Gênesis

51 Cinzas Remanescentes - ATO I - Caindo aos pedaços.


Notas iniciais
Gente, que comentários foram aqueles do capítulo passado?! Eu li cada um, e sinceramente, chorei litros. Sei que estou devendo as vossas respostas, mas realmente lamento, estou muito atarefado no momento, tanto que esse capítulo já estava pronto, mas como eu queria juntar com o seguinte, eu não queria postar ainda sem terminar o outro. Mas tempo livre tá foda... E além disso, depois percebi que o conteúdo do seguinte não combina com esse. E não, não fiz o Time skip ainda. Postarei dois extras, esse e o outro, para vocês terem noção das coisas. E confesso que... Os capítulos serão meio... Introspectivos. Muito angst, então... Quem for sensível... Já estou avisando. É imperioso rodar esse som, enquanto lêem esse capítulo. Vai por mim. https://www.youtube.com/watch?v=0m7olYKs3bc

—Pronto. Eu terminei.

Um suspiro de profundo alívio escapou dos lábios de Naruto, enquanto ele sentia às suas costas nuas repousando sobre aquela marquesa fria. Foi impossível os seus olhos não se moverem para a pele bronzeada do seu peitoral, onde antes havia aquela tatuagem negra, capaz de levá-lo à morte com um simples selo de mão.

Os seus dedos tatearam a pele da sua nuca, ele sentia pontadas agudas naquela região. A pequena cirurgia para a remoção daquele implante, havia deixado a sua pele sensível e avermelhada. Mas era por um bom motivo.

Ele finalmente estava livre das amarras daquele torneio. Seus olhos, imediatamente rodearam aquela sala irritantemente branca, e com um forte cheiro à desinfetantes e a medicamentos.

No meio do piso de mármore, o selo espaço-temporal completamente negro, com o qual ele fora teletransportado, logo depois daqueles fogos de artifício explodirem no céu negrume, ainda continuava brilhando.

Enquanto ouvia aquele médico recolhendo seus materiais, Naruto voltou à suspirar. Os músculos do seu corpo inteiro estavam doloridos pelo uso do modo sennin.

—Pois bem...descanse. Em breve eu virei ver como você está.

Naruto apenas acenou lentamente, enquanto aquele homem monossilábico abandonava aquela sala.

Mal o som da porta sendo fechada alcançou os seus ouvidos, ele a ouviu sendo aberta novamente e o cheiro de cinzas, loção de barbear e algo estranhamente doce, mas que sempre o fazia sorrir, adentrou as suas narinas. Naruto levantou o seu rosto. Era o Sandaime que havia entrado.

Ele estava sorrindo para si, mas quando ele finalmente se aproximou com passos lentos, Naruto percebeu que haviam pesados e escuros círculos sob os seus olhos. Ele parecia extremamente cansado.

—Ainda bem. Ainda bem que você sobreviveu, Naruto-kun.

Vendo o tom embargado na voz de Hiruzen Sarutobi, o considerado deus Shinobi, foi impossível Naruto não esboçar um fraco sorriso de canto, embora este fosse profundamente triste.

—Estou de volta, velhote.

Havia algo na sua própria voz que deixou Naruto surpreso. Ele parecia...aliviado. Como se, todo esse tempo, ele estivesse se afogando, e só naquele instante ele havia tragado uma lufada de ar. E ele sabia bem o porquê de estar se sentindo assim.

O cheiro de morte...havia desaparecido. Os olhos de Naruto ficaram profundamente saudosos.

O Sandaime suspirou, como se entendesse perfeitamente os sentimentos por detrás daquele simples olhar. Os olhos do Velho Kage se moveram até à pequena mesa ao lado da marquesa onde Naruto estava deitado. Os seus olhos escureceram ao avistar a coroa negra e metálica sobre ela.

—Então você venceu. -Naruto apenas assentiu, sentindo os músculos do seu corpo ficarem tenso e a sua boca ficar seca. Ele viu o Sandaime suspirar novamente, e os seus dedos enrugados se envolveram ao redor da coroa negra. Ele a retirou- Eu fico com isso. Desculpe, isso pertence à Konoha.

Naruto se lembrou de repente da katana negra sobre a mesa. Ele estava prestes a entregá-la para o Hokage, quando ele o impediu, com uma expressão estranha no rosto.

—Isso não. Essa katana pertence a você.

—Mas...achei que...

—Mesmo se a quiséssemos, vocês firmaram um contrato. Vossas almas estão ligadas. Até a morte. Acostume-se.

Ele apenas acenou positivamente.

—Tudo bem. –Ele ficou alguns segundos em silêncio, até finalmente ganhar coragem para perguntar algo que estava assombrando os seus pensamentos- Velhote...onde os meus companheiros estão? Eu perguntei para aquele médico, mas ele não me dizia nada...

O Sandaime ficou estranhamente tenso. O seu rosto pareceu envelhecer centenas de anos.

—Sobre isso...Você foi o último a ser teletransportado para fora da arena. Os feridos saíram primeiro. Eles foram levados para o Hospital Geral de Konoha.

Ele tentou sentir os chakras que, assim como ele, ainda estavam no edifício da divisão de Inteligência da Vila. Naruto sentiu um arrepio atravessar a sua espinha, quando ele percebeu que não havia nenhum outro gennin da folha naquele edifício.

´´Os feridos foram levados para o Hospital Geral de Konoha´´.

—Velhote...o que aconteceu com eles?

Ele forçou a sua voz a sair calma, mas na verdade o que ele queria era gritar.

A expressão de Hiruzen era profundamente triste. Quando o Sandaime terminou de falar, Naruto arregalou os olhos, sentindo a sua mandíbula travar, enquanto um frio se alastrava no seu estomago.

Não. Não podia ser verdade.

XxX

Quando o som brusco da porta deslizando pelas dobradiças de metal ecoou pelo corredor, os olhos de Sakura, vermelhos pelo líquido que se acumulava neles, imediatamente caíram sobre a figura de Uzumaki Naruto. E sinceramente, a expressão no rosto do loiro, no meio do corredor daquele hospital...era a coisa mais triste que ela já havia visto na sua vida.

