Guerra entre Mundos

4 Eu o queimarei inteiro.


Agora eu o queimarei de volta, eu o queimarei inteiro,

Apesar de eu ser condenada por isso, nós dois iremos jazer

E arder"

– Charlotte Mew, "In Nnhead Cemetery"

Depois da explosão de felicidade de Peter, Annie e James foram ver a utilidade da bússola.

Peter explicara que aquilo não era uma bússola, mas sim um rastreador. Quando Peter colocou o relógio de Lena ao lado da bússola, a mesma que haviam encontrado dentro da caixa mudou a direção, e começou a apontar para o Leste.

Todos ficaram boquiabertos, mas rapidamente guardaram tudo na caixa e saíram apressados. James pegou uma mochila para que pudessem levar a caixa sem se incomodar. Peter olhava incansavelmente para a bússola, e mal olhava onde pisava. James estava quieto desde que saíra da casa, mas Annie não queria perguntar o que estava acontecendo. Achava que já havia invadido demais a privacidade do amigo. “Conhecido”, corrigiu-se Annie. Eles não eram seus amigos. Embora a tivessem ajudado, ainda tinha dúvidas. Era como se eles vivessem em um mundo somente deles, não aberto para visitas. Na verdade, a ideia de pertencer àquilo parecia acolhedora, mas Annie tinha medo. Medo de invadir um lugar onde não fosse bem vinda, e esse acolhimento por parte dos amigos de James acabasse. Annie não queria isso.

Perdida em seus pensamentos, tropeçou no pé de Peter e se espatifou no chão. Peter não pareceu notar, mas James foi até ela e lhe estendeu a mão.

Annie sentiu um silêncio constrangedor, e percebeu que James esperava ao menos um “obrigado”. Ela engasgou e tentou:

– Obrigada. – um pequeno sussurro saiu de sua garganta, como se essa palavra não fosse dita há anos. Na verdade, fora exatamente isso o que aconteceu. Anos sem se importar com nada, nem consigo mesma. No fundo de sua mente, podia lembrar-se de sua mãe lhe ensinando que era educado pedir desculpas e agradecer. A lembrança foi sufocada por uma onda de ódio que a tomou por dentro. Muitas vezes Annie tentara ser educada, e apenas zombavam dela. Essa sociedade hipócrita... Por que Annie deveria ser educada em um lugar como esse?

– Parece que a senhorita não é muito familiarizada com atos de humildade.

– Humildade? Isso não é ser humilde, é ser educada. – respondeu irritada

James olhou-a espantado e corrigiu:

– Peço perdão, senhorita. Eu não quis ofendê-la.

– Não ofendeu, apenas... A verdade é que, há anos que não preciso ser educada com ninguém, e me sinto envergonhada quando tenho que fazê-lo.

James apenas assentiu, e retomou o ritmo da caminhada. Essa falta de curiosidade admirava Annie. Ela, por natureza, era curiosa. Como poderia imaginar que existissem pessoas como James, que respeitavam a privacidade?

– Sei o que está pensando. Acredite, eu estou curioso, mas penso que se quisesse me contar a razão de seus problemas, contaria. Eu não preciso perguntar o porquê.

Mais uma vez, Annie ficou espantada. A verdade era que, pela primeira vez em sua vida, ela queria dizer algo. Estava preferindo falar algo a ficar em silêncio. Logo se livrou dessa ideia. Que tipo de pensamento era esse? Annie não conhecia James, e ele poderia usar qualquer informação para aproximar-se de Annie. Isso, depois, certamente significaria dor. Significaria que ele seria mais uma pessoa que Annie acabaria machucando, ou afastando. Era só isso o que Annie sabia fazer: magoar pessoas. Sempre fora assim, e certamente agora não mudaria. A verdade era que ela tinha medo, e era somente mais uma fraca, então resolveu ficar em silêncio.

– Acho que é aqui. – disse Peter, agora mais contido – Isso é...

– Sim, Pete. É.

Annie não sabia sobre o que eles estavam falando, mas não perguntou. Mesmo porque, não precisou.

– Ele e Lena passaram algum tempo aqui, quando eram do orfanato. Eles não têm boas lembranças daqui — isso era uma ótima explicação para a expressão de medo no rosto de Peter – Você sabe que não precisa entrar aí, Pete. Posso fazer isso por você.

