Gwen Savage e o Nariz de Prata - Interativa
6 Novos companheiros
Notas iniciais
Os únicos que abriam a boca para provocar um ao outro eram Tina e Nick. O resto de nós andava em silêncio, provavelmente meditando sobre os acontecimentos recentes. De tempos em tempos, eu relanceava Henry. O seu olhar indecifrável que pousara em mim a maior parte do tempo fazia com que eu sentisse algo estranho, mas decidi que tinha problemas o suficiente para me preocupar com aquilo por hora. Era tudo um pouco assustador.
Já havíamos caminhado por algumas horas quando as luzes dos postes subitamente apagaram, indicando que a noite acabara de começar. Gritei, mais por susto que por medo, e instintivamente procurei o braço de alguém próximo. Encontrei Tina.
– Droga. – ela sussurrou, na intenção de não ser ouvida. Mas eu ouvi.
– Qual é o problema? – perguntei, sem querer chamar a atenção dos outros. Meus olhos se adaptaram em pouco tempo à escuridão, e apesar de não conseguir ver seu rosto com clareza notei que ela balançou a cabeça negativamente.
– Só não gosto do escuro. Aqui não tem fogueira, lembra-se? – ela me disse. Aquilo foi realmente surpreendente. Apesar do fato de ser um ano mais velha que ela, ela realmente parecia muito mais resoluta, decidida e corajosa que eu algum dia chegaria a ser. Era ridículo, porque, afinal, todos têm medo de algo. Mas a surpresa me tomou a voz por alguns instantes, até que decidi que devia tentar acalma-la, embora sem muita firmeza, já que o fato de ficar no escuro total à mercê das bestas não me era muito agradável também.
– Logo você se acostuma – assegurei, mas ela não pareceu convencida. Suspirei e me dirigi aos outros – O que vamos fazer?
– Dormir? – sugeriu Jeremy – Parece a ocasião para isso. Não estou cansado, então não me importo se ficar de vigia.
A ideia era um pouco assustadora, embora eu não quisesse admitir. Por melhor caçador que Jeremy fosse, o fato de ele vigiar no escuro não era muito encorajador. Quer dizer, nunca se sabe. Talvez as bestas conseguissem espreitar silenciosamente as suas presas, e atacar no escuro antes que pudéssemos fazer qualquer coisa para salvar as nossas vidas. Tina, ao meu lado, também pareceu não gostar da ideia. Olhou para o ambiente escuro ao nosso redor e seu olhar se deteve em um ponto. Ela abriu a boca, surpresa.
– Ei, pessoal, vejam aquela luz! – exclamou. Georgia ergueu uma sobrancelha e cruzou os braços.
– Luz? Você não quer dizer que está morrendo, quer? – ela disse, e não consegui conter o riso. Tina bufou.
– Estou falando sério – ela apontou, embora fosse um pouco difícil ver para onde o seu dedo apontava. Estreitei os olhos, tentando visualizar o que tanto a espantara, até que encontrei. Estava distante, bem distante, mas ainda sim estava ali. Uma luz quase insignificante, que talvez nos levasse a outras pessoas.
– Ela tem razão – afirmei – Estou vendo também. Talvez devêssemos segui-la. Quem sabe encontramos mais gente...
Olhei para Tina, esperando que ela se manifestasse contra o plano. Todavia, para a minha surpresa, ela assentiu em concordância. Os outros lentamente foram cedendo, e assim, todos de mãos dadas como crianças atravessando a rua, começamos a seguir a direção da luz, que os outros não tardaram a ver. Eu constantemente chamava o nome de todos para ver se respondiam, e felizmente ninguém se perdeu. Tina ainda estava um pouco tensa por conta do escuro, mas não deixava que os outros – além de mim – percebessem. Ao nos aproximarmos, fiquei mais tranquila ao constatar que ouvia vozes definitivamente humanas. Duas femininas. E as duas com sotaque. A primeira, um pouco mais aguda, era definitivamente britânica. Parecia estar irritada. O outro sotaque eu não consegui identificar, mas inglês definitivamente não era a sua língua materna.
– Quem são vocês? – a britânica perguntou em tom desconfiado, quando já estávamos próximos o suficiente para ela nos ver. A luz provinha de uma espécie estranha de lanterna, na mão da segunda, e imaginei onde elas haviam conseguido aquilo.
– Eu sou Catherine. Esses são Henry, Jeremy, Georgia, Gwen, Tina, Nick e Sarah. Estamos perdidos, porque nosso antigo abrigo não é mais o que se pode chamar de abrigo. E vocês?
– Eu sou Sophie – a britânica respondeu, sem abandonar o tom levemente desconfiado. Eu a compreendia. Não era muito simples confiar em qualquer um naquele lugar. – E essa é Hout. O nosso abrigo também foi destruído. Queimado, para ser mais específica. Então subimos antes que o fogo nos alcançasse e estamos aqui agora.