Enquanto os passos pesados de Naruto se aproximavam de onde ela e Sasuke estavam sentados, Sakura viu o Uchiha ao seu lado, se encolher como se fosse um garotinho de quatro anos assustado, e Naruto fosse um monstro escondido debaixo da sua cama.

E pela expressão do loiro...talvez realmente fosse.

Em um rápido movimento, ela se levantou e arrastou Naruto de volta pela porta pela qual ele tinha entrado.

—Sakura...por favor, eu tenho que falar com o Sasuke.

A voz dele estava baixa, não passando de um sussurro, e os seus olhos azuis estavam incrivelmente opacos, mas o corpo dele tremia tanto, que Sakura realmente pensou, por um instante que ele fosse explodir.

Ela engoliu o choro que tinha entalado na sua garganta.

—E o que você quer falar com ele?

—Eu tenho que perguntar algo para ele...

Ela balançou a cabeça negativamente, bagunçando os seus fios róseos.

—E é por isso que você estava se aproximando dele com os punhos cerrados? Como se fosse socá-lo?! –Naruto ficou em silêncio- Eu conheço você. Eu sei que você ia gritar com ele, Naruto. Mas a culpa não foi dele.

A mandíbula de Naruto se cerrou.

—Não fode! Ele ficou simplesmente parado, como um retardado! É por culpa dele que a Hinata foi ferida. É por culpa dele, que ela está, nesse momento, lutando pela própria vida no meio de uma marquesa! Se eu estou com raiva?! Claro que estou, cacete!

O punho de Naruto colidiu com a parede daquele hospital. Rachaduras apareceram na superfície branca e dura. Sakura apertou os lábios rosados, sentindo os seus olhos humedecerem.

—Não é hora para isso, Naruto! E você acha que é o único que está sofrendo?! –O seu corpo começou a tremer- O Chouji, o Akai, o Lee e o Kiba morreram! Morreram, caralho! A Ino foi estuprada! O Shikamaru teve a língua arrancada! Para sobreviverem, eles devoraram o Akamaru! Eu perdi a porra do meu braço esquerdo, e sinceramente, não faço ideia de como vou lutar daqui para frente! Sem falar que o Kiba morreu por minha culpa! –Ela continuou falando, ignorando os olhos azuis que a encaravam em choque- Alguém explodiu a perna da Tenten! E a Hinata está com o abdômen completamente aberto em uma marquesa, enquanto...enquanto...ela luta para viver. Todos nós...todos nós...estamos com raiva...todos nós estamos sofrendo...todos nós estamos quebrados...então...então...

Quando ela sentiu os braços de Naruto a envolverem, ela não conseguiu controlar as lágrimas que estavam acumuladas nos seus olhos verdes.

—Eu...não sabia. Me desculpe.

Sakura não disse mais nada. Simplesmente continuou chorando, como se aquilo fosse aliviar o enorme buraco que ela sentia crescendo dentro do seu peito.

Não aliviou.

Naruto sentia a sua camiseta negra ficando encharcada pelas lágrimas de Sakura, mas ele não reclamou. Ele permaneceu abraçado à ela, enquanto eles voltavam para a sala de espera. E só naquele instante, ele finalmente percebeu os rostos abatidos sentados ao longo daquele corredor.

Sasuke estava encolhido em um canto qualquer, indubitavelmente se culpando. Shino continuava com a sua expressão indecifrável, mas provavelmente era o que mais estava sofrendo, afinal a sua –agora única- companheira de time estava entre a vida e a morte. Kabuto e Risa estavam sentados em um canto qualquer, parecendo perdidos em pensamentos. E então...havia Neji. A expressão desesperada no seu rosto...ele parecia um fantasma do génio do clã Hyuuga.

Naruto fingiu não ver o Uchiha tremendo ainda mais, -provavelmente temendo que ele o culpasse-, quando eles sentaram silenciosamente ao seu lado. E Naruto realmente estava se controlando para não gritar com ele. Ou pior. Mas quando o loiro finalmente analisou os olhos de Sasuke, escondidos sob a nuvem de fios negros que caíam diante do seu rosto, Naruto apenas apertou os lábios.

Ele nunca havia visto olhos tão tristes.

Eles ficaram simplesmente sentados, em silêncio. Sakura havia parado de tremer e de chorar, e agora apenas continuava sentada ao seu lado, com a cabeça apoiada no seu ombro, enquanto encarava fixamente à porta da UTI daquele hospital. Como se o seu olhar fosse ser capaz de ver o que se passava dentro daquelas portas.

Naruto sentiu os seus pelos se eriçarem, enquanto a estranha sensação de estar sendo observado se alastrava pelo seu corpo. Ele ergueu os olhos, bem há tempo de ver Risa, sentada há alguns metros de si, o encarando com uma expressão indecifrável. Mas ele quase conseguia ler os sentimentos escondidos sob aquela expressão.

Ela desviou os seus olhos negros como carvão.

Naruto sentiu um gosto horrível na sua boca, enquanto flashes do corpo pálido e sem vida de Akai acendiam na sua mente.

Akai era o melhor amigo dela, e Naruto havia o assassinado. Simples assim. E agora a sua melhor amiga estava entre a vida e a morte. Ele não acreditava em destino, carma e coisas do tipo, mas aquilo era um tanto irônico.

Como uma piada velha e sem graça.

Sim. Aquilo tudo era uma piada sem graça, e Hinata a qualquer momento ia passar por aquela porta, sorrindo daquela forma estranhamente assustadora e gentil, que só ela conseguia fazer, e contaria uma de suas costumeiras piadas mórbidas e sem graça.

´´Ei pessoal, eu sei que eu deixei vocês preocupados, mas tentem ver pelo lado positivo: Eles abriram o meu abdômen, e adivinhem?! Não tinha nenhum bebê dentro!´´

Naruto apenas deu uma risada sem graça, e Sakura apenas olhou para ele de forma confusa. Tudo aquilo era uma terrível piada sem graça.

