Guerra entre Mundos
3 Uma dor de angústia cura-se com outra.
"Um fogo devora um outro fogo. Uma dor de angústia cura-se com outra."
– William Shakespeare
Quando saíram da casa, as estrelas brilhavam intensamente no céu escuro. Annie acostumou seus olhos à escuridão, já que agora a rua não estava mais iluminada pela lua.
Para sua surpresa, Peter realmente estava certo. A casa estava ali. Sinceramente, ela não acreditava naquela teoria. Achava que estavam no lugar errado, ou algo do tipo. Mas estava errada.
– Nunca duvide de nossa noção de localização. – falou James, repentinamente.
Ele falou sério, e Annie procurou no rosto de James algum vestígio de brincadeira. Não encontrou vestígio algum.
Tentando acompanhar o ritmo dele, acelerou o passo. Annie estivera ali uma vez, e mal sabia onde ficava a casa. Se o que James havia dito fosse verdade, ele também só havia ido até ali uma vez. Mas então, como ele sabia onde ficava o quarto onde a caixa estava?
Annie e Peter seguiam James fielmente. Ele realmente sabia onde estava indo, pois em alguns segundos estavam no quarto.
– Não está aqui.
Isso era quase impossível. As únicas pessoas que haviam ido até ali foram eles. E aqueles homens. Então os caras de preto realmente estavam envolvidos com a caixa? Provavelmente, essa tal caixa continha algo muito importante para homens daquele porte irem atrás dela, mas, o que?
Se o que Annie sabia era certo, então eles agora iriam atrás de Lena, certo? Mas, como, se estavam sem a caixa?
Respondendo a uma pergunta silenciosa, Peter falou:
– Ótimo, a caixa não está aqui. E agora?
Annie percebeu que James não estava ali. Correu seus olhos pelo quarto, mas não o achou. Teria ele fugido dali? Não, claro que não. Mas onde James estava?
A porta do que parecia um banheiro se abriu e Annie o viu.
– Sim, está. Eles a esconderam. – vendo que Peter ia perguntar algo, continuou – Não me perguntem por que, eu apenas sei. Por favor, me ajudem.
Mais uma vez, Annie foi surpreendida com um gesto educado. Quem, em toda sua vida, lhe pediu ”por favor”? Simplesmente a mandavam fazer as coisas, não importando como ela estava.
James começou a olhar por baixo das coisas, e Peter já estava olhando por cima. Restou à Annie verificar dentro.
Começou pelo guarda-roupa. Logicamente, algo tão importante não estaria em um lugar tão evidente. Quando estava indo para o banheiro, James entrou em sua frente.
– A senhorita nunca procurou coisas? – mas que tipo de pergunta era essa? – Observe.
James pegou seu braço, e levou-a de volta até o guarda-roupa.
– Existem muitos compartimentos dentro de um guarda-roupa. Como, por exemplo, as gavetas. A senhorita olhou dentro das gavetas? – isso, obviamente havia sido uma pergunta irônica, então ficou calada – Muitas coisas podem ser encontradas, como...
James começou a tirar as roupas de lá, até tirar um caderno. Ele o deu à Annie, que resolveu folheá-lo. Não tinha muita coisa escrita, talvez quinze folhas.
Ela começou a tirar as gavetas, até que uma se prendeu. Tentou fechá-la e abri-la novamente, mas não deu certo. Resolveu apalpar, para ver se encontrava algo e... Bingo! Sentiu algo preso na parte de cima da gaveta, e chamou James.
– Ótimo, senhorita. – falou educadamente
Ele chamou Peter, que tirou facilmente a gaveta. Como todos esperavam, ali estava a caixa. Não estava tão escondida assim, o que preocupava Annie. Era como se eles quisessem que os garotos encontrassem a caixa. E, se era tão importante assim, por que não a levaram com eles?
Era tudo muito estranho, mas não se atreveu a perguntar. Eles pareciam saber o que estavam fazendo.
Annie estava encostada na porta e, quando James passou por ela com a caixa, tocou em seu braço. Foi como se uma onda de choque houvesse ultrapassado seu corpo em alguns milésimos de segundos. James também sentiu isso, pois estremeceu. Ele ficou tão surpreso quanto ela, mas não falou nada. Annie decidiu que resolveria isso quando chegasse à casa.
