Gênesis
60 Cinzas Remanescentes – ATO FINAL II – Epílogo (Realidade decepcionante).
Notas iniciais
O cheiro de álcool, sangue e fuligem enchia o local, enquanto o som agudo de gritos de dor atravessava a fina parede do quarto. O Hospital de Konoha estava bastante agitado naquela noite de chamas, cinzas e fumaça.
Shikamaru, que havia acabado de testemunhar Shino sendo levado urgentemente à uma sala de cirurgia, enquanto ele próprio era enfiado nesse quarto branco e estéril, olhava para tudo com olhos vazios.
Então, aquilo era guerra?
Havia uma fila extensa de pessoas em espera para atendimento nos corredores, e a cada segundo mais chegavam, sobrelotando a capacidade de atendimento dos ninjas médicos. A única razão que Shino recebeu prioridade era porque ele era o herdeiro do clã Aburame, um dos nobres clãs de Konoha, enquanto que Shikamaru apesar dos seus ferimentos não colocarem a sua vida em risco, também recebeu o mesmo tratamento especial.
Ele havia tentado dormir naquela cama fria, mas seus pensamentos não conseguiam deixar de vagar. Os agora mortos companheiros com rostos esperançosos que escoltaram os nobres com ele... Hiroshi com seu rosto severo, mas que sempre escondia um sorriso suave...Natsuki, com seus olhos verdes e determinados à se sacrificar... e sobretudo, ele não conseguia deixar de pensar na situação de Naruto. A expressão calma em seu rosto enquanto ele ficava para trás...como se a sua vida ou sua morte fosse irrelevante...
As sobrancelhas de Shikamaru se franziram profundamente. Ele era forte, mas...Kei também era.
Ele havia informado sobre a situação de Naruto para um grupo de Chunnins na entrada do hospital, mas havia algo nos olhos frios e indiferentes deles que fez Shikamaru duvidar que eles fossem enviar reforços.
Shikamaru cerrou os dentes, antes de tentar se levantar da sua cama. Seu ombro enfaixado gritou de dor, enquanto ele sentia sua visão rodar. Ele havia perdido muito sangue com o ferimento no ombro, sem falar que suas reservas de chakra estavam completamente esvaziadas. Mesmo com o seu status, em um momento em que os ninjas médicos precisavam poupar o máximo de chakra possível, ninguém se incomodaria em desperdiçar chakra em um ferimento não-fatal, então, ele havia sido suturado à moda antiga, antes que enfiassem um monte de analgésicos nas suas veias.
Mas mesmo assim, ele ignorou sua visão borrada de manchas negras, e cambaleou até a porta, apenas para sentir uma aguda sensação de fraqueza ao colocar a mão na maçaneta. Seu corpo desabou no chão.
O som abrupto de sua queda fez com que a porta fosse aberta com pressa. Quando Shikamaru viu o rosto da pessoa que havia entrado, sua expressão taciturna ficou um pouco mais leve.
—Shikamaru-sama, está tudo bem?
Shikamaru apenas assentiu, enquanto a chunnin com feições semelhantes à sua o ajudava a se levantar. Era Nara Shikari, uma membra do seu clã que provavelmente era uma prima distante. Ela parecia uma versão feminina sua.
Depois de aceitar a mão dela para se levantar, Shikamaru sussurrou com sua voz robótica.
—Shikari, ainda bem que você está aqui.
Ela olhou confusamente para ele.
—Claro, Shikaku-sama recebeu a informação que você estava ferido. Ele estava preocupado, mas não podia abandonar a linha da frente. Então ele me pediu que eu mantivesse um olho sobre você.
Shikamaru balançou a cabeça.
—Isso não é importante, eu-
Ele estava prestes a explicar a situação para ela, quando ele viu alguém passando pelo corredor. Os olhos de Shikamaru ficaram iluminados.
“Essa pessoa...ela é...”
Ele ignorou Shikari enquanto cambaleava atrás dessa pessoa. Shikari arregalou os olhos de susto, provavelmente com medo que ele caísse novamente, antes de seguir atrás do cambaleante Shikamaru.
Apesar dos passos cambaleantes de Shikamaru, o corredor estava tão abarrotado de pessoas feridas, que a pessoa que ele estava perseguindo teve que desacelerar também, enquanto tentava navegar pelo mar de gente.
Alguns segundos depois, Shikamaru finalmente a alcançou, a parando colocando sua mão em seu ombro.
Ela se virou com uma expressão confusa, antes que seus olhos negros brilhassem de reconhecimento ao ver Shikamaru.
—Você é...
—Não há tempo –Shikamaru a cortou, com sua voz monótona carregando uma seriedade assustadora – O Naruto precisa de ajuda.
Houve uma mudança na expressão dela com a menção do nome do loiro. Um flash de hesitação e outra miríade de sentimentos mistos, antes que fosse substituído por uma determinação afiada como aço.
—Onde?
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Senpō Hyōton – Hyōgaki. (Arte Sábia da Liberação de Gelo – Era do Gelo).
Uma nevasca intensa cobriu a visão de Kei. As casas, o chão e até o ar que ele respirava, tudo estava coberto por um frio intenso, enquanto flocos de neve caíam do céu. Ele mal conseguia ver alguns palmos à frente do rosto.
Muito lentamente, ele viu uma silhueta surgindo entre a nevasca. Naruto o encarava com uma expressão esculpida em mármore. Seu corpo alto e esguio exalava uma calma profunda, como uma raposa se espreguiçando na neve, mas a frieza nos seus olhos verdes-água não podia ser escondida.
Um sorriso cruzou o rosto distorcido por raios de Kei.
—O padrão em seus olhos...Senjutsu, certo? Você é muito interessante, Uzumaki Naruto.
A boca de Naruto mal se abriu enquanto ele falava.
—Eu sei alguns truques.
O sorriso de Kei morreu, quando viu a forma como os dedos de Naruto se apertaram ao redor do cabo da sua katana negra. Era um movimento casual, mas fez seus pelos se eriçarem, como se ele fosse um filhote de gato diante de uma serpente.
Aquilo era...medo? Kei riu internamente. Como se zombasse daquele sentimento. Provavelmente era o frio repentino.
Os raios ao seu redor ficaram mais violentos, antes que ele piscasse em direção à Naruto. Sua lança seguiu o movimento do seu corpo, apunhalando em direção ao peito aparentemente desprotegido de Naruto.
Havia algo perturbadoramente diferente na forma como os olhos cristalinos de Naruto analisavam calmamente cada um dos seus movimentos, como se Kei se movesse em câmara lenta. Muito suavemente, Naruto inclinou ligeiramente o corpo. A lança passou à um fio de cabelo da sua pele.
