Gunslinger

7 Capítulo 06


Notas iniciais
Não costumo postar tarde dessa forma, mas passei o dia ocupada... Então espero que não se importem. Aqui vai o post do dia!
Obrigada a todas as garotas as quais estão lendo, o comentário de voces é muito importante pra mim. ♥

Estava no mesmo lugar deserto, com prédios e casas evacuados devido a guerra civil. Por trás das grades de arame bem torcido ao final da rua, havia um grande tanque que andava lento a procura de um alvo.


O time seguiu junto em passos lentos e parcialmente agachados sem fazer barulho. Os coturnos batiam no meio ritmo contra o chão de terra e as armas apontadas para qualquer tipo de inimigo que aparecesse em sua mira.


Seus dedos suavam contra o apoio, Matthew suava por baixo de suas vestes. Estava nervoso, era uma segunda chance e precisava fazer certo dessa vez. Estreitou seus olhos para enxergar um pouco mais longe, precisamente 24 metros segundo seu capitão.


– Retaguarda, James – Ordenou o homem, e Matthew pode ver o mesmo virar-se para trás e dar passos lentos junto ao time, de costas. Aquilo era o inferno, e não falava do calor: havia corpos de soldados e jovens que escolheram ficar e tentar a sorte de sobrevivência porque não tinham para onde ir. Também havia crianças, e para Matt aquilo era perturbador.


Havia corpos que já estavam em decomposição, pois não foram tirados do campo, não era obrigação do exército. Sentia como se tivesse espalhando o caos na tentativa de proteger seu país, o que não era verdade.


O sol trazia o mal cheiro às suas narinas, quase lhe fazendo vomitar. A podridão fazia seus sentidos irem embora, não via a hora de atravessar aquele trecho e finalmente acabar com toda aquela tensão que a missão estava sendo.


Lembrou de seu pai e de como seu velho fora forte em todos esses anos servindo ao exército. Nunca havia vacilado diante de uma missão, morreu como um herói e assim seria com ele se fosse necessário. Tal pai, tal filho. O capitão fora o primeiro a chegar ao local, ouviram um comando para que esperassem a hora certa a atacar em seu rádio que chiava em um barulho irritante.


Matthew e Brian que estava a sua frente apenas acenaram ao captar a ordem, juntando-se a parede enquanto subiam os primeiros degraus.


Era uma escola, uma maldita escola, aquela maldita escola. Suava frio, apertava a arma com seus dedos como um soldado inexperiente, incerto sobre seu primeiro tiro. Queria correr e chorar como uma criança, mas estava destinado a isso, alistara-se para viver em um inferno e coletar mortos pelo resto de seus dias.


Matthew posicionou-se atrás de seu Capitão, com Zackary e Brian do outro lado, também junto a parede. Arfava o ar, com seu peito subindo e descendo em puro nervosismo. Johnny cobriu o meio, e James a retaguarda.


Estavam posicionados, eram sete. Maldito número sete. Havia mais sete pessoas para mandar ao inferno e sentar ao lado do diabo, mas como se estava vivendo cruelmente o local? Fixou seus olhos a ordem do Capitão, seguido da contagem.



Um... Dois... Três...

Apertou seu dedo contra o gatilho quando avançaram um passo, as cápsulas de bala voando de sua arma automática. Tudo acontecia em uma torturante câmera lenta, mas não havia sete pessoas ali.


Não era um grupo de terroristas.


Eram sete James, James... Seu amigo James. Estava matando seu amigo James. Necessitava da ordem de cessar fogo, mas pareceu perder o controle sobre seu dedo no gatilho, não o sentia. Seus lábios entreabriam-se mas não conseguia gritar, não conseguia pedir para que James saísse da frente, estava matando seu amigo.


Caiu de joelhos e a arma pareceu morta em sua mão, escorregando. James escorria sangue e não era apenas um, eram sete. Sete James andavam ensangüentados em sua direção, estourado, baleado. Viravam seus demônios pessoais, viram seu próprio campo de guerra.


Agora seus demônios iriam matá-lo, iria pagar todos os seus pecados no inferno junto àqueles que matou em nome de seu pais e de seus inimigos.


Malditos inimigos. Sentia os dedos sem vida de James apertar seu pescoço, lhe faltava ar. Chorava como uma criança e gritava por seu pai, era um bebê ridículo agora e a voz do homem que lhe criou para a honra lhe chamava de covarde, traidor.


Havia matado James.


– x –


Arfou por ar em um desespero, puxando o lençol que antes cobria seu corpo semi nu. Estava desnorteado, seu colchão estava molhado de suor, suor frio. Se bateu contra a parede, a pequena iluminação vinha da janela de fora, não conseguia ficar em pé.