Havia se passado apenas alguns minutos dentro da casa, mas parecia que o céu tinha escurecido. Ele estava completamente preto, como se envolto em trevas. Isso não parecia possível.
Peter olhou para James, e falou apreensivo:
– É melhor irmos. O tempo não parece estar bom.
Por que tudo o que James e Peter falavam, parecia ter um segundo sentido? Seria a mente de Annie brincando com ela, ou era realmente isso?
Eles começaram a andar com aquela perícia de anos, e Annie mais uma vez, tentou acompanhá-los.
Do nada, Annie sentiu um frio diferente. Era um frio em sua alma, que a fazia passar noites em claro. Aquele frio que se tornara amigo de Annie durante suas recaídas. Ele era tão familiar... Mas por que o estava sentindo agora? Não fazia sentido.
Olhou para trás, mas nada viu. Quando virou novamente para frente, viu um homem de terno parado exatamente em sua frente. Annie deu um grito, e recebeu um soco na boca em resposta. Quando tocou o lugar, sua mão voltou com sangue. Aquele homem era realmente muito forte.
James estava indo até ela, quando outro homem surgiu de algum lugar desconhecido e deu um soco em seu estômago. James abaixou e tentou revidar, mas o homem de preto pegou facilmente sua mão e a torceu. Quando caiu no chão, soltou um grito.
Antes de Peter tentar qualquer coisa, outro homem apareceu e prendeu suas mãos atrás das costas.
– Como conseguiram? – o homem mais forte perguntou. Vendo que ninguém respondia, apertou mais fortemente o braço de Peter, que emitiu um ruído – Respondam!
Annie, Peter e James continuaram calados. O homem que havia batido em Annie deu um chute em sua costela, que tirou todo o seu ar.
– James? – falou Peter
Annie não sabia se James estava consciente. Ele estava largado no chão, parecendo morto.
Tudo aconteceu muito rápido, e Annie não entendeu muita coisa. Mas, em um piscar de olhos alguém a havia pegado no colo, enquanto dois homens caíam no chão ao som de um trovão.
Annie começou a gritar impacientemente para que a soltassem, até escutar um sussurro em seu ouvido:
– Acalme-se, senhorita.
Então Annie pôde relaxar, até chegar à casa. Mas James não a soltou quando entraram. Na verdade, a levou até seu quarto e deitou-a na cama. Foi até o banheiro e pegou o que pareciam alguns curativos.
– Com licença. – falou antes de começar a limpar o sangue de sua mão.
Depois de já ter limpado todo o sangue de seu corpo, levantou-se e ia saindo do quarto, mas Annie pegou sua mão e deu uma pequena puxada. Seu rosto se contorceu de dor.
– Como pensei. Vocês tem madeira aqui? – James puxou seu braço da mão de Annie e falou:
– Eu estou bem. Não precisa se preocupar.
– Não estou preocupada, mas certamente precisaremos de seu braço para salvar Lena. E com certeza, você não se sentirá bem se tudo o que fizemos até aqui for fracassado por causa de seu braço morto, não é?
Ele ficou calado e saiu do quarto. Em alguns minutos, estava de volta com um pedaço de madeira lisa.
Entre as coisas que James trouxe para fazer curativos em Annie, estava uma faixa. Ela a pegou e prendeu firmemente a faixa em seu braço. Só por segurança, passou duas. Quando teve certeza de que não iria soltar, deu um forte nó.
Testando, James deu uma leve sacudida na tala.
– Muito obrigado, senhorita.
Essas demonstrações de educação ainda eram novidade para Annie, então mais uma vez, ficou quieta.
Ela saiu do quarto e fez o caminho até a sala. Por sorte, não se perdeu. Deitou-se em dos colchões, que se mostraram muito confortáveis.
– O que pretende fazer agora, se me permite perguntar? – indagou Annie.
Quando ele ia responder, puderam ouvir batidas agressivas na porta. Como um raio, James estava ao seu lado, falando para ela esconder-se. Obedecendo, abaixou-se atrás de um sofá onde podia ver toda a sala, mas não poderiam vê-la.