A expressão de Peter passou de medo para indignação. Era como se ele não acreditasse no que estava ouvindo. Quando sua expressão suavizou-se, ele falou:

– Jem, obrigado, mas não. Lena está aí, e deve estar tão assustada quanto. Isso é algo que devo fazer.

James assentiu com a cabeça, compreendendo. O que Peter sentia por Lena não era qualquer paixãozinha. Aquilo era algo muito mais forte, que particularmente, Annie pensava não existir mais. Por alguns era chamado de loucura, e por outros, afeição. Mas Annie sabia o verdadeiro nome. O nome que todos conheciam, e que pessoas como Annie temiam. Isso era amor.

Algo se agitou dentro dela, lembrando-a que nunca poderia ter isso, pois era letal. Tudo o que ela amava, acabava morrendo ou se afastando. E ela era atormentada por essa lembrança todos os dias de sua maldita vida, lembrando-a que nunca poderia ser querida. Lembrando-a que sua única companhia durante o resto de sua vida seria a escuridão. Essa não era piedosa, e, Annie sabia, nunca se afastaria. Mesmo que implorasse, essa densa névoa de treva nunca daria trégua à Annie, nunca a deixando esquecer que ela era inútil e que nunca mais sentiria a felicidade, perdida para sempre na loucura de seus próprios pensamentos.

Mas, mesmo assim, Annie decidiu que como não podia ser feliz, ajudaria outro alguém a sê-lo.

– Bem, e então? Vamos entrar ou não?

Annie pôde perceber que Peter se espantou um pouco por ela ter dito algo, respondendo:

– Claro. Mas, não acha óbvio demais entrar pela porta da frente? Como idiotas?

– Na verdade, não. Eles não devem pensar que somos idiotas, ou devem achar que mesmo idiotas não entrariam pela porta da frente. Ou seja, devemos agir como idiotas. É isso o que eles não esperam.

– Isso é brilhante. Mas ainda temos um problema. Como entramos? A porta está fechada.

Respondendo a pergunta de Peter, James chutou a porta, arrancando-a das dobradiças. Annie não esperava uma explosão dessas de James, mas Peter parecia até um pouco zangado.

– Muito astuto, Jem. Mas nossa primeira opção não seria o silêncio?

– O que é isso, benzinho. Sei que adora ver meus músculos entrando em ação. – falou, irônico. Annie sabia que James estava fazendo isso para deixar Peter um pouco menos tenso, e o admirou um pouco mais por isso.

Quando entraram, Annie não pôde ver nada. Estava tudo completamente escuro, apenas com a pouca iluminação que vinha da porta. James pegou na mão de Annie, e ela a puxou rapidamente.

– É apenas para não nos perdermos, senhorita. – Annie estendeu sua mão novamente, percebendo que James estava seguindo Peter. Ele passava as mãos pela parede, como se estivesse procurando algo, até que pareceu encontrar. Era como uma tocha. Ele passou um pouco mais a mão pela parede, até encontrar outra coisa. Isso Annie não conseguiu identificar o que era; apenas o viu raspando na parede, e uma faísca sair disso. Rapidamente, ele levou sua mão até a tocha, que se acendeu rápida e furiosamente. Toda a sua ponta foi tomada por fogo, e agora eles podiam ver o caminho.

Continuaram em frente, e fizeram algumas curvas. Annie não se esforçou para decorá-las. Nunca fora boa com isso, e esse lugar era praticamente um labirinto.

Quando fizeram mais uma curva, puderam ouvir um barulho. Começaram a andar mais silenciosamente, e conseguiram ouvir gritos que pareciam de homens. Peter e James espiaram pelo vão de uma porta para ver o que estava acontecendo, e a cor de Peter passou de branco algodão para vermelho sangue. Annie apenas percebeu que ainda estavam de mãos dadas quando James a soltou para colocá-la na boca de Peter, afastando-o da porta. Ele colocou a parte da frente de seu antebraço no pescoço de Peter, falando palavras que eram ininteligíveis para ela.

