Gênesis
29 Chunnin Chiken - O aroma das cerejeiras.
Notas iniciais
“Às vezes
Uma ou duas palavras sinceras e gentis
São suficientes para fazer
As belas, coloridas e cristalinas pétalas,
De uma simples e frágil flor desabrocharem”.
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Saori Satsume simplesmente odiava aquele hospital. Odiava aqueles corredores brancos. Aquele forte e enjoativo cheiro a medicamentos e desinfetantes. Odiava aquele emprego.
Mas isso, curiosamente, não impedia que a bela loira no auge dos seus 24 anos, fosse uma das mais respeitadas psiquiatras no Hospital psiquiátrico da vila da folha. Mas ela tinha um segredo por detrás do sorriso simpático e constrangido que sempre exibia para todo mundo. Ela.odiava.aquele.emprego.
E ela percebeu aquilo logo no primeiro dia. Aquela profissão era, segundo ela, muito estressante, afinal, ajudar aquelas pobres almas, era basicamente igual a montar um quebra-cabeças com mais de um milhão de peças... só que sem as peças. E ela odiava quebra-cabeças. Ela agradecia o facto do seu Q.I de 220 ser incrivelmente bom em resolver puzzles, ou ela já teria desistido daquele emprego faz tempo.
Suspirando, ela folheou, pela milésima vez, o processo clínico do seu mais intrigante quebra-cabeças, enquanto caminhava pelos corredores de mármore, provocando um estalo-seco ao perfurar o piso com aqueles saltos.
Senju Kageyama. Esse era o nome do mais antigo paciente daquele hospital e sua mais nova dor de cabeça. Estava internado naquele local desde os treze anos. Isso havia mais de cem anos. E aquilo era intrigante. Oras, qualquer outra pessoa já teria falecido -sobretudo se provasse a horrível comida que serviam naquele hospital- mas ela se lembrava de já ter lido em algum lugar que os Senjus eram famosos pela sua enorme vitalidade. E sim, o seu paciente era um dos poucos Senjus que ainda viviam.
Chegando ao seu destino, ela encontrou aquele velho homem sentado na beirada da cama, enquanto olhava, de forma incrivelmente vidrada, para a lua que brilhava entre as grades da janela, como se fosse a mais importante do mundo.
—Kageyama-san?
Ele não se moveu, como de costume. Suspirando, ela se sentou na cadeira que havia no canto do quarto, e começou a anotar um monte de termos técnicos e complicados no processo, mas que em termos simples, significavam apenas uma coisa: Senju Kageyama continuava alheio à tudo a sua volta, preso no seu próprio rascunho da realidade, assim como nos últimos cem anos.
Algum tempo depois, no entanto, ela ouviu a porta do quarto se abrindo e, levantando o olhar, ela viu aquele homem alto, encarando-a com aqueles olhos castanhos intensos, beirando ao vermelho, e ela se sentiu afogando neles, como de costume.
Não importava quantas vezes o visse, o neto de Kageyama, sempre fora intrigante para os seus olhos, tanto pela aura misteriosa que o circundava, como pelos seus cabelos incrivelmente brancos. Olhando para ele, Saori não podia deixar de lembrar de alguns retratos antigos que ela tinha visto do segundo Hokage, eram bem parecidos, provavelmente por serem do mesmo clã...
Ela sorriu, o cumprimentando:
—Shirahama-san... como vai?
Ele se curvou levemente, em um gesto polido.
—Doutora...Obrigado por cuidar tão bem do meu avô...
Desde que ela havia começado a trabalhar ali, nos últimos 4 anos, ele sempre visitou o seu avô -Tio-avô, na verdade, não tinha como alguém como Kageyama realmente ter filhos- com aquele rostinho bonito mostrando uma enorme preocupação. Ela sempre fora obcecada por aquele homem, não de forma romântica é claro, mas sim porque ela era, por natureza muito curiosa.
A mesma curiosidade que a impelia, na infância, a dissecar os filhotes da sua cadela de estimação, só para saber quanto tempo eles viviam quando tinham os corações arrancados do peito... não muito.
Enfim...infelizmente, ela não podia dissecar Senju Shirahama é claro, mas ainda assim, havia algo na expressão dele que a deixava estranhamente intrigada... era quase como se...
—Como o meu avô está?
Ela levou mais de um minuto para responder à aquela voz rouca:
—O de sempre.... –Ela ajeitou os seus óculos, que escondiam os seus olhos incrivelmente verdes e que viviam deslizando pelo seu fino nariz- ele continua com esse quadro catatónico. Apesar de que... ele parece ligeiramente mais activo...não em um nível que podemos chamar de progressos na psicomotricidade, é claro... mas ainda assim...
—Entendo... e os pesadelos?
—Nem tanto desde que começamos a nova Terapêutica. Esses novos soníferos são realmente bons... ele parou de acordar gritando no meio da noite...
—Entendo... –Os olhos vazios de Shirahama pareciam ligeiramente felizes, pareciam — bom saber...
—Você tem alguma ideia do que aconteceu com o seu avô?
—Como assim?
Ela ajeitou novamente os óculos.
—Bem...Esse quadro clínico é próprio de shinobis com TEPT (Transtorno de estress pós-traumático), mas nunca vi um caso com essa gravidade... no seu processo consta que ele era um shinobi... apesar das informações restantes estarem vetadas...-ela continuou, com uma voz incrivelmente monótona- eu até entenderia se ele fosse um sobrevivente da primeira guerra Shinobi, afinal, foi a mais violenta de todas... todavia, a linha temporal está incorrecta... a primeira guerra só começou alguns anos depois de ele ser internado... muito curioso...
