Gwen Savage e o Nariz de Prata - Interativa
5 Planos Infalíveis
Notas iniciais
Estava em cima de mim. Toda a corrida havia sido em vão. Os outros estavam mortos, e era a minha vez. Eu soluçava desesperadamente, perguntando-me o que havia feito para merecer algo do tipo. A besta cravou as garras em meu braço, e a dor era insuportável. Salivava em cima de mim, e podia ver as suas presas pontiagudas cobertas de sangue. Em breve o meu sangue. Tentei resistir, mas o único resultado obtido foi o aumento da dor que sentia quando a criatura enfiou as garras ainda mais. Pensei vê-la sorrir, um sorriso diabólico e assustador de besta. Com uma voz distorcida, uma mistura da voz da Porteira com o rugido da besta, esta disse:
– Pobre Gwen, condenada a sofrer eternamente.
Então me abocanhou.
Gritei desesperadamente, acordando suada. Sentei-me e enfiei o rosto nas mãos. Henry, ao meu lado, encarava-me assustado. Fiquei em silêncio por alguns instantes. Podia sentir. Como se a besta realmente me houvesse abocanhado.
– Você está bem? – ele perguntou, por fim.
– Sim. Foi só um pesadelo. – respondi, comprimindo os lábios.
– Quer falar sobre isso?
– Não – respondi prontamente. – Quer dizer... Não, mas obrigada por perguntar.
Ele riu. Aproximou-se de mim com esforço por conta do braço, e ficou me observando por alguns instantes, como se tentasse adivinhar o que se passava em minha mente. Eu ainda estava assustada por conta do pesadelo, por isso tentei não dar muita atenção ao seu olhar. Umedeci os lábios e observei os outros. Catherine e Sarah dormiam. Jeremy estava conversando com Georgia e Tina estava sentada no canto, rolando a cabeça de macaco entre os dedos.
– Como é que vai ser agora, Henry? – perguntei. – Não tem mais Santuário, ou lago. Nossos cantis não vão durar para sempre, e uma outra besta... – estremeci ao pensar nas criaturas – Outra besta pode aparecer a qualquer instante. E então o que faríamos? Você é um ótimo caçador, mas está ferido. E Jeremy, por mais forte que seja, não consegue lidar com um daqueles sozinhos. O que é outro ponto: como vamos conseguir comida se não da para caç...
– Ei. Vai com calma, Gwen! – ele riu – Eu me perdi no meio do que você estava falando, minha mente não vai tão rápido quanto a sua! Você tem que se acalmar, ou vai ter um ataque do coração! Sério.
– E o que então? – bufei – Vou ficar pensando positivo e contando piadas, só esperando que quem quer que nos colocou aqui se entedie e mande uma besta para me matar?
– Você consegue ser bem tétrica às vezes – ele disse, e não pude conter um sorriso.
– E você, bem inconveniente. Mas estou feliz por ter uma pessoa inconveniente comigo, ou, provavelmente, eu teria mesmo um ataque do coração. – respondi. Ele riu e olhou para os próprios pés.
– Lá em casa costumavam achar que eu não levava nada a sério. Mas no fim, acho que não me arrependo disso.
Olhei para ele e mordi o lábio inferior. Às vezes eu simplesmente me esquecia de que ele não vira a família nos últimos sete meses. Eu estava lá por apenas quatro dias e a dor da separação já era insuportável.
– Deve ser difícil para você. Pensar neles...
– Na verdade não – ele olhou para mim – Eu gosto de falar sobre a minha antiga vida. Por um instante, é como se eu apenas estivesse viajando e fosse voltar logo. E assim eu me sinto um pouco melhor. Devia tentar uma vez. Vamos, fale sobre a sua família.
– Eu... Sinto muito, Henry, mas não sei se consigo fazer isso.
– Dê uma chance. Se eu estiver errado, paro de te importunar e deixo você me dar um soco. Só tente uma vez, Gwen.
Olhei para ele e suspirei.
– Está bem. Eu sou de Allendale, New Jersey. Sou a mais nova de três. Meu irmão mais velho se chama Arthur, e é casado com uma adorável indiana que está esperando um bebê. Ele é fotógrafo e viaja pelo mundo inteiro por causa disso. A do meio se chama Susan. Ela trabalha em uma lanchonete de estrada e é fascinada pelos excêntricos que passam por lá. Minha mãe é dona de uma galeria de arte em Allendale e meu pai é policial. Eu estava quase terminando o colegial e me preparando para ir para a faculdade de Música. Eu... Oh, acho que estou falando há tempo demais. – desviei o olhar, envergonhada. – Sinto muito. Acho que... Acho que me empolguei um pouco.
– Não tem problema – ele riu. – E então, como se sente? Vai me dar um soco ou não?
– Quero muito te dar um soco – brinquei – Mas me sinto muito melhor. Obrigada, Henry.
Ele sorriu e eu retribuí a gentileza, e então Georgia gritou. Voltamo-nos, assustados. Um pedaço retangular do chão se erguera, e agora ela estava sentada sobre ele.