Antes que Kei recuperasse a sua lança, a Katana de Naruto piscou em sua direção como um chicote. Kei inclinou ligeiramente a cabeça, desviando o ataque por tempo o suficiente para recuperar a sua lança e a balançar em direção a Katana se movia novamente em sua direção.
Um choque pesado atravessou o seu corpo quando a lança e a katana se chocaram. Os seus joelhos se dobraram ligeiramente, enquanto seu corpo afundou alguns centímetros no chão congelado, espalhando uma teia de rachaduras.
Aquele simples movimento, fez os olhos de Kei ficarem frios. Naruto não estava mais rápido agora que entrou no modo sábio, mas os reflexos e o tempo de reação dele... a forma como ele desviou minimamente do seu golpe, usando o mínimo de movimento necessário, enquanto preservava energia o suficiente para um contra-ataque cuja força física superava a de Kei...
“Isso...é ruim...nesse momento, ele provavelmente é mais forte que eu...”
Suas sobrancelhas se franziram profundamente. Ele havia subestimado os benefícios do chakra sábio correndo nos tenketsus de Naruto.
“Mas...não é uma diferença muito abismal. Ainda consigo me defender...”
Esse foi seu último pensamento, enquanto defendia uma outra investida de Naruto. Os dois se moviam pelo campo gelado. Neve e estilhaços de gelo explodiam por onde eles passavam, enquanto a katana e a lança negra se entrelaçavam em uma dança sangrenta.
Inicialmente, Kei estava de alguma forma conseguindo acompanhar Naruto, mas ele logo começou a reagir um pouco mais lento para alguns dos ataques de Naruto, enquanto a Katana passou a roçar perigosamente próximo da sua pele.
“Como isso é possível?”
Foi então que Kei percebeu que uma fina camada de neve havia coberto o seu corpo. Sua expressão mudou.
O frio intenso que os rodeava lentamente invadiu o seu corpo. A aura gelada deixou os seus músculos estranhamente dormentes e letárgicos, reduzindo o seu reflexo e o tempo de reação, o tornando mais lento.
Aquilo não podia continuar.
Vendo a Katana negra se movendo em direção ao seu coração, Kei concentrou o máximo de chakra possível nos seus braços, aumentando a força dos raios elétricos que os circulavam. Ele moveu a sua lança horizontalmente, parando o golpe do loiro.
Em um movimento que surpreendeu Naruto, Kei afastou a sua mão esquerda do corpo da lança e fez um selo de mão.
Raiton — Senkoi. (Liberação do Trovão – Flash)
Uma luz brilhante encheu os olhos de Naruto, o obrigando a fechar os olhos inconscientemente. Mas mesmo assim, com sua percepção avançada do modo sábio, ele conseguiu sentir o ar se deslocando enquanto a lança de Kei se movia em sua direção.
Naruto concentrou chakra nas suas pernas, antes de desviar saltando para trás.
Quando Naruto abriu os olhos finalmente, ele viu Kei ligeiramente agachado, com a lança apontada para frente. Um colossal dragão elétrico estava na ponta da sua lança, o encarando com os olhos completamente abertos.
Kumo-Ryū — San no Katachi— Dragão desperto.
O mundo de encheu de cores e raios crepitantes, enquanto o dragão elétrico gigantesco deslizava da ponta da lança.
A expressão de Naruto era solene, enquanto ele fazia selos com sua mão livre.
Senpō Hyouton – Hyoukumo no jutsu (Arte Sábia da Liberação de Gelo — Urso de Gelo)
A neve caindo do céu rapidamente se cristalizou em uma escultura de um gigantesco urso de gelo, parado imponentemente diante do corpo de Naruto. Era tão gigantesco, que Naruto mal era do tamanho da sua pata.
Um arco elétrico iluminou a rua, enquanto o dragão de raios perfurava através de camadas da escultura de gelo. Um profundo e largo buraco vermelho incandescente estava no meio da gigantesca escultura, como se tivesse sido perfurada por lava pura.
Uma gota de suor escorreu pelo rosto de Naruto, ao ver que menos de um centímetro gelo existia entre o buraco na escultura e seu rosto.
Como um castelo de vidro, a escultura lentamente começou a rachar, antes de finalmente desabar em um monte de gelo.
Kei respirava de forma ofegante, enquanto espasmos elétricos percorriam seus braços e os raios da sua armadura estavam ligeiramente mais enfraquecidos. Aquele movimento havia exigido bastante do seu corpo, o deixando bastante degastado. Sem falar que ele estava lutando a muito mais tempo que Naruto. Os meninos de Clã Nara e Aburame haviam o esgotado, ainda que ligeiramente.
Kei mal havia normalizado sua respiração, quando vê Naruto se movendo em sua direção. Havia uma camada fina de Hyouton nos seus pés, e ele deslizava pelo gelo como um peixe na água.
Naruto piscou diante de Kei antes que ele sequer conseguisse levantar sua lança para se defender. A lâmina de Naruto piscou em direção ao seu pescoço.
Kei tentou levantar a sua lança, apenas para ver Naruto desviando a sua lâmina em uma velocidade abismal. Era uma finta.
A lâmina, coberta por uma fina camada de gelo, passou através da sua armadura enfraquecida, antes de perfurar seu abdômen, sangue manchou sua pele enquanto sua carne era cortada. Naruto inverteu sua empunhadura no cabo da Katana, antes de mover sua lâmina diagonalmente, fazendo um corte horrível do seu abdômen até o seu ombro.
Cerrando os dentes para amenizar a dor, Kei moveu sua lança em direção à cabeça extremamente próxima de Naruto, apenas para o corpo dele piscar, antes de aparecer alguns metros atrás.
Kei olhou para o corte feio no seu corpo com uma expressão assustada. O corte era longo e profundo, e se a armadura de raio não tivesse enfraquecido ligeiramente o golpe, seus órgãos teriam sido expostos. Mesmo assim, a quantidade de sangue escorrendo o faria morrer de hemorragia se isso continuasse por mais alguns minutos.
Uma sensação estranha encheu seu corpo. Era algo frio, que fazia seus músculos tremerem ligeiramente, e seus dedos à volta da sua lança hesitassem como quando ele era apenas um menino de quatro anos, segurando ela pela primeira vez. Aquele sentimento era...
“Eu... estou com medo...?”
