Guerreiros intergalácticos
12 Revolução em "W"
Notas iniciais
Longe de “X”, o espírito de Silvio percorreu o mundo de “W” enquanto Arethi olhava tudo nos telescópios. E viu como esse mundo havia mudado. Com a economia voltada para a guerra, às duas superpotências daquele mundo estavam sendo abastecidas nas necessidades básicas pelos países mais humildes. Os amigos de Ênio, além de distribuir dinheiro em acampamentos de moribundos, haviam investido na agricultura. Seguindo os conselhos de Natalia, as sementes eram secadas pelas crianças, plantadas por adolescentes em lugares na sombra, regadas, e as mudas já crescidas eram plantadas pelos adultos em campos abandonados. Havia gente bem alimentada, e o que era melhor, estavam negociando com os mais ricos o fruto da agricultura familiar. O cenário de miséria e morte continuava, mas em escala cada vez menor.
Enquanto os mais pobres saiam da miserabilidade, os mais ricos estavam na beira da falência em “W”. Os quarteis estavam sem armas suficientes, à milícia sem roupas, as montadoras de misseis paradas, e os reservatórios de armas estavam vazios. Mas, diante dos repórteres os donos desse mundo mantinham a posse para continuar com o poder inafiançável.
No encontro de amor, Silvio falou para sua amada entre abraços e beijos: — faça a revolução em “W”, meu amor. Não há motivos para continuar esperando. Arethi respondeu-lhe:
— Vou ter que ficar nos telescópios durante muito tempo...
— Eu sei... Mas depois, nos tempos de paz, vou tê-la aqui eternamente...
— Gostaria tanto de ver seu rosto, seu sorriso...
— Vai ao templo, que posso lhe dar um beijo através do espelho. Coloque os viúvos nessa revolução. Peça a Miguel que tire os viúvos da quarentena e que se unam na luta. Vai ser corpo a corpo e enquanto mais gente na briga, melhor.
— Tô me apagando, vai ficar aqui comigo?
— Vou! Sou o espirito mais apaixonado das redondezas...
— Quero acordar com beijos, meu querido...
Já na ilha de “W”, Ênio teve uma reunião com Natália, Miguel e Anaha. Miguel falou em primeiro lugar para Ênio:
— Vamos te deixar sozinho, apenas com alguns robôs para te cuidar. Vamos fazer a revolução, vão te descobrir, e assim que apareçam os repórteres ataca com as palavras, vai fundo. Apoia-nos nessa luta, pois vamos derrubar os dois governos das duas superpotências...
— Mas, como faço isso? Aqui não temos televisão nem nada...
— Mas, nós temos. Anaha vai ficar contigo para te proteger de ataques, e vai te filmar. Depois nós vamos colocar o vídeo nas antenas do espaço. Só não fala de onde é que estás falando. Esta ilha continua invisível. Ela não existe no mapa por enquanto...
— Eu ainda não entendo, cara... Não era melhor você ficarem lá, na paz celestial? Porque é que viram a nos ajudar neste inferno terreno, afinal?
— Porque “00”, nosso patrão, acha que a paz deve ser universal, em todo lugar, e que a dor dos inocentes deve ser combatida sem dó... onde for que ela aconteça...
— Cá, entre-nos, esse fulano sabe que eu tô na jogada?
— Sabe, mas tu vás ficar aqui muitas e muitas vidas...
— Mas, por quê? Eu só tão bonzinho...
— Mas eres promiscuo, só neste mundo um macho pode ter 20 esposas.
— Mas, minhas esposas de amam, elas são felizes, acreditem...
— Acreditamos, mas para um dia chegar a nosso planeta tens que ter UMA. É nossa exigência. UMA!
— Vou pensar... Agora, vamos ao que interessa. Tenho endereços de amigos onde podem se esconder. E eu, nem sei rezar numa hora destas... só posso agradecer...
— Nem nós! Vocês rezam para quem, afinal?
— Para Deus, para os anjos, sei lá...
No fim dessa reunião, com todos os endereços para descer e se misturar nas cidades, Ênio abraçou seus amigos de outros mundos, com uma lágrima escorregando no rosto. Nunca imaginara que um dia chegariam pessoas assim para ajudá-los contra a opressão. Olhou para cima tentando ver esse tal de “00” e agradecer, mas não viu coisa alguma. Mesmo assim falou do fundo do coração um “muito obrigado”.
Ludimar, o sargento mais lindo da frota de guerreiros, entrou numa favela com endereço de um casal com 6 filhos. Comeu farofa com batatas fritas, salada de alface e arroz com feijão. E quando estavam todos sentados numa mesa, escutou de dois rapazes maiores algo que não esperava:
— Oi, amigo... Estamos organizados com uma turma de 500 “Brothers” só desta favela. O que é que temos que fazer?
— Nada! Eu vou entrar numa fabrica para organizar um piquete com operários fortes e armados. Você é criança para fazer isso...
— Tá me gozando, cara, tem guri de 8 anos dentro das fabricas... Vou estar lá, podes crê!
—Oito anos? Nossa! Mas, necessito de homens com musculatura, fortes, que dê pontapés contra os milicos...
— Mas, este mundo não é nosso? Não somos nós que temos que decidir o que se pode fazer? Ah?
