas continuava sorrindo, enquanto respondia às perguntas com um entusiasmo surreal e exagerado.

—Então... O que você vai fazer com o prémio, Naruto-kun?

Naruto forjou uma expressão exagerada de surpresa, e Choumei, assim como a maioria da plateia, riu.

—Espere, tem um prêmio?!

—Oh, se tem. Mais do que a esmola que eu ganho anualmente!

O som de risos encheu novamente aquela sala. Naruto sorriu de canto, meio maliciosamente.

—Bom, se você quiser, nós podemos trocar de profissão.

—Eu adoraria! A vida de um Shinobi deve ser emocionante—A voz de Choumei subiu algumas notas, parecendo estranhamente animado- mas não sei se você aguentaria trabalhar que nem eu.

Naruto colocou a mão no queixo, e fingiu pensar.

—Hmm...ternos caros, maquiagens, e poder falar com pessoas cheirosas. Realmente, deve ser difícil o seu trabalho.

Em uma cena completamente improvável e hilária, Choumei se aproximou um pouco de Naruto, e fungou.

—Nossa...Você realmente cheira bem garoto. –Em um rápido olhar, Naruto percebeu que nessa altura a maior parte da plateia tinha lágrimas nos cantos dos olhos, de tanto rir- Mas sobre o prêmio...é um valor bem...generoso...

Naruto fingiu uma expressão interessada.

—Quanto é?!

—Não posso falar. Meus lábios estão selados.

—Ah, não é justo. –Naruto virou o rosto para Hiruzen, no meio da plateia, e logo uma das câmeras acompanhou o seu movimento e fez um close no rosto do Sandaime- ele não pode falar?!

O Sandaime teve que gritar, com um sorriso no rosto.

—Não. Não pode.

Naruto murchou no sofá, como uma flor, e mais risadas ecoaram.

Choumei usou o polegar para enxugar as lágrimas nos cantos dos seus olhos, antes de sorrir meio malicioso.

—Não se preocupe. Aposto que a sua namorada vai adorar o prêmio.

Naruto sentiu os seus músculos enrijecerem, mas não mudou sua expressão inocente.

—Eu não tenho.

Os olhos e a boca de Choumei se abriram exageradamente.

—Ah, um rapaz bonito como você... Deve ter alguém de quem você goste. Vamos, qual é o nome dela?

Choumei se inclinou ligeiramente em sua direção, como uma garotinha querendo saber os segredos da amiga em uma festa de pijamas.

Naruto continuava sorrindo, de um modo estranhamente inocente, mas havia um brilho estranho nos seus olhos.

—Não mesmo. Mas se você tiver uma filha da minha idade, eu posso...

—Acho melhor mudarmos o tema da conversa!

Pela expressão forçada de horror no rosto de Choumei, uma nova onda de risos encheu o local.

Alguns minutos depois, depois de muitas outras perguntas e risadas esganiçadas, Choumei se recompôs, enquanto os seus olhos brilhavam de uma forma estranha, e ele ficava um pouco mais sério.

Havia uma estranha tensão permeando o rosto do apresentador, embora ele disfarçasse muito bem.

—Nós já percebemos que...além de ter esse rostinho bonito e de cheirar incrivelmente bem, você é engraçado e, para a felicidade das garotinhas, e de alguns garotinhos, espalhados por esse mundo: Completamente Solteiro— Aquela piada aliviou um pouco da tensão naquela sala, mas as grossas sobrancelhas de Choumei ainda estavam franzidas em uma expressão profunda- Porém, senhoras e senhores, ainda assim, muitos devem estar se perguntando: Quem é Uzumaki Naruto? E na busca por essa resposta, nós acabamos descobrindo algo chocante, mas absolutamente verdadeiro. E é de tal forma impressionante, que nós decidimos partilhar com vocês, aqui, em primeira mão...

