Notas iniciais
"Finalmente telminei meu plano infalível!" - Cebolinha.

Estava em cima de mim. Toda a corrida havia sido em vão. Os outros estavam mortos, e era a minha vez. Eu soluçava desesperadamente, perguntando-me o que havia feito para merecer algo do tipo. A besta cravou as garras em meu braço, e a dor era insuportável. Salivava em cima de mim, e podia ver as suas presas pontiagudas cobertas de sangue. Em breve o meu sangue. Tentei resistir, mas o único resultado obtido foi o aumento da dor que sentia quando a criatura enfiou as garras ainda mais. Pensei vê-la sorrir, um sorriso diabólico e assustador de besta. Com uma voz distorcida, uma mistura da voz da Porteira com o rugido da besta, esta disse:

– Pobre Gwen, condenada a sofrer eternamente.

Então me abocanhou.

Gritei desesperadamente, acordando suada. Sentei-me e enfiei o rosto nas mãos. Henry, ao meu lado, encarava-me assustado. Fiquei em silêncio por alguns instantes. Podia sentir. Como se a besta realmente me houvesse abocanhado.

– Você está bem? – ele perguntou, por fim.

– Sim. Foi só um pesadelo. – respondi, comprimindo os lábios.

– Quer falar sobre isso?

– Não – respondi prontamente. – Quer dizer... Não, mas obrigada por perguntar.

Ele riu. Aproximou-se de mim com esforço por conta do braço, e ficou me observando por alguns instantes, como se tentasse adivinhar o que se passava em minha mente. Eu ainda estava assustada por conta do pesadelo, por isso tentei não dar muita atenção ao seu olhar. Umedeci os lábios e observei os outros. Catherine e Sarah dormiam. Jeremy estava conversando com Georgia e Tina estava sentada no canto, rolando a cabeça de macaco entre os dedos.

– Como é que vai ser agora, Henry? – perguntei. – Não tem mais Santuário, ou lago. Nossos cantis não vão durar para sempre, e uma outra besta... – estremeci ao pensar nas criaturas – Outra besta pode aparecer a qualquer instante. E então o que faríamos? Você é um ótimo caçador, mas está ferido. E Jeremy, por mais forte que seja, não consegue lidar com um daqueles sozinhos. O que é outro ponto: como vamos conseguir comida se não da para caç...

– Ei. Vai com calma, Gwen! – ele riu – Eu me perdi no meio do que você estava falando, minha mente não vai tão rápido quanto a sua! Você tem que se acalmar, ou vai ter um ataque do coração! Sério.

– E o que então? – bufei – Vou ficar pensando positivo e contando piadas, só esperando que quem quer que nos colocou aqui se entedie e mande uma besta para me matar?

– Você consegue ser bem tétrica às vezes – ele disse, e não pude conter um sorriso.

– E você, bem inconveniente. Mas estou feliz por ter uma pessoa inconveniente comigo, ou, provavelmente, eu teria mesmo um ataque do coração. – respondi. Ele riu e olhou para os próprios pés.

– Lá em casa costumavam achar que eu não levava nada a sério. Mas no fim, acho que não me arrependo disso.

Olhei para ele e mordi o lábio inferior. Às vezes eu simplesmente me esquecia de que ele não vira a família nos últimos sete meses. Eu estava lá por apenas quatro dias e a dor da separação já era insuportável.

– Deve ser difícil para você. Pensar neles...

– Na verdade não – ele olhou para mim – Eu gosto de falar sobre a minha antiga vida. Por um instante, é como se eu apenas estivesse viajando e fosse voltar logo. E assim eu me sinto um pouco melhor. Devia tentar uma vez. Vamos, fale sobre a sua família.

– Eu... Sinto muito, Henry, mas não sei se consigo fazer isso.

– Dê uma chance. Se eu estiver errado, paro de te importunar e deixo você me dar um soco. Só tente uma vez, Gwen.

Olhei para ele e suspirei.

– Está bem. Eu sou de Allendale, New Jersey. Sou a mais nova de três. Meu irmão mais velho se chama Arthur, e é casado com uma adorável indiana que está esperando um bebê. Ele é fotógrafo e viaja pelo mundo inteiro por causa disso. A do meio se chama Susan. Ela trabalha em uma lanchonete de estrada e é fascinada pelos excêntricos que passam por lá. Minha mãe é dona de uma galeria de arte em Allendale e meu pai é policial. Eu estava quase terminando o colegial e me preparando para ir para a faculdade de Música. Eu... Oh, acho que estou falando há tempo demais. – desviei o olhar, envergonhada. – Sinto muito. Acho que... Acho que me empolguei um pouco.

– Não tem problema – ele riu. – E então, como se sente? Vai me dar um soco ou não?

– Quero muito te dar um soco – brinquei – Mas me sinto muito melhor. Obrigada, Henry.

Ele sorriu e eu retribuí a gentileza, e então Georgia gritou. Voltamo-nos, assustados. Um pedaço retangular do chão se erguera, e agora ela estava sentada sobre ele.