Ele olhou com choque para suas mãos trêmulas. Seus dedos eram esguios e ágeis, e ligeiramente calejados pelas longas horas que ele passou balançando aquela lança. Lentamente, os calos foram desaparecendo, enquanto as suas mãos encolhiam de tamanho, até ele estar olhando para as suas mãos trêmulas aos quatro anos.
Um rosto piscou na sua mente. As feições eram tão suaves e belas, como se tivessem sido esculpidas por um exímio pintor, sua pele beijada pelo sol era reluzente e sem manchas, seus fios de cabelos platinados eram gentilmente balançados pela brisa, como se os deuses a estivessem a acariciando. Os olhos cinzas brilhavam enquanto ela olhava para o sol através da janela daquele quarto sufocante, com um sorriso gentil e bonito nos seus lábios bem desenhados.
Uma palavra escapou dos lábios do pequeno e trêmulo menino de quatro anos a encarando.
“Mãe...”
Com aquela simples palavra, o quarto mudou. A brisa ficou mais violenta, enquanto o sol brilhante através da janela era engolido por espessas nuvens escuras, mergulhando o rosto da bela mulher em sombras escuras.
O menino choroso tentou novamente.
“Mãe...”
Quando a bela mulher finalmente desviou os olhos da janela, e olhou em sua direção. O garoto caiu para trás, enquanto um grito assustado escapava dos seus lábios.
Havia dois buracos vazios onde antes havia olhos bonitos e brilhantes, seu sorriso gentil se transformou em algo feio e retorcido, enquanto sangue escorria de um longo corte no seu pescoço, manchando a pele bela e imaculada com um sorriso em forma de sangue.
O corte no pescoço se abriu, como se fosse uma segunda boca, e uma voz doce saiu daquele local, como um anjo cantando.
“A fraqueza é um pecado terrível. Não seja um pecador como eu, meu querido filho.”
E então a visão desapareceu, como se não passasse de uma alucinação. Os olhos cinzas de Kei olhavam para as suas mãos, agora calejadas novamente, com um semblante sombrio.
“Isso mesmo...eu prometi...não importa o que aconteça...mesmo que os mares sequem e as terras salguem, nunca cometerei o pecado da fraqueza...”
Como se algo dentro dele finalmente quebrasse, os raios violentos ao seu redor lentamente escureceram, antes de piscarem com uma cor profundamente negra.
Kei estava envolto em uma armadura de raios completamente negra. A ferida em seu corpo foi cauterizada pelos raios intensos, até parecerem uma bagunça carbonizada, mas a expressão fria no rosto de Kei não mudou uma única vez.
Seus dedos seguraram firmemente a sua lança.
Naruto estreitou os olhos, vendo que aura de Kei havia mudado completamente. Se antes ele passava a sensação de uma pantera feroz e imprudente, ele agora parecia uma pantera astuta escondida no escuro, pronto para arrastar a sua presa no meio da noite.
Naruto sentiu seus pelos se eriçarem. Ele deu um passo para o lado. Estilhaços de gelo explodiram no ar, enquanto um buraco surgia na sua posição anterior.
O loiro olhou para a lança fincada no chão onde ele estava a pouco tempo atrás, e estreitou os olhos. Que ataque rápido. Se ele não estivesse com a percepção avançada do modo sábio, ele teria sido trespassado.
Kei arrancou a lança fincada na neve, antes de balançar ela em sua direção, a manejando tão facilmente quanto um graveto. Naruto mal piscava enquanto se defendia da investida. Ao contrário de antes, os movimentos de Kei haviam perdido aquela aura feroz, mas cada novo movimento era preciso e veloz ao ponto de Naruto mal conseguir defender, mesmo com o tempo de reação do modo sábio. Ele podia sentir que seu tempo limite estava se esgotando. Em cerca de um minuto, seu chakra sábio terminaria.
O modo sábio era extremamente poderoso, mas era necessário cumprir inúmeros requisitos para ser usado. Primeiro, a pessoa tinha que ser extremamente sensível ao chakra natural presente na natureza. Claro, era possível usar certas substâncias externamente para aumentar a sensibilidade, mas quanto mais naturalmente sensível uma pessoa fosse, melhor. Segundo, uma vez que a pessoa tenha essa sensibilidade, ela deveria cuidadosamente absorver o chakra natural, e misturar ele com suas próprias reservas de chakra, ou seja, com sua própria energia física e mental. Uma vez que a proporção entre a energia física e mental do usuário e a energia natural externa fosse devidamente equilibrada, um sábio perfeito nasceria.
Por essa razão, um dos requisitos mínimos era que a pessoa tivesse no mínimo reservas de nível Kage. Qualquer um abaixo disso, devido às reservas de chakra limitadas, só seria capaz de absorver uma quantidade irrelevante de chakra natural, ao ponto de não conseguir manifestar sequer qualquer tipo de mudanças. Quanto mais chakra uma pessoa tivesse, mais chakra sábio poderia misturar com suas próprias reservas, e mais forte ele seria no modo sábio. Naruto se lembrou de Tobirama dizendo que o Shodaime Hokage tinha reservas de chakra que chegavam a rivalizar com à própria Kyuubi, e era capaz de mesclar uma quantidade quase infinita de chakra natural nas suas reservas, se tornando um exército de um homem só.
Apesar de ser um Uzumaki e um Jinchuuriki, Naruto ainda era um menino de Treze anos em desenvolvimento. Suas reservas de chakra no momento mal superavam um Kage médio. Claro, isso era porque oitenta por cento do seu chakra alimentava eternamente o selo de Oito Trigramas que suprimia a Kyuubi no seu interior. Seu modo Sábio, por essa razão, tinha uma duração extremamente curta.
Naruto estreitou os olhos. Ele sabia que tinha menos de um minuto nesse modo.
Vendo a forma como os raios negros na sua armadura estavam constantemente ferindo a pele de Kei, criando pequenos rasgos nos seus músculos, era óbvio que o corpo dele também não era forte o suficiente para manter aquele modo por muito tempo. Afinal, raios negros eram extremamente voláteis. Seria um milagre se durasse mais que dois minutos. Mas o problema era que...nesse meio tempo, era muito possível que Kei conseguisse o matar.
Naruto conseguiu sentir que aquele era o momento chave daquela luta. Dentro de dois minutos, um deles estaria estendido no chão gélido, como um cadáver frio. Um monte de carne sem vida. Assim como Hinata no leito daquele hospital.
Naruto não se importava de morrer. O que era a morte? O que havia de tão assustador nela, além de um abraço eterno e gentil longe daquele mundo de dor? O que havia de tão bom em viver?