E ele quase acreditou naquilo, quando ele viu as portas sendo abertas. Mas quando ele viu que era um médico, ele, assim como todos os presentes, apenas se levantou de forma abrupta, enquanto sentia o frio no seu estômago piorar.

O homem de cabelos grisalhos, ajeitou os óculos enormes no meio do seu rosto, antes de abrir a sua boca:

—Parentes de Hyuuga Hinata?

—Sou o irmão dela –Neji prontamente respondeu- Como ela está?

O médico se assustou ao ver Neji, provavelmente pela incrível semelhança entre os dois. Apesar de não serem realmente irmãos, não era estranho para Naruto ver Neji a tratando daquela forma. Eles eram próximos como se tivessem nascido do mesmo ventre.

O médico logo se recompôs, voltando a ajeitar os seus óculos demasiados grandes para aquele rosto franzino e pálido.

—Sua irmã deu entrada no hospital, com um trauma aberto abdominal. – Ele continuou, e Naruto reparou que a sua voz era incrivelmente robótica e desprovida de sentimentos, assim como os seus olhos verdes. – No entanto ela...

Ele suspirou, quando foi interrompido pelo som da porta sendo aberta em um solavanco, por onde a figura altiva de Hyuuga Hiashi entrou, segurando a mão da pequena Hanabi e sendo acompanhado por Kurenai e –estranhamente- Kakashi.

Os dois Jounnins simplesmente se escoraram nas paredes brancas e inexpressivas, enquanto o patriarca do clã Hyuuga caminhava até o médico, que parecia bastante impressionado com a semelhança entre os três Hyuugas diante dos seus olhos.

—A minha filha...como ela está?

A sua voz não passava de um sussurro, e a sua expressão era uma máscara perfeita de inexpressividade. Mas, para alguém com olhos analíticos, como Naruto, era visível uma camada de água se acumulando nos seus olhos perolados.

Naruto soube, logo de cara. Hiashi estava se controlando para não derramar nenhuma lágrima. O mesmo não podia ser dito da pequena Hyuuga, com a mão entrelaçada à sua. Hanabi tinha os olhos completamente vermelhos, e uma trilha de lágrimas deslizava pelo seu rosto.

O médico soltou um longo suspiro, quando notou que em menos de meio minuto, o número de pessoas naquele corredor aumentou.

—Hinata Hyuuga deu entrada nesse hospital, com um trauma aberto abdominal, mas consciente –Ele repetiu, com a sua voz inexpressiva e Naruto sentiu o seu corpo, dessa vez, tremendo, como se ele temesse as palavras a seguir- Nós imediatamente a levamos para a sala de cirurgia, porém logo descobrimos uma hemorragia intensa em seu abdômen, além, é claro, da enorme descontinuidade do tecido circundante do seu abdômen. Enquanto a hemotransfundíamos, conseguimos controlar a hemorragia que estava acometendo a maioria dos seus órgãos abdominais, porém, não conseguimos estancar o sangramento que estava prejudicando o seu fígado e os intestinos, devido os resíduos de chakra Raiton à volta dos tecidos. Ela sofreu uma parada cardíaca durante esse processo, mas felizmente conseguimos controlar...

Naruto viu Neji suspirar de alívio, mas os músculos do loiro continuavam tensos.

—Ela é uma garota forte. E está lutando pela sua vida. No momento está estável, e pretendemos deixá-la descansando na UTI pelas próximas horas, para que o seu coração se estabilize antes de voltarmos à efetuar uma segunda cirurgia, a fim de controlar completamente a hemorragia, e também... pretendemos utilizar um fuuinjutsu usando as suas próprias células, para conseguirmos regenerar completamente os tecidos circundantes da lesão.

Hiashi suspirou profundamente, parecendo aliviado.

—Folgo em saber. E...eu posso vê-la?

—Lamento, mas no momento isso é impossível –Ele voltou a ajeitar os seus óculos- Eu irei retornar caso eu tenha alguma notícia. Licença.

Foi tudo o que ele disse, antes de se retirar.

Hiashi afundou as mãos nos seus fios negros, enquanto se sentava. Todo mundo fez o mesmo. Bom, quase todo mundo. Kurenai havia se aproximado de Shino, e conversava algo com ele em um tom baixo. Kakashi, no entanto, continuava apoiado em uma das paredes, e quando os olhos de Naruto encontraram o único olho visível do Jounnin, ele apontou para ele, Sasuke e Sakura, e fez um sinal para que o acompanhassem, enquanto ele saía por aquela porta.

Eles o seguiram, e não falaram absolutamente nada enquanto atravessavam os corredores silenciosos daquele hospital, até chegarem no que parecia ser o refeitório. O jounnin mandou eles sentarem, enquanto ele ia fazer os pedidos.

Os três, sentados naquela mesa de quatro cadeiras, estavam em um silêncio fúnebre enquanto o Jounnin não voltava. Sasuke continuava olhando para baixo, Sakura roía as unhas da sua única mão, enquanto batia o pé nervosamente, e Naruto tinha os olhos vagos e encarando o nada, como se simplesmente...não estivesse presente.

—Comam.

Naruto sentiu o seu estômago embrulhar, quando ele viu Kakashi colocando um prato fumegante de Gyudon diante do seu rosto. Que horas eram para estarem comendo aquilo?! Deviam ser duas ou três horas da manhã, e o sol estava longe de nascer. Ele encarou aquele prato de arroz coberto de carne e cebola com uma expressão indecifrável. Aquele cheiro estava deixando o seu estômago embrulhado. Ele estava sem fome.

Aparentemente, Sasuke e Sakura estavam pensando o mesmo, já que nenhum deles também tocou nos seus pratos.