Ela viu os olhos de Shirahama se escurecerem por um instante. Aquela expressão era...
—Não faço a mínima ideia...
—Você acabou de contrair dezassete diferentes músculos faciais, o que significa que isso, muito provavelmente foi uma mentira... –Ela suspirou, antes de continuar, com a sua voz incrivelmente robótica- A única coisa que aconteceu na época em que ele fora internado, há cem anos atrás... foi... o primeiro Shiren Shokan...
Ele arregalou os olhos. Ela ajeitou os óculos novamente.
—Pela sua expressão, isso significa que eu acertei. Isso me deixa estranhamente feliz, caso contrário todas as seis mil setecentas e vinte horas que passei enfurnada na biblioteca de Konoha, na infância, enquanto as outras meninas brincavam de casinha, teriam sido em vão. Apesar de que, eu realmente nunca estou errada.–Pelo olhar de Shirahama, ela percebeu que ele provavelmente estava considerando a opção de internarem-na também naquele lugar, ela pigarreou- Então...Senju Kageyama, é o único sobrevivente da primeira tribulação da redenção, fascinante...
—Você acha fascinante o facto do meu avô ter enlouquecido após matar os próprios companheiros de equipe?
Ela tremeu ligeiramente quando os olhos intensos de Shirahama se fixaram nos seus. Verdes contra Vermelhos. Como uma pintura divina...
—Não por ele ter fatiado todo mundo é claro... mas sim pelo facto de ele ter vencido... mas agora que eu analiso são exatamente a mesma coisa... julgo melhor me calar... quer dizer, é, eu vou me calar... desculpa...
Ele não falou nada. Apenas colocou as flores que havia trazido em um vaso que havia na cômoda de Kageyama, e se debruçou em frente ao seu avô, antes de passar os minutos seguintes tentando arrancar qualquer reação dele...
Sentindo que estava se intrometendo em um momento íntimo, Saori se curvou levemente, mais uma vez se desculpando, antes de sair do quarto. E enquanto caminhava pelos corredores que ela tanto odiava, os seus lábios, pintados de vermelho, muito lentamente, se esticaram em um sorriso sinuoso.
“Ah... agora eu gostaria de saber ainda mais o que se passa na cabeça do Kageyama-san...talvez eu abra ela e faça uma lobotomia só para ver se ele tira aquela expressão sem graça do rosto... agora... o que será que a minha mãe fez para a janta? Espero que seja algo com muita caloria... sorrir tão falsamente me deixa cansada...”
Uma hora depois, Senju Shirahama se encontrava caminhando pela enorme floresta que havia a sul do Hospital Psiquiátrico de Konoha. Na penumbra da noite, após se certificar que não havia sido seguido, ele executou enfim, os selos que desfaziam o poderoso genjutsu que havia sobre si mesmo, tão poderoso que até o mais prodigioso ninja sensor teria dificuldades de detectar.
O seu corpo, lentamente, tremeluziu, emitindo um brilho azulado, enquanto a sua forma se fragmentava, como se pedaços de uma falsa realidade estivessem ruindo, ao mesmo tempo que nascia uma nova. Ao final, ele havia se transformado em um espectro de luz, idêntico a segunda figura cujo rosto estava entalhado no Monte Hokage. Era Senju Tobirama.
Havia chovido recentemente, então, os pequenos buracos na terra haviam virado um monte de poças de água. E na escuridão daquela floresta, ele se atreveu a olhar para o seu reflexo na água lamacenta, tão lamacenta e negra quanto a sua alma quebrada.
“Até quando... até quando você vai continuar me olhando com esses olhos vazios... meu filho?”
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Enquanto caminhava pelas ruas de Konoha, de volta para o seu apartamento, Naruto ainda tinha a estranha imagem de Hinata cravada a ferro e fogo no seu coração. Ele soltou um longo suspiro. Aqueles olhos... ele não imaginava que veria aquele tipo de olhar no rosto delicado de Hinata. Pelo menos não tão cedo... aquilo iria assombrar os seus pensamentos nos próximos dias, ele sabia...
Quando Naruto entrou no seu quarto, ele avistou a figura de Tobirama simplesmente sentada na beirada da janela, parecendo absorto olhando para o céu escuro, como se enxergasse algo além da lua prateada.
Dando de ombros, Naruto não disse realmente nada, pelo que pareceram minutos apenas se concentrou na enfadonha tarefa de selar as suas coisas em um pergaminho, quando pareceu ter finalmente terminado, enfim supirou:
—Sensei... – Tobirama finalmente se voltou para ele, Naruto sempre fora capaz de dizer o que Tobirama pensava apenas olhando nos seus olhos, mas naquela noite estavam estranhamente tristes, alguma coisa tinha acontecido – Aconteceu alguma coisa?
—Nada não...
Naruto suspirou:
—Até quando vamos fazer isso?
—Como assim?
—Esse joguinho. Em que você simplesmente guarda as coisas para você. Mesmo que isso custe, lentamente, a sua sanidade. Eu achava que você confiasse em mim...
Tobirama apenas continuou olhando para ele, parecendo sem palavras.
Naruto apenas soltou outro suspiro, antes de sussurrar, com uma expressão indecifrável:
—Ótimo. Eu estou saindo. Não me espere pelos próximos cinco dias.
Enquanto observava o seu discípulo dar as costas para si, enquanto caminhava, lentamente para fora daquele apartamento, Tobirama não pôde deixar de se lembrar do dia em que ele viu o seu próprio filho caminhar em direção ao banho de sangue, há cem anos atrás... a imagem era um pouco diferente é claro, mas a sensação de mau agouro era estranhamente familiar... ele quase podia sentir o cheiro de sangue e fuligem que seria derramado na vida do seu discípulo... e o que ele estava fazendo, enquanto isso? Estava com aquela expressão patética no rosto? Suspirando, ele percebeu aquelas palavras saindo da sua boca:
—Espera. –O seu discípulo parou, com os seus dedos ao redor da maçaneta da porta- Eu... vou com você.