– Subimos? – perguntei. Ela me olhou, sem entender. – Há um andar inferior ou algo assim?
– Mas é claro que há! – ela exclamou, e parecia realmente surpresa pelo fato de que eu desconhecia o andar inferior. – Há dezenas de galerias subterrâneas. O andar inferior é cheio de salões separados por paredes de pedra. É tão interminável quanto esse aqui. Realmente desconheciam a sua existência?
– Pois é – Henry riu – Estou aqui há sete meses e não sei absolutamente nada sobre esse lugar.
– Sete meses? – Sophie exclamou – Mas isso é pavoroso! É terrível!
– Há quanto tempo está aqui? – indagou Tina, que já estava mais tranquila por conta da luz da lanterna.
– Há duas semanas! E não pretendo ficar muito mais do que isso. Não é mesmo, Hout?
– Talvez eles possam nos ajudar – sugeriu a outra.
– Ajudar? Do que estão falando? Se pretendem tentar achar a saída, estou aqui há três anos e cheguei a conclusão de que é impossível encontra-la.
– Talvez não tenha procurado direito então – insistiu Sophie, teimosamente. Ela percebeu que eu encarava a lanterna. – Estou surpresa por vocês não terem nenhuma. O que aconteceu com a de vocês?
– Nunca tivemos uma lanterna – Jeremy ergueu uma sobrancelha. – Como conseguiram essa aí?
– Oras! Achei que tivessem vindo de um abrigo. No nosso havia comida, e lanternas, e armas. Só conseguimos salvar algumas coisas antes de que o local inteiro fosse consumido pelas chamas. Está tudo na bolsa de Hout. Quer dizer que não havia nenhum tipo de suprimento no abrigo de vocês?
Ele balançou a cabeça negativamente.
– Creio então que somos duas garotas muito sortudas, Hout – Sophie se voltou para a outra. – Vocês são todos norte-americanos?
Eu nunca havia pensado nisso, mas assim que ela perguntou me dei conta de que a resposta era sim. Assentimos, um por um.
– Céus! Não acham isso tão estranho? Poderiam ter se encontrado com quaisquer outras nacionalidades, e encontraram-se somente com pessoas que vem do mesmo país que vocês. Chega a ser cômico. Eu sou britânica.
– Percebe-se – Henry sussurrou baixinho, e não consegui conter o riso. Ela o encarou e estreitou os olhos.
– E eu sou holandesa – Hout declarou, tentando desviar o foco da inglesa para ela. Ao que parecia, ela nos ia divertir bastante.
– Que interessante – Nick murmurou, mas antes que pudesse fazer uma observação pertinente e sensata sobre a situação, Hout tomou a palavra novamente.
– Devem estar famintos. Aqui não tem muita coisa, mas acho que dá para dividir. O problema é achar mais quando isso acabar. – ela disse, e, conforme falava, eu a observava. Os cabelos loiros eram curtos, e beiravam o branco. Era pálida e miúda, e o seu rosto lembrava o de uma pequena e delicada boneca. Os olhos eram grandes e escuros. A companheira, Sophie, era mais alta e esbelta. Também tinha o cabelo curto e loiro, mas havia alguns pedaços em que ficava rosa. Os olhos eram azuis.
– Com certeza – Georgia disse – e com apenas dois caçadores, sendo que só um deles está “cem por cento”, não vai ser muito fácil caçar bestas.
– Caçar o quê? – Sophie indagou, surpresa. – Bestas? Ao que se refere?
– No andar inferior não há bestas? – Georgia estava atônita. – Meu Deus. Bestas, aqueles felinos perigosos, grandes e assustadores. Não pode estar falando sério. Nunca as viu?
– Creio que essas criaturas só existem no andar superior – ela respondeu. – No andar inferior o máximo que havia era aquela espécie de aranha, tamanho de um palmo. Realmente me assustavam.
– De uma maneira ou de outra – Hout rompeu o momentâneo silêncio que veio após o comentário da inglesa – Aqui. Eu sei, parecem estranhos, mas são como biscoitos amanteigados.
Ela distribuiu quadrados de tamanho semelhante a um punho pequeno. A cor era esverdeada e nada convidativa, mas eu estava faminta demais para me importar. Comi rapidamente, e desejei poder ter outro. Henry pareceu notar.
– Por que não pega um pedaço do meu? — perguntou, de maneira que só eu o escutasse. Enrubesci e recusei.
– Você precisa de forças mais que eu. – disse, e ele estava tão faminto que não insistiu. Mordi o lábio inferior.
– Então – Jeremy tomou a palavra – Agora sim podemos descansar. Eu vou começar na vigia com a Catherine. Os outros podem dormir.
Não resisti, e apenas torci para que não viesse nenhum outro pesadelo.
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