Mas... a simples ideia de ver Kei saindo vivo, respirando, comendo, cagando e rindo como se não tivesse feito nada, como se não tivesse transformado Hinata em um cadáver frio, fazia seus dentes rangerem e seus olhos quase sangrarem de raiva.
Nem que ele morresse, Kei não poderia sair vivo.
Os olhos verdes-água de Naruto escureceram, como se ele tivesse tomado uma decisão.
Ele moveu o chakra da natureza no interior do seu corpo. O Oxigênio nos seus glóbulos vermelhos começou a aquecer, enquanto seu sangue fervia no interior do seu corpo. Sua pele ficou levemente avermelhada, como se queimada por vapor denso, enquanto o chakra nos seus tenketsus aquecia. A dor era inimaginável, como se ele estivesse sendo cozido por dentro, mas ao mesmo tempo, sua força física e velocidade aumentaram absurdamente.
Senpō Futton – Futten. (Arte Sábia da Liberação do Vapor – Ponto de Ebulição)
As sandálias de Naruto deixavam profundas rachaduras no chão congelado enquanto ele se movia como um borrão, e cada balançar de sua katana produzia um som agudo, como se o ar estivesse se quebrando pela assustadora força física e velocidade com a qual ele balançava a sua lâmina.
Os músculos nos braços de Kei se rompiam cada vez que ele defendia um golpe seu, como se seu corpo mal suportasse aquela terrível força física, mas nem um único gemido de dor saiu dos lábios franzidos e da expressão fria de Kei. Ele mal parecia se importar em quebrar seu próprio corpo para enfrentar cada golpe do loiro. Seus olhos cinzas estavam dilatados enquanto ele balançava sua lança contra a lâmina negra de Naruto, como um crente devoto que havia descoberto seu propósito.
A armadura de raios negros ao seu redor apenas aumentava a escuridão nos seus olhos cinzas. Inspirando o ar profundamente, Kei concentrou o que restava do seu chakra na sua armadura de raios. Os arcos elétricos negros brilharam com mais ferocidade, enquanto ele balançava sua lança horizontalmente. O ar estalava enquanto a lança se movia, como se temesse o poder daquele golpe.
Naruto cruzou sua katana no seu peito. Mesmo com a camada de vapor que exalava dos seus poros, aumentando suas proezas físicas, seu corpo ainda foi lançado voando pesadamente para trás. Seus pés deixaram um longo rastro na neve, até que seu corpo finalmente parou.
A expressão de Naruto mudou quando ele percebeu que estavam muito próximo do abrigo. Ele logo percebeu que aquele havia sido o plano de Kei com esse movimento.
Naruto tentou se mover em outra direção, mas Kei surgiu como um borrão no seu caminho. Ele tinha olhos frios enquanto balançava sua lança, o conduzindo cada vez mais para trás, restringido a força que Naruto poderia exibir.
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Há algumas centenas de metros de distância, na entrada do bunker sob a montanha Hokage, um grupo de Shinobis olhava para a nevasca intensa no meio de Konoha com olhos chocados.
Um deles, com óculos escuros e usando o uniforme jōnnin de Konoha, tinha os olhos arregalados enquanto ouvia o seu subordinado, um Chunnin Hyūga, relatando tudo com seu byakugan ativo.
Inicialmente a função deles era guardar o abrigo de qualquer invasor, mas era difícil não notar um distúrbio como aquele há algumas centenas de metro do abrigo. Quando o jōnnin ordenou que o seu subordinado usasse o byakugan para relatar a situação, ele ficou chocado ao descobrir que aquilo era causado por dois gennins.
Mas quando ele ouviu que eram Uzumaki Naruto e Kira Kei, ele se lembrou do desempenho que ambos monstros tiveram no Shiren Shōkan, e ele logo se acalmou.
—O que devemos fazer, Ebisu-Taichou?
Ouvindo a pergunta do seu subordinado, Ebisu olhou para trás, vendo os rostos ansiosos de todos os seus subordinados olhando para ele. Foi impossível Ebisu não se lembrar de algumas semanas atrás, quando ele havia invadido o gabinete do Sandaime e encontrou Konohamaru conversando com Naruto.
Inicialmente, quando ele viu a forma como Naruto era capaz de sorrir calmamente, como se ele não fosse o carcereiro de um monstro que destruiu Konoha, Ebisu ficou furioso. Ele realmente não conseguia compreender porque o Sandaime permitia que o jinchuuriki se pavoneasse pela vila, ao invés de controlá-lo firmemente.
Não se deixe enganar, Ebisu era um jounnin, não um civil ignorante. Então ele entendia perfeitamente a distinção entre um jinchuuriki e uma Bijuu. Mas apesar de tudo, ele também era leal à Vila da Folha, então não conseguia entender porque uma ferramenta de guerra tão valiosa não estava sendo firmemente controlada. Na sua opinião, essa foi a razão pela qual o Yondaime-sama havia selado a Kyuubi em um órfão de origem humilde, ao invés de destruir totalmente a alma da Kyuubi com o Ceifeiro da Morte. O Yondaime entendia que Konoha se beneficiaria melhor tendo tal arma.
Ebisu sabia que essa opinião era partilhada pela maioria dos Shinobis de Konoha.
Mas então ele descobriu que o garoto na verdade era filho do Yondaime Hokage, e desde então, Ebisu tinha sentimentos confusos. Ele realmente não sabia o que pensar de Uzumaki Naruto...Agora Namikaze Naruto. Especialmente vendo a forma como ele exterminou cruelmente um acampamento inteiro de Shinobis de Iwa no exame, antes de enlouquecer e matar um companheiro de Konoha também. A forma como seus olhos azuis queimavam com uma escuridão profunda enquanto ele fatiava incontáveis shinobis...Aquilo parecia o ato de um demônio.
Mas Ebisu também se lembrava do grupo de aldeões que chegaram no abrigo, sussurrando sobre terem sido resgatados pelo garoto-raposa.
Ebisu não sabia o que pensar, e ele sentia que pelos olhos hesitantes do grupo de Shinobis estacionados aqui, eles provavelmente também estavam com esse dilema.
Uzumaki Naruto era uma arma realmente, ou um precioso camarada de Konoha?
Ebisu não sabia. Mas sentia que esse combate...era a melhor maneira de receber essa resposta.
—Não vamos interferir. Continue observando e relatando.
O Hyuuga abriu a boca, como se quisesse dizer algo, mas ao ver a expressão fria de Ebisu, ele fechou a boca, antes de assentir e voltar a prestar atenção à redoma de neve.