Kakashi arqueou uma sobrancelha, mas não falou nada. Simplesmente puxou o seu livro alaranjado, e fingiu começar a ler, quando na verdade estava analisando as expressões dos seus três alunos. Eles pareciam exaustos, e tinham enormes olheiras ao redor dos olhos opacos. Nenhum deles estava usando mais aquele uniforme assustador do shiren shôkan, ao invés disso, eles estavam trajando as roupas com as quais tinham ido para a Divisão de Inteligência. Todos menos Sakura.

A sua aluna estava usando um daqueles conjuntos azuis-marinhos que os pacientes usavam no Hospital de Konoha. Haviam bandagens novas ao redor do que havia restado do seu braço esquerdo e ela ainda continuava pálida e anémica.

Seus olhos negros escureceram ainda mais quando caíram sobre o braço decepado da sua aluna.

—Então você também está sendo tratada... Você devia estar descansando.

Foi tudo o que Kakashi disse, antes de virar uma página do seu livro.

—Eu sei. Eu perdi muito sangue. –Sakura continuava batendo o pé de forma inquieta, enquanto roía as unhas- Eles disseram que eu preciso ficar internada pelos próximos dois dias, para observação.

—Então por que...

—Não quero. Quer dizer, não ainda. Eu não ia conseguir ficar deitada, enquanto a minha amiga está...-Ela fez uma longa pausa, sentindo os seus olhos humedecerem, antes de continuar- Enfim...A Tenten, a Ino e o Shikamaru estão algures sendo observados nesse hospital. Eu fugi do quarto, na verdade. Aposto que os médicos devem estar me procurando.

Naruto olhou para Sakura, com uma fagulha de curiosidade nos seus olhos.

—A Ino...está ferida?

Sakura apertou os lábios.

—Não. Mas ela foi estuprada, Naruto. Acho que estão fazendo profilaxia de possíveis doenças venéreas...ou mesmo uma...concepção.

Aquela fala fez o estômago de Naruto se embrulhar, e deixou uma tensão desconfortável pairando sobre aquela mesa.

Depois de alguns longos minutos, -que mais pareceram horas- de silêncio, o Jounnin voltou a suspirar. Ele podia ficar horas assim, simplesmente olhando para eles, mas não era o caso para aquele dia. Ele sentia a tensão entre aqueles três, e precisava que eles conversassem. Ele suspirou novamente, e a sua boca estava prestes a se abrir, quando eles ouviram a porta do refeitório sendo aberta, e imediatamente, Kakashi viu os seus alunos ficarem de olhos arregalados.

Kira Kei, com um curativo superficial na sua testa, e a mão direita enfaixada. O maxilar de Naruto travou completamente, quando ele viu ele se sentando em uma mesa, enquanto a sua companheira, Nii El, ia fazer os pedidos.

O punho de Naruto se fechou com tanta força, que a sua mão chegou a sangrar. Aquilo só podia ser uma brincadeira. Enquanto Hinata estava entre a vida e a morte, aqueles eram os únicos ferimentos daquele filho da puta? O quanto a vida era injusta?

Hinata estava entre a vida e a morte, por sua culpa. Hanabi estava chorando, por sua culpa. Sakura estava tremendo, por sua culpa. Sasuke mal conseguia olhá-lo nos olhos, por sua culpa. Neji não conseguia abandonar aquela sala de espera, e ir visitar a garota que ele gostava, por sua culpa. Todos estavam sofrendo, por sua culpa. Mas mesmo assim...ele estava bem! Ele estava bem, caralho! Estava sorrindo, comendo e cagando, como se nada tivesse acontecido!

Kakashi arregalou os olhos, quando notou a intenção assassina que estava sendo emanada por Naruto. Ele colocou a mão no ombro de Naruto, que piscou os cílios loiros, como se estivesse despertando de um sonho.

—Se acalme. O exame já terminou. Não preciso dizer o que vai acontecer se você atacar ele. Ele é o filho do Raikage. Você vai cometer um crime internacional, que pode começar uma guerra.

—Eu sei disso. –Naruto falou em um sussurro, mas a sua mão tremia tanto, que Kakashi achou que ele ia começar a fazer selos de mão, em qualquer momento- Mas eu quero tanto matá-lo...

Quando a companheira de Kei pareceu perceber a intenção assassina que permeava aquele refeitório, ela olhou diretamente para eles, e franziu o cenho. Ela se debruçou e sussurrou qualquer coisa no ouvido de Kei. Ele fez uma expressão confusa, antes deles se levantarem e caminharem para a saída do refeitório. Porém, antes dele sair, ele olhou fixamente para Naruto, com aqueles seus olhos cinzas e intensos. E Naruto quis ainda mais matá-lo.

Quando Kakashi viu a porta do refeitório fechando, ele soltou o ar que havia prendido sem perceber.

A mão de Naruto ainda tremia, e a sua mandíbula estava tensa. Ele fechou os olhos, e inspirou e expirou o ar de forma lenta e profunda, enquanto fazia contagem mental até dez para se acalmar. Se bem que...aquilo era complicado, quando ele estava lutando contra milhares de instintos que queriam que ele começasse a realizar selos de mão, para um jutsu bastante desagradável.

Seus olhos se abriram novamente, e Naruto soltou o ar que tinha preso nos pulmões, quando viu as expressões nos rostos de Sasuke e Sakura. Principalmente ao ver os olhos do Uchiha. A colher na sua mão estava torta, de tanto apertá-la. Ele provavelmente estava sentindo tudo em dobro.

Eles ficaram, em silêncio por alguns segundos, até que uma voz hesitante se fez presente:

—Eu...me desculpem. Por tudo. –Aquela foi a primeira vez que o Uchiha ergueu o rosto, e os encarou nos olhos. E a visão dos seus olhos ônix era algo bastante deprimente- É tudo minha culpa. Se eu não tivesse congelado...

Os seus olhos se arregalaram ao verem Naruto simplesmente levantando da mesa. Ele pegou o seu prato intocado, e jogou o conteúdo no lixo, antes levar o prato de volta para o balcão do refeitório. O som de seus passos se distanciou ainda mais, antes dele sair e fechar a porta com uma força anormal, que fez as pessoas sentadas nas outras mesas o olharem de forma torta.

