Guerras da Alvorada
3 Um Rei e Dois Bobos.
Notas iniciais
Depois do campo de batalha ter sido limpo e purificado pelas sacerdotisas do Grande Templo, meu tio Erien veio até mim com três cavalos selados e Goleb logo atrás:
– Arven. — chamou-me — Está pronto?
Olhando-o surpreso, gaguejei:
– Mas...mas... — tentei começar — Mas quem cuidará da cidade enquanto estivermos fora? Precisamos de um governante aqui!
Goleb deu um passo à frente e respondeu-me:
– Seu tio deixou o comando comigo. Pode ficar tranquilo meu príncipe, nada irá penetrar esses muros.
Tentei parecer mais aliviado, mas o que consegui foi apenas um sorriso forçado. Nisso, chegou o dono do terceiro cavalo. Era Ragnald, um velho amigo meu, um dos soldados da Guarda Real . Animei-me com a ideia de viajar com um amigo. Erien podia ser meu tio, mas olhava-o e tratava-o como o rei, nunca tentei aproximar-me muito dele. Tinha algo em meu tio que me dava calafrios, não sei o que era e nunca soube.
Ragnald veio até mim sorrindo e cumprimentou-me com um abraço:
– Ainda está vivo seu filho da mãe? – disse-lhe enquanto ria.
– Cale a boca princesa! Quer que eu enfie minha lança na sua bunda?
Rimos os dois. Podiam ser xingamentos idiotas ou brincadeiras de mal gosto, mas era o jeito que gostávamos de nos cumprimentar. Éramos dois bobos. Duas crianças.
Quando a lua apareceu, Erien veio até nós vestido de capa e capuz negros, e deu-nos vestimentas iguais para utilizarmos. Estava sério como sempre, não disse nada e nós o imitamos. O silêncio de meu tio chegava a ser contagioso quando ele queria ou quando era preciso.
Assim, levou-nos ao portão principal da cidade, onde Goleb e os cavalos já nos esperavam. Montamos neles e partimos para a capital humana em silêncio. E foi assim que cavalgamos até uma clareira no meio da floresta, onde paramos para descansar. A noite era fria e cheia de nuvens.
Percebi que ninguém iria dizer uma palavra sequer, então decidi puxar assunto:
– Então o que dizem é verdade Ragnald? Você é o melhor cantor entre os elfos?
Meu amigo corou:
– Ora Arven... — começou — Isso é exagero.
Nisso, meu tio entrou na conversa:
– Os soldados dizem que é um bom militar e um ótimo bardo. Adoraria ouvi-lo cantar.
– Acho que uma outra hora meu senhor. — disse Ragnald.
Erien soltou uma risada e, sorrindo, disse:
– Cante logo. Isso é uma ordem do seu rei.
O jovem soldado respirou fundo e pegou um alaúde que havia trazido consigo e sentou-se na pedra mais próxima:
– Espero que gostem da “Kni’s frun Quo”.
– Essa é uma boa música. — disse-lhe — Agora vamos. Cante.
E a madrugada foi assim, alegre e cheia de música, com Erien sorrindo e todos gargalhando e cantarolando. Nem parecia que uma guerra estava por vir.
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