Annie foi até o pequeno vão que se encontrava na porta, e espiou por ali. A visão que teve foi terrível. Lena estava sentada em uma cadeira, rodeada por três homens. Seu rosto estava todo ensanguentado e inchado. Ela parecia não aguentar mais um suspiro. O mais forte estava em sua frente, e era o que estava gritando, pedindo explicações que Lena não iria dar. Quando o homem fez mais uma pergunta que não foi respondida, ele deu um soco que derrubou Lena no chão com a cadeira. O homem começou chutando sua barriga, e depois subiu para a cabeça. Quando ele ia dar mais um chute, James, inexplicavelmente estava ao seu lado, deferindo-lhe um belo soco no estômago. O que estava à esquerda de Lena começou a puxá-la pela perna, mas Peter já estava lá, dando socos e chutes. O terceiro homem apenas observava assustado. Annie percebeu que James e Peter não eram lutadores profissionais, mas sabiam o suficiente para deixar bons hematomas no inimigo.

Quando Annie viu que o terceiro homem começou a pegar Lena, Annie saiu correndo e pulou em suas costas. Ele era pelo menos duas cabeças maiores que ela, mas ficou espantado o suficiente para largar Lena. Ele se chacoalhou, e Annie caiu. O homem abriu os braços, pedindo que Annie fosse até ele. E ela foi. Acertou suas partes baixas, e logo depois deu um chute em sua canela. Ele não parecia mais em condições de ficar em pé, ficando em posição fetal. Aproveitando a vantagem, Annie deu outro chute, agora em seu rosto. Ouviu um barulho, e concluiu que havia quebrado seu nariz. Ela ia começar a pisoteá-lo quando um par de braços a pegou pela cintura e a levou daquela sala.

Em alguns segundos, estava fora da casa com James, Peter e Lena em seus braços. Quando James fechou seus olhos, Annie sentiu sua cabeça girar, e logo estava na casa. Estava começando a perguntar o que havia acontecido, até que se lembrou do dote de James. O teletransporte.

Ela ainda estava se recuperando do choque, até ver Peter deitar Lena em um dos colchões e debruçar-se sobre ela.

Percebeu um pouco espantada, que Peter estava chorando e falando algumas coisas para Lena.

– Acalme-se, acalme-se. – Peter virou para trás e gritou – James! Faça alguma coisa, por favor! Por favor, por favor, por favor!

Annie ainda estava parada, até que James lhe disse:

– Você poderia subir até o quarto e pegar algumas roupas para ela?

Virando lentamente o rosto, olhou para James e assentiu. Balançou um pouco a cabeça, para seu cérebro voltar a funcionar. Estava tudo acontecendo muito rápido, e Annie não conseguia acompanhar. Saiu correndo e remexeu no guarda roupa. Pegou o primeiro vestido que achou. Quando voltou à sala, James estava passando um pano molhado no corpo de Lena. Annie percebeu que ele não estava conseguindo fazer isso muito bem, porque estava tremendo. Provavelmente só o fazia por causa de Peter. Annie colocou o vestido ao lado de Lena, e pediu o pano a James.

– Deixe que eu faço. Vá com Peter para outro lugar; vou trocá-la.

Ela pôde ver um olhar de agradecimento em seu rosto, então o viu pegar no braço de Peter e sumir. Annie ainda não estava acostumada com isso. Talvez nunca se acostumasse. Ela deu um pequeno pulo, repreendendo a si mesma. Falou como se fosse passar mais muito tempo com eles. Ela não iria se acostumar com aquilo, porque logo teria que ir embora daquele lugar.

Agachou-se ao lado de Lena e a despiu. Ela ainda estava muito ensanguentada. Percebeu que James havia deixado uma vasilha com água ao lado do colchão. Annie molhou o pano e começou a passar em Lena. Em alguns momentos, ela abria os olhos. Quando Annie tentava falar com ela, os fechava novamente. Teve um momento em que ela o abriu e toda sua órbita estava branca. Annie pegou um pano que estava ao lado, molhou-o e colocou na testa de Lena, que parecia estar delirando. Sua temperatura estava muito elevada, mas a única coisa que ela poderia fazer era colocar os panos em seu corpo.

Depois de Lena já estar toda limpa, Annie a vestiu com o vestido que havia pegado no guarda roupa. Ele era azul marinho, o que destacava os cabelos pretos de Lena.

A água da vasilha agora estava completamente vermelha. A única coisa que Annie poderia fazer era esperar James e Peter voltarem. Lena ainda estava delirando, voltando à consciência algumas vezes.

Após mais um tempo esperando, ouviu uma voz vinda do lado de fora da sala. Era James.

– Terminou?