A tensão que permeava aquela sala era palpável, a maioria dos nobres, sentados na plateia chegaram a prender a respiração de antecipação, enquanto Naruto apenas se controlava para não franzir o cenho.

Do que...Do que ele estava falando?

— Senhoras e senhores, sei que muitos aqui se lembram do vencedor da edição anterior, Namikaze Minato. Muitos aqui o conheciam pela sua incrível proeza em combate, e outros pelo fato dele ter sido o Yondaime Hokage. Mas o que não podemos negar, é o quão incrível esse homem foi. – A voz de Choumei estava estranhamente serena, enquanto ele falava. Naruto sentiu um frio no seu estômago, como se soubesse o que viria a seguir- O que eu quero dizer com isso, é que o atual vencedor d´As Tribulações da Redenção, é nada mais do que o filho do anterior, Namikaze Minato.

Naruto sentiu um zunido agudo nos seus ouvidos, enquanto um burburinho enchia a sala. Choumei continuou.

—Essa informação vem de fontes confiáveis, mas Naruto-kun...nós gostaríamos de ouvir de você...isso é verdade?

Os olhos de Naruto estavam arregalados, e nenhum som saía da sua boca. Porém, quando ele desviou os seus olhos para a plateia, ele viu muitos deles o olhando em choque, mas a sua atenção estava no homem de cabelos escuros que sorria para si de forma estranha: Honokami Azuka... O Daymiou...E Naruto logo entendeu.

Aquilo...era obra dele.

Ele queria vender uma estranha imagem de ´´legado´´ da supremacia de Konoha. Mas pela expressão surpresa do Sandaime, ele não sabia daquele plano... tampouco a maioria dos jounnins aparentavam saber daquilo... e os nobres apenas tinham as bocas abertas em falsa surpresa. Ridículo.

Bom, não importava mais. Alguns dos Kages já haviam percebido as semelhanças entre eles dois. Seria apenas uma questão de tempo...

Naruto apenas repuxou ainda mais os seus lábios.

—Claro. Onde você acha que eu fui buscar esse rosto bonito?

Choumei fingiu uma expressão cômica de surpresa.

—Realmente. Eu me lembro muito bem dele. Ele sentou nesse mesmo sofá comigo, há vinte e cinco anos atrás.

Naruto o analisou, ele nem rugas tinha. Aparentava ter uns quarenta anos. Mas ele ouviu boatos de que pessoas da capital usavam certos procedimentos cirúrgicos para parecerem mais jovens.

Rodando os olhos rapidamente pela sala, Naruto notou que a maioria ainda estava em choque. Inclusive os seus companheiros, perfeitamente enfileirados naquele gigantesco sofá. Ele conteve um suspiro.

—Mas eu tenho algo que ele não tinha nessa idade...-Naruto acariciou o seu abdômen- Um abdômen definido.

A gargalhada de Choumei era um som bastante engraçado, e no momento seguinte, a maioria dos nobres também estavam rindo, o que aliviou bastante o clima de tensão naquela sala.

Quando Choumei finalmente parou de rir, ele ainda tinha lágrimas nos cantos dos olhos. Naruto se controlou para não estalar a língua. Era completamente nauseante e ridículo.

—Isso foi realmente gratificante. Você é um garoto incrível. –Naruto aceitou a mão estendida de Choumei, e a apertou suavemente- Porém, me desculpe, o tempo das perguntas acabou. Eis o momento mais aguardado por todos.

Enquanto Naruto voltava a se sentar com os restantes gennins da folha, foi impossível não notar os olhos surpresos que o encaravam, mas ele não disse nada, estava demasiado ocupado fingindo que estava feliz.

Ele não estava nem um pouco.

Quando as luzes daquela sala se apagaram quase que completamente, a atenção de Naruto se voltou para a imagem projetada no quadro branco no fundo do palco.

Por mais que ele estivesse se esforçando, foi impossível os seus olhos não escurecerem, quando aquele vídeo começou. Aquela mesma música fúnebre e lenta que tocava na arena voltou a soar, enquanto que, lentamente, eles iam passando os rostos dos gennins mortos, um por um.