Naruto apenas olhou sobre os ombros. E assentiu.
Tobirama suspirou, flutuando em sua direção, sentindo que estava na hora de ter uma certa conversa com o seu discípulo...
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—VOCÊ ESTÁ ATRASADO! NARUTO-BAKA!
Naruto desviou, habilmente, de um soco de Sakura que parecia visar o seu rosto. E depois mais outro, e mais outro... eles ficaram nisso por mais de dez minutos, antes de Sakura finalmente começar a ofegar de cansaço e decidir desistir. Coçando a nuca constrangido, Naruto sorriu para os seus dois outros companheiros, Kakashi e Sasuke.
—Gomen... gomen... fui sequestrado por uma gangue, então tive que dar um jeito neles...
Sasuke apenas revirou os olhos e Kakashi deu os polegares para Naruto, visivelmente orgulhoso pela sua habilidade de inventar desculpas. Ao contrário de Sakura, eles não pareciam tão irritados. Muito provavelmente tinham chegado há pouco também.
Sakura pareceu recuperar o fôlego, e resmungando, perguntou:
—Então Sensei, onde vamos treinar?
Kakashi enfim tomou a palavra:
—Boa pergunta... como eu já falei, nós estaremos fora da Vila por um tempo... como vocês sabem, o... exame —ele parecia estranhamente desconfortável ao usar aquela palavra para se referir à aquele banho de sangue- será daqui há cinco dias, e tendo em conta o quanto vocês precisam melhorar, não é muito tempo assim... por isso eu pensei em algo...
Antes que algum deles sequer perguntasse algo, eles viram Kakashi realizar uns estranhos selos de mão, antes de morder o polegar, e em uma nuvem de fumaça, surgiu um pequeno cachorro usando uma bandana Shinobi... era uma visão bem bizarra mesmo... mas o mais bizarro aconteceu depois, eles viram o cachorro falando.
—Ora, Kakashi. Há quanto tempo. Como posso ajudá-lo?
Os três gennins se entreolharam como se se perguntassem se aquela cena era real... aparentemente era, pois Kakashi conversava com aquele cachorro como se fosse algo muito normal.
—Pakkun, eu preciso que você retorne para a floresta dos cachorros e nos invoque lá.
Pakkun suspirou. Pois é, o cachorro suspirou.
—Você sabe que somente contratantes podem ser invocados reversamente, afinal existe um complexo sistema de...
—Eles vão te fazer festinhas todos os dias.
—Eles vão??? –Ele gritou, a calda balançando, parecendo estranhamente feliz — Pois bem, me dê cinco minutos. — Antes de desaparecer em uma nuvem de fumaça.
—Nós vamos??
Kakashi deu de ombros:
—Quem sabe... era a única forma de convencê-lo...
—Você é o pior, Sensei...
Kakashi apenas fez a sua melhor expressão de indiferença, enquanto ouvia Sakura reclamar por minutos por ele ter vendido as almas deles para um cachorro.
Repentinamente, Kakashi lançou um olhar curioso para Naruto. Ele estava quieto, muito quieto. Ele tinha os lábios cerrados, em uma expressão vazia. Parecia mais... distante e sombrio que o normal, como se a sua mente estivesse à milhas daquele local.
Antes que o Jounnin dissesse qualquer coisa, eles sentiram os seus mundos rodarem, enquanto apareciam em um lugar para lá de esquisito.
Tobirama –que havia aparecido ali usando o hiraishin na marcação que tinha no seu pupilo- analisou atentamente a área ao redor. Eles estavam em uma floresta, até aí tudo bem, o estranho era o tanto de estátuas gigantes de cachorros que haviam pelo local e a sensação que circundava o ar... imediatamente, todos eles sentiram, até mesmo Sakura...
Aquela sensação quente como mel que circundava o ar, estava, lentamente, penetrando nos seus corpos, suas peles, seus músculos e seus ossos, os livrando de anos de dor e cansaço, como se os rejuvenescesse de toda a tensão que haviam adquirido desde que se tornaram Shinobis... aquilo era...
—Que sensação é essa Sensei...? –Sakura murmurou, meio vidrada- Eu me sinto...
—Como se você tivesse tido um orgasmo?
—Hentai! -Sakura corou nervosamente, tentando acertar um soco em Kakashi, ele desviou, obviamente. — Isso lá é coisa que se diga pra sua aluna?
—Gomen, gomen... enfim...-ele suspirou- isso é chakra natural... muito chakra natural... algo bastante comum em locais habitados por animais de invocação...
E o que se seguiu foi uma explicação extremamente longa sobre as diferenças entre o chakra natural e o usado pela maioria dos shinobis. Mas basicamente, o chakra natural era energia espiritual e vital pura, proveniente dos seres que habitavam em harmonia com a natureza... diferente do chakra adulterado que a maioria dos shinobis usavam, que sugava as suas próprias energias vitais...
Pakkun começou a guiá-los pela densa floresta, enquanto caminhavam, vez ou outra avistavam um cachorro, e estes apenas cumprimentavam os integrantes daquele estranho grupo, antes de jogarem conversa fora com Pakkun. A esta altura, os gennins achavam que já nada os surpreenderiam, mas ver dois cachorros conversando... era bizarro, muito bizarro.