– Se o chão se mover embaixo de mim mais uma vez, acho que vou enlouquecer – ela bufou. – O que foi isso? Resolveram nos dar outro Santuário então?

– Não, Georgia, não vê sobre o que está sentada? – Tina sussurrou, atônita. – É um caixão de pedra, e tem alguém adormecido aí dentro.

– Isso quer dizer que logo a Porteira vai aparecer! – Jeremy concluiu, surpreso. – Se nos escondermos, talvez possamos segui-la e descobrir como sair desse...

– Ei – interrompeu Tina – Vai com calma, meu querido. Estou aqui há três anos e o pessoal que controla isso tudo nunca deixou que víssemos os caixões. Sempre desapareciam antes que pudéssemos encontra-los, exatamente como a porteira.

– O que está tentando dizer?

– Ela está tentando dizer – eu disse – Que há algo de errado. E provavelmente está certa.

Tina sorriu, satisfeita.

– Mas... – ela se voltou para mim, indignada. Continuei – Mas temos uma chance, e não podemos desperdiça-la por uma desconfiança. Quer dizer, talvez consigamos algum tipo de resposta.

– O quê? – ela exclamou. – Você só pode estar brincando. Gwen, eu sei do que estou falando. Estou aqui há três anos, e o pessoal não nos deixaria ver isso a não ser que fosse algum tipo de armadilha.

As duas que antes estavam adormecidas acordaram, e se entreolharam, confusas.

– Talvez. Faz bastante sentido, na verdade. Mas pelo menos teríamos uma direção para seguir!

– Segui-la é pedir para morrer!

– E ficar aqui parada não? – rebati, irritada. Respirei profundamente. – Escuta. Eu sei que talvez esteja sendo uma completa idiota, e que está bem mais familiarizada com tudo isso que eu, mas eu simplesmente não vou ficar aqui parada esperando uma besta passar e dar um oi.

– Gwen, você está sendo completamente ridícula – Tina disse entredentes, tentando se controlar – Pense melhor.

– Eu pensei tudo o que eu tinha para pensar. – disse, em tom de desafio – Se quiser ficar aqui, fique. Se todos vocês quiserem, fiquem. Mas eu vou atrás dela.

Silêncio.

– Eu vou com você – Henry disse, após alguns instantes. Tina olhou de mim para ele, sem conseguir acreditar. Sorri, tentando não deixar o meu alívio transparecer.

– Eu também vou – Jeremy se juntou a ele.

– Para onde os caçadores vão, eu vou – Sarah disse, apressadamente. – Não sei bem o que está acontecendo, mas vou com eles.

Tina cerrou os punhos, irritadas.

– Isso é uma piada. Só pode ser. – voltou-se para as duas restantes – Vocês também vão, não é?

– Não pode esperar que fiquemos aqui, só nós três – Georgia foi sincera, erguendo uma sobrancelha. Não pude deixar de sorrir, satisfeita, apesar de que o descontentamento de Tina fazia com que eu me sentisse um pouco mal. Suspirei e decidi romper o silêncio.

– Então devemos nos esconder.

Tina tapou o rosto com as mãos, balançando a cabeça negativamente.

– E querem mesmo seguir a essa garota? Gwen, pelo amor de Deus, onde sugere que nos escondamos? Atrás do túmulo de pedra? Então quando a Porteira chegar, gritamos surpresa e comemos um bolo todos juntos?

– Oh. Isso pode ser um problema – murmurei, olhando para a paisagem monótona e sem esconderijos ao meu redor.

– Talvez – sugeriu Catherine – Se recuássemos um pouco na névoa escura, ela não consiga nos ver. E podemos segui-la quando acabar todo aquele ritual de sempre, porque apesar de não a estarmos vendo, poderemos ouvi-la.

– E ela poderá nos ouvir – lembrou Georgia.

– E é por isso que devemos ser extremamente silenciosos – acrescentou Catherine. Assentimos, em concordância, e fizemos como Catherine nos instruíra. Aproximei-me de Henry.

– Obrigada por se oferecer. A verdade é que estava morrendo de medo de ir sozinha.

– E você pensa que eu já não sabia disso? – ele sorriu, e eu enrubesci.

Esperamos por alguns instantes, e logo pudemos ouvir os passos da porteira se aproximando do caixão. Ela riu com desdém antes de enfiar a chave na fechadura e a girar, afastando a tampa. Ouvimos uma exclamação de surpresa, e uma voz masculina.

– Quem é você e por que estou aqui?

– Não interessa. – ela respondeu, com o mesmo desprezo com o qual respondeu a todos nós, ocultos pela névoa. Era um grande alívio saber que o plano de Catherine estava funcionando. – E quem é você?

Ele fez exatamente o que eu tivera medo de fazer ao chegar.

– Não interessa – ele a imitou, sarcasticamente. Pude imagina-la estreitando os olhos, e senti pena do garoto. Mas não ouvi nenhum grito ou algo do gênero. – Eu fiz duas perguntas. Se você me responder eu te respondo.