James falou algo na porta, e em seguida a abriu e fechou rapidamente. Surpresa percebeu que, quem havia batido na porta era Peter. Sangue espalhava-se por todo o seu corpo, mas ele parecia estar bem.
Ele abraçou James fraternalmente e sentou-se em um sofá. Annie já estava de pé, pronta para preparar algo calmante para Peter, mas ele realmente não parecia precisar.
Peter percebeu que James estava olhando-o preocupado, então falou:
– Esse sangue não é meu, Jem. — Annie pôde ver a tensão em seu rosto aliviar no mesmo instante. – Depois que eles caíram, muitos ficaram feridos. Eu tentei ajuda-los, mas não quiseram. Tentaram me matar e...
– Pare. – disse Annie
Ela já ouvira muitas histórias inventadas, sendo ela mesma a autora de várias, mas aquilo... Aquilo beirava o ridículo. Eles caíram, certo. Mas por que Peter tentaria ajudá-los, quando eles tentavam o matar? Agora só faltava Peter dizer que os homens recusaram educadamente sua ajuda. Isso certamente era muito estranho, surreal e impossível.
Por que tentavam esconder algo tão óbvio? Annie sabia que deveria se conter mais, porém já estava cansada de tantas mentiras. A própria vida fora uma, não queria viver no meio de outra. Qual seria a diferença de ter saído de uma casa cheia de mentiras e vícios, para viver em uma cheia de falsidade? Não queria isso. Queria poder viver uma vida ao ar livre, fazendo o que queria. Não isso. Isso era...
– Ridículo! Por que não param de mentir? Se quiserem esconder algumas coisas, tudo bem. Nem tudo deve ser revelado. Mas, isso está soando ridículo. – Annie parou para respirar, e continuou – Se aquilo que me disse é verdade, sobre eu não ser muito diferente de vocês, então eu deveria saber das coisas. Ao menos o que vocês são. Não acha?
Tanto James quanto Peter estavam espantados com sua reação. Teria ela exagerado ou passado dos limites, quando mal os conhecia? Annie sentiu sua bochecha esquentar, e já podia prever seu rosto ficando inteiramente vermelho. Com sua pele pálida, quando ficava ruborizada, parecia que estava queimando de dentro para fora.
Enquanto ela pensava em algo mais gentil para dizer, foi poupada por James, que começou a falar:
– Você sabia que iria acontecer, Pete. – Peter estava com uma expressão preocupada no momento em que Annie começou a falar. Tentou sorrir quando James falou com ele, mas parecia que estava com dor quando o fazia, então apenas assentiu – Eu queria lhe contar isso há muito tempo, senhorita. Mas Peter achou melhor esperar, até você estar menos abalada e acostumada com nossa situação... Conturbada. Mas, se é isso o que quer, se acha que está preparada, então sou capaz de acreditar.
“Não sabemos muita coisa, pra falar a verdade. Apenas sabemos que somos superdotados. Peter pode controlar o tempo. Eu, sou rápido e posso me teletransportar. Já Lena... Bem, pode-se dizer que ela é quente.”
Annie demorou um pouco para entender, mas finalmente disse, com surpresa na voz:
– Ela controla o fogo?
– Não exatamente. Na verdade, ela o cria. Eu e Peter achamos que ela pode fazer algo mais com isso, mas não sabemos o que. – percebendo que Annie ia perguntar o porquê, respondeu – Porque pudemos perceber que Lena tem medo do próprio dote. Talvez nem ela saiba o que pode fazer. E agora, tem você.
Então era isso? Eles tinham “dotes”? E o mais espantoso: Annie tinha dotes? Mas o que ela poderia fazer? Nunca percebeu nada de diferente em si mesma ou em algo que fazia, então ainda tinha dúvidas sobre isso. Talvez eles estivessem errados, e tivessem ajudado a garota errada.
Tudo isso era novo para Annie, mas ela sabia que tinha mais. Sabia que essa ainda não era toda a história, então perguntou:
– Certo. E o que mais?