– Se o chão se mover embaixo de mim mais uma vez, acho que vou enlouquecer – ela bufou. – O que foi isso? Resolveram nos dar outro Santuário então?
– Não, Georgia, não vê sobre o que está sentada? – Tina sussurrou, atônita. – É um caixão de pedra, e tem alguém adormecido aí dentro.
– Isso quer dizer que logo a Porteira vai aparecer! – Jeremy concluiu, surpreso. – Se nos escondermos, talvez possamos segui-la e descobrir como sair desse...
– Ei – interrompeu Tina – Vai com calma, meu querido. Estou aqui há três anos e o pessoal que controla isso tudo nunca deixou que víssemos os caixões. Sempre desapareciam antes que pudéssemos encontra-los, exatamente como a porteira.
– O que está tentando dizer?
– Ela está tentando dizer – eu disse – Que há algo de errado. E provavelmente está certa.
Tina sorriu, satisfeita.
– Mas... – ela se voltou para mim, indignada. Continuei – Mas temos uma chance, e não podemos desperdiça-la por uma desconfiança. Quer dizer, talvez consigamos algum tipo de resposta.
– O quê? – ela exclamou. – Você só pode estar brincando. Gwen, eu sei do que estou falando. Estou aqui há três anos, e o pessoal não nos deixaria ver isso a não ser que fosse algum tipo de armadilha.
As duas que antes estavam adormecidas acordaram, e se entreolharam, confusas.
– Talvez. Faz bastante sentido, na verdade. Mas pelo menos teríamos uma direção para seguir!
– Segui-la é pedir para morrer!
– E ficar aqui parada não? – rebati, irritada. Respirei profundamente. – Escuta. Eu sei que talvez esteja sendo uma completa idiota, e que está bem mais familiarizada com tudo isso que eu, mas eu simplesmente não vou ficar aqui parada esperando uma besta passar e dar um oi.
– Gwen, você está sendo completamente ridícula – Tina disse entredentes, tentando se controlar – Pense melhor.
– Eu pensei tudo o que eu tinha para pensar. – disse, em tom de desafio – Se quiser ficar aqui, fique. Se todos vocês quiserem, fiquem. Mas eu vou atrás dela.
Silêncio.
– Eu vou com você – Henry disse, após alguns instantes. Tina olhou de mim para ele, sem conseguir acreditar. Sorri, tentando não deixar o meu alívio transparecer.
– Eu também vou – Jeremy se juntou a ele.
– Para onde os caçadores vão, eu vou – Sarah disse, apressadamente. – Não sei bem o que está acontecendo, mas vou com eles.
Tina cerrou os punhos, irritadas.
– Isso é uma piada. Só pode ser. – voltou-se para as duas restantes – Vocês também vão, não é?
– Não pode esperar que fiquemos aqui, só nós três – Georgia foi sincera, erguendo uma sobrancelha. Não pude deixar de sorrir, satisfeita, apesar de que o descontentamento de Tina fazia com que eu me sentisse um pouco mal. Suspirei e decidi romper o silêncio.
– Então devemos nos esconder.
Tina tapou o rosto com as mãos, balançando a cabeça negativamente.
– E querem mesmo seguir a essa garota? Gwen, pelo amor de Deus, onde sugere que nos escondamos? Atrás do túmulo de pedra? Então quando a Porteira chegar, gritamos surpresa e comemos um bolo todos juntos?
– Oh. Isso pode ser um problema – murmurei, olhando para a paisagem monótona e sem esconderijos ao meu redor.
– Talvez – sugeriu Catherine – Se recuássemos um pouco na névoa escura, ela não consiga nos ver. E podemos segui-la quando acabar todo aquele ritual de sempre, porque apesar de não a estarmos vendo, poderemos ouvi-la.
– E ela poderá nos ouvir – lembrou Georgia.
– E é por isso que devemos ser extremamente silenciosos – acrescentou Catherine. Assentimos, em concordância, e fizemos como Catherine nos instruíra. Aproximei-me de Henry.
– Obrigada por se oferecer. A verdade é que estava morrendo de medo de ir sozinha.
– E você pensa que eu já não sabia disso? – ele sorriu, e eu enrubesci.
Esperamos por alguns instantes, e logo pudemos ouvir os passos da porteira se aproximando do caixão. Ela riu com desdém antes de enfiar a chave na fechadura e a girar, afastando a tampa. Ouvimos uma exclamação de surpresa, e uma voz masculina.
– Quem é você e por que estou aqui?
– Não interessa. – ela respondeu, com o mesmo desprezo com o qual respondeu a todos nós, ocultos pela névoa. Era um grande alívio saber que o plano de Catherine estava funcionando. – E quem é você?
Ele fez exatamente o que eu tivera medo de fazer ao chegar.
– Não interessa – ele a imitou, sarcasticamente. Pude imagina-la estreitando os olhos, e senti pena do garoto. Mas não ouvi nenhum grito ou algo do gênero. – Eu fiz duas perguntas. Se você me responder eu te respondo.