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Naruto sentiu os seus músculos ficarem tensos quando ele viu a gigantesca cabeça de dragão de raios negros se acumulando na ponta da lança de Kei. Seus olhos brilhavam de um branco profundo e o encaravam com uma ferocidade assustadora, quase como se estivesse vivo.
Naruto sabia que se aquele ataque o atingisse, ele estaria morto.
Kumo-ryū – Yon no Katachi – Dragão Ascendente.
Vendo o gigantesco dragão negro se aproximando como um raio, Naruto sabia que não podia desviar. Seu corpo longo e esguio, como uma serpente, cobria completamente os seus olhos. Aquele dragão...era colossal. Ele sabia que esse era exatamente o propósito de Kei ao conduzi-lo até aquele local. Eles estavam a alguns metros do abrigo. Se Naruto desviasse, o alcance do jutsu era tão extenso e poderoso, que atravessaria através de camadas de rochas, antes de a maioria dos civis ser enterrado pelos escombros.
Naruto conseguia sentir a assinatura de chakra de milhares de pessoas atrás das paredes de pedra do abrigo. Ayame, Teuchi...ele até conseguia sentir a assinatura do rebelde neto do Sandaime Hokage, Konohamaru. Inúmeras outras pessoas que ele não sabia os nomes, mas cujos rostos ele já havia olhado nas ruas de Konoha.
A vida de todos eles estavam em suas mãos.
Isso era estranho.
Saber que mãos tão sujas de sangue como as suas...
Mãos que fecharam mais olhos do que ele podia contar, agora eram necessárias para proteger outras vidas.
Ele achava aquilo assustador.
Ele era uma boa pessoa se salvasse vidas, ou uma pessoa ruim por retirar outras inúmeras vidas?
As vidas que ele salvasse, eliminariam o pecado das vidas que ele ceifasse?
Entre tirar uma vida, ou salvar uma vida...
Entre ser um assassino e um salvador...
Entre ser um demônio ou um anjo...
Qual era a resposta certa?
Qual dessas opções o levaria...a salvação?
Todos esses pensamentos cruzaram sua mente, enquanto o serpenteante dragão negro se aproximava. Quando o dragão estava próximo o suficiente para a sua pele queimar pela intensidade dos raios, Naruto ignorou a dor escaldante de manipular seu chakra em seus tenketsus cobertos de vapor, e condensou uma kunai de gelo na sua mão.
Seus dedos se curvaram ao redor do cabo, marcando a superfície de gelo com o selo do Hirasihin.
Ele lançou a Kunai para frente, antes de executar rapidamente selos de mão.
Um gigantesco selo se condensou. Inscrições negras, como um círculo gigante, silenciosamente flutuavam diante de Naruto. O dragão de raios se chocou contra ele.
Não houve qualquer onda de choque, enquanto o colossal dragão era silenciosamente engolido, como um peixe entrando silenciosamente em um lago. Era como se um buraco se abrisse no ar.
Naruto se concentrou nas coordenadas de uma kunai com a marca do Hiraishin, abandonada em um antigo campo de treinamento.
Hiraishin: Dōrai. (Jutsu do Deus Voador do Trovão: Trovão Guiado).
Houve um segundo de silêncio, antes de um gigantesco Raio negro iluminar uma parte da Floresta de Konoha. Um estrondo ensurdecedor ecoou pela Vila, como se a fúria dos céus tivesse se abatido sobre os mortais.
Uma grande parte da floresta foi carbonizada, enquanto a terra ficava vermelha incandescente, como se um vulcão tivesse entrado em erupção.
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Os shinobis estacionados na entrada do abrigo olharam para o clarão no horizonte com olhos arregalados. Se não fosse o Hyuuga relatando cada detalhe, eles jamais acreditariam.
Quando eles ouviram sobre o ataque que Kei estava preparando, seus corpos se encheram de horror, e silenciosamente se arrependeram por não terem interferido antes. Eles sabiam que o abrigo não resistiria à um jutsu daquela magnitude.
Mas antes que eles se movessem, um clarão iluminou uma parte da floresta de Konoha, ao mesmo tempo que o Hyuuga relatou palavras chocantes.
O Gigantesco dragão de raios...o Jutsu que poderia soterrar milhares de civis...havia sido teletransportado por Uzumaki Naruto.
Os olhos de todos ficaram solene.
—Ebisu-Taichou... suas ordens?
Ebisu não falou nada por longos segundos. Sua expressão era taciturna por detrás dos seus óculos. Ele se lembrou daquela noite, Treze anos trás. A noite infernal. Mesmo estando parado aqui, seu corpo tremia enquanto ele se lembrava do miasma de intenção assassina que cobria a Vila, enquanto a Raposa causava furacões com o balançar de suas caldas, e chamas escaldantes cobriam a vila com seus rugidos.
Ele era apenas um chunnin na altura, longe da linha da frente e responsável por proteger e escoltar os civis, assim como agora. Ele se lembrava dos gritos de dor e dos cadáveres esmagados pelos escombros na vila, enquanto eles procuravam sobreviventes.
Ele se lembrava de ter sido encarregado do distrito civil, mais concretamente, o orfanato...as lembranças até hoje causavam náuseas, e uma sensação de vômito subia na sua garganta. Os corpos quebrados daquelas criancinhas...torcidos como bonecas quebradas... ele se lembrava de uma menina de quatro anos, com metade do corpo soterrado...olhando para ele com seus olhos suplicantes, pedindo que ele fizesse sua dor agonizante parar...ele se lembrava da forma como ele segurou uma kunai e-
Ele mordeu os lábios, despertando da memória que habitava seus pesadelos. Ele nunca havia odiado sua impotência tanto como naquele dia. Sua fraqueza. Enquanto o número de cadáveres aumentava e a cruel raposa olhava para todos com seus olhos vermelhos e zombeteiros...
Ele abominava aquele monstro, assim como seu carcereiro. Não era lógico, ele sabia. Mas humanos e suas emoções nunca seguiram a lógica.
Quando ele finalmente conduziu os poucos sobreviventes para o abrigo na montanha, ele viu uma gigantesca esfera sendo disparada pela Raposa em direção ao abrigo escondido nas cabeças dos Hokages. Seu corpo ficou frio de medo, enquanto ele era lembrado da sua fraqueza em proteger sua amada Vila.
Mas naquele momento...quando o frio da morte estava prestes a abraçá-lo... ele viu aquele homem...o Yondaime Hokage, enviando aquela esfera para fora da Vila como se não fosse nada.
Um alívio profundo o preencheu. O lembrando que não havia problemas em ele ser fraco, desde que houvessem pessoas fortes capazes de proteger à Vila.