A floresta era tão densa e os ramos das árvores tão entrelaçados, que não permitiam ver se era dia ou noite, mas quando eles chegaram à uma extensa e verdejante clareira, finalmente se aperceberam de algo. Era dia.
O sol brilhava fortemente no alto. E aquilo era impossível, há alguns minutos eles estavam em Konoha, e estava de noite.
Provavelmente entendo a confusão dos seus alunos, Kakashi enfim resolveu explicar o motivo de terem ido treinar para aquele lugar. Era muito simples:
Segundo o Hatake, naquela floresta, o tempo fluía de forma diferente, pela quantidade absurda de chakra natural dispersa. Era tanto chakra natural que era possível, inclusive, curar o próprio fluido imutável e intangível chamado de tempo... nenhum deles acreditou, obviamente, foi preciso Kakashi demonstrar.
Cortando o polegar com uma kunai, Kakashi apenas sorriu, enquanto os seus alunos observavam o tecido da ferida se curar, quase que instantaneamente.
—Agora vocês já acreditam??
Eles assentiram, ainda contrariados. Sasuke decidiu se pronunciar:
—Então... no caso... esses cinco dias... o quanto equivalem no mundo de fora?
—Quem sabe... mas, provavelmente algo em torno de um mês...
—Um mês e meio na verdade... –Pakkun murmurou, Kakashi apenas assentiu- então, como vai ser?
—Bem eu passei um bom tempo pensando... e acho que a pessoa que mais precisa de ajuda é a Sakura... mas eu realmente, não sou a melhor pessoa para acompanhá-la... uma vez que o meu estilo combina mais com o Sasuke... então eu gostaria que você orientasse ela, Naruto...
Sakura ficou com uma expressão meio abatida e Sasuke apenas fez uma expressão concentrada, como se pensasse em algo...
Naruto suspirou. Basicamente, ele havia jogado toda a responsabilidade nele.
—Tudo bem... Eu faço isso.
Parecendo entediado, ele fez um gesto para que Sakura o seguisse, eles caminharam por um bom tempo, até estarem longe o bastante de Kakashi e Sasuke.
—Então, Naruto...-ela parecia estranhamente desconfortável, mas ainda assim tinha uma expressão motivada que Naruto nunca vira no rosto dela- ...Sensei...
—Ahm do que você me chamou?
Ela corou centenas de diferentes tons de vermelho.
—N-naruto...Sensei...
Naruto sorriu de canto:
—Desculpa... que bizarro isso é...-como se fosse possível, ela corou ainda mais- não precisa me tratar assim, Sakura... nós somos... companheiros de time, não?
—Sim, mas...-ela desviou o olhar, com um rubor no rosto, parecendo estranhamente envergonhada- eu não tenho sido uma pessoa exatamente amigável com você, pois não?
Naruto olhou para ela incrédulo.
—O que aconteceu com você Sakura? Você está... diferente...
—Como assim? –Ela olhou para ele, assustada- Você tá dizendo que eu estou gorda?!
—Não, não, claro que não... –ele sorriu, pelo menos ela ainda tinha algumas manias antigas- é só que... eu acho que nós realmente nunca conversamos por mais de dois minutos... então é meio estranho... você estar, bem, desse jeito...
Ela levou um bom tempo para responder, como se refletisse de verdade.
—Acho que... eu ando repensando em várias coisas ultimamente sabe? Afinal, eu sou uma inútil... Pode ser que, nesse exame eu mo-
—Não diga isso. –Naruto ficou repentinamente sério- Você não vai... enfim, só não repita isso. E você não é inútil... você é...você.
—Isso foi... um elogio?
—Depende.
—De quê?
—Você quer ficar mais forte? –Ela assentiu, e o loiro não conseguiu impedir um sorriso- Então sim. Foi um elogio.
Ela sorriu. Um tipo de sorriso singelo, que Naruto nunca imaginou enxergar no rosto da Haruno. Ela... ultimamente não era tão detestável assim.
—Então... o que vamos treinar?
Naruto, muito discretamente desviou o seu olhar para a figura fantasmagórica de Tobirama, ele entendeu a deixa. Por mais que Naruto fosse um professor até que razoável, ele não era exatamente o melhor Sensei do mundo. Não quando comparado a Tobirama... que havia produzido um número absurdo de Shinobis geniais. Entendo a deixa, Tobirama começou a dizer para o loiro exatamente o que dizer...
—Isso vai depender de você, Sakura. –Entendo o olhar confuso dela, ele continuou- que tipo de shinobi você quer se tornar?
—Como assim?
—Bem, pode parecer difícil acreditar, mas os times shinobis, são formados com base nas habilidades de cada membro do time. Não são aleatórios... rastreamento, eliminação directa, suporte, infiltração, combate especializado... esses são apenas os principais... veja o time de Hinata, Kiba e Shino por exemplo... os seus clãs possuem habilidades que os tornam exímios em rastrear shinobis... então eles são um time de rastreamento, não que eles não possuam outras habilidades é claro, mas esse provavelmente foi o principal motivo para o Hokage juntar aqueles três...
—E o nosso caso?
—Bom, quanto ao nosso caso é mais complicado... tem o Sasuke, ele é um Uchiha, usuário do sharingan, shurikenjutsu e um usuário de Katon, então ele é um shinobi de combate especializado a curta e média-distância... já eu –ele deu um sorriso- apesar de possuir um monte de jutsus de longa e curta distância, eu sou um exímio espadachim, com um taijutsu e velocidade absurda, um apurado olfato e um excelente sensor... então, isso me coloca no topo de três categorias, rastreamento, infiltração e... eliminação direta. Basicamente, eu poderia ser colocado em qualquer time.