— Não tem medo da morte?
— Você também não tem... Tamo junto, ou não?
— Na última fila... E como pensam lutar?
— Pedras, estilingues, e patadas...
— Vou lhes dar algo melhor. Uma arma. Mas, ela deve ser apontada contra os aparelhos, pois elas só desintegram a matéria. Um milico desarmado pode ser derrubado a patadas, ou receber pedradas, mas enquanto estiverem armados nem pensar em atacar.
— Mas, não vamos matar os “filhos da mãe”?
— Não! Só vamos machucá-los um pouquinho...
— Mas isso não é revolução cara... Bem, talvez uma patada bem dada possa matar, sim... Vai ter muita morte, amigo, pois nós estamos com vontades de enterrar essa turma há muito tempo...
Enquanto Ludimar e os sargentos se infiltravam em fabricas e Universidades, Miguel e 50 soldados percorreram prisões em busca de presos políticos e hospícios em busca dos mesmos. Hipnotizaram guardas e enfermeiros do turno da noite, abriram celas, levaram para o pátio e Natália os içou com um raio de luz. Depois ela os deixou cair na ilha de Ênio aos cuidados de Anaha.
Ênio começou a receber essas pessoas em meio de lágrimas. Os doentes dos hospícios estavam irreconhecíveis, de cabelo raspado, balbuciando palavras incoerentes, às portas da morte. Já os que chegavam das prisões, estavam feridos e tinham marcas nos braços de grilhões, tinham feridas de chicotes nas costas, queimaduras de cigarros, sujos, fedorentos, debilitados ao extremo.
Enquanto os homens eram estendidos sobre a grama, embaixo de matas frondosas, os médicos perguntavam para Ênio o que era a “loucura”. Depois examinavam os medicamentos que traziam junto, e ficavam ainda mais perplexos. Não sabiam o que fazer para trazer esses homens de volta para a sanidade mental. Terminaram levando-os ao “coma”, com nutrientes para o cérebro inseridos através de mangueiras de alimentação, enquanto robôs enfermeiros se encarregaram de dar banhos de esponja, pois desta vez, o fedor da sujeira era insuportável para o nariz humano.
Enquanto essas pessoas ressuscitavam para a vida nessa ilha, o mundo começava a ferver nas cidades. Os primeiros a sair nas ruas a protestar dessa guerra foram universitários que gritaram em frente às casas de governo, nas cidades mais importantes desse mundo. Enquanto isso, na televisão, apareceu à imagem de um velho desconhecido, que chamava os governantes de “psicopatas da morte”. Também os chamou de ladrões, pois roubavam as riquezas dos países pobres e, além disso, invadiram outros mundos em busca de petróleo. Atacou os bancos que emprestavam dinheiro aos mais carentes e cobravam juros que triplicavam esses empréstimos. Chamou os governos de loucos, pois as bombas disseminadas dentro e fora do planeta havia contaminado o ar ao extremo. Ênio falou com tanto ardor nesse documentário, que no fim do discurso apareceu uma estrela no seu peito, sobre a pele, que nunca mais saiu.
Enquanto isso, Ludimar teve seu primeiro enfrentamento com a polícia, pela primeira vez, junto a 500 operários. Eles desintegraram as armas dos policiais com as pistolas de mãos, mas Ludimar teve que ir mais longe, ele fez desaparecer os jipes, os tanques, os carros que lançavam água, e o confronto contra os milicos foi a patadas e socos. Mas, pouco a pouco novos policiais e soldados foram chegando e cercando-os, com helicópteros que sobrevoavam com armas de longo alcance. E a multidão teve que se dispersar, correr, deixando na fuga os primeiros feridos e os primeiros mortos. Miguel chegou a protegê-los na fuga, desintegrando tudo que voava e corria pelas ruas em busca desses revoltosos. Para dar um toque de brincadeira, desintegrou-lhes também as roupas. Militares caíram dos céus totalmente nus, aos olhos da televisão, que não perdia detalhes dessas manifestações populares.
Ludimar correu por ruas estreitas, e assim que viu uma prostituta na rua a tomou no colo e entrou com ela numa “Casa do prazer”. Havia corrido com 10 soldados na cola, e estava doído de tanto dar socos e patadas defendendo os amigos, principalmente os guris das favelas, que caiam ao chão, se levantavam, ficavam feridos, e teve que os hipnotizar para fazê-los regressar a casa em segurança. Já dentro dessa casa de amor, pagou uma quantia generosa retirado dos “Caixas eletrônicos” desse mundo louco, e entrou num dormitório iluminado com luzes vermelhas. Caiu na cama de costas e se deixou amar. Sua escolhida lhe deu um beijo, e em seguida foram entrando outras moças, e ele se viu em meio de um grupo que o acariciava em todo canto. Ao amanhecer do dia seguinte, Ludimar deu um beijo nas suas namoradas maravilhosas, lindíssimas, e saiu correndo em busca das favelas. Comeu faminto um café com leite, um pão com ovos mexidos e dormiu feliz. Só saiu dessa casa para defender mais um grupo de operários, de outra fábrica, que faziam barricadas nas ruas para enfrentar a policia e os soldados.
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