Notas iniciais
"Cada novo amigo que ganhamos ao decorrer da vida aperfeiçoa-nos e enriquece-nos, não tanto pelo que nos dá, mas pelo que revela de nós mesmos." - Miguel de Unamuno y Jugo

Os únicos que abriam a boca para provocar um ao outro eram Tina e Nick. O resto de nós andava em silêncio, provavelmente meditando sobre os acontecimentos recentes. De tempos em tempos, eu relanceava Henry. O seu olhar indecifrável que pousara em mim a maior parte do tempo fazia com que eu sentisse algo estranho, mas decidi que tinha problemas o suficiente para me preocupar com aquilo por hora. Era tudo um pouco assustador.

Já havíamos caminhado por algumas horas quando as luzes dos postes subitamente apagaram, indicando que a noite acabara de começar. Gritei, mais por susto que por medo, e instintivamente procurei o braço de alguém próximo. Encontrei Tina.

– Droga. – ela sussurrou, na intenção de não ser ouvida. Mas eu ouvi.

– Qual é o problema? – perguntei, sem querer chamar a atenção dos outros. Meus olhos se adaptaram em pouco tempo à escuridão, e apesar de não conseguir ver seu rosto com clareza notei que ela balançou a cabeça negativamente.

– Só não gosto do escuro. Aqui não tem fogueira, lembra-se? – ela me disse. Aquilo foi realmente surpreendente. Apesar do fato de ser um ano mais velha que ela, ela realmente parecia muito mais resoluta, decidida e corajosa que eu algum dia chegaria a ser. Era ridículo, porque, afinal, todos têm medo de algo. Mas a surpresa me tomou a voz por alguns instantes, até que decidi que devia tentar acalma-la, embora sem muita firmeza, já que o fato de ficar no escuro total à mercê das bestas não me era muito agradável também.

– Logo você se acostuma – assegurei, mas ela não pareceu convencida. Suspirei e me dirigi aos outros – O que vamos fazer?

– Dormir? – sugeriu Jeremy – Parece a ocasião para isso. Não estou cansado, então não me importo se ficar de vigia.

A ideia era um pouco assustadora, embora eu não quisesse admitir. Por melhor caçador que Jeremy fosse, o fato de ele vigiar no escuro não era muito encorajador. Quer dizer, nunca se sabe. Talvez as bestas conseguissem espreitar silenciosamente as suas presas, e atacar no escuro antes que pudéssemos fazer qualquer coisa para salvar as nossas vidas. Tina, ao meu lado, também pareceu não gostar da ideia. Olhou para o ambiente escuro ao nosso redor e seu olhar se deteve em um ponto. Ela abriu a boca, surpresa.

– Ei, pessoal, vejam aquela luz! – exclamou. Georgia ergueu uma sobrancelha e cruzou os braços.

– Luz? Você não quer dizer que está morrendo, quer? – ela disse, e não consegui conter o riso. Tina bufou.

– Estou falando sério – ela apontou, embora fosse um pouco difícil ver para onde o seu dedo apontava. Estreitei os olhos, tentando visualizar o que tanto a espantara, até que encontrei. Estava distante, bem distante, mas ainda sim estava ali. Uma luz quase insignificante, que talvez nos levasse a outras pessoas.

– Ela tem razão – afirmei – Estou vendo também. Talvez devêssemos segui-la. Quem sabe encontramos mais gente...

Olhei para Tina, esperando que ela se manifestasse contra o plano. Todavia, para a minha surpresa, ela assentiu em concordância. Os outros lentamente foram cedendo, e assim, todos de mãos dadas como crianças atravessando a rua, começamos a seguir a direção da luz, que os outros não tardaram a ver. Eu constantemente chamava o nome de todos para ver se respondiam, e felizmente ninguém se perdeu. Tina ainda estava um pouco tensa por conta do escuro, mas não deixava que os outros – além de mim – percebessem. Ao nos aproximarmos, fiquei mais tranquila ao constatar que ouvia vozes definitivamente humanas. Duas femininas. E as duas com sotaque. A primeira, um pouco mais aguda, era definitivamente britânica. Parecia estar irritada. O outro sotaque eu não consegui identificar, mas inglês definitivamente não era a sua língua materna.

– Quem são vocês? – a britânica perguntou em tom desconfiado, quando já estávamos próximos o suficiente para ela nos ver. A luz provinha de uma espécie estranha de lanterna, na mão da segunda, e imaginei onde elas haviam conseguido aquilo.

– Eu sou Catherine. Esses são Henry, Jeremy, Georgia, Gwen, Tina, Nick e Sarah. Estamos perdidos, porque nosso antigo abrigo não é mais o que se pode chamar de abrigo. E vocês?

– Eu sou Sophie – a britânica respondeu, sem abandonar o tom levemente desconfiado. Eu a compreendia. Não era muito simples confiar em qualquer um naquele lugar. – E essa é Hout. O nosso abrigo também foi destruído. Queimado, para ser mais específica. Então subimos antes que o fogo nos alcançasse e estamos aqui agora.