Seu estômago revirava e seu corpo inteiro tremia. Sentia como se houvesse sangue em sua garganta e estava prestes a vomitar. Tentou primeiramente localizar-se em seu quarto, encontrara seu rádio relógio indicando quatro da manhã.


Escorregara até sentar no chão ofegante e nervoso, esperando que seus batimentos voltassem ao normal e a agitação de seu corpo fosse embora, mas era impossível. Tivera aquele maldito pesadelo novamente. Estava molhado de suor, pingava.


Era um fraco, odiava se sentir assim. Levou as mãos trêmulas à cabeça, abaixando a mesma, apertando seus ouvidos. Empurrou seu punho fechado contra a parede para descontar sua raiva, sua angústia.


Os malditos remédios, havia esquecido de comprá-los, mas não acreditava muito que aquilo resolveria algo. Estava de férias, não iria demorar a ter de voltar ao inferno e viver tudo aquilo novamente, jurou que mataria a si mesmo no campo de batalha se mais algum de seus amigos resolvesse lhe deixar.


Aqueles filhos da puta. Precisava dos três em um momento como esse, sentia-se fraco de alma, de emoções por baixo dos músculos que adquiriu com seus treinamentos. Sentia-se fraco de idéias, não conseguia pensar.


Seus olhos marejaram e seu corpo balançou como uma criança que busca um auto-consolo, não conseguia tirar a imagem de Jimmy morto em sua mente, como havia deixado aquilo acontecer?A culpa era toda sua e seus freqüentes pesadelos era uma forma de lhe castigar pelo amigo traidor que havia sido.


Era um maldito, nem mesmo levantar-se do chão conseguia. Pensou que se tomasse um banho lhe ajudaria a melhorar, mas era algo impossível. Então ficou ali, parado por três horas fitando o nada, com sua cabeça vazia sem vagar por lugar ou pensamento nenhum.


Havia clareado de forma que todo seu quarto agora se iluminasse. O rádio relógio tocou um alarme desnecessário, mas Matthew não foi capaz de desligá-lo. Era um barulho atormentador que lhe fazia lembrar uma contagem regressiva eletrônica. Deslizou as mãos pelos fios castanhos, implorando para que alguém lhe tirasse dali.


E seu desejo fora atendido: sua mãe havia despertado devido ao rádio relógio, era um alarme que usaria para acordar e correr na areia da praia, aproveitar as primeiras horas matinais para lhe abrir melhor o apetite.


A mulher o fitou de forma preocupada e terna ao mesmo tempo, sua mãe Kim era a melhor mulher da face da terra. Deslizou seus dedos pela roupa de cama azul encharcada pelo suor de Matt e logo sentou na beirada da cama, frente ao filho no chão contra a parede.


Afagou seus cabelos castanhos claro, molhados pelo suor e derrubou uma lágrima ao ver o filho naquele estado, era tão menor que ele, mas ainda assim conseguia lhe trazer para cima e deitar sua cabeça contra seu colo tão materno.


– Vai passar filho. Eu te prometo.



A mulher deslizou seus dedos pelas costas do filho, que aos poucos sentia a crise de ansiedade passar. Não importou-se com o rosto suado do filho, depositou um beijo sobre sua testa, limpando seu rosto logo em seguida. Trocou palavras com o homem que agora já sentia-se capaz de pelo menos murmurar algumas palavras, tranqüilizando-o antes de liberá-lo para ir tomar um banho frio.


Despiu-se da boxer negra e adentrou o chuveiro em uma temperatura extremamente fria. Deslizou suas mãos grandes sobre o peito forte e sua cicatriz, causada por uma investida errada contra um inimigo próximo demais segurando uma faca. Tentou cobrir a mesma com tatuagens, mas quem reparasse muito bem em seu peito a enxergaria.


Sentiu o corpo relaxar devido a temperatura da água logo de manhã, não sentia sono e ainda pensava no freqüente pesadelo que insistia em si, era sempre o mesmo fazendo Matt o decorá-lo. De fato, seus amigos apenas sabiam sobre suas crises, mas nunca detalhadamente como seu pesadelo era. Sentia que necessitava de alguém para contar a não ser o psiquiatra da base, mas sentia tanto medo de ser julgado.


Como se merecesse aquilo pelo que escolheu ser.


Decidiu que correria na praia e daria um mergulho na água fria de Huntington Beach, já que o tempo se mostrava propício. Desligou o chuveiro e limpou bem suas orelhas com a toalha, enxugando seu peito, seu quadril e suas pernas. Envolveu a toalha na cintura e caminhou firme até seu quarto, a roupa de cama já não estava mais ali.


Vestiu uma sunga e um short branco com detalhes em preto que lhe tocava acima do joelho. Vestiu os óculos de sol junto aos chinelos e avisou sua mãe que voltaria logo em tempo de tomar o café.