Sasuke apenas apertou ainda mais o punho, enquanto Sakura aparentava estar confusa entre seguir o seu companheiro, ou consolar o Uchiha, que havia se encolhido ainda mais. Ela apenas suspirou, antes de colocar sua mão no ombro de Sasuke.

Kakashi soltou um novo suspiro. Aquilo estava pior do que ele pensava.

—Não se culpe, Sasuke. Eu vi tudo acontecendo. Eu entendo o motivo de vocês terem baixado a guarda. Era impossível alguém sobreviver à aquele justu.-Ele suspirou, fechando o livro diante do seu rosto- Os raios negros são mais rápidos, e mais resistentes que o Raiton comum. Não tinha como vocês saberem que ele tinha uma outra versão da Armadura de Raios. Ainda mais uma versão com raios negros. Nem mesmo o Raikage possui algo do tipo. Os reflexos e a defesa dele simplesmente estavam fora da vossa liga. Não se martirize.

Sakura assentiu, enquanto esboçava um curto sorriso para o Uchiha.

—O Sensei tem razão. E além do mais, se há alguém que de facto é culpado, é aquele garoto da Nuvem. Foi ele quem feriu ela, não você. Hinata apenas salvou um companheiro, assim como você faria o mesmo por ela. Apesar da vossa implicância um com o outro, Naruto é...seu amigo. Uma hora ele vai acabar entendendo isso.

Sasuke apenas acenou positivamente, ainda com aquela expressão.

Enquanto Sakura falava, apesar de estar sorrindo, os olhos dela estavam opacos e havia algo estranho na sua voz, e Kakashi logo entendeu o que era. Sabendo que Kiba havia sido morto enquanto a salvava, era óbvio que ela havia repetido aquela mesma frase, vezes sem conta, para si mesma. Como uma espécie de mantra.

´´Não foi minha culpa. Não foi minha culpa.´´

Embora os seus olhos verdes dissessem o contrário.

Os olhos dos seus alunos...eram idênticos ao seu, quando ele atravessou um chidori no peito da sua companheira de equipe. Eles estavam tão quebrados quanto ele.

Aquilo trouxe um gosto horrível na sua boca.

Um gosto tão horrível, que apesar dele saber que o Sandaime havia o enviado no hospital, para que ele visse como os gennins estavam, e nomeadamente os informasse sobre a cerimônia que haveria em dois dias; ele não o fez. Kakashi decidiu guardar aquela informação para si, pelo menos no momento. Era o máximo que ele podia fazer.

***

Naruto levou à agua fria nas suas mãos, em direção ao rosto, e logo encarou o seu reflexo no espelho daquele banheiro. O seu rosto estava um caco, mas não tanto quanto o seu coração. Ele inspirou o ar profundamente, procurando se acalmar.

Ele odiava hospitais. Quando aquilo aconteceu no orfanato, ele passou um bom tempo internado naquele mesmo hospital. Fechando os olhos, ele conseguia se lembrar das paredes brancas e inexpressivas que o encararam durante dias, dos olhares de choque e pena nos rostos das médicas, quando elas, depois de o examinarem, perceberam o que havia acontecido com ele, e sobretudo, ele se lembrava da sensação de estar sempre...anestesiado pelos analgésicos potentes que eles lhe davam, para aliviá-lo das dores intensas que consumiam o seu frágil corpo de seis anos.

Mas naquele momento, ele desconfiava que nem mesmo todos os analgésicos do mundo seriam capazes de aliviá-lo da dor que ele sentia crescendo no seu peito.

Ele molhou o seu rosto com a água fria novamente, quando ele percebeu que os seus olhos estavam se enchendo de água. Faziam anos desde que aquilo aconteceu, e ele sinceramente achava que já tinha superado, mas ultimamente...tudo o lembrava daquela época. E mesmo depois de tantos anos, ele ainda sentia como se uma lâmina estivesse atravessando o seu coração.

Ainda era doloroso demais.

Ele fechou novamente os olhos, e dessa vez, ele foi tragado para o lugar escuro e frio que era o seu subconsciente, e os olhos azuis da Raposa branca no meio daquela cela, o encaravam de forma analítica.

´´Kyuubi...´´

Foi tudo o que escapou dos seus lábios, e a raposa apenas soltou um som parecido à um suspiro.

´´Me deixe adivinhar: Você quer que eu cure a sua namorada.´´

Os olhos do loiro, por um momento, se fixaram na pequena cela ao lado da raposa, onde uma forma escura e sorridente o encarava. Muramasa. Naruto decidiu ignorá-la. Ele encarou novamente a raposa.

´´Ela não é minha namorada, mas sim. Eu estava pensando se você-´´

´´Não.´´

Os olhos de Naruto se arregalaram.

´´O...quê?´´

Os olhos azuis da Raposa continuaram o encarando de forma vazia.

´´Eu não vou curar aquela garota. Tampouco um dos seus amiguinhos. Você prece ter esquecido de algo óbvio, mas eu vou relembrar você: Nós não somos amigos. Eu ajudei você no exame, porque eu queria sobreviver. Nós fizemos um acordo. Eu não devo nada à você. O exame terminou. O acordo terminou.´´

A boca de Naruto se abriu, mas nenhum som saía dela. Ele ficou alguns longos segundos em silêncio, absorvendo aquelas palavras, até a sua boca finalmente se fechar, em uma expressão completamente indecifrável.

´´Entendo...-Havia uma mágoa genuína na sua voz- Eu...entendo. Desculpe incomodá-la...´´´

Foi tudo o que ele sussurrou, antes de dar às costas e desaparecer daquele fétido esgoto. Quando ele desapareceu, a raposa milenar soltou um profundo suspiro, enquanto se enrolava sob às suas gigantescas caldas, e se encolhia na sua cela escura e fria.

´´Eu...fui bem, mamãe?´´

A Muramasa sorriu no meio da sua cela escura.