Aquilo deixou Naruto tenso. Suas unhas se afundaram no tecido daquele sofá, quando ele viu os rostos de Chouji, Karin, Akai, Choujuro, Yuriko, Kiba, Lee...Hinata...

Ao final, eles mostraram um quadro com o ranking de assassinatos. O top seis era ocupado por Naruto, Kei, Sasuke, El, Sakura e Hinata, respetivamente. Cada um com mais de oito mortes confirmadas.

Naruto estava no topo, disparado, com trinta e duas mortes confirmadas, enquanto Kei tinha quinze. Ele havia superado os trinta cadáveres que seu pai havia produzido no exame anterior. A plateia foi ao delírio, era um novo recorde. Mas Naruto continuava assustadoramente tenso.

Ele sabia o que viria agora. Um vídeo compilado com os momentos mais marcantes.

Era um feito incrível compilar duas semanas de matança, captadas por dezenas de câmeras espalhadas pelas quatro arenas, em uma apresentação de uma hora. Eram os ´´melhores´´ momentos. Os organizadores sempre procuravam montar uma narrativa em cada edição, enquanto passavam o compilado. Naquele exame, eles montaram uma história sobre ´´superação´´ de cada uma das tribulações.

Enquanto passavam cenas de mutilações, assassinatos e necro-canibalismo, tocavam uma melodia de fundo que dava todo um ar ´´melancólico´´ e ´´dramático´´ à aquelas cenas.

Eles procuravam mostrar um pouco do que cada um dos sobreviventes havia passado para superar aquele exame.

Naruto viu o seu grito quando a névoa engoliu Risa e Karin, viu Risa cuidando deles dois, e viu ela cantando enquanto Karin morria nos seus braços. A cena seguinte mostrava a chacina no Acampamento da Pedra, mas do ponto de vista de Touka. E Naruto cerrou mandíbula, quando ele viu aquela garota chorando, enquanto ele fatiava os seus amigos de infância.

Muitas outras cenas foram sendo mostradas. A cena de Sasuke quebrando o pescoço de Akamaru antes de se alimentarem dele, fez Naruto arregalar os olhos; assim como todas as cenas seguintes, em que ele via seus companheiros morrendo, um após o outro. Mas nenhuma cena o afetou mais do que a última. O sangue que ele viu manchando a neve, quando Kei atravessou a sua mão no abdômen de Hinata, trouxe um gosto horrível na sua boca.

No final de tudo, o ecrã mostrou a cena de Naruto sentado com a coroa na cabeça, enquanto fogos acendiam nos céus. E depois tudo ficou completamente negro.

Os nobres aplaudiam fervorosamente, enquanto eles limpavam lágrimas com os seus lencinhos de seda.

Ridículo e nauseante.

XxX

Enquanto encarava o seu reflexo no espelho daquele banheiro, Naruto sentia a sua pele suar e o seu coração batendo acelerado. Ele afrouxou o laço negro no seu pescoço, e desabotoou os últimos botões da sua camisa branca, procurando respirar melhor, e o alívio foi imediato.

Quando os seus pulmões se encheram finalmente de ar, uma outra sensação, dessa vez no seu estômago, o fez entrar em um dos cubículos e quase enfiar a cabeça em um dos vasos sanitários.

Imediatamente, o Ramén que havia comida mais cedo ardeu enquanto subia pela sua garganta. Depois de minutos encarando estoicamente o nada, ele deu descarga e voltou a lavar as mãos no lavatório.

Seus olhos continuavam vazios diante do espelho. Ele esticou lentamente os lábios, em um sorriso, mas logo desistiu. Durante aquela entrevista, ele fazia aquilo com tanta naturalidade, mas agora, depois de ver Hinata, Karin, Chouji...e tantos outros, morrendo mais uma vez, era incrivelmente difícil.