Ele olhou taciturnamente para a floresta carbonizada no horizonte.
“Essa é a tua resposta...?”
Ebisu finalmente cerrou os dentes, enquanto seus olhos brilhavam com aço frio. Ele abriu a boca, finalmente tomando uma decisão.
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Os olhos cinzas de Kei brilham friamente quando ele vê a expressão ofegante no rosto de Naruto depois de teletransportar o dragão. Seus olhos estavam lentamente voltando ao normal.
Ele se move como um borrão, apenas para ver Naruto fazer um selo de mão, antes de soprar uma densa névoa de vapor em sua direção. Kei imediatamente susteve a respiração e aumentou o chakra ao redor da sua armadura. Assim como ele suspeitava, o ph da névoa lentamente aumentou, até a névoa densa se tornar ácida. Mas não importava o quanto aumentasse, não conseguia penetrar através da armadura negra de raios.
Alguns segundos depois, a névoa se dispersou, uma vez que não havia um ambiente fechado para restringi-la.
Os joelhos de Naruto se dobraram. Enquanto fincava sua espada no gelo para se sustentar. Sua respiração estava ofegante e pesada. Kei podia adivinhar que aquele jutsu havia sido seu último esforço, e havia esgotado seu chakra sábio.
Ainda assim, os sentidos de Kei estavam alertas enquanto ele se aproximava de Naruto. Ele parou ao pé do menino agachado no chão. Seus olhos cinzas não mostravam nenhuma emoção enquanto ele levantava à sua lança.
—Adeus, Uzumaki Naruto.
Sangue cobriu a neve, enquanto a lança atravessava o coração de Naruto e pregava seu corpo no chão. Ele ainda tinha uma expressão determinada, mesmo enquanto se esvaía em sangue no meio da neve. Kei olhou para os olhos azuis que lentamente se fechavam com olhos complicados.
Ele tentou retirar sua lança do cadáver frio, e logo sua expressão mudou. A lança estava presa enquanto o corpo se transformava em um monte de gelo.
Hyouri Bunshin. (Clone de Gelo).
Naruto surge como um borrão atrás de si, balançando sua katana para o seu pescoço. Os olhos de Kei eram frios enquanto ele largava o cabo da sua lança, e estendia os dedos da sua mão direita, como se fossem uma faca.
Jigokuzuki (Facada Infernal)
Sua mão atravessou o corpo de Naruto como se fosse faca quente perfurando manteiga. As costas de Naruto explodiram em uma bagunça sangrenta, antes de se desmancharem em um monte de água. Kei não parou seu movimento, ao invés disso olhou para o chão coberto de gelo aos seus pés.
Toda a série de ações havia sido antecipada por Kei.
Primeiro, Naruto havia fingido exaustão de chakra depois de teletransportar seu ataque, de modos a fazer ele baixar a guarda. Mas Kei, sendo um exímio sensor, conseguia sentir que ainda haviam resquícios de chakra sábio nos seus tenketsus. Era uma armadilha para fazer ele baixar a guarda.
Kei fingiu cair na armadilha, e atacou decisivamente. Naruto aproveitou a névoa para se substituir por um clone, enquanto se escondia em pequeno buraco que havia feito sob o gelo. Depois de esperar Kei se aproximar, ele primeiro livrou Kei da sua lança com o clone de gelo, e fez um clone de água atacá-lo pelas costas com uma marca de Hiraishin que havia deixado no chão.
Tudo isso era para distrair Kei, enquanto o original fazia um último ataque por baixo.
Assim como ele imaginava, o verdadeiro quebrou o gelo abaixo de si, com uma esfera rodopiante de chakra azul na sua mão.
A esfera de chakra ascendia em sua direção, enquanto o chakra rodava à uma velocidade assustadora. A fina camada de chakra vento ao seu redor mostrava que o chakra havia sido convertido para elemento vento. Não que isso fizesse muita diferença, uma vez que a armadura ao redor de Kei já mostrava sinais de desaparecer, enquanto seu corpo finalmente não suportava mais as feridas aterrorizantes que marcavam seu corpo.
Que seja.
Kei abandonou sua fraca armadura, e concentrou todo seu chakra na sua mão direita, formando uma camada de chakra de raios negros à volta da sua mão. Ele dobrou quatro dedos, deixando apenas o seu indicador apontando para o corpo do loiro que ascendia em sua direção.
Jigokuzuki – Ippon Nukite (Facada Infernal- Lança mais forte)
Pelos olhos estreitados de Naruto, ele não parecia ter pensado que seu ataque surpresa poderia ser previsto, mas seus olhos, agora novamente azuis, pareciam resolutos, enquanto ele moldava o seu chakra restante na esfera de chakra.
Fuuton – Rasengan (Liberação do Vento – Rasengan)
Os braços de ambos se moviam ao mesmo tempo, cada um procurando matar o outro primeiro. O braço esticado de Naruto se aproximava do queixo de Kei. Se tocasse, a esfera de chakra arrancaria a sua cabeça do seu pescoço. O dedo de Kei, por outro lado, se movia em direção ao rosto de Naruto, que ascendia lentamente do gelo, assim como o seu corpo.
Os braços roçaram um no outro, enquanto as mãos lentamente se esticaram em direção aos seus objetivos.
Quando nada mais do que centímetros os separavam, a mão de Naruto se esticou como uma serpente, apenas para encontrar nada além do ar. Kei havia inclinado sua cabeça em uma velocidade assustadora. Seu dedo cresceu lentamente na visão de Naruto, até que...
Sangue e pedaços de cérebro se espalharam pela neve, enquanto o dedo elétrico esmagava a cabeça de Naruto em uma polpa sangrenta. A sensação pegajosa de sangue quente na sua mão, convencia Kei que aquele não era um clone.
O corpo sem cabeça convulsionou ligeiramente, antes de cair na neve. Uma poça de sangue lentamente se acumulou, enquanto o sangue escorrendo dos pedaços do crânio esmagado manchava a neve branca.
Um suspiro profundo escapou dos lábios de Kei. Enquanto a exaustão e as dores dilacerantes dos seus músculos rasgados finalmente se registrava no seu cérebro. Ele olhou para o corpo sem vida aos seus pés com olhos cinzas brilhando de sentimentos complicados.
Kei se virou, mas seus pés não deram mais do que dois passos antes de a Katana caída na neve ao seu lado explodir em uma nuvem de fumaça. Kei tentou se mover, apenas para sentir seu corpo paralisar por um genjutsu de Nível médio.