A caminhada para a praia não fora longa, Matthew morava a poucas quadras de distância. O dia não estava para nuvens, o sol também lhe dava bom dia. Havia algumas pessoas que passavam para ir ao trabalho por ser as primeiras horas da manhã, mas poucos carros para uma quinta feira.


Havia várias bicicletas, isso pôde reparar. Principalmente na avenida da praia quando atravessou, cumprimentou seu vizinho que costumava estar ali nas primeiras horas da manhã também, e deixou os óculos junto aos chinelos quando pisou na areia.


Sentiu a mesma gelada e macia contra seus pés, o som das ondas quebrando e de passarinhos que lhe recebiam contentes faziam Matt se tranqüilizar, começando uma corrida não rápida, apenas para começar a se aquecer.


Lembrou-se dos aquecimentos do exército e moveu sua cabeça para começar a se alongar. Mexeu seus ombros, seus braços e seu tronco forte, atraindo atenção de algumas mulheres que passavam pela calçada da praia.


Respirou o ar puro e úmido devido ao mar e alongou suas pernas, agora correndo mais rápido, pisando duro contra areia. Seu corpo movia em sincronia para frente enquanto pegava impulso com os braços, já começando a lhe fazer suar.


Sentia que a fome já começava a bater, mas não iria para casa agora. Correu mais alguns metros e logo fez a volta para voltar aonde estavam suas coisas. Retirou a bermuda e deu passos rápidos até pisar na areia molhada, adentrar o mar e mergulhar para o fundo enquanto uma onda começava a quebrar.


Suas mãos lhe deram impulso para ir mais longe e quando o fôlego ameaçou acabar, Matt subiu a superfície para respirar e deslizar seus dedos pelo rosto a fim de retirar a água salgada. Manteve-se ali, apenas acompanhando as ondas e lembrou-se da adolescência quando surfava, combinaria com os amigos para que relembrassem juntos os velhos tempos.



Nadou de volta até a areia, sentindo a água gelada começar a escorrer de seu corpo, vestiu seus óculos e sentou-se ao lado de suas coisas, sozinho. Fitou o mar e algumas pessoas que passeavam pela areia, um labrador bonito que acompanhava uma criança e seu pai, sorriu de leve, apoiando os braços sobre os joelhos.


Estava pensando enquanto secava, sentindo uma grande vontade de ver Amy novamente e a convidar para a festa que haveria na sexta, apenas informou-se ao pegar o flyer que estava sobre o balcão da livraria.


Levantou-se e vestiu a bermuda junto aos chinelos e óculos. Iria trabalhar em seu carro na parte da tarde e não deixaria de ver Amy na parte da noite, iria lhe convidar para a festa no fim de semana, apenas esperava que a morena aceitasse.


– x –


Deslizou o pano molhado com álcool sobre o balcão, pensando na quantidade de coisas que deixara acumular na faculdade. Entortou seus lábios e fez um rápido planejamento em sua cabeça, deixando o pano de lado para atender um cliente.


O barulho da pesada porta de madeira sendo aberta soou, mas Amy não conseguiu identificar se a pessoa estava entrando ou saindo. Sorriu para o homem ao lhe informar o preço, recolhendo o dinheiro já certo e concentrando-se para embrulhar o livro para presente.


O segundo homem olhou uma estante de livros de forma desinteressada e aproximou-se do balcão, não muito perto de Amy para não atrapalhar a mesma. Apoiou seu braço sobre a madeira antes limpa e deixou seu corpo de lado, fitando a morena trabalhar.


– Claro, volte sempre – Amy sorriu mais uma vez, expondo os dentes perfeitamente alinhados. Deixou suas mãos sobre o balcão e pensou por um segundo ter visto errado quando Matt se aproximou e a mesma não foi capaz de se desfazer do sorriso. – Matthew! Não me diga que já leu aquele livro?


– Não, não. – Riu ele sem graça, visivelmente surpreso que a mulher ainda lembrava. Matthew se aproximou, ficando frente à morena e deixando suas mãos sobre o balcão bem próximas de Amy. A mulher não se moveu, então achou que alguma pequena confiança deva ter ganhado desde a ultima vez – Na verdade nem o tirei da minha bolsa ainda.


Amy sorriu como quem não parecesse surpresa, maneou sua cabeça para o lado divertida e fitou o relógio logo atrás da muralha que parecia Matt. Estava quase na hora de sua pausa.


– Se importa se eu te acompanhar novamente? – Indagou Matt e Amy deu um tapinha gentil sobre a mão grande do homem que pode sentir a pele macia contra seus dedos.