Só depois de quase cinco minutos diante do espelho, é que ele conseguiu colocar um sorriso nos lábios. Perfeito.

Ele saiu do banheiro masculino, bem há tempo de ver Risa saindo do feminino. Eles se entreolharam. Os olhos dela, negros como carvão, o encaravam de forma inexpressiva. Ela pareceu suspirar, antes de começar a caminhar em direção ao elevador.

Depois de ela pressionar o botão que chamava o elevador, eles continuaram parados no meio daquele corredor, em completo silêncio.

Quando as portas metálicas se abriram, eles entraram no elevador. Eles marcaram para o último andar, onde o banquete aconteceria.

Foi difícil Naruto não reparar nela. Ela estava linda, trajando um kimono azul-claro, e com flores estampadas, que formava um contraste perfeito com a sua pele de um tom amêndoa. A sua nuvem de cabelos azuis, estavam presos em um coque, por um kanzashi de uma flor dourada.

A boca de Naruto se abriu, mas ele não conseguiu dizer nada, quando os olhos dela o fitaram com intensidade. Vendo aqueles olhos ônix, ele imediatamente se lembrou de quando os viu manchados por lágrimas, enquanto um grito insano escapava dos lábios de Risa, e o corpo sem-vida de Akai estava estirado no meio da rua.

Sua culpa.

Um gosto horrível encheu a sua boca. Suas mãos começaram a tremer e a sua respiração voltou a ficar descompassada, enquanto o seu coração parecia querer saltar do seu peito. De repente, aquelas paredes metálicas do elevador se tornaram minúsculas e pareciam querer esmagá-lo.

Ele se sentia como se estivesse se afogando. De novo.

Bruscamente, ele sentiu o elevador parando. A cessação do movimento o fez se lembrar de desabotoar novamente alguns botões da sua camisa, e de respirar profundamente.

Ele inspirava e expirava o ar lentamente, enquanto procurava normalizar a sua respiração. Quando, depois de minutos respirando profundamente, os seus batimentos enfim se acalmaram, ele viu Risa apertando novamente em um botão, e logo o elevador voltou a se mover.

Enquanto voltava a apertar o laço negro no seu pescoço, ele murmurou:

—Obrigado.

Ela não respondeu nada. Mas quando as portas finalmente se abriram, no último andar, ele teve a impressão de vê-la sussurrando algo, antes de sair daquele elevador e desaparecer no mar de pessoas que abarrotavam aquele salão, especialmente decorado para aquele evento.

Naruto logo suspirou, enquanto via o Sandaime e alguns nobres se aproximando. Ele repuxou os seus lábios, voltando a sorrir como um perfeito idiota.

Um som agradável preenchia aquele salão. Em um rápido olhar, ele viu alguns músicos tocando instrumentos no fundo do salão, e produzindo uma melodia suave que se sobrepunha ao som de risadas, taças cintilando, e conversas aleatórias que corriam por aquele lugar.

Havia uma enorme mesa, com os mais variados pratos, e que certamente respeitavam os diferentes gostos gastronômicos das diferentes vilas. Apesar do cheiro inebriante que chegava às suas narinas, Naruto mal teve tempo para comer, já que enquanto era conduzido pelo Sandaime, inúmeras pessoas ´´célebres´´ em roupas e maquiagens estranhas, acotovelavam-se no caminho, tentando tirar fotos com ele.

Os fotógrafos contratados certamente fariam um bom dinheiro naquela noite.

Flashes atrás de flashes, rostos e mais rostos resplandecentes despontam de todos os lados, cada vez mais embriagados à medida que a noite avançava. Naruto continuava rindo e agradecendo as pessoas e sorrindo para as fotos.

Ocasionalmente, Naruto vislumbrava seus companheiros de vila, e os gennins estrangeiros, sendo abordados por diferentes pessoas, mas sendo o vencedor, ninguém despertava mais atenção que ele.