Sakura conteu um arrepio. Aquele garoto era um monstro. Ela tinha que admitir isso.
Naruto sorriu triste, ocultando o pensamento de que na verdade, muito provavelmente, ele foi colocado no mesmo time que Sasuke pela possibilidade dele vir a despertar o sharingan e conseguir “controlar” a sua bijuu. Algo muito idiota ao seu ver.
—Então... dependendo do tipo de Shinobi que eu me tornar, isso pode afectar o equilíbrio do time como um todo? –Naruto assentiu, e Sakura parou para pensar por um longo minuto – Isso é mais difícil do que parece...
—Bem para os filhotes de clã é mais fácil. Desde pequenos, eles já sabem que tipo de jutsus os seus clãs usam, podem desenvolver isso especificamente...
—Já eu, por ser filha de civis, não tenho essa “vantagem”, uma vez que além de não possuir muito chakra, não possuo uma habilidade específica passada pelos meus pais –Naruto olhou para ela espantado, às vezes ele se esquecia que ela era a mais inteligente da classe (é claro, isso porque Shikamaru estava mais preocupado em dormir), só não se graduou como melhor porque as suas habilidades físicas eram simplesmente horríveis — bem, eu não sou boa em rastrear, meu taijutsu é horrível, e com o meu nível de chakra não consigo lançar jutsus poderosos... e tendo em conta o equilíbrio do time... eu gostaria de me especializar em combate de suporte.
Ele sorriu. Não seria difícil ensinar alguém que aprendia tão rápido assim.
—Assim fica mais fácil. Existem dois tipos de shinobis nessa categoria... os ninjas médicos e os usuários de genjutsu... então eu recomendaria genjutsu para você...
Ela olhou para ele curiosa... É verdade que ela já tinha treinado genjutsu com ele antes, mas...
—Porquê?
—Bom... você tem o melhor controle de chakra desse time, e também, é a mais inteligente. E esses são os dois maiores requisitos para se tornar um usuário de genjutsu... e outra coisa, -ele coçou a nuca, envergonhado- infelizmente, eu não sei jutsus médicos...
Ela olhou para ele com tédio. Ele podia ter dito aquilo logo...
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Aquilo era insano. Simplesmente insano. Sakura sabia que, obviamente não seria fácil aquele treinamento. Mas aquilo era um exagero. Se ela não conhecesse o Uzumaki, diria até que ele era um sádico. Ela desconfiava que, se não fosse o chakra natural que curava quase que automaticamente todos seus ferimentos, ela teria sido morta mais vezes do que poderia contar.
O treino funcionava assim: Logo pela manhã, Naruto a obrigava correr incessantemente por aquela floresta rarefeita e com um terreno irregular. Detalhe: Enquanto lançava um monte de Kunais e shurikens em sua direção, e ela tinha que desviar delas ao mesmo tempo que tinha que lidar com o selo chato que Naruto havia colocado nela.
O selo “minhoca” conforme Naruto chamou, era um selo que “sugava” constantemente o chakra do usuário, então ela tinha que disputar constantemente um “cabo-de-guerra” com o selo, ou ela desmaiaria por falta de chakra. Segundo ele, aquilo melhoraria absurdamente o seu controle de chakra. Durante a tarde, ela passava praticamente praticando shurikenjutsu e também, meditando milhares de estratégias para as mais variadas situações que poderiam enfrentar, afinal, a imaginação era a mais poderosa arma de um usuário de genjutsu.
Um facto curioso: Dormir havia se tornado desnecessário. Devido ao excesso de chakra natural, a sua exaustão desaparecia quase que imediatamente, então não era exagero dizer que eles treinavam vinte e quatro horas por dia. Mas geralmente ela praticamente virava a noite toda lendo pergaminhos sobre ilusões, e sobretudo a anatomia e fisiologia dos órgãos de sentidos, a fim de maximizar os efeitos das ilusões. Essa foi a sua rotina todo dia na primeira semana. E uma coisa, durante esse tempo, eles não haviam entrado em contato com Sasuke ou tampouco Kakashi, apenas ouviam uns barulhos estranhos semelhantes a mil pássaros gritando, mais a Norte do local onde eles estavam. Provavelmente eram...
Naruto, no entanto, aproveitava as noites livres da sua recém-aluna para ler alguns jutsus dos seus pais, a maioria era fuuinjutsu (coisa que ele não tinha muito interesse, é claro), jutsus que envolviam correntes de chakra (algo que ele não possuía), estilos de kenjutsu, que apesar de serem extremamente poderosos, não superavam o Raijin ryuu. Isso ele ignorava, no momento. Mas é claro que tinha os jutsus interessantes. Havia uma versão “melhorada” do Hiraishin, alguns jutsus Raiton e fuuton, e o que mais chamou a sua atenção. O Rasengan. Uma esfera concentrada de chakra capaz de derrubar uma árvore.
Ele só levou alguns dias para dominar a versão melhorada do hiraishin, é claro, e quanto ao rasengan, mais alguns poucos dias. Mas o que mais o interessava eram as possíveis variações que ele poderia implementar naquele jutsu. Poderia aumentar o tamanho, adicionar uma ou mais naturezas de chakra... Realmente incrível. Apesar de ele não ter tempo no momento.
Quanto a alimentação, durante a primeira semana, Sakura era obrigada a procurar comida para ela e pra Naruto, e para isso, ela tinha que ir mais a fundo na floresta, onde ela podia encontrar frutas e pequenos animais, inicialmente, ela era incapaz de ferir qualquer animal, então apenas coletava frutas, mas alguns dias depois, algo mudou. Naruto (Tobirama na verdade, apesar de que ela não sabia) praticamente envenenou todas às árvores daquele local, efetivamente fazendo todas as frutas murcharem.