James pareceu um pouco surpreso, mas continuou assim mesmo:
– Bem, certamente tem mais. Mas esse é problema. Nós também não sabemos qual é o “mais”. Já tentamos de tudo, mas nada parecia se encaixar. Nem mesmo tínhamos uma boa resposta para quem eram nossos pais. Se éramos assim, superdotados, então nossos pais sabiam de algo. Isto é, se eles realmente fossem nossos pais. Não lembramos quase nada deles, porque fomos abandonados na infância. Peter e Lena foram abandonados bebês, não se lembram de como chegaram aqui. Resolvemos checar nos arquivos da cidade alguma informação de famílias com os nossos sobrenomes: eles estavam mortos. Até que, há algum tempo atrás, resolvemos parar com as pesquisas e as investigações. Com tudo. Aceitamos que isso era somente um golpe do destino, e que a única explicação aceitável para nós termos nos encontrado, era que atraíamos uns aos outros.
“Achávamos que éramos um caso perdido, e que morreríamos sem saber o que éramos ou para que servíamos, até há dois dias atrás. Foi quando a senhorita apareceu, e nós achamos aquela caixa. Quando toquei a caixa, senti algo... Diferente. Foi como se ela pertencesse à minha realidade. Como se ela tivesse as mesmas origens que nós. Foi então que toda a nossa esperança voltou. Resolvemos que voltaríamos com as pesquisas, até Lena ser sequestrada. Nós já íamos atrás da caixa, mas sem você saber. Porém, você viu o que aconteceu com Lena, e esse pareceu um motivo aceitável para levá-la conosco.”
– Então o sequestro de Lena não foi o motivo pelo qual fomos atrás da caixa? – perguntou Annie
– Na verdade, foi. Se a caixa realmente estiver relacionada com o que somos, então poderemos encontrar Lena de um modo mais fácil.
Era realmente muita informação para Annie. Saber de tudo isso... Era chocante. Quase não conseguia acreditar. Apenas tinha uma fagulha de certeza de que tudo isso era real por ter visto o que Peter era capaz de fazer. Viu com os próprios olhos quando ele manipulou o vento. O que realmente estava mexendo com Annie era: qual seu dote?
Poderia ela manipular algo também? Isso acendeu uma chama em seu coração, fazendo-a saltar. Talvez toda a inutilidade que ela pensava ter, não fosse tão inútil assim. Todas as trevas e escuridão que viviam nela poderiam finalmente sumir?
Sendo tirada de seus devaneios por um estralo dos dedos de James, perguntou:
– Certo, sou capaz de lidar com isso. É muita informação, mas isso não é importante agora. A pergunta é como encontraremos Lena. E se a caixa não estiver relacionada com ela? Pode ser mais difícil do que parece.
– Não importa quão difícil pareça, eu iria ao inferno por ela.
Annie se espantou um pouco com a reação repentina de Peter, mas respondeu rapidamente:
– Não estou duvidando disso, Peter. Mas, o inferno é uma coisa criada por nós, não é? Talvez você não precise ir tão longe por ela. Ela pode estar mais perto do que pensamos, não é? – perguntou, olhando para James.
Ele assentiu e se dirigiu até a caixa. Ao menos, ele agora podia tocá-la sem desmaiar. O que teria acontecido naquele dia, para serem aplacados pela caixa? Ou será que os homens teriam feito algo com ela, para que não ferisse as pessoas? Rapidamente, Annie descartou essa ideia. Por que eles a teriam desativado, se pareciam querer matá-los quando os encontraram?
Uma coisa que esses caras não queriam, era ser pacífico. Isso era evidente.
James tentou abrir a caixa, mas não conseguiu, pois falou que estava trancada. Ele saiu da sala e, quando voltou, estava segurando um martelo. Ele pretendia quebrar a caixa? Isso não parecia certo. Algo dizia à Annie que era loucura, que isso acabaria com tudo. Mas, por quê? Por que ele não podia? Pôde ouvir uma voz em sua cabeça, com uma doce voz, dizendo para fazê-lo parar de qualquer maneira. Annie finalmente estava enlouquecendo? Uma forte dor começou a latejar em sua cabeça, com uma solução. Mas, qual era a solução? Ela não conseguia enxergar. Parecia estar à sua frente, mas ela não conseguia ver.
