Notas iniciais
"Esperança é a única coisa mais forte que o medo" - Jogos Vorazes (s2)

Tina, após ouvir um relatório que considerou como satisfatório do desastre na coleta de água, concluiu, com o meu apoio, que eu não servia para ser coletora. Apesar de eu própria já ter plena ciência disso, ouvi-la confirma-lo era um pouco desanimador. Pensar que teria que passar o dia sentada ao lado do Santuário, apenas observando o movimento do fogo na fogueira, era desesperadora. Perguntei-lhe, então, que ela fazia para se distrair durante o dia, dado o fato de que ela não era médica, ou caçadora, ou coletora.

– Costumo conversar. Mesmo sobre as menores banalidades e fatalidades, qualquer coisa é melhor que nada. E quando não há quem queira conversar comigo, costumo esculpir em pedra. Acho reconfortante. As pessoas às vezes me pedem para entalhar algo para elas, para usar como uma âncora que as mantém firmes. Como um amuleto. – ela explicou, e retirou de um bolso do macacão a cabeça de macaco que eu vira caindo ao conhecê-la. – Este é o meu.

– E por que é uma cabeça de macaco? – perguntei, curiosa.

– O meu pai. Ele não é um macaco, se foi o que pensou – ela riu – Mas ele é fascinado por esses animais. Tem dezenas de livros, pôsteres, e tudo o que puder imaginar sobre macacos. Essa pedra... Faz com que eu me sinta mais próxima a ele.

Assenti, e ficamos em silêncio por alguns instantes.

– Você quer alguma coisa? É bom ter algo físico ao qual se segurar quando vem o desespero. Acredite, digo por experiência própria.

– Eu... Acho que sim. Quer dizer, pode ser. – assenti.

– E o que vai ser? – ela perguntou. Pensei por alguns instantes. Então lembrei-me de um incidente que acontecera três anos antes. O meu irmão mais velho, Arthur Savage, estivera viajando por um ano pelos continentes africano e asiático, a fim de fotografar – a sua profissão e maior diversão – e de encontrar-se com a sua noiva, que morava em Calcutá. Quando esteve no Egito, ele me mandou uma fotografia diante da imponente pirâmide de Gizé. Eu achara a pirâmide, a fotografia, tão impressionante que a preguei em minha parede e ficava a observa-la por horas a fio.

– Uma pirâmide – disse, por fim. Ela me olhou com curiosidade, mas nada perguntou. Fiquei feliz por isso, já que lembrar-me de meu irmão era extremamente doloroso. Imaginei como estariam agora, mas rapidamente afastei o pensamento. Ela começou a esculpir, e a observei silenciosamente. Ela havia acabado e estava me entregando a pirâmide quando um tumulto nos fez virar. Entreolhamo-nos e nos levantamos, caminhando até a pequena multidão. Quem chegava era a equipe de coleta de água, e não estavam nada bem. Procurei Henry entre eles e logo o encontrei. Respirava pesadamente, apoiado no caçador misterioso de Catherine, e quase vomitei ao ver o braço rasgado que pendia ao lado do corpo. Havia apenas três coletores com eles, e me assustei ao imaginar onde estava o outro coletor. O terceiro caçador estava ofegante, falando com André. Aproximei-me para tentar ouvir algo do que dizia.

– Nunca havia acontecido algo assim antes, André – ele disse – Algo mudou, e eu não sei o que é...

– Mas como aconteceu?

– Quando chegamos, havia umas cinco bestas esperando por nós. Matamos três e duas fugiram, mas mesmo assim... Alicia ficou... Ficou para trás... – sua voz falhou e ele comprimiu os lábios. André tocou o seu ombro.

– Você não teve culpa. Nenhum de vocês. Fizeram o que podiam. Mas a situação é alarmante... Todos devem subir, agora. Apenas os caçadores ficam, excepcionando vocês três.

Assustada, contei o que eu ouvira para Tina. Então fomos as duas até Henry e o outro caçador. Ele deu um sorriso fraco ao nos ver.

– Como estão, meninas? Melhor que eu, eu aposto – disse. Abri a boca para responder, mas nada saiu.

– Temos que subir – Tina falou por mim – Todos.

Antes que Henry pudesse dizer algo, o outro caçador o cortou.

– Eu te ajudo a subir. – disse – A propósito, o meu nome é Jeremy, meninas.

Assentimos. Tina me ajudou a subir e Jeremy ajudou a Henry, e logo apenas os outros caçadores e André estavam lá embaixo. Todos conversavam histericamente, e uma garota se aproximou do grupo. Sorriu, simpática, e pediu para ver o braço de Henry.

– Só tente não me matar, Sarah – o caçador brincou, e a garota chamada Sarah riu.

– Vou tentar, prometo.

Ela afastou a manga do macacão de Henry e retirou um dos cantis de água do macacão – notei que ela tinha dois, devia ser algo limitado à equipe médica – e despejou a água sobre o ferimento de Henry, fazendo-o gemer. Evitei olhar enquanto ela o tratava. Sempre tive estômago fraco para esse tipo de coisa. Então fiquei voltada para o outro lado, assustada e temerosa. Tina e o outro caçador fizeram o mesmo, mas acho que o fizeram mais para me fazer companhia que por se sentirem como eu. Esfreguei as mãos nos joelhos e tentei espiar o que acontecia lá embaixo. Por hora, nada. Mas tinha uma estranha sensação de que algo horrível estava prestes a acontecer. Notei Jeremy comprimir os lábios e balançar a cabeça.