Quando ele conseguiu quebrar, um segundo já havia se passado na realidade, e da nuvem de fumaça da espada, um Naruto transformado apareceu ao seu lado. Só naquele momento Kei finalmente se lembrou do primeiro clone o atacando com uma katana...a katana na verdade...era Naruto transformado.
Os olhos de Naruto eram frios enquanto ele raspava suas inexistentes reservas de chakra para formar um Rasengan. Uma dor inimaginável preencheu seu corpo. Como se ele estivesse sendo separado pedaço por pedaço. Ele sentia seu núcleo de chakra doendo como se ele tentasse esticar um músculo inexistente.
Sangue escorria da sua boca, mas ele ignorou a dor cegante, e puxou o chakra restante no seu núcleo, formando um rasengan com metade do tamanho normal. Ele moveu sua mão para o abdômen de Kei, apenas para ver que Kei, em um último esforço, havia concentrado uma fina camada de chakra de raio na sua mão.
Naruto ignorou, enquanto ele inclinava ligeiramente o seu corpo. A mão de Kei atravessou o lado direito do seu peito, explodindo seu pulmão em uma névoa de sangue. A expressão de Naruto não mudou enquanto a esfera de chakra atingia o abdômen de Kei. Em sua última tentativa em desviar do Rasengan, Kei inclina ligeiramente o corpo, apenas para a esfera de chakra atingir sua coluna.
Sua espinha se curva de forma anormal, enquanto seu corpo dobrado é arremessado através do chão de gelo como uma boneca quebrada.
Naruto sente o sangue espesso e quente manchando sua roupa, enquanto litros de sangue jorravam do buraco horrendo no seu peito, onde seu pulmão havia sido pulverizado. Uma sensação aguda de fraqueza cobria seu corpo, e sua pele estava pálida como um fantasma. Sua respiração era falha, como se ele estivesse inalando bolhas de sangue ao invés de ar. Seu corpo inteiro estava chorando de dor.
Seus músculos se contraíam como se vermes estivessem o corroendo por dentro. Sua pele estava vermelha e cheia de bolhas de queimaduras, como se tivesse sido cozido em uma panela. Sangue escorria de todos os poros de seu corpo. Mas o pior...era a sua rede de chakra doendo como se ácido tivesse sido jogado nela.
Naruto tentou dar um passo, era como se milhares de agulhas perfurassem seus músculos. Ele cerra os dentes, e raspa suas inexistentes reservas de chakra. Seus tenketsus imploravam descanso, mas ele ignora, e puxa a única fagulha de chakra restante no seu núcleo. Mesmo sabendo que estava arriscando danificar permanentemente seus tenketsus, e a possibilidade de se tornar um aleijado incapaz de moldar chakra, ele ignora e move a fagulha de chakra para reforçar as suas pernas dormentes.
A dor dilacerante se aliviou ligeiramente, mas sua visão ainda era turva e coberta de manchas. Ele estava à beira da inconsciência. Naruto sabia que, se desmaiasse, seu corpo se esvairia em sangue até a morte.
Mas ele não podia morrer. Pelo menos não ainda.
Ele quebra o chão congelado ao saltar em direção ao corpo de Kei, ainda derrapando pela neve. Uma katana negra surgiu através do selo do seu pulso. Ele envolveu seus dedos à volta do cabo, enquanto seu corpo caía como uma guilhotina.
Sua lâmina negra caiu em direção ao coração de Kei. Quando nada mais do que centímetros impediam a katana de atravessar o peito dele, Naruto viu um borrão se movendo no canto dos seus olhos, mas era impossível desviar no ar.
Uma perna esguia se chocou contra seu peito, enviando seu corpo quebrado derrapando pela neve. Era como se ele fosse uma formiga atropelada por uma carruagem. Seu corpo afundou em uma cratera profunda. Ele rangeu o dente, ignorando os seus músculos dilacerados e ossos fraturados, enquanto fincava sua espada para se levantar. Mas seu corpo parecia ter atingido um limite, enquanto as articulações dos seus joelhos trêmulos se dobravam na neve.
Seus olhos azuis escuros se dilataram, uma chama intensa acendendo neles, enquanto ele olhava para a menina esguia protetoramente diante do corpo de Kei. A boca de Naruto se abriu:
—Saia da frente.
Os olhos felinos de Ni El, depois de olhar para o corpo quebrado de Kei, brilhavam como uma intenção assassina que fez o céu mudar, enquanto o cheiro de centenas de cadáveres manchados de sangue enchia a rua.
—Você vai morrer.
A voz dela era monótona, como se estivesse anunciando que o céu era azul.
Não havia nenhuma diferença entre a expressão no rosto de Naruto e o gelo ao redor. Ambos não passavam de um azul coberto de frio. Inexpressivo. Inabalável. Inquebrável. Seu corpo se levantou, ignorando a forma como seus ossos rangiam e se quebravam, e o sangue espesso que saía do buraco no seu peito.
—Saia da frente.
A expressão de El se tornou afiada como aço frio. Ela apareceu diante do loiro como um borrão. Os braços dela se moveram como penas, fincando dezenas de adagas no corpo do loiro. Seus braços, tronco e pernas estavam cobertas de adagas. Tão profundamente enterradas na sua carne, que seu terno negro estava completamente vermelho de sangue.
El deu um último olhar para ele, caído no chão em uma poça de seu próprio sangue, antes de se virar. Ela não deu mais do que dois passos, antes de ouvir um som atrás de si. Ela olhou para trás, apenas para vê-lo se levantando novamente, enquanto murmurava coberto de sangue:
—Saia da frente.
A expressão dela mudou. Um miasma de chakra escuro e pesado cobriu seu corpo, enquanto sua intenção assassina se espalhava. Dessa vez, a sede de sangue era quase física, enquanto seu chakra se espalhava. Quando o miasma roçou o corpo do loiro, foi como se navalhas acariciassem a sua pele, apenas esperando um comando para degolar sua garganta.
Seu corpo piscou, enquanto sua adaga se movia para o pescoço de Naruto. Ela queria saber se ele se atreveria a murmurar novamente se estivesse sem a cabeça. A adaga fazia um som agudo enquanto cortava o ar. Quando a ponta da adaga estava à um fio da garganta do loiro, a expressão de El mudou, enquanto ela recuava.
Um grosso feixe de eletricidade caiu onde ela estava anteriormente, criando uma cratera carbonizada na neve.
Uma menina em um quimono azul surgiu diante do corpo quebrado de Naruto. Seus olhos negros encaravam os olhos dourados e felinos de El. Elas se encararam por longos segundos. Ouro puro contra obsidiana pura.