Annie começou a ficar ofegante e a suar. Aquilo não parecia certo. Ela começou a olhar para a caixa, ainda buscando uma solução. Aquela voz ainda falava em sua cabeça, dizendo que era errado.
Sua visão começou a ficar turva, e ela pensou que ia desmaiar. Não podia, não agora. Mas não era isso. Sem aviso, o mundo em volta de Annie parou. James, ainda segurando o martelo, mirando a caixa. E Peter, ao seu lado, vendo o que o amigo iria fazer. Ela não sabia o que estava acontecendo. Tentou andar, mas suas pernas pareciam pesar milhões. Olhou em volta e percebeu que havia uma mulher parada ao lado da porta, com um longo e esvoaçado vestido vermelho. Ela inclinou a cabeça, como se notasse Annie somente agora. A mulher começou a olhar para onde James estava. Foi quando percebeu, talvez tarde demais, que James estava descendo a mão que segurava o martelo, ainda mirando a caixa.
Annie não teve tempo de fazer muita coisa. Apenas gritou, ou pensou que gritou. Não sabia se o grito havia saído de sua boca ou se ela o tinha sufocado em seu pensamento.
Por um momento, nada aconteceu. Annie achou que tudo o que havia pensado era loucura e insano. Por que uma caixa faria tanto estrago?
Mas esse momento de calma acabou tão rápido quanto havia começado, como se tivesse sido sugado por um furacão.
As paredes ao redor de Annie começaram a cair ao mesmo tempo em que um tremor percorreu todo o solo. Quando olhou para cima, pôde ver um pedaço de concreto vindo em sua direção. Por instinto, abaixou-se com as mãos na cabeça enquanto se preparava para ser esmagada. Quando abriu os olhos, pensou já estar morta. Teria a morte sido tão rápida, que não houve tempo para sentir dor? Mas percebeu que não, pois ainda podia ver aquela mulher, que agora vinha em sua direção.
O lugar em que estavam não era o mesmo. Annie se via diante de ruínas. Milhares de casas estavam destruídas, todas caídas. Não sobrara uma em pé. Ela podia ver muito longe, já que não havia casas ou prédios para lhe atrapalhar a visão. Também conseguia enxergar muitos corpos jogados pelo o que antes era uma rua. Algumas pessoas haviam morrido abraçados com outro alguém, e outras tinham perdido seus membros. A mulher que antes estava parada na porta, agora estava parada ao lado de Annie. O vento soprava muito forte, fazendo seu cabelo vermelho como sangue voar para todos os lados. Quando uma mecha parou em frente ao seu olho, ela o pegou e apontou para a casa atrás de Annie.
Sem fazer nada, Annie foi virada, e a visão era a mesma. De milhares de casas destroçadas. Quando ia virar para a mulher e tentar falar algo, percebeu um brilho na casa a sua frente. Quando olhou mais atentamente, percebeu que era a caixa com algo em volta.
A mulher compreendeu que Annie não conseguia ver direito àquela distância, então a pegou pela mão e puxou até estarem acima dos destroços da casa e perto da caixa. Quando olhou novamente para aquele ponto, conseguiu ver o que estava em volta da caixa.
Uma mão ensanguentada a segurava, apertando-a firmemente. Annie lembrou-se de quem estava perto da caixa há alguns minutos, e bile subiu à sua garganta. Aquela era a mão de James.
Quando tomou consciência da situação, um súbito desespero tomou conta de seu peito, deixando-a sem ar. Se James estivesse morto, Annie não saberia mais o que fazer. Fora ele quem a trouxera até ali, quem apresentara a ela os caminhos mais diversos e quem havia sido gentil com ela depois de muito tempo.
E Peter também estava ali? Como ele encontraria Lena, agora que estava morto? Annie se sentiu completamente débil e não sabia mais o que devia fazer. Tudo ficou escuro para Annie, e ela queria encontrar um lugar escuro e solitário, para quem sabe, poder morrer. Se Annie não tivesse tomado a estúpida decisão de fugir de casa, se houvesse sido forte e suportado seu pai, talvez James e Peter ainda estivessem vivos. O suicídio parecia acolhedor à Annie, que muitas vezes já havia feito planos para tal, mas nunca tivera coragem.