– O que foi? – perguntei, voltando-me para ele. Ele suspirou e balançou a cabeça outra vez.

– É só que penso em Alicia e... Sei lá. Três pessoas perdidas em dois dias e talvez mais dependendo do que for acontecer agora. E imagino... Quem nos colocou aqui... Como deve estar se divertindo.

– Por que acha que estamos aqui?

– Não faço a menor ideia – ele admitiu – Mas sei que não é nada bom. O jeito como aquela mulher dizia ter pena de nós por sermos condenados a sofrer eternamente... Não sei. Não sei mais nada.

Fiquei em silêncio, porque pensava exatamente do mesmo jeito. Tina colocou a pirâmide na minha mão, coisa que não tivera a oportunidade de fazer por conta do tumulto, e eu a girei em meus dedos. Pressionei-a contra o coração, como se de alguma maneira aquilo fosse me levar para casa, então mordi o lábio inferior e a coloquei no bolso. Foi quando começou. As imagens da atrocidade que se seguiu a esse momento me perseguem até hoje. Primeiro o grito de aviso de um caçador, e depois um rugido. Um rugido que fez com que os meus ossos tremessem, e que se ecoou na interminável prisão mórbida em que nos encontrávamos. Então, dezenas de rugidos como aquele, respondendo ao chamado.

– Oh meu Deus – Tina disse ao meu lado, e não tive coragem de me curvar e ver o que acontecia. Todos começaram a gritar. Ninguém nunca havia visto tantas bestas juntas. Dezenas delas, todas com a mesma fome voraz e desejo de sangue. Olhei assustada para os dois ao meu lado, e um ruído de pedra se chocando com pedra fez com que meu coração se apertasse e eu empalidecesse. Não. Não podia ser. Mas era. O imponente Santuário começou a descer, como um elevador. Senti-me como uma vítima no altar, pronta para ser sacrificada, e os meus gritos se juntaram aos dos outros ao meu redor.

– Preparem-se para correr – alertou Jeremy, gritando para ser ouvido – As bestas estão vindo todas da esquerda, então para a direita!

– E o Henry? – perguntei, quase que involuntariamente.

– Eu o carrego! – ele respondeu. Assim que chegamos ao nível do chão, todos começaram a correr na direção oposta à das bestas, que pulavam e derrubavam vários. Desesperada, corri o mais rápido que pude, olhando para trás de tempos em tempos para ver se Tina, Jeremy e Henry estavam atrás de mim. Eu nunca havia tido que correr pela minha vida antes, e não era uma sensação nada agradável. Tentava ignorar os gritos e rugidos atrás de mim, mas eles penetravam em mim como lâminas, fazendo-me ir mais devagar. Forcei-me a acelerar novamente. Não havia tempo para medo, ou eu morreria como aquelas pessoas atrás de mim. Era um pensamento egoísta, mas o único que conseguia me fazer continuar correndo. Uma besta aterrissou ao meu lado, e gritei, alarmada. Mesmo após conferir que estava morta, acelerei mais ainda, como se ela pudesse reerguer-se e me matar.

Corremos quilômetros e quilômetros sem cessar, e quando caí e já não aguentava me mover, não havia mais nenhuma besta. Respirei pesadamente, sem forças para me sentar. Então me lembrei dos gritos, dos mortos, dos rugidos, e comecei a vomitar. Ouvi passos atrás de mim, mas não me voltei. Limpei a boca com a manga do macacão e comecei a soluçar desesperadamente. Éramos sete. Apenas sete. Sete entre todos aqueles que encontrei ao chegar. Apenas sete haviam sobrevivido ao massacre, ou conseguido fugir. Ao me acalmar um pouco, abracei a mim mesma em silêncio e observei os outros. Eu, Henry, Jeremy, Tina, Catherine, Sarah e Georgia. Felizmente, Sarah tivera tempo de terminar de curar o braço de Henry.

Estávamos todos nos sentindo expostos, parados ali em silêncio. A cada momento, imaginava uma besta surgindo na escuridão e cravando suas garras em mim. Estremeci ao imaginar algo do gênero.

– Você está bem? – perguntou Henry, que se sentara ao meu lado. – Obviamente não, mas, quer dizer, você se machucou?

– Engraçado você perguntar isso com tanta preocupação considerando o quão você está machucado – respondi, voltando-me para ele e sorrindo sem convicção. – Acho que estou andando demais com você. Fazer uma piada numa hora dessas, bem conveniente. Mas enfim. O que quero dizer é que não me machuquei.

Ele riu.

– Suponho que realmente esteja andando demais comigo. – disse. Após alguns instantes em silêncio, disse – Fico feliz que tenha conseguido fugir. Não sei o que faria se você ficasse para trás. Ou Tina.

Comprimi os lábios e deixei que suas palavras fluíssem em minha mente, como curativos para as fendas que os gritos e rugidos haviam aberto.

– Também não sei o que eu faria se você ficasse para trás – respondi. Ele sorriu.

– É. Deve ser desesperador ficar longe de mim.

Revirei os olhos e bocejei.

– Devia descansar, Gwen Savage. Passou por bastante coisa hoje para o seu terceiro dia.

– Está bem. Promete que me acorda se algo acontecer?

Ele riu.

– Prometo, Gwen Savage.

Notas finais
Demorei um pouco mais... Mas ainda sim fui bem rápida para o meu padrão. Esse capítulo é muito importante para o desenvolvimento da estória, então espero que tenham gostado.