– Não está em situação para negociar comigo – ela rosnou.

– Bem, você também está aqui, não é? – ele rebateu, em tom desafiador – E se me matar, me pouparia desse lugar mórbido e doentio, o que seria um belo de um favor.

Uau. Ele tinha bastante coragem para alguém que acabara de chegar. Olhei, atônita, para Henry, que retribuiu o olhar.

– A sua ousadia chega a ser divertida. – a Porteira disse. – Mas não tenho tempo para isso. O meu nome é Pilar, e você está aqui porque meu mestre o deseja. É tudo que vou te dizer.

– Nesse caso, eu sou Nicholas Smith, calouro na universidade de Oxford – essa última parte ele disse com um tom de orgulho que chegava a ser cômico, e logo imaginei como uma daquelas pessoas inteligentes com óculos e tudo. Talvez o excesso de inteligência lhe tivesse dado aquela ousadia.

– Só precisava saber o seu nome – Pilar respondeu, com desprezo. – Normalmente eu teria pena de pessoas recém chegadas. Mas você me enoja, com seus ares de inteligência. Considera-se tão esperto, mas mesmo assim está preso aqui como todos os outros.

– E você também, ao que parece.

Ela riu com escárnio.

– Acha que eu não estaria aqui, se não quisesse? Saiba, Nicholas, que está condenado a sofrer eternamente.

Então ela começou a se distanciar. Era a nossa deixa. Começamos a caminhar silenciosamente na direção de seus passos, e sinalizei para que o tal Nicholas ficasse em silêncio e nos seguisse. Realmente, ele era uma daquelas personalidades inteligentes com óculos e tudo. O cabelo castanho estava despenteado, e era quase divertido vê-lo com o macacão estranho que todos usávamos e não roupas sociais. Ele ergueu uma sobrancelha, mas a curiosidade o levou a fazer como nós. Eu estava começando a acreditar que Pilar não nos tinha notado quando ela riu, quase que cruelmente, e se voltou.

– Mas que comovente. Parece até que tenho uma horda de seguidores. A que devo esse amor todo?

Ficamos em silêncio, apenas a observando. Mesmo Nicholas permaneceu sem abrir a boca.

– Mas que grosseria, não me responder. A sorte de vocês é que não me importo com formalidades como a educação. Aprecio a caminhada, meus amigos, mas não gosto muito de ser seguida.

Dito isto, ela retirou de um dos bolsos do macacão uma bola escura, tamanho semelhante a uma de baseball, e a atirou no chão. Surgiu dali uma névoa ainda mais escura, impedindo-nos de vê-la, e quando se dissipou Pilar não estava mais ali. Praguejei e evitei olhar para Tina, que certamente esboçava um olhar quase que triunfante e de “Eu te avisei”. Foi Nicholas quem rompeu o silêncio.

– Agora querem me explicar algumas coisas?

– A primeira coisa que vou te explicar – Tina disse – É que, se agir comigo como agiu com a Porteira, pode ter certeza que vou enfiar esses seus óculos...

– Ei, Tina, vai com calma – riu Henry. – Bem vindo, cara.

– Não muito. – Nick suspirou – Esse ambiente mórbido não é realmente convidativo.

– Mas você é realmente irritante – Tina bufou.

– Não ligue para ela – Jeremy não pôde evitar um leve sorriso. – Mas é bom que se acostume com esse “ambiente mórbido”, pois passará bastante tempo por aqui.

Nick o encarou, erguendo uma sobrancelha. Georgia, sem dar muita atenção a tudo que acontecia, voltou-se para mim.

– E o que sugere agora? Mudou de ideia e vai ficar sentada, esperando as bestas?

– Não – respondi, após pensar por alguns instantes. – Na verdade, acho que tive uma ideia.

– Outra? É melhor você descansar um pouco, ou vamos todos acabar mortos – zombou Tina, sorrindo, e foi realmente bom verificar que ela não estava irritada comigo.

– Só escute, e se for tão ridícula quanto a última, prometo que vou dormir e deixo todos vocês em paz.

Ela revirou os olhos, mas assentiu.

– Esse lugar tem que ter alguma saída. Algum limite. Quer dizer, não é como se pudesse ser infinito. Então, se andássemos bastante, talvez...

– Francamente! É isso o que sugere? Andar sem parar na esperança vã de achar os limites disso aqui?

– O que prefere? Ficar parada? Se o meu plano não funcionar, a única diferença será que estaremos sentados e morrendo lentamente em outro lugar de aparência exatamente igual! – protestei. – Vamos lá, esse plano não é tão perigoso. E não use as bestas como argumento, ou vou fingir que não escutei.

Ela pensou por alguns instantes, enquanto todos a observavam. Ao notar isso, ela suspirou e ergueu as mãos em sinal de rendição.

– Está bem então. E qual direção seria essa, Excelência Gwen Savage?

Notas finais
Surpresa! Estão surpresos? Eu estou. Mas enfim. Os comentários foram bem animadores, então resolvi postar mais um. Estão felizes? Espero que sim. Enfim. Comentários?