Tentou sair do lugar, mas ainda não conseguia mexer as pernas. Sentou-se e esperou as lágrimas virem, mas elas não vieram. Nem para chorar Annie servia. Sua alma gritava por socorro, se afogando em lágrimas. Mas seus olhos estavam secos, e não mudariam.
Ela sentiu uma mão pairar em sua cabeça, mas não se importou. Quem poderia ser? Todos estavam mortos. A mão começou a chacoalhar sua cabeça, forçando-a a olhar para cima. A mulher estava balançando negativamente a cabeça quando a levantou. Ela pegou a cabeça de Annie nas mãos, e Annie pensou que fosse acariciá-la, mas ao invés disso apenas assoprou seus olhos.
Toda a imagem ao redor de Annie começou a mudar, todos os destroços levantaram-se, recompondo a casa. A caixa passou pelos olhos de Annie e ela tentou tocá-la, mas seus dedos apenas passaram pela caixa, como se fosse feita de fumaça. A mão que estava grudada na caixa, Annie pôde ver, foi limpa de todo o sangue, como se tivesse sido lavada.
Enquanto tudo ainda se levantava, Annie viu a mulher andando em direção à Annie. Ela não estava com medo, pois percebera que a mulher era amigável. A mulher de vermelho tocou o peito de Annie, onde ficava o coração e desapareceu. Mas Annie sabia que não fora de verdade, pois podia senti-la dentro de si.
Quando todo o cenário estava reconstruído, a pequena Annie viu a cena que destruíra tudo ao seu redor. James, com o martelo na mão, estava abaixando-o. Mais uma vez, Annie ficou sem reação. Talvez toda a destruição se repetisse se aquela mulher não a houvesse ajudado, mas agora foi diferente. Annie sentiu um impulso no peito, onde saiu correndo e se jogou nos braços de James. Ele certamente ficou surpreso, porque retribuiu o que achou ser um abraço. Quando se afastaram, James ficou olhando com cara de dúvida e surpresa, tentando formular uma frase. Annie o poupou disso, dizendo:
– Você não pode fazer. Não pode destruir a caixa. Isso causaria um mal inimaginável.
Peter perguntou por que, e Annie lhes contou tudo o que viu. Eles entenderam, mas agora a dúvida era: como iriam abrir a caixa, sem causar nenhum dano?
Mais uma vez, Annie sentiu aquele impulso no peito, a impelindo a fazer algo. Ela não sabia o que, então apenas seguiu o impulso. As mãos de Annie tocaram a caixa, e todos puderam ouvir um clic. Peter e James não sabiam o que estava acontecendo, mas vendo que Annie não se movia, abriram a tampa.
Um intenso brilho veio de lá, que os fez levar as mãos aos olhos. Quando perceberam que o brilho havia diminuído, puderam ver o que havia lá dentro.
Não era muita coisa. Havia dois livros. Um azul escuro, intitulado “Cartas para as trevas”, enquanto o outro era inteiramente preto sem nada escrito por fora. A caixa também continha uma bússola, que parecia de ouro. Parecia ser muito antiga. Quando Annie a endireitou na mão, apontou para o norte como qualquer bússola. Talvez tivesse alguma utilidade desconhecida, mas não agora. Agora era simplesmente uma bússola.
Parecia não haver mais nada na caixa, mas Peter conseguiu ver um relógio de bolso no fundo. Quando ele o tirou, Annie colocou a mão no bolso de trás da calça, e tirou de lá um relógio idêntico ao o que veio da caixa. Peter ficou realmente assustado, mas Annie não sabia o porquê.
Ela o havia pegado no dia em que fora para o quarto, embaixo do travesseiro. Não existiam muitos relógios de bolso nessa época, mas era comum achar alguns antigos, e eles eram realmente parecidos.
Mas não parecia ser somente um relógio para Peter. Ele o tomou da mão de Annie, e colocou junto ao coração antes de dizer:
– É o relógio que dei para Lena. Ela adorava e... O que faz com você?