Com os seus ouvidos aguçados, ele conseguiu perceber que as garotas, em sua maioria, estavam recebendo...certas propostas. Que envolviam usar seus rostos e corpos, agora famosos, para satisfazer certos...fetiches de alguns nobres ricos...isso à um valor interessante.

Era incrível o quanto eles estavam dispostos a pagar por um sobrevivente de um Shiren Shôkan.

Nem Naruto escapou de algumas nobres, e até alguns nobres sussurrando nos seus ouvidos, e fazendo propostas milionárias por um pedaço dele, nem que fosse por uma noite. Ele apenas recusava, com um sorriso forçado no rosto.

Na verdade, ele estava se controlando bastante para não começar a quebrar pescoços. Nada o enojava mais do que adultos com taras por crianças. Por que apesar de serem assassinos treinados, era isso que eles eram, crianças pré-púberes. Era bastante nojenta a forma maliciosa como olhavam para eles.

Eventualmente, eles chegaram ao seu destino: Uma espécie de círculo de elite, no canto do salão, onde os outros Kages, e os lordes feudais de outras nações estavam bebendo e rindo de forma completamente exagerada, e obviamente falsa.

Pelos brilhos nos seus olhos, Naruto sabia que os outros Daymious estavam furiosos, embora Azuka, em seu kimono vermelho, não parecesse minimamente incomodado.

E Naruto sabia o porquê. Segundo o que Tobirama havia dito para ele, para tornar o exame ´´mais divertido´´ os Lordes Feudais faziam apostas entre si. Eles apostavam títulos, terras, mulheres, acordos comerciais, minerais, enfim...tudo o que pudessem naqueles jogos. Era uma simulação de guerra, no fim das contas. Em uma escala mais reduzida, e com um número mais controlado de baixas, mas ainda assim, era uma guerra. E o vencedor tinha que ficar com os espólios.

Enquanto o parabenizavam pela vitória, os olhos dos Kages brilhavam de um sentimento que Naruto reconheceria em qualquer lugar. Eles o olhavam como se Naruto tivesse entrado nas suas casas no meio da noite, e degolado as suas famílias.

Eles o viam como uma ameaça.

Ele já estava sentindo os seus músculos faciais doerem, por sorrir tão falsamente, quando enfim apareceu a sua salvação. A garota loira que havia carregado a coroa no palco, eventualmente apareceu naquele canto do salão, e Azuka logo a apresentou como sendo ´´Honokami Karura´´ uma de suas –inúmeras- filhas.

Ela tinha a sua idade, um ano mais velha no máximo, e vendo a forma como ela corava quando ela olhava para ele, Naruto logo viu uma maneira de sair dali.

Se curvando, como um perfeito cavalheiro, ele a convidou para dançar.

Depois de ela aceitar a sua mão estendida, ele a conduziu para o centro do salão, e enquanto aquela melodia agradável continuava tocando, Naruto sorria largamente, enquanto se lembrava das aulas de dança com Tobirama, para balançar e rodopiar suavemente com aquela garota.

Os olhos verdes de Karura brilhavam, como se ele fosse um príncipe de um conto, e Naruto apenas sorria de forma assustadoramente gentil, enquanto a conduzia com a delicadeza de um maestro.

Mas na verdade, os seus olhos azuis estavam fixos nos nobres espalhados por aquele salão. Um único pensamento passava pela cabeça de Naruto, enquanto os nobres riam e se entupiam de comidas e bebidas exóticas.: Eles eram como porcos, porcos vestidos de gente.

Seus olhos se moveram para o fundo do salão, onde ele viu Sasuke se movendo contra a corrente de pessoas, enquanto Sakura seguia no seu encalço, com um rosto preocupado.

O que havia acontecido?

Naruto sentiu um pequeno pisão no seu pé, e ele voltou a olhar para a garotinha que se movia consigo. Ela provavelmente fez aquilo para chamar a sua atenção. Ele voltou a sorrir, e logo viu a pele dela, repleta de maquiagem, corando fervorosamente.