´´Você fez bem, minha criança. Exatamente como eu te pedi. ´´

A raposa apenas assentiu, enquanto os seus olhos azuis se enchiam de um sentimento incomum para demônios: Tristeza.

´´Me desculpe...gaki...´´

Quando os seus olhos azuis se abriram, ele se encarou novamente no espelho daquele banheiro. Ele ficou assim por longos minutos. Simplesmente parado, vendo o seu reflexo. Até que o seu lábio se repuxou em um pequeno sorriso, e depois uma risada, que logo deu lugar a uma gargalhada.

Tudo aquilo era uma piada sem graça.

Quando ele voltou para a sala de espera, ele percebeu que os seus companheiros de time já haviam voltado do refeitório, mas Naruto preferiu sentar ao lado de Hiashi e Hanabi. Eles simplesmente ficaram em um silêncio assustador. O patriarca do clã Hyuuga não falou nada, nem mesmo quando viu Hanabi deitando a sua cabeça no colo do loiro.

Naruto apenas sorriu fraco, antes de começar a passear os seus dedos pelos fios negros da caçula do clã Hyuuga. Sentindo a maciez daqueles fios, foi impossível não se lembrar de Hinata, e aquilo fez a sua mandíbula travar. Alguns minutos depois, Hanabi tinha adormecido.

—É incrível como ela consegue adormecer em qualquer lugar.

Naruto ficou surpreso ao ouvir a voz baixa de Hiashi, mas foi impossível ele não assentir, enquanto um sorriso triste brotava nos seus lábios.

—Realmente.

Eles ficaram mais alguns segundos em silêncio, antes da voz de Hiashi soar novamente. Aparentemente, Naruto não era o único que estava desconfortável pelo silêncio.

—Eu vi a sua luta contra o Shodaime Mizukage...-A voz dele era meio hesitante, como se aquilo fosse estranho para ele- Você... foi genial.

—Obrigado.

—Eu que tenho que te agradecer. As coisas que vocês tiveram que fazer nesse exame...eu tenho que te agradecer por ter ficado ao lado dela. Minha filha tem sorte por ter um amigo como você.

Naruto não ficou surpreendido ao sentir a voz de Hiashi saindo embargada.

—Não. Acho que é o contrário. Eu que sou sortudo.... –Ele ficou alguns segundos em silêncio, antes de continuar- E Hiashi-dono? Ela vai sair dessa.

Os olhos dele se encheram de água.

—Assim espero.

Depois daquilo, nenhum deles falou mais nada. Eles ficaram em silêncio por cerca de três horas. Naruto continuava sentado na mesma posição, mas vez ou outra ele tinha que se ajeitar melhor, devido à Hanabi, adormecida no seu colo.

Olhando para a parede, Naruto viu um relógio, e este marcava 5:21, e ninguém naquela sala dizia absolutamente nada.

Naruto olhou para o lado, e viu Sakura com olhos vagos, com a cabeça apoiada no ombro do Uchiha, que continuava olhando para baixo. Kakashi havia saído havia mais de meia-hora atrás, Kurenai continuava escorada na parede branca, Shino continuava inexpressivo, Kabuto e Risa continuavam perdidos em pensamentos, e Neji continuava com aquela expressão cansada no rosto.

Naruto saiu dos seus devaneios, quando viu Hanabi abrindo os olhos perolados, enquanto um trilho de lágrimas escorria pelo seu rosto alvo. Aquilo trouxe um arrepio na espinha de Naruto.

Hiashi dispensou um olhar sereno para a sua caçula.

—Volte a dormir, filha.

Ela apenas continuou chorando, Naruto se assustou quando a viu tremendo.

—Tem algo errado, papai. Dói aqui –ela apontou para o próprio peito- Muito. Parece que estou sufocando.

Hiashi arregalou os olhos, enquanto puxava a filha para um abraço, e antes que dissesse algo mais, a porta se abriu e o mesmo médico passou por ela. Todos se levantaram, e Hiashi prontamente foi o primeiro a falar:

—Como a minha filha está, doutor?

Ele suspirou novamente, enquanto voltava a ajeitar os seus óculos enormes.

—Enquanto tentávamos estancar as hemorragias restantes, e regenerar efetivamente os tecidos lesados, a paciente sofreu uma coagulopatia intravascular disseminada, que levou à um choque hipovolêmico, e consequentemente, à falência de múltiplos órgãos –Naruto apertou os lábios de forma nervosa, enquanto todos ficavam tensos- Fizemos todos os possíveis para reverter o quadro clínico, mas...infelizmente, ela não resistiu e veio à óbito. –Ele colocou a sua mão sobre o ombro de um Hiashi estático- Sinto muito.

—Não. – Hiashi voltou a se sentar, abraçando uma Hanabi chorosa no meio dos seus braços. Os olhos dele estavam marejados — A minha menina não.

O som do choro agudo de Hanabi encheu aquele corredor silencioso, nublando os pensamentos de Naruto com uma névoa fria e sufocante.

Morta. Hinata estava morta.

Neji simplesmente socou a parede que havia ao seu lado, enquanto lágrimas silenciosas deslizavam pelo seu rosto. Kurenai estava com os olhos marejados, enquanto sussurrava algo para um Shino em choque. Kabuto e Risa olhavam fixamente para baixo. Sakura soluçava como uma criancinha, e então havia Sasuke...com as mãos cobrindo o rosto, enquanto tremia.

Os olhos de Naruto estavam abertos, em choque, e ele tremia como se o seu corpo estivesse sendo exposto à um frio extremo.

—Podemos...podemos vê-la?

—Lamento, mas só os familiares po...-Os olhos verdes daquele médico se arregalaram ao verem os olhos azuis sem vida que o encaravam. Ele engoliu em seco- Acho que...posso fazer uma exceção...

Naruto continuou com aquela expressão, enquanto ele seguia aquele médico. Ele ouvia inúmeros passos atrás de si, até eles entrarem naquele quarto branco e frio. Seus olhos não se alteraram, ao ver o rosto branco e sereno no meio daquela cama do hospital.

