Notas iniciais
"Monstros são reais e fantasmas são reais também. Vivem dentro de nós e, às vezes, vencem." - Stephen King

– Sim — sorriu Henry, olhando para mim — Não sendo Caçador, Coletor de Água ou Médico, você passa o dia sem fazer muita coisa.

– Isso foi um eufemismo — zombou Tina — Se não tem nenhum dos cargos, você termina o dia tendo feito... Absolutamente nada.

– Sim, disso você entende bem... Não é, Tina? — provocou o Caçador, que amolava a sua lança. A mais nova revirou os olhos e socou o seu ombro.

– Mas isso é péssimo! — exclamei, alheia às provocações dos dois — Eu não consigo nem sonhar em ser médica, muito menos caçadora! Mas não quero passar todo o tempo que eu for ficar aqui no ócio! O que é necessário para ser uma coletora de água?

– Controlar o medo ao se deparar com uma besta, pois sempre há uma nas redondezas do lago. E também, conseguir carregar todos os cantis evitando derruba-los e conseguir caminhar sem se cansar muito.

– E — acrescentou Henry, sorrindo de canto — Não deixar que a beleza extraordinária de certos caçadores a acompanhando a distraia...

– Se você for o caçador a acompanhando, isso não será um problema — provocou Tina, e todos rimos. Então ela se voltou para mim — Você poderia ir hoje, só para ver como é.

Assenti, aprovando a ideia.

– Mas — Henry alertou, seriamente — prepare-se psicologicamente para a besta... E para o tempo que vai passar ao meu lado sem poder admirar minha beleza.

– Essa certamente será a pior parte — brinquei. Ele sorriu e piscou. — Quando sairemos?

– Agora, na verdade. — ele respondeu, levantando-se. Tina se despediu e eu o segui até um amontoado de pessoas. Havia três caçadores, contando com Henry, um coletor, uma coletora, eu e mais uma novata. No chão, diante de nós, estavam os "cantis" que encheríamos, que na verdade eram uma espécie de saco de tecido impermeável com uma tampa. Estes vinham inclusos no macacão, coisa que eu só percebi naquele momento, ao notar um cantil como aqueles na minha cintura. Eles foram distribuídos entre todos, menos os caçadores, e eu acabei ficando com seis, contando o meu.

Começamos a andar. Observei a novata com mais atenção e a reconheci como Catherine, a menina com quem eu falara na noite anterior. Sorri para ela, e ela retribuiu a gentileza.

– Olá, outra vez, Gwen — ela me cumprimentou.

– Olá! — respondi — Conseguiu dormir, afinal?

– A muito custo — ela admitiu — E você?

– Idem. Mas acho que vai continuar sendo assim por mais algum tempo, essa dificuldade para dormir. Quer dizer, até superarmos o fato de estarmos presas aqui embaixo, nunca dormiremos bem. E eu, pessoalmente, acho que nunca chegarei a superar isso completamente. — falei, mas notei que ela estava desatenta, esguelhando, preocupada, um dos caçadores. Ergui uma sobrancelha e esperei que ela notasse o meu silêncio e se voltasse para mim para que eu pudesse questiona-la com o olhar. Ela apenas olhou para o chão e eu não obtive resposta alguma. Lembrei de seu comportamento estranho no fim de nossa conversa no dia anterior, e imaginei o que havia de errado com ela.

Observei o caçador que a preocupara. Parecia ser um sujeito comum, com o cabelo levemente loiro, olhos estreitos e claros, com força e altura surpreendentes — o que já se esperava de um Caçador. Estava tão concentrada em achar algo de diferente ou especial nele que não notei que os outros haviam parado e olhavam para a frente, em silêncio. Esbarrei em Henry, que me empurrou delicadamente para trás. Sem entender o motivo da parada e do silêncio, esgueirei-me para ver o que acontecia. Péssima ideia. Diante de nós estava o lago... E não estava desocupado. Uma espécie de felino de tamanho semelhante ao de um touro estava debruçada sobre a água. A sua pelagem era escura, como o resto do local ali, e em suas costas haviam espinhos de cerca de dez centímetros, cuja ponta era envolta por uma substância gosmenta esverdeada, que não podia ser nada de bom. A visão era tão horrorosa que me fez cair ruidosamente no chão, e o ruído de minha queda fez com que a besta se voltasse para nós, a ferocidade estampada em seu rosto. Os caçadores seguraram as suas lanças com força. Por um minuto, nada aconteceu. Então a besta saltou surpreendentemente alto, aterrissando a um metro de Catherine. A criatura a observou, salivando, e dois espinhos foram lançados de suas costas. Um deles grudou no cabelo de Catherine, e o outro fincou-se no chão, perto dela. O susto fez com que ela caísse sentada, e a besta caminhou lentamente na sua direção. Involuntariamente, levantei-me e tentei avançar sobre o animal, mas a coletora me conteve, segurando o meu braço com força.