Naruto olhou atentamente para Karura. Com os seus longos cabelos loiros e ondulados, aqueles olhos verdes e sorriso inocente nos lábios finos, ela era bonita, isso era inegável. Mas era muito fácil para os seus olhos trocarem a cabeça loira dela, pela cabeça de um animal.

E ela logo se transformou em uma porca.

***

Se embrenhando pelos corredores daquele edifício, Sakura finalmente encontrou Sasuke, parado ao lado das escadas. Seus olhos verdes se arregalaram, quando ela percebeu que ele estava socando, repetidas vezes, a parede branca diante do seu rosto.

—Sasuke-kun, pare com isso!

Ele não a ouviu, apenas continuou colidindo o seu punho contra a superfície dura, enquanto murmurava ´´idiota´´ sem parar. Engolindo em seco, Sakura fez a primeira coisa que lhe veio em mente.

Ela se colocou diante da parede, sem se preocupar que o punho dele a atingisse, mas surpreendentemente, ele parou a centímetros do seu rosto.

Sakura sentiu os seus lábios tremerem, quando viu a expressão no rosto de Sasuke. Ela envolveu a sua mão ao redor do punho ensanguentado de Sasuke, e lentamente o moveu para baixo.

—Por que...-Ela suspirou, quando percebeu que a sua própria voz estava embargada- Por que você saiu do salão, Sasuke-kun?

Os olhos dele continuavam daquela forma vazia, quando ele começou a falar.

— Eu estava sufocando. Vendo eles sorrindo, e bebendo, e comendo, como se nada tivesse acontecido. Como se ninguém tivesse morrido. Como se ela não tivesse morrido.

—E é por isso que você está com raiva? É por isso que você está socando essa parede?

Ele assentiu lentamente, os olhos dele brilharam de forma estranha, enquanto se apoiava naquela parede, e lentamente deslizava o seu corpo até o chão.

— Eu estou com raiva deles por me fazerem vê-la morrendo de novo...–A sua voz foi murchando- Eu...eu...estou com raiva de mim por ter ficado paralisado...Eu estou com raiva de mim por ter matado a Hinata...

Os olhos de Sakura arderam ao ver aquela cena.

Sakura se agachou naquele chão frio, e surpreendendo Sasuke, ela o abraçou, cuidadosa como se temesse que ele a afastasse, mas ele não a afastou, ao invés disso, sentindo o calor emanado do corpo de sua companheira de equipe, ele começou a tremer como se estivesse com frio, e um gosto salgado ocupou os seus lábios.

Ele não sabia o quanto precisava de um abraço, até alguém realmente abraçá-lo. E pela primeira vez nos últimos três dias, pela primeira vez desde que ele viu o cadáver sem vida de Hinata na cama daquele hospital, pela primeira vez, desde que ele viu os corpos estirados dos membros do seu clã, Sasuke chorou como uma criancinha, enquanto o aroma de cerejas adentrava às suas narinas.

Encolhidos no canto daquele corredor, Sakura apenas movia os seus dedos vagarosamente pelos cabelos negros de Sasuke, enquanto ela sentia o seu kimono ficando molhado pelas lágrimas repentinas do Uchiha. Ela sentia os seus próprios olhos arderem, mas não se atreveu a derramar uma lágrima sequer.

Apenas se lembrou das exatas palavras que escutou da sua mãe, algumas horas atrás.

—Vai ficar tudo bem. Eu prometo.

Notas finais
Espero que tenham gostado, porque eu amei escrever esse capítulo. E n, o banquete ainda n terminou. Como a noite ser@ longa decidi dividir em dois. Mas digam o que acharam DA entrevista, das ideias meio malucas na cabeça De Naruto, DA cena DA Sakura e do Sasuke... Dos porcos kkk (essa parte foi muito engraçada De escrever kkk) Enfim... Só comentem, lindas e lindos! Beijinhos do Oshikuru