Mas mesmo assim ela se negou a matar qualquer animal, mesmo morrendo de fome. Ela agiu assim, por cinco dias, mas mal conseguia se manter de pé nesse tempo, isso porque Naruto não havia parado o treinamento por um minuto sequer.
Cansado de vê-la quase desmaiando de fome, algum tempo depois, Naruto a levou para observar algo peculiar. Escondidos na copa de uma árvore, eles observaram um pequeno cachorro (uma cria, praticamente) preso em uma armadilha que Naruto havia feito para caçar esquilos. O cachorrinho latia alto, tentando de todas as formas se soltar, mas aquela armadilha era demasiado boa. Eles observaram enquanto um grande cachorro selvagem cheio de cicatrizes –provavelmente um exilado da matilha- se aproximando lentamente do cachorrinho, com os dentes afiados arregaçados em um sorriso animalesco, o pequeno cachorrinho tinha olhos pidões na direção da árvore em que eles estavam, como se os enxergasse.
Sakura não resistiu à aqueles olhos suplicantes.
Com uma kunai em mãos, ela saltou em direção a aquele cachorro selvagem, eles rolaram por minutos pela grama daquela floresta, em uma pequena luta, o cachorro era forte e Sakura estava fraca pelo tanto de dias que não comia, então o cachorro acabou ficando sobre ela, tentanto abocanhar o seu pescoço com aqueles dentes afiados, e antes que Sakura percebesse, ela havia enfiado a Kunai no crânio daquele cachorro, bem entre os olhos, ela sentiu um líquido quente e vermelho banhar o seu corpo. Na escuridão daquela floresta, com os olhos verdes cheios de lágrimas, pela primeira vez, Sakura matou. Era apenas um cachorro é claro, mas ela havia tirado uma vida. Ela tentou vomitar, mas o seu estômago estava tão vazio que a única coisa que ela sentia era dor.
E mesmo coberta de sangue, ela caminhou até o cachorrinho e o libertou da armadilha, observando enquanto ele corria em direção ao cachorro maior, e o cutucava com o fucinho, como se para se certificar que ele ainda estava vivo, quando percebeu que não, o pequeno cachorro fez algo surpreendente.
Ele, timidamente, começou a passar a sua pequena língua no pelo marron daquele cachorro grande, lambendo o seu sangue como se fosse um manjar divino, enquanto alguns outros pequenos animais, provavelmente atraídos pelo cheiro de sangue, começaram a se aproximar do corpo e a devorar cada um uma parte.
Aquilo durou longos minutos, e os pequenos resquícios de carne que haviam restado daquele cachorro, estavam sendo levados por alguns pequenos insetos. E então Sakura finalmente entendeu.
Aquele grande cachorro havia tentado devorar o cachorrinho, mas os outros pequenos animais, inclusive insetos consumiram cada parte do seu corpo, então aquele cachorro, de alguma forma, acabou passando a viver, dentro de cada um deles, e eventualmente, todos aqueles animais (com o cachorro dentro deles), morreriam, e os seus restos apodrecidos seriam absorvidos por aquela terra, e eles serviriam de fertilizantes para uma nova grama, uma nova planta, uma nova árvore, uma nova floresta...uma nova vida... que serviriam para a sobrevivência de outras vidas no futuro... era um ciclo sem fim, basicamente, no fundo, nenhum ser realmente morria, todos eles continuavam vivendo... dentro dos outros seres, a morte não era realmente o fim de tudo... mas o começo de algo maior.
E então, ela gritou. Um grito tão alto e ensurdecedor, que até os pássaros nas copas das árvores voaram assustados, como se entendessem todo o sentimento por detrás daquele grito. Haruno Sakura havia mudado.
Naruto, em um rápido movimento saltou da árvore em que estava escondido, e surpreendendo Sakura, a abraçou, envolvendo seus braços no corpo pequeno e ensanguentado de Sakura. Ele não disse realmente nada, alguns segundos depois, sentiu algo molhado caindo no seu peito... Sakura estava... chorando. Ele deu um sorriso, um tanto triste. Naquele momento, Sakura estava... bem, não importa, desde aquele dia, Sakura não mais hesitou em tirar a vida de qualquer animal.
Algumas semanas haviam se passado novamente, fazendo no total um mês desde que eles estavam naquela floresta e duas coisas muito importantes haviam acontecido nesse meio tempo:
Primeiro, o desenvolvimento da Haruno nesse período de tempo fora no mínimo incrível. Devido às corridas constantes, a resistência dela, antes horrível havia aumentado assustadoramente, e atualmente, os seus instintos e noção dos arredores haviam melhorado bastantes, ao ponto de ela conseguir desviar da grande maioria das shurikens que Naruto –escondido nas sombras, jogava nela.
O seu controle de chakra, antes excelente, agora estava quase perfeito, e outra coisa surpreendente, um efeito colateral do selo “minhoca” havia feito as reservas de chakra dela praticamente dobrarem, enquanto a mente dela estava mais afiada do que antes, pelo tanto de conhecimentos que ela havia adquirido sobre as melhores formas de maximizar os efeitos de um genjutsu... mas o mais importante, a atitude dela havia “mudado”, não drasticamente é claro, ela ainda continuava com as suas costumeiras reações idiotas é claro, mas...