– O que está fazendo? — disse, irritada.

– Salvando a sua vida! Deixe isso com os caçadores! — ela respondeu, sem aliviar a força com a qual segurava-me.

– Me solta! Ela vai morrer!

– Deixe com os caçadores! — ela repetiu, entredentes. Henry e o caçador a quem eu observara fincaram suas lanças no animal, que guinchou assustadoramente, e o levaram para longe de Catherine. A besta preparava-se para soltar mais espinhos quando o terceiro caçador cortou a camada de suas costas que lhe permitia fazê-lo, fazendo a besta uivar e avançar sobre ele. Destemido, o caçador esperou a besta pular sobre ele e ficou sua lança na barriga do felino, atravessando-o com ela. A criatura caiu na pedra com um baque surdo, e a coletora me soltou. Olhei para ela, envergonhada, e desviei o olhar rapidamente.

O terceiro caçador foi falar com Henry, e o segundo ajoelhou-se ao lado de Catherine, perguntando-lhe se ela estava bem. Ela respondeu que sim, e seu desconforto por ser obrigada a falar com ele era visível. O motivo para isso continuava a ser um mistério. Ele então explicou-lhe algo sobre veneno, cabelo e perigo. Ela assentiu, assustada, e cerrou os olhos com força, enquanto ele tomava a pedra que usava para subir no Santuário e cortava as belas madeixas castanho claras das garotas, até que o cabelo dela ficou pouco maior que o próprio. Ela mordeu o lábio inferior e tocou a cabeça, obviamente desacostumada àquele corte.

– Se isso te conforta — ouvi o caçador dizer — Ouso dizer que você ficou incrível com o cabelo assim.

Ela sorriu, sem muita convicção. Enchemos os cantis e voltamos para o Santuário sem que ninguém dissesse uma palavra. Eu andava olhando para o chão, sem suportar o olhar de curiosidade com o qual a coletora que me segurava me encarava. Ao chegarmos, vi Henry aproximar-se dela.

– Obrigada por segura-la — ele disse, referindo-se a mim. — Você já tem bastante experiência para alguém que chegou há tão pouco tempo, Georgia.

Ela agradeceu, sorrindo, e se afastou. Henry então olhou para mim e caminhou na minha direção. Abriu a boca, pronto para dizer algo engraçado, mas o cortei antes que ele pudesse fazê-lo.

– Não estou no clima para piadas, Henry. E você sabe muito bem o motivo para isso.

– Se está tentando dizer que pensa que tem alguma culpa pelo que aconteceu...

– Eu penso, penso sim! E é porque realmente tenho culpa pelo acontecido lá! — cortei-o novamente, sem conseguir me controlar. Senti a primeira lágrima rolar pela minha maçã do rosto. — Ela perdeu o cabelo, o que já é terrível, mas poderia ter morrido! Poderia ter morrido, e seria o fim! E por quê? Porque eu fui estúpida e curiosa e não fiquei parada como todos vocês! É meu segundo dia aqui e já estou estragando tudo! Ela poderia ter morrido...

– Mas não morreu! Gwen, ela não morreu! — ele rebateu, segurando os meus ombros com força — Todo o mundo erra, Gwen! Você nunca havia visto uma besta, obviamente estava curiosa para ver como era uma! E mais obviamente ainda, assustou-se com a visão que teve e caiu! É a coisa mais ridiculamente normal do mundo, qualquer pessoa teria feito a mesma coisa! Agora você precisa parar de odiar e culpar a si mesma e superar isso, aprender com os erros! Está tudo bem, Gwen, tudo bem!

Abri a boca, mas só o que saiu foi um soluço. Ele suspirou e deixou que eu enterrasse o meu rosto em seu ombro, abraçando-me.

– Está tudo bem... — ele sussurrou, e desejei mais que tudo no mundo conseguir acreditar naquelas palavras.

Notas finais
Continuem me animando assim! Novamente estou aqui, postando muito antes do que eu pretendia postar. Primeiramente, gostaria de assegurar aos que não apareceram ou apareceram muito pouco que terão a sua vez. Só não quero "tacar" os personagens na estória como se taca lama em uma guerra de lama - quase que irracionalmente, na verdade, apesar de ser bem divertido. Se eu o fizesse, a estória ficaria cheia de gente e sem sentido, e não dá para fazê-la fluir com uma multidão de personagens tendo que fazer coisas importantes, todos eles! Então, apenas peço que fiquem tranquilos e sejam pacientes. Não garanto que o próximo virá tão rapidamente como esse e o último vieram, é só que eu estava inspirada para os dois. De qualquer maneira... Não esqueçam de comentar!