– Vamos lá – Amy deu a volta no balcão e nem mesmo retirou seu uniforme. Usava uma blusa pólo cor de pele de gola com a marca da Barnes & Noble Booksellers sobre o peito esquerdo. Sua jeans justa marcava perfeitamente suas pernas, Matt também reparou, finalizando com o mesmo all star de semana passada. – Starbucks de novo?


– Você toma café ali todos os dias? – Matt franziu o cenho indicando o outro lado da rua enquanto Amy lhe fitava dando de ombros em uma forma tímida de assentir. O homem caminhou com a morena até o fim da rua. – Vamos, a gente come ali e eu pago.


Amy protestou diversas vezes e Matt quase a arrastou pelos ombros enquanto ambos riam. Para lhe irritar, retirou a presilha que prendia seu coque e Amy fingiu estar brava, mas sabia que teria de retirar de qualquer jeito para refazer.


– Já comeu aqui? – Perguntou ele, afastando a porta para a menor enquanto adentravam a lanchonete e escolhiam uma mesa. Matt ajeitou seu boné sobre a cabeça e sentou-se frente a Amy, ambos analisando o local.


– Não...


Não era um ambiente ruim, os garçons usavam branco e vermelho, as cores da lanchonete. Era um estilo anos 80, o que Matt havia achado bacana porque também havia uma jukebox. Comentou com Amy como Michael Jackson era popular nessas máquinas em restaurantes como aquele. A menor não teve como não concordar e gargalhar em resposta.


Ambos olharam o cardápio e sem combinar pediram a mesma coisa, apenas com bebidas diferentes, Matt preferia um copo de cerveja enquanto Amy pedira suco.


Voltaram a sorrir um para o outro, apoiando os braços sobre a mesa.


– Então, você está sabendo da festa que vai acontecer esse fim de semana? – Matthew recuperou a atenção de Amy, que lhe fitava atenta com seus olhos claros preso na expressão do homem. Seu pé moveu-se em uma batida silenciosa sobre o chão em nervosismo. – Eu encontrei em um monte de flyers que havia sobre o balcão da livraria, acho que vou estar lá com os meus amigos. Vamos?


– Eu não sei – Entortou seus lábios, pensando nos trabalhos da faculdade e no fato de que ficaria parte do tempo sozinha já que Matthew estaria com os amigos e não os conhecia. – Na sexta, não é? Eu... – Tentou continuar, mas fora interrompida por Matt.


– Você me disse que trabalhava meio período na sexta feira.


– E trabalho – Amy sorriu de forma fofa, mantendo um tom baixo – Mas tenho tarefas da faculdade pra fazer e tenho que estudar. Eu não sei...


– Vai ser legal, posso te ajudar com os trabalhos – Mentiu, não sabia nada de língua inglesa e literatura. – Vamos, Amy.


– Não vai dar, Matthew. Desculpa – Fez um pequeno bico e Matt sentiu-se chateado por um pequeno momento. Pensou em contar a morena que precisava se divertir e tirar algumas coisas da cabeça, pois estavam lhe matando, mas não era problema dela. Achou que já teria coisas demais para se preocupar.


Deixou quieto, se divertiria com seus amigos apenas. Ou tentaria.



Não demorou a ambos os lanches ficarem prontos, e os dois comerem trocando uma conversa amistosa sobre filmes e música. Matthew estava feliz pela companhia dela, mesmo que fosse apenas por aquele período curto de uma hora. A veria novamente na semana que vem.


– Você tem maionese no canto da boca – Amy corou ao reparar e Matt sentiu-se um pateta, apressando-se para limpar enquanto a amiga ria, e mentia ainda dizendo que ainda estava sujo.


Amy estava tendo um bom momento com Matt, nem mesmo com Cris fora tão aberta assim em pouco tempo. O homem por trás dos músculos era um completo fofo e cada vez mais conquistava a amizade de Amy, que vez ou outra desejou ele ao seu lado para conversar sobre qualquer bobagem quando o tédio no trabalho batia.


Matt pagou a conta quando o tempo da pausa de Amy estava acabando, comprando uma bala para a mesma para que nunca alegasse que não havia lhe dado um presente no começo da amizade, levou um tapa no braço, mas a brincadeira não foi muito efetiva, Amy era fraca.


– Então... Boa noite – Disse ele, brincando com a aba do boné e sendo pego de surpresa quando Amy por não querer parecer uma idiota abraçou a cintura do homem de forma amigável, logo soltando. – Bom trabalho, se precisar me ligue.


– Digo o mesmo, Matt. Boa noite.


Despediram-se e Amy entrou para o resto do expediente. Ficaria até a loja fechar e não sentiu-se tão solitária como seria se Matt não tivesse aparecido. Ainda sentia o gosto de hortelã na boca, seu hálito gélido devido a bala. Terminou de apagar as luzes e ativou o alarme, suspirando ao recolher um flyer caso na sexta-feira a noite mudasse de idéia.