Naruto tinha impressão de que ela fazia aquilo de propósito, como se fosse uma máscara... afinal, sempre que Naruto jogava uma Kunai na direção dela, ele via o brilho nos olhos verdes dela mudar... as suas pupilas se tornavam mais escurecidas e dilatadas e ela ficava com uma expressão concentrada e afiada que ele nunca havia visto nela... era quase como uma sensação semelhante a olhar para um gato ou cachorro menor, eriçando os pelos para parecer maior e mais forte... ela, inclusive, havia cortado o seu cabelo (que antes era enorme de tão longo, chegando a atrapalhar alguns movimentos), ela agora o usava mais curto, um pouquinho abaixo da linha da mandíbula... foi uma mudança até sutil, mas mostrava que ela agora levava a mais a sério a vida shinobi...
E a segunda coisa surpreendente que aconteceu, foi Naruto desafiar Tobirama para um combate. E o mais surpreendente ainda, foi Tobirama ter aceitado...
Então, em uma noite completamente escura, eles caminharam mais a fundo daquela enorme floresta, e após Tobirama colocar uma kekkai, para evitar que alguém de fora visse aquela cena, Naruto fez um clone para que Tobirama assumisse uma forma física. Ele estava na sua forma infantil, obviamente, mas o seu poder estava quase próximo do seu máximo, eu diria uns oitenta por cento. E então Naruto viu uma coisa incrível.
A velocidade de Tobirama era algo que ele nunca tinha visto e os seus reflexos eram tão afiados que pareciam que ele na verdade estava prevendo os seus movimentos ao invés de reagir a eles. Aquele nível, Naruto sabia, era resultado de toda uma vida enfrentando a morte — mesmo quando tinha a sua idade, tendo nascido antes da formação das vilas ocultas, em uma época em que chegar aos doze anos era motivo de orgulho, Tobirama já havia derramado mais sangue do que Naruto um dia imaginava derramar.
Por isso é que o nível dos Shinobis anteriores a formação das Vilas Ocultas, era ridiculamente superior aos atuais, tanto que os primeiros Kages de cada Vila estavam em um nível completamente diferente dos Kages atuais. Naruto sabia, que não era exagero dizer que Tobirama era mais forte do que qualquer um dos Kages da atualidade... e se os Kages eram os Shinobis mais fortes... então aquilo significava que... ele era o Shinobi mais forte no mundo todo???
O seu Sensei era um monstro, ele nem precisava de selos de mão, apenas um pensamento consciente era suficiente para ele liberar um Jutsu, e o seu corpo, de tão rápido que era parecia se mover de forma inconsciente e meio automática, como se todos os seus pensamentos desnecessários desaparecessem e ele focasse todos seus sentidos afiados em simplesmente assassinar o inimigo diante dele.
Por essa simples razão, por mais forte que Naruto fosse fisicamente, por mais rápido que ele se movesse, não passando de um mero borrão aos olhos de meros shinobis, por mais jutsus que ele lançasse em direção a Tobirama, ele ainda era um embrião em comparação ao maior usuário de Suiton que já havia pisado naquele mundo.
Tudo que ele fazia era inútil, e Tobirama apenas desviava, com uma suavidade e graciosidade que beiravam a insanidade. Jutsus e Jutsus Suiton, Raiton e Fuuton que Naruto lançava, eram apenas desviados, atingindo as árvores ao redor e destruindo seriamente aquela área da floresta, apesar de que, uns minutos depois, as árvores se regeneravam devido o chakra Natural.
Eles ficaram naquilo pelo que pareceram ser longos minutos. Então aquilo terminou consideravelmente rápido...
—Até quando você vai ficar desviando, Sensei?? Pare de me tratar como criança. Ataque!
Tobirama apenas fechou os olhos.
—Quanto é que está o nosso placar?
Naruto fez uma expressão emburrada.
—Setenta e duas Vitórias, e zero derrotas.
Ele soltou uma longa risada. Eles faziam aquele tipo de disputa desde que Naruto tinha oito anos, apesar de que, aquela era a primeira vez que ele ficava realmente sério contra o seu pupilo.
—Entendo... então, agora eu vou atacar. Não me culpe se você acabar morrendo.
O chakra de Tobirama pareceu explodir, a aura a sua volta mudou, se tornou densa e ameaçadora, se a aura de Naruto era de uma raposa astuta, de Tobirama era de uma grande serpente marinha, pronta para dar o bote em uma pequena raposa tola o bastante para cair no grande oceano.
Naruto sentiu os seus joelhos tremerem e a sua consciência oscilar, deus... aquela pressão era surreal. Então aquele era o nível de um deus shinobi? Era difícil levar ar para os seus pulmões. Aquela sensação... ele sentia como se estivesse se afogando cada vez mais no fundo do oceano, enquanto a pressão lentamente o esmagava... E então Naruto piscou, em um momento rápido demais para sequer ser chamado de hesitação... mas naquele instante, Tobirama simplesmente apareceu atrás de Naruto, colocando a sua mão no ombro do Jinchuuriki.
—Kokuangyo no jutsu...
Naruto sentiu o mundo a sua volta escurecer, ele não conseguia ver simplesmente nada, como se toda luz tivesse sido sugada do mundo, não conseguia ouvir, cheirar, ou tocar em qualquer coisa, como se tivesse sido privado dos seus cinco sentidos...
Imerso na completa e assustadora escuridão, ele sentia a sua consciência se esvaindo à medida que o tempo passava... minutos se transformaram em horas, e horas em dias, aquilo, muito lentamente, estava o enlouquecendo, faziam anos que ele não ouvia o som da própria voz ou do próprio pensamento, até ele começar a achar que milhares e milhares de anos haviam se passado...
De repente, a escuridão começou a ruir, à medida que a luz parecia voltar ao seu mundo. Mas ele ainda estava com aquela estranha sensação de insanidade gravada a ferro no peito, e ele duvidava que algum dia fosse esquecer. Naruto, completamente de joelhos, apenas sussurrou:
—Genjutsu...
