Notas iniciais
"Para onde vou? A resposta é: vou." - Clarice Lispector

Tina e eu caminhamos eu silêncio, e imaginei há quanto tempo ela estava ali. O seu rosto sorridente não deixava transparecer nenhum sinal de medo ou preocupação, o que era surpreendente dadas as circunstâncias. À distância, vi silhuetas de pessoas e ouvi suas vozes, que ficavam mais altas conforme nos aproximávamos. Estavam quase todos entre quinze e vinte e cinco anos, reunidos em pequenos grupos e amontoados ao redor de um paralelepípedo de pedra do tamanho de uma casa simples de dois andares. Eu o encarei, surpresa, e Tina riu ao notar a minha reação.

– Chamamos de Santuário. Até onde já exploramos, é um dos únicos lugares onde a paisagem tem algo de diferente. Durante todo o tempo em que estive nesse lugar, os únicos locais assim que encontrei foram aqui e o lago, onde conseguimos a nossa água. Mas esse lugar é interminável, e não exploramos tudo, então é possível que hajam mais. — ela explicou. Observei o Santuário. Imediatamente senti uma afeição pelo paralelepípedo. Algo de diferente. Notei algumas marcas na pedra, como se algo tivesse sido fincado ali, mas nada comentei.

Ao nos aproximarmos mais, pude observar os grupos amontoados com mais clareza. O mais próximo era composto majoritariamente por homens, com apenas duas garotas. Eram todos atléticos, e carregavam uma espécie de lança de pedra.

– São os Caçadores. — disse Tina — Os mais ágeis e fortes entre nós, são responsáveis por caçar as bestas que comemos. É o único alimento por aqui. Aquele — ela apontou para um entre os Caçadores. Parecia ser o mais velho deles — é André. É o mais velho entre todos do grupo, e também o que está aqui há mais tempo. É o nosso líder.

André tinha o cabelo loiro e despenteado na altura dos ombros, e barba rala na mesma cor. Os olhos acinzentados refletiam cansaço e bondade. Tinha uma pequena cicatriz branca na sobrancelha esquerda, mas ignorei a particularidade. Segui Tina até um dos cantos do Santuário, onde havia uma pequena fogueira. Imaginei como eles haviam conseguido fazê-la, com tão poucos meios, mas o cheiro que a carne assada sobre ela exalava me fez esquecer de perguntar.

– Acredite — Tina riu — Depois de um tempo não é mais tão convidativo. Mas vamos lá. Carne de besta é bem macia, na verdade.

Ela tirou uma pedra entalhada para parecer uma pequena adaga e cortou dois pedaços de carne. Estendeu-me um, e aceitei com alegria. Comi vorazmente, e observei enquanto Tina terminava o seu. Ouvi um silvo agudo, e ela me disse que era o sinal de que todos deviam se reunir ao redor da fogueira, o que fizeram. André deu um passo à frente. Os ângulos fortes de seu rosto tornavam-se assustadores à luz do fogo.

– Meus amigos — ele começou, com uma voz rouca e grave — Primeiro, aos avisos. É com pesar que informo que desapareceram mais dois de nós: Beatrice e Stefanie. As perdas estão cada vez mais frequentes, o que me põe no dever de lembrar os protocolos de segurança. Primeiro, não deixem os arredores do Santuário sem informar um Caçador e sem sua companhia. Segundo, todos devem ficar em seus devidos lugares na hora, obedecendo ao toque de recolher para a segurança comum. Agora, aos lembretes. Os testes para Caçador serão realizados nas próximas semanas, e a demanda é maior ainda dado o fato de que as bestas tornam-se cada vez mais ferozes. É tudo por hoje. Devo lembra-los de que o toque de recolher será daqui a uma hora.

André dispensou a todos com um aceno de mão e a conversa se reiniciou imediatamente. Fiquei em silêncio por alguns instantes, até que me dirigi a Tina.

– Ele disse que desaparecimentos são frequentes?

Ela assentiu tristemente.

– Perdemos pessoas com a mesma frequência com a qual as encontramos. Mas não corre perigo se obedecer ao protocolo de segurança. — ela me assegurou, sorrindo.

Um dos Caçadores — o identifiquei pela lança — se aproximou, sorrindo. Se eu não estivesse apoiada em uma das paredes do Santuário, provavelmente teria caído para trás. Minha nossa. Ele era alto e atlético, com olhos estreitos e castanhos transmitindo confiança e tranquilidade. O cabelo castanho estava desalinhado, coisa com a qual ele não aparentava se preocupar. Ele expandiu o sorriso, exibindo duas fileiras de dentes perfeitos, e eu o retribuí, esperando não parecer tão ridícula quanto eu achava que estava.

– Você é nova, não é? — ele perguntou. Assenti lentamente, limpando os meus óculos no macacão, embora eles não precisassem ser limpos. Sua armação era azul-marinha.

– Gwen, esse é o Henry. Henry, essa é a Gwen.

– Seja bem-vinda, Gwen. Há quanto tempo chegou?

– Há pouco mais de uma hora. — respondi. — Há quanto tempo vocês estão aqui?