Os dedos de El estavam tensos ao redor do cabo de sua adaga, enquanto os músculos das mãos da outra menina estavam à beira de executar selos para um jutsu.
O som de uma tosse violenta encheu a rua. A expressão das duas mudou.
Ambos os olhos estavam com as pupilas dilatas. Uma escuridão e fúria sem fim se acumulando. Como chamas escuras capazes de devorar o mundo, mas por detrás de toda aquela frieza, haviam fagulhas incandescentes. Aquelas fagulhas eram...
Elas pareceram ver através uma da outra.
Ambas deram às costas em uníssono. El se moveu para o corpo quebrado de Kei, tossindo violentamente. Seus olhos dourados eram inexpressivos enquanto ela via a depressão na espinha de Kei, onde um rasengan havia se afundado.
Uma medula espinhal retorcida de tal forma... Seus olhos escureceram enquanto ela pensava em uma possibilidade assustadora. El balançou a cabeça, enquanto apoiava cuidadosamente o corpo de Kei no dorso da sua pantera negra.
Quando ela mesma subiu, ela dispensou um olhar profundo para a garota atrás de si. Parada de forma protetora diante de Uzumaki Naruto.
—Na próxima vez...eu matarei vocês.
A pantera negra saltou para o telhado de uma casa, antes de desaparecer na noite escura como se mergulhasse nas sombras.
Risa soltou um suspiro de alívio ao ver a dupla desaparecendo, antes de ouvir um murmúrio nas suas costas. A voz era fraca, mal superando o som da brisa do vento. Mas com os sentidos de um shinobi, ela conseguia ouvir perfeitamente.
—Saia da frente...
Ela se virou com uma expressão complicada.
—Você...
Ela vê que Naruto estava de joelhos, murmurando aquelas palavras repetidamente, como se fosse um mantra, mas seus olhos estavam vazios. Foi impossível ela não se lembrar do garoto que no Shiren Shōkan não hesitou em mergulhar na névoa venenosa para salvar ela e Karin, mesmo que isso colocasse sua vida em risco. Ele sempre foi um pouco taciturno, e seus ombros eram um pouco baixos enquanto ele andava, como se lidasse com o peso do mundo, mas ainda assim ele era capaz de sorrir.
Mas desde que o exame terminou...desde que ele presenciou, vez após outra, pessoas que ele se importava se transformando em cadáveres frios, bem diante dos seus olhos, algo nele mudou. Todos eles haviam mudado, obviamente. Até mesmo Risa acordava no meio da noite, gritando enquanto os rostos ensanguentados de Karin e Akai piscavam em seus olhos. Mas Naruto...seus olhos azuis sempre carregaram pequenas manchas escuras, mesmo antes do exame, como se ele estivesse à ponto de quebrar.
Olhando para ele nesse momento, a forma como seus olhos estavam vazios... ele parecia uma casca vazia do seu antigo eu.
Ela vê o corpo dele desabar na neve, como se as chamas que o mantivessem finalmente se apagassem, mas ele não parou de murmurar. Foi naquele momento que Risa finalmente percebeu o estado dele. Naruto estava se afogando em uma poça do seu próprio sangue, e a chama do seu chakra estava prestes a se apagar.
A expressão no rosto dela mudou. Ela colocou o corpo dele nos seus braços. Risa se assustou com a sensação de frio que atravessou o seu corpo. A pele de Naruto estava gelada, como se tivesse sido sugado de qualquer fagulha de calor.
Ela concentrou chakra nas suas pernas, antes de correr como um borrão.
Mas ela apenas franziu os lábios enquanto gastava todo seu chakra em reforçar as suas pernas. Foi com uma repentina frieza que ela percebeu que, se fosse para o hospital, ela não chegaria à tempo. Era simplesmente muito longe. Lutando contra a ardência nos seus olhos, ela decidiu mudar de direção, se movendo em direção ao abrigo. Ela sabia que havia chances de um médico estar estacionado lá.
O corpo dele estava cada vez mais frio, como se ela segurasse um bloco de gelo, e o sangue era tanto que seu próprio kimono estava ensopado de vermelho.
Flashes do corpo ensanguentado de Akai piscaram diante dos seus olhos, sorrindo em seus braços, enquanto sua vida se esvaía. Seu rosto logo foi substituído pelo rosto choroso de Karin, sua pele pálida e seus cabelos ruivos espalhados, enquanto ela morria nos seus braços. Tudo porque Risa era uma egoísta que preferia deixar garotinhas de doze anos morrerem, ao invés do garoto pela qual ela nutria sentimentos extremamente confusos.
Ela era uma pessoa horrível. Isso ela sabia.
Ela cerrou os lábios, consciente do gosto salgado das lágrimas escorrendo pelo seu rosto.
“Nunca mais deixarei outra pessoa preciosa morrer nos meus braços”.
Seu corpo se movia pelos telhados como um borrão. Ela estava focada. Tão focada que não percebeu duas figuras completamente envolta por sombras, olhando atentamente para as costas dela.
—O que você está pensando?
A voz da menor figura soou. Era gutural e profunda. Como se dois seres falassem ao mesmo tempo.
—Essa menina...se arriscando tanto por alguém que ela ama...me lembra alguém.
O outro homem falou. Sua voz era indecifrável e sua expressão era um mistério, escondida por detrás de uma máscara laranja em espiral.
—Você está tendo dúvidas?
O mascarado ficou longos segundos em silêncio.
—Do que você está falando? É tarde demais para isso. Eu já mergulhei no inferno. Essa menina apenas me lembra de uma outra pessoa. Em uma outra vida. Quando eu tinha um outro nome.
A figura com a voz gutural olhou para o mascarado de forma cautelosa. Como se tentasse ler sua expressão. Ele não conseguiu.
—E agora?
Um som rouco soou por detrás da máscara, como se o homem tentasse rir. Sua voz soava quebrada, como um vento aprisionado por milagres de anos, e só naquele momento havia sido libertado.
—E agora...eu renasci. Meus olhos me permitiram enxergar a verdade desse mundo falso. Aquela outra vida se esvaiu em cinzas. Queimada pelas chamas dessa realidade decepcionante. Vendo essa garota...tão egoisticamente preocupada com sua felicidade e aquilo que ela chama de amor... tão imaculada pelas chamas cruéis dessa realidade...me enche de asco. – Seu olho vermelho brilhou através da máscara, como se fosse uma lua pintada de sangue — Eu vou mostrar para ela... o quão decepcionante essa realidade pode ser.
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