Tobirama assentiu, sorrindo para o seu discípulo deitado no chão, completamente ofegante.
Naruto suspirou, de repente se lembrando que Tobirama, além de ser o maior usuário de suiton, o maior ninja sensorial, um exímio criador de Jutsus capazes de dizimar vilas inteiras -além de possuir um monte de outras habilidades absurdas-, também era o maior usuário de Inton (elemento escuridão) ...
—Que merda... eu perdi tão facilmente...
Naruto era forte. Ele sabia, que em determinadas circunstâncias, ele seria tão forte quanto um dos Kages atuais. Mas sinceramente, Naruto finalmente percebeu qual era o abismo que separava ele de Tobirama. E aquilo o fez sorrir, um sorriso tão excitado que beirava a insanidade... ele mal podia esperar para superar o enorme abismo que o impedia de atravessar para o lado dos monstros, os verdadeiros monstros. Não o bando de inúteis que se contentavam em ser Chuunnins e se gabavam aos quatro ventos que eram fortes... Não, não. Os planos de Uzumaki Naruto era bem maiores do que aquilo...
—Você melhorou Naruto. Muito.
Ele suspirou, se deitando completamente na grama fria pelas gotículas de orvalho que se formava, apenas para enxergar o céu prateado naquela noite. A lua era linda sem toda aquela iluminação artificial da vila da folha.
—Eu sei. Mas você continua um monstro... Sensei.
—É verdade... –E então eles ficaram um longo minuto em silêncio- Eu já quero te perguntar isso há bastante tempo... mas o que aconteceu com você? Você tem estado meio... aéreo esse mês...
—Nada demais...
Tobirama suspirou.
—Até quando vamos fazer isso?
Naruto se remexeu, até achar uma posição confortável o bastante para olhar para o seu Sensei.
—Como assim?
—Esse joguinho. Em que você simplesmente guarda as coisas para você. Mesmo que isso custe, lentamente, a sua sanidade. Eu achava que você confiasse em mim...
Naruto olhou incrédulo para Tobirama, que apenas tinha um sorriso divertido em sua direção... aquelas palavras... Naruto tinha dito aquelas exatas palavras há um mês atrás.
—Você é o pior, Sensei...
E então o loiro fechou novamente os olhos, e não falou mais nada. Tobirama suspirou, sabendo que aquele era o momento ideal para ter a conversa que ele tanto tinha adiado...
—Naruto...
—Sim? –Ele murmurou, os olhos fechados em reflexão.
—Nós temos que conversar...
Ele ainda continuava de olhos fechados.
—Eu sei... mas...sobre o que você quer falar?
—O Primeiro Shiren Shokan...
Os olhos de Naruto repentinamente abriram.
—O primeiro...? –Tobirama assentiu, Naruto suspirou-estou ouvindo...
Naruto observou Tobirama fazer uma expressão de dor que ele nunca vira no rosto dele. Porque ele tinha a estranha impressão que... que aquela conversa o quebraria ainda mais?
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Duas semanas depois, o treinamento tinha enfim, chegado ao final. E mesmo depois de todo aquele tempo, Naruto ainda estava abatido pelo que Tobirama havia lhe contado naquela noite, com os olhos incrivelmente tristes. Céus... ao longo desses anos ele jamais imaginou que os sumiços de Tobirama eram, basicamente, porque ele necessitava visitar o seu próprio filho, Senju Kageyama, que vivia internado no Hospital Psiquiátrico de Konoha...
E falando em Kageyama, Naruto, vendo o quanto Tobirama parecia quebrado quando falava dele, finalmente percebeu o quanto ele sofria pelo filho. Era óbvio que ele o amava muito. Então deve ter sido realmente difícil ver o seu filho, o seu doce e gentil filho, enlouquecer num exame que ele próprio havia criado... céus... aquilo era simplesmente insano... e Naruto sabia que nunca entenderia a dor de Tobirama...
Tudo bem que ele havia perdido ambos os pais, mas aquilo era diferente. Eles morreram quando ele era um bebê, então, não era tão doloroso. Não entendam mal. Doía ter crescido sem seus pais, mas seria diferente se ele tivesse crescido com eles e só depois eles tivessem sido assassinados. Isso sim o quebraria completamente... e então Naruto odiou ainda mais Azuka, os nobres... quer dizer, eles já os odiava antes... mas... como se fosse possível, aquela chama dentro de si pareceu aumentar ainda mais... ele definitivamente faria eles...
Voltando ao presente... ele e o seu time estavam reunidos novamente na clareira onde outrora tinham se separado, e não era preciso ser um génio para entender que os três haviam mudado, isso era óbvio. Se antes eles eram, respectivamente, uma katana, uma shuriken e uma reles senbon, eles haviam sido novamente moldados no fogo bruto e quente de um vulcão, e agora eram três Katanas afiadas, uma dourada como o ouro que cobria o templo do sol, uma ebanizada como as águas que corriam nos riachos do yomi e outra era mais delicada e suave... como pétalas afiadas de cerejeiras que raspavam gentilmente as peles de qualquer um que se colocasse diante deles.
Kakashi, no entanto, só podia olhar para eles de forma orgulhosa e apreensiva, como um ferreiro que olha para a melhor katana que ele alguma vez havia forjado. Olhos orgulhosos pelo quão bela e afiada o fio da katana parece, mas receosos com o tanto de sangue que eles fariam chover... muito sangue, tanto sangue que até a própria terra reclamaria... e o quanto de corpos que eles fariam cair para pavimentar um novo caminho naquela Era Shinobi...
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