Muito suavemente, seus dedos traçaram os contornos do rosto alvo e bonito de Hinata, como se ele quisesse guardar cada detalhe no fundo da sua mente. Seus dedos tremiam, mas ele atribuiu aquilo à frieza da pele pálida dela.

Seus olhos perolados nunca mais se abririam, e olhariam para ele daquela forma profunda, como se ela fosse capaz de enxergar um ´´eu´´, que nem o próprio Naruto era capaz. Suas sobrancelhas nunca mais se franziriam, como ela fazia quando estava confusa. Seus lábios nunca mais se esticariam em um daqueles sorrisos, que faziam Naruto sorrir também de forma involuntária, e a sua voz...Naruto nunca mais ouviria o som da sua voz.

Ele só percebeu que estava chorando, quando sentiu um gosto salgado nos seus lábios.

Um cadáver. Hinata era um monte de carne sem vida. Assim como ele.

Seu coração se apertou como se uma mão fria e invisível estivesse o comprimindo. Respirar era difícil, ele se sentia como se estivesse se afogando em águas escuras e frias. Então, ele fez a única coisa que podia.

Ele deu às costas, e nadou para longe daquele lago frio e negro.

XxX

Quando depois de mais de meia-hora batendo na porta daquele apartamento, ninguém veio abrir, o Sandaime revirou às suas vestes, até achar a chave extra que ele tinha, e a encaixou na fechadura.

Seus dedos se envolveram ao redor da maçaneta fria, enquanto ele abria aquela porta e adentrava aquele apartamento. O apartamento estava frio e escuro, enquanto ele o atravessava, mas os seus olhos shinobis enxergavam os detalhes, como se fosse dia.

Ele arregalou os olhos, ao ver móveis destruídos, e os pedaços da mesa de vidro no meio da sala espalhados no chão, assim como uma grossa camada de poeira sobre os móveis.

Era como se alguém, em um acesso de raiva, tivesse destruído tudo.

Hiruzen entrou no único quarto do apartamento, e o encontrou simplesmente deitado, no meio da sua cama, com os fios longos e loiros esparramados pelos lençóis, enquanto encarava fixamente o teto branco, com um olhar vazio e distante.

Ele trajava um quimono completamente negro, bem diferente da roupa que trajava há dois dias atrás, mas pela camada grossa de poeira que havia no apartamento, Hiruzen não duvidava que ele estava daquela forma há dois dias.

Quando o velho Hokage abriu as cortinas daquele frio quarto, o rapaz mal piscou os olhos, e simplesmente continuou deitado. O velho Hokage se sentou em uma cadeira que havia no quarto, e soltou um profundo suspiro.

—Ontem você não foi no velório dela. –Hiruzen começou, e a sua voz saía incrivelmente arrastada- Apesar de que...aparentemente, você se preparou.

—Eu sei...-A voz dele era um sussurro profundo, como um vento aprisionado em uma caverna por milénios, e só fora solto naquele momento- eu...me forcei à tomar um banho, procurei uma roupa apropriada, mas...quando a minha mão estava ao redor da maçaneta da porta...eu não consegui. Não consegui ir ver que ela agora é um cadáver.

O Sandaime suspirou novamente. Os olhos daquele garoto...céus. Ele estava fodidamente quebrado.

Ele se lembrava muito bem, depois de ter resgatado o menino daquele...orfanato, ele passou um bom tempo sozinho. Claro que Hiruzen o visitava de vez em quando, mas aquilo não era suficiente. Ele sempre notava que os olhos do garoto ainda estavam carregados de dor, dor pelo que tinha acontecido com ele. A sua preocupação só piorou, quando ele viu a maneira hostil que os aldeões tratavam ele, como se ele já não sofresse o bastante. Aquilo...ninguém merecia passar por aquilo.

Mas então, algo mudou. Subitamente, o garoto começou a sorrir e a vandalizar prédios, e a dizer que queria ser Hokage. Quando o Sandaime resolveu sentar com ele, e descobrir o porquê daquele sonho, a resposta de Naruto o surpreendeu. Sorrindo, ele disse que queria salvar e proteger as pessoas, assim como Hiruzen tinha o salvado daquilo. Aquela fala trouxe lágrimas para os olhos do Sandaime.

Hiruzen desconfiava que Naruto simplesmente acordou um dia, e decidiu fingir ser feliz. Decidiu fingir que nada tinha acontecido. Ele fez isso com tanta frequência, que acabou enganando à todos, inclusive a si mesmo. Mas Hiruzen não era tolo. Ele sabia que aquele sorriso radiante, era uma máscara que ele estava usando, afinal os seus olhos azuis continuavam pedindo por ajuda.

Mas então...ele conseguiu fazer uma amizade. Foi na mesma época que a menina tinha perdido a mãe, e se tornado estranhamente introvertida e quieta. Hiruzen conseguia observar aquelas duas crianças andarem juntas para tudo quanto era lado. Era difícil ver Naruto, sem Hinata por perto. Eles eram inseparáveis. E lentamente, se tornaram o apoio um do outro. E depois de um tempo, eles conseguiram voltar a sorrir. Naruto, inclusive. Um tipo de sorriso, que Hiruzen sinceramente não achou que seria capaz de ver no rosto dele, não depois do que aconteceu com ele.

Aquela menina era extremamente importante para ele. A única capaz de manter a quase inexistente ´´personalidade´´ de Naruto. E agora...ela estava morta.

O garoto estava ferido. Uma ferida profunda, e que sangraria pela vida toda. Ele estava quebrado. Mais do que alguma vez esteve. E Hiruzen duvidava que ele alguma vez se recuperaria daquilo.

Ele saiu dos seus devaneios, quando viu Naruto erguendo o seu tronco, ficando sentado na cama.

—De qualquer forma...o que você veio fazer aqui...?

Ao ouvir aquela voz, que não passava de um sussurro, o Sandaime de repente se lembrou da conversa delicada que teria que ter com Naruto.