– Subimos? – perguntei. Ela me olhou, sem entender. – Há um andar inferior ou algo assim?

– Mas é claro que há! – ela exclamou, e parecia realmente surpresa pelo fato de que eu desconhecia o andar inferior. – Há dezenas de galerias subterrâneas. O andar inferior é cheio de salões separados por paredes de pedra. É tão interminável quanto esse aqui. Realmente desconheciam a sua existência?

– Pois é – Henry riu – Estou aqui há sete meses e não sei absolutamente nada sobre esse lugar.

– Sete meses? – Sophie exclamou – Mas isso é pavoroso! É terrível!

– Há quanto tempo está aqui? – indagou Tina, que já estava mais tranquila por conta da luz da lanterna.

– Há duas semanas! E não pretendo ficar muito mais do que isso. Não é mesmo, Hout?

– Talvez eles possam nos ajudar – sugeriu a outra.

– Ajudar? Do que estão falando? Se pretendem tentar achar a saída, estou aqui há três anos e cheguei a conclusão de que é impossível encontra-la.

– Talvez não tenha procurado direito então – insistiu Sophie, teimosamente. Ela percebeu que eu encarava a lanterna. – Estou surpresa por vocês não terem nenhuma. O que aconteceu com a de vocês?

– Nunca tivemos uma lanterna – Jeremy ergueu uma sobrancelha. – Como conseguiram essa aí?

– Oras! Achei que tivessem vindo de um abrigo. No nosso havia comida, e lanternas, e armas. Só conseguimos salvar algumas coisas antes de que o local inteiro fosse consumido pelas chamas. Está tudo na bolsa de Hout. Quer dizer que não havia nenhum tipo de suprimento no abrigo de vocês?

Ele balançou a cabeça negativamente.

– Creio então que somos duas garotas muito sortudas, Hout – Sophie se voltou para a outra. – Vocês são todos norte-americanos?

Eu nunca havia pensado nisso, mas assim que ela perguntou me dei conta de que a resposta era sim. Assentimos, um por um.

– Céus! Não acham isso tão estranho? Poderiam ter se encontrado com quaisquer outras nacionalidades, e encontraram-se somente com pessoas que vem do mesmo país que vocês. Chega a ser cômico. Eu sou britânica.

– Percebe-se – Henry sussurrou baixinho, e não consegui conter o riso. Ela o encarou e estreitou os olhos.

– E eu sou holandesa – Hout declarou, tentando desviar o foco da inglesa para ela. Ao que parecia, ela nos ia divertir bastante.

– Que interessante – Nick murmurou, mas antes que pudesse fazer uma observação pertinente e sensata sobre a situação, Hout tomou a palavra novamente.

– Devem estar famintos. Aqui não tem muita coisa, mas acho que dá para dividir. O problema é achar mais quando isso acabar. – ela disse, e, conforme falava, eu a observava. Os cabelos loiros eram curtos, e beiravam o branco. Era pálida e miúda, e o seu rosto lembrava o de uma pequena e delicada boneca. Os olhos eram grandes e escuros. A companheira, Sophie, era mais alta e esbelta. Também tinha o cabelo curto e loiro, mas havia alguns pedaços em que ficava rosa. Os olhos eram azuis.

– Com certeza – Georgia disse – e com apenas dois caçadores, sendo que só um deles está “cem por cento”, não vai ser muito fácil caçar bestas.

– Caçar o quê? – Sophie indagou, surpresa. – Bestas? Ao que se refere?

– No andar inferior não há bestas? – Georgia estava atônita. – Meu Deus. Bestas, aqueles felinos perigosos, grandes e assustadores. Não pode estar falando sério. Nunca as viu?

– Creio que essas criaturas só existem no andar superior – ela respondeu. – No andar inferior o máximo que havia era aquela espécie de aranha, tamanho de um palmo. Realmente me assustavam.

– De uma maneira ou de outra – Hout rompeu o momentâneo silêncio que veio após o comentário da inglesa – Aqui. Eu sei, parecem estranhos, mas são como biscoitos amanteigados.

Ela distribuiu quadrados de tamanho semelhante a um punho pequeno. A cor era esverdeada e nada convidativa, mas eu estava faminta demais para me importar. Comi rapidamente, e desejei poder ter outro. Henry pareceu notar.

– Por que não pega um pedaço do meu? — perguntou, de maneira que só eu o escutasse. Enrubesci e recusei.

– Você precisa de forças mais que eu. – disse, e ele estava tão faminto que não insistiu. Mordi o lábio inferior.

– Então – Jeremy tomou a palavra – Agora sim podemos descansar. Eu vou começar na vigia com a Catherine. Os outros podem dormir.

Não resisti, e apenas torci para que não viesse nenhum outro pesadelo.

Notas finais
Demorei um pouco mais... Mas vocês me perdoam, não é? Minhas semanas estão totalmente lotadas por conta de um certo projeto social, então... É a vida. E aí? O que acharam das duas novas companheiras? E só uma dúvida: Como vocês imaginam a Gwen? Não resisto à curiosidade.