Annie teve que se recuperar do choque antes de responder. Ela estava no quarto de Lena?
– Eu achei debaixo do travesseiro. Pareceu algo normal para mim, esquecido pelo tempo.
Ele saiu da sala realmente abatido, e levou os dois relógios consigo. James olhou com pesar para o amigo, mas continuou a mexer na caixa.
– Você não deveria ir falar com ele?
– Não. Às vezes precisamos ficar sozinhos, para pensar um pouco.
Ele falou isso como se houvesse sentido o que Peter estava passando. Teria ele sofrido muito? Annie olhou para seu rosto, e soube a resposta. É claro que ele já havia sentido o que Peter estava sentindo. Estava tão na cara, só era preciso saber o por que. Porém, Annie ficou com medo de perguntar e ele ficar bravo com ela, ou desprezá-la. Mas, desde quando ela se importava em ser desprezada? Fora assim metade de sua vida; ela não iria se importar em ser desprezada mais uma vez. Principalmente sendo por uma causa tão delicada.
– Você parece compreender – começou ela – O que ele sente.
A fala de Annie veio como uma flechada no olho de James. Ele respirou fundo, mas respondeu.
– É tão evidente assim? – ele deu uma rápida risada sem humor e voltou a falar – Eu... Vivi por muito tempo o que ele está passando. Uma perda. Se não se importar, prefiro não falar disso agora, mas, sim. Realmente compreendo o que ele está passando.
Ainda não satisfeita com a resposta, continuou:
– Mas isto não é uma perda. Não sabemos o estado de Lena. E você disse que viveu por muito tempo o que ele está vivendo, isso quer dizer que agora está recuperado?
– Você é realmente teimosa, não é, senhorita? – ele balançou a cabeça, mas, vendo que Annie não iria parar de perguntar, respondeu – Eu tive um amor. Há uns dois anos. Ele acabou e, bem, eu fiquei como Pete está agora. Até alguns dias atrás.
– E o que aconteceu há alguns dias?
Quando James ia responder, Peter apareceu na sala parecendo recomposto. Ele sentou-se ao lado de Annie e pediu desculpas discretamente. Ela apenas assentiu, e continuou a remexer na caixa. Aquele assunto entre ela e James parecia estar encerrado, ao menos por enquanto.
James pegou o caderno azul e começou a ler, enquanto Peter tentava decifrar algum código oculto nos relógios. Annie aproveitou e pegou o caderno preto, para ler o que tinha dentro.
Eram símbolos, desenhados em todas as páginas, com inscrições que pareciam terem sido feitas em outra língua. Aquilo não fazia sentido para Annie, mas algo a dizia que conhecia aquilo. Que já havia visto todos aqueles símbolos, mesmo não pertencendo a ela.
Passou a mão em cada centímetro do livro, como se pudesse sentir suas origens. Ela sentia que deveria saber o significado daquilo, mas não conseguia se lembrar do por que. Eram muitos cadernos, e de repente ela se lembrou. Aquele caderno que haviam encontrado na casa tinham coisas escritas, mas Annie não teve tempo de ler o que era.
Ela foi correndo para o quarto onde havia deixado o caderno. Agora conseguia, pois tinha decorado o caminho.
Quando abriu o caderno, percebeu que não havia somente algumas páginas, como havia pensado. Todo o caderno estava com desenhos e inscrições, como o preto, porém este estava escrito em uma língua que Annie entendia.
Antes de começar a ler, voltou à sala para dizer a novidade para seus amigos.
James foi até ela e começou a ajudá-la a tentar decifrar aqueles enigmas. Peter ainda estava entretido com os dois relógios, então sequer ouviu o que Annie dissera sobre os cadernos.
Perceberam que aquilo se tratava de um livro com táticas de guerra e magias. Pareciam as inscrições de um feiticeiro. James e Annie não entendiam muitas coisas da parte da magia, mas sabiam que não era boa coisa. Lá falava sobre estrangulamentos e mutilações. Fora as táticas, que eram completamente ofensivas e letais.
Estavam procurando pistas de a quem poderia pertencer aquela caixa, até ouvirem Peter gritar:
– Eu consegui! Não acredito! Sei onde Lena está!
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