– Estou aqui há sete meses — Henry disse. — Ninguém é mais amigo das bestas que eu...

– Eu sou — cortou Tina, rindo — Cheguei aqui com treze. Agora estou quase com dezesseis.

Arregalei os olhos, deixando de respirar inconscientemente. Não conseguia me imaginar ficando tanto tempo ali. Não podia ficar tanto tempo ali. Três anos, naquele lugar mórbido. Eu queria terminar o Ensino Médio. Achar um namorado. Estudar Artes. Não morrer atacada por uma besta, seja lá o que uma besta fosse. Senti um pouco de tontura e precisei me apoiar na parede do Santuário para não cair. Henry segurou meu ombro.

– Você está bem?

Abri a boca para confirmar, mas logo a fechei. Eu não estava bem. Definitivamente. Ele e Tina me ajudaram a sentar, e ela me trouxe um pouco de água.

– Pelo menos não há lugar com água mais cristalina — brincou Henry, embora eu não estivesse com humor para brincar. Tina o repreendeu com o olhar.

– Fique calma, Gwen. Você precisa ficar, ou vai pirar. — ela disse, suavemente. Enterrei minha cara em meus joelhos, estava tremendo.

– Esse também não é o melhor jeito de animar alguém — zombou o Caçador, que então se abaixou e tocou o meu ombro. Deixei que me abraçasse, não porque quisesse um abraço, mas porque sentia que não tinha forças para resistir. — Depois de um tempo, você até simpatiza com esse lugar.

– Não simpatiza não — murmurou Tina, e Henry riu.

– Pobre garota!

De alguma maneira, o jeito desajeitado como os dois tentavam me consolar fez com que eu me sentisse melhor. Dei um sorriso não muito convicto, e então ouvi aquele silvo agudo novamente. Imediatamente, todos se dirigiram para o Santuário. Tiraram pedras afiadas do bolso e as cravaram no paralelepípedo gigante. Com a sua ajuda, iam içando-se para cima até chegarem no topo. O pensamento de que eu teria de fazer a mesma coisa me fez sentir náuseas.

– Toque de recolher. — disse Henry — Vocês sobem. Hoje fiquei com o primeiro turno de vigia.

– Temos mesmo que dormir lá?

– Por quê? Tem medo de altura?

– Não, eu só...

– Tem medo de altura. — concluiu ele, rindo. — Mas sinto lhe informar que sim, temos que dormir lá em cima. As bestas não conseguem escalar, assim ficamos seguros. Só as mais espertas conseguem, e esse é o motivo pelo qual sempre há cinco pessoas de vigia. E hoje, estou incluído no primeiro turno.

André se aproximou.

– Seja bem-vinda — sorriu — Não pude deixar de ouvir o último trecho da conversa. Venha, eu te ajudo. Mas vai precisar superar o seu medo.

Assenti. Ele piscou e enlaçou minha cintura, ordenando que eu me segurasse firme em seu pescoço. Tirou as próprias pedras do bolso e começou a subir. Evitei olhar para baixo, concentrando-me apenas no maxilar rígido do líder. Assim que chegamos ao topo, eu me sentei. Ele tirou mais duas pedras do bolso e as colocou em minha mão.

– Para quando superar o seu medo. — ele sorriu. Observei enquanto ele descia, então encontrei um espaço livre longe da beirada e me deitei. Não havia nenhum tipo de cobertor, ou travesseiro. Era apenas pedra. Suspirei e tentei dormir, sem sucesso. Abri os olhos e fiquei olhando para a névoa escura, imaginando como eles adivinhavam se era noite ou dia. Até que as luzes dos postes se apagaram. "Então é assim" pensei.

– Não consegue dormir? — a garota ao meu lado sussurrou. A única luz vinha da fogueira lá embaixo, mas notei que tinha traços delicados, um olhar gentil e algumas poucas sardas espalhadas pelo rosto. Neguei, balançando a cabeça. Ela sorriu.

– Eu também não. É minha primeira noite. Eles me disseram que quase ninguém consegue dormir na primeira noite. Espero que eu seja uma exceção.

– Então que eu seja uma exceção também. Cheguei há pouco mais de duas horas. — respondi, e ela riu. — Qual é o seu nome?

– Catherine Winchester. E você?

– Gwen Savage.

– Belo nome. — ela elogiou. Agradeci. — Não há de quê.

– Pelo menos as pessoas aqui parecem legais — comentei, após alguns momentos em silêncio. Ela abriu a boca, como se fosse dizer algo, mas mudou de ideia e a fechou, com um olhar estranho. Decidi ignorar essa peculiaridade. — Bom. Devíamos tentar dormir então. Boa noite, Catherine.

– Boa noite, Gwen.

Notas finais
Surpresos? Eu estou. Não se acostumem com isso, um intervalo de tempo tão pequeno entre um capítulo e outro. Assim que escrevi, pensei. Vou esperar uma semana, pois quando há fome, nenhum prato é ruim. Um dia depois, pensei. Deixe os ditados para outra pessoa, vou postar hoje mesmo. Sendo assim, espero que gostem, e por favor, deixem a sua opinião nos comentários. Os personagens retratados... Foram bem retratados?