– Não está em situação para negociar comigo – ela rosnou.
– Bem, você também está aqui, não é? – ele rebateu, em tom desafiador – E se me matar, me pouparia desse lugar mórbido e doentio, o que seria um belo de um favor.
Uau. Ele tinha bastante coragem para alguém que acabara de chegar. Olhei, atônita, para Henry, que retribuiu o olhar.
– A sua ousadia chega a ser divertida. – a Porteira disse. – Mas não tenho tempo para isso. O meu nome é Pilar, e você está aqui porque meu mestre o deseja. É tudo que vou te dizer.
– Nesse caso, eu sou Nicholas Smith, calouro na universidade de Oxford – essa última parte ele disse com um tom de orgulho que chegava a ser cômico, e logo imaginei como uma daquelas pessoas inteligentes com óculos e tudo. Talvez o excesso de inteligência lhe tivesse dado aquela ousadia.
– Só precisava saber o seu nome – Pilar respondeu, com desprezo. – Normalmente eu teria pena de pessoas recém chegadas. Mas você me enoja, com seus ares de inteligência. Considera-se tão esperto, mas mesmo assim está preso aqui como todos os outros.
– E você também, ao que parece.
Ela riu com escárnio.
– Acha que eu não estaria aqui, se não quisesse? Saiba, Nicholas, que está condenado a sofrer eternamente.
Então ela começou a se distanciar. Era a nossa deixa. Começamos a caminhar silenciosamente na direção de seus passos, e sinalizei para que o tal Nicholas ficasse em silêncio e nos seguisse. Realmente, ele era uma daquelas personalidades inteligentes com óculos e tudo. O cabelo castanho estava despenteado, e era quase divertido vê-lo com o macacão estranho que todos usávamos e não roupas sociais. Ele ergueu uma sobrancelha, mas a curiosidade o levou a fazer como nós. Eu estava começando a acreditar que Pilar não nos tinha notado quando ela riu, quase que cruelmente, e se voltou.
– Mas que comovente. Parece até que tenho uma horda de seguidores. A que devo esse amor todo?
Ficamos em silêncio, apenas a observando. Mesmo Nicholas permaneceu sem abrir a boca.
– Mas que grosseria, não me responder. A sorte de vocês é que não me importo com formalidades como a educação. Aprecio a caminhada, meus amigos, mas não gosto muito de ser seguida.
Dito isto, ela retirou de um dos bolsos do macacão uma bola escura, tamanho semelhante a uma de baseball, e a atirou no chão. Surgiu dali uma névoa ainda mais escura, impedindo-nos de vê-la, e quando se dissipou Pilar não estava mais ali. Praguejei e evitei olhar para Tina, que certamente esboçava um olhar quase que triunfante e de “Eu te avisei”. Foi Nicholas quem rompeu o silêncio.
– Agora querem me explicar algumas coisas?
– A primeira coisa que vou te explicar – Tina disse – É que, se agir comigo como agiu com a Porteira, pode ter certeza que vou enfiar esses seus óculos...
– Ei, Tina, vai com calma – riu Henry. – Bem vindo, cara.
– Não muito. – Nick suspirou – Esse ambiente mórbido não é realmente convidativo.
– Mas você é realmente irritante – Tina bufou.
– Não ligue para ela – Jeremy não pôde evitar um leve sorriso. – Mas é bom que se acostume com esse “ambiente mórbido”, pois passará bastante tempo por aqui.
Nick o encarou, erguendo uma sobrancelha. Georgia, sem dar muita atenção a tudo que acontecia, voltou-se para mim.
– E o que sugere agora? Mudou de ideia e vai ficar sentada, esperando as bestas?
– Não – respondi, após pensar por alguns instantes. – Na verdade, acho que tive uma ideia.
– Outra? É melhor você descansar um pouco, ou vamos todos acabar mortos – zombou Tina, sorrindo, e foi realmente bom verificar que ela não estava irritada comigo.
– Só escute, e se for tão ridícula quanto a última, prometo que vou dormir e deixo todos vocês em paz.
Ela revirou os olhos, mas assentiu.
– Esse lugar tem que ter alguma saída. Algum limite. Quer dizer, não é como se pudesse ser infinito. Então, se andássemos bastante, talvez...
– Francamente! É isso o que sugere? Andar sem parar na esperança vã de achar os limites disso aqui?
– O que prefere? Ficar parada? Se o meu plano não funcionar, a única diferença será que estaremos sentados e morrendo lentamente em outro lugar de aparência exatamente igual! – protestei. – Vamos lá, esse plano não é tão perigoso. E não use as bestas como argumento, ou vou fingir que não escutei.
Ela pensou por alguns instantes, enquanto todos a observavam. Ao notar isso, ela suspirou e ergueu as mãos em sinal de rendição.
– Está bem então. E qual direção seria essa, Excelência Gwen Savage?
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