—Bom...a cerimónia de premiação será realizada hoje há noite.

—Você podia ter enviado um ANBU para isso.

Os ombros do velho Kage baixaram, enquanto ele suspirava profundamente.

—Isso é verdade, mas...não é sobre isso que eu queria falar com você... ...-O Sandaime suspirou novamente, ficando alguns segundos em silêncio- Enquanto caminhava para aqui...eu pensei em um monte de formas de dizer isso para você, mas agora vejo que cada uma é pior que a outra, então... Eu vou ser direto: Eu sei sobre o Sensei.

Os olhos de Naruto escureceram, enquanto ele absorvia aquela informação. Ele sabia exatamente de quem o Sandaime estava falando. Tobirama.

Apesar de ele não o ver desde que havia saído do exame. Naruto já tinha tentado sentir a sua assinatura de chakra na vila, mas nem nisso teve sucesso. Ele tinha simplesmente desaparecido. Evaporado.

—Todo esse tempo...você sabia?

Hiruzen acenou positivamente.

Naruto deu um sorriso de canto, que logo se transformou em uma risada seca. Ele percebeu que já fazia um bom tempo que não ouvia o som do seu próprio riso. Céus...ele parecia um camundongo doente se engasgando.

—Eu...eu estive me sentindo culpado, todo esse tempo...por estar escondendo algo assim de você. Você é como um avô para mim...e eu não me sentia bem escondendo coisas de você. -Ele continuou, ignorando o olhar profundamente triste no rosto do Hokage. -Você me salvou daquele orfanato de merda. Eu achei que você se importasse comigo...e mesmo assim...mesmo assim você não pensou duas vezes antes de ficar me escondendo coisas.

—O que você passou...nenhuma criança devia passar por aquele tipo de coisa. Eu só...me arrependo de não ter notado antes...

A sua mandíbula se cerrou, formando uma dura linha, enquanto os seus olhos escureciam como à noite.

—Tanto faz...eu só...estou cansado, sabes? De pessoas estarem escondendo coisas de mim. Eu ser o jinchuuriki da Kyuubi, os meus pais, o que aconteceu com o filho do Sensei...o fato de você saber de tudo...eu estou cansado. Que outras coisas vocês estão me escondendo? Você...você sabe onde caralho ele está? –Ele perguntou, mas ao ver a expressão de Hiruzen, ele teve a resposta. Naruto riu- Claro que você sabe. Tal mestre, tal discípulo.

—Entendo que estejas chateado. Eu contarei tudo para você. Por isso estou aqui...

Hiruzen viu Naruto suspirar longamente, enquanto se levantava da cama e massageava os seus olhos. Ele parecia exausto.

—Saia.

Os seus olhos se arregalaram.

—O...quê?

—Saia do meu apartamento.

—Eu...

—Não quero ouvir. Não quero ouvir mais mentiras. Pro inferno vocês dois.

—Naruto-kun, pelo menos me ouça!

—Não preciso ouvir. Eu sei exatamente o que vai sair da sua boca: Mentiras, atrás de mentiras. –O corpo dele tremia, como se estivesse com um frio intenso- Saia, ou eu juro que vou perder o respeito que tenho por você, e vou socar esse seu rosto.

A boca do Sandaime se abriu, mas ele logo a fechou ao ver o olhar cansado no rosto de Naruto. Ele suspirou, antes de se levantar.

—Tudo bem. Mas quando a cerimônia de premiação terminar... Se você quiser saber a verdade...Toda verdade... Me encontre no meu escritório. Eu contarei tudo. Tudo. –Ele colocou às mãos nas costas, e com os olhos brilhando de dor, atravessou o apartamento, até parar na porta. Ele remexeu nas suas vestes, até puxar uma espécie de envelope dourado. Um convite- E... eu realmente preciso que você vá para a cerimônia...O Daymiou-sama...

Naruto apenas deu de ombros, enquanto recebia o envelope.

—Como quiser... eu tenho que ir desfilar como um troféu, não?! Porque é isso que eu sou: O seu maldito troféu.

Hiruzen apenas ficou em silêncio, enquanto Naruto abria a porta. Naruto arqueou uma sobrancelha, como se perguntasse o porquê dele ainda estar ali. O Sandaime suspirou novamente, ao ver o quanto os olhos dele estavam opacos.

Quando os seus pés estavam fora, ele retirou o chapéu sobre a cabeça, e se virou para o garoto.

—E...Naruto?

—Hm...?

—O que ele fez com você...Não foi sua culpa. Você sabe disso, não?

Naruto apertou os olhos. Por que...por que ele continuava o olhando daquela forma gentil? Mesmo que ele estivesse o expulsando?! Aquilo aumentou a sua raiva.

—´´O que ele fez com você?´´ -Naruto deu uma risada seca, enquanto os seus olhos marejavam- Que eufemismo. Fale a palavra. Fale exatamente ´´o que ele fez comigo?´´. Você não consegue, pois não?! Isso é patético.

E logo depois, fechou a porta na sua cara, enquanto as suas costas deslizavam pela porta gélida, e ele levava às suas mãos para o rosto marcado por lágrimas.

Hiruzen sentiu os próprios olhos marejarem, ao ouvir o soluço baixo que vinha de dentro do apartamento. O que aconteceu naquele orfanato...Aquele era...o seu pior pecado. A sua pior falha.

Aquele garoto...ele era como uma majestosa escultura de vidro. Aparentemente perfeito e belo por fora. Inabalável e majestoso. Mas por dentro...haviam rachaduras, profundas rachaduras.

Elas haviam crescido tanto...que agora ele estava...caindo aos pedaços.

Notas finais
No próximo teremos... o banquete. Trep....quer dizer, Comentem, favoritem e recomendem para a/o crush sem coração. Quem sabe assim, acabe desenvolvendo sentimentos... Saibam que eu sou um gato, então bruxedos não funcionam em mim... Beijinhos, e até o próximo.