Annie avisou que já havia terminado seu trabalho, e James entrou. Ele não estava mais com Peter, o que Annie estranhou. Percebendo o olhar de dúvida, James respondeu:

– Eu o coloquei para dormir um pouco. Ele estava muito alterado. Mas, provavelmente, acordará daqui a pouco.

– Por que não levam Lena a um hospital? Ela está febril, e delirando.

James respirou fundo, e começou:

– Ela já ficou assim uma vez. Não me lembro do por que. Nós a levamos para o hospital, e ela matou o médico, incinerado. Não o fez de propósito, mas em um de seus momentos de lucidez, ela achou que ele fosse um inimigo. E, como eu lhe disse, não consegue controlar seu poder. Então, bem, fugimos de lá.

Annie não sabia o que dizer. Apenas ficou calada. Mais um pouco de espera e Peter se juntou a eles.

Os três ficaram olhando Lena, sem poder fazer algo. Estavam todos tristes, mas não havia o que fazer. Annie levantou-se e foi para o quarto. Queria ler mais do caderno, mas estava esgotada para isso. Apenas deitou-se na cama e tentou dormir, mas também não conseguiu. A adrenalina ainda rodava em seu sangue, deixando-a inquieta.

Ouviu uma batida na porta, e foi abrir. Era James, perguntando se podia entrar. Logicamente, o deixou entrar. Ela se sentou na cama, e ele continuou de pé, andando em círculos no quarto. Parecia inquieto, querendo dizer algo, mas não conseguia.

Annie abriu a boca para dizer algo, mas no mesmo instante James falou.

– Senhorita, preciso dizer algo.

– Então, diga.

Ele abriu e fechou a boca várias vezes, tentando dizer algo, mas não conseguiu. Annie estava ficando irritada. Ela queria descansar, mas James não deixava. Ele estava ali há algum tempo, e não fazia nada. Annie resolveu que iria pedir a James que a deixasse descansar, mas, quando se levantou, ele colocou-se em sua frente.

– Não tenho como falar. Não consigo. Então, bem...

Annie não era muito alta, então James começou a se abaixar. Ela demorou um pouco para perceber o que ele estava prestes a fazer, mas quando percebeu, o afastou com um tapa.

– Você estava prestes a me beijar?

– Eu... Não... Na verdade, quer dizer... – começou James, gaguejando – Me desculpe, senhorita.

Com isso, saiu do quarto tão rápido quanto entrou. Annie ainda estava surpresa com o que James tinha tentado fazer. Será que ele gostava dela? Certamente, sim. Pensando nisso, Annie começou a entrar em desespero. O que ela mais temia, estava se tornando realidade. Se ele realmente gostasse dela, Annie iria começar a gostar dele. Isto é, se isso já não estivesse acontecendo. Ela prometera a si mesma que não se permitiria ser feliz novamente. No final, ambos iriam se machucar e sofrer. Provavelmente Annie já o havia machucado quando negara seu beijo.

Ela tinha que sair daquela casa, o mais rápido possível. Não podia deixar que seus sentimentos por James aumentassem, e também não podia mais machucar James.

Annie decidiu que iria embora assim que Lena estivesse melhor, pois por enquanto, devia ajudar-lhes.

Resolveu que agora iria dormir, pois o cansaço do dia todo havia recaído sobre ela nesse momento.

Depois de uma conturbada noite de sono, trocou-se e foi ver Lena. Ela ainda estava deitada, com Peter ao seu lado. James estava sentado em um dos sofás, com a cabeça entre as mãos. Annie ficou de pé, parada na entrada da sala. Quando James a viu, uma luz se acendeu no fundo de seus olhos, mas logo se apagou. Talvez ele tivesse se lembrado do dia anterior.

Ele estava andando até ela, mas não pôde terminar o caminho. Uma explosão veio de perto de Peter. Quando olharam, Lena estava suspensa no ar. Algo como asas de fogo saiam de suas costas. Ela abriu lentamente seus olhos, que estavam tomados pelo fogo. Agora todo o seu corpo estava incendiado. Peter estava no chão, muito perto dela, e Annie não sabia como ele não havia se queimado depois daquela explosão. James provavelmente percebera a mesma coisa que Annie, e estava andando até Peter para tirá-lo dali, mas foi interrompido por Lena. Ela deu um grito, e uma das asas lançou uma bola de fogo aos pés de James. Instintivamente, ele pulou para trás.

Annie viu que ele se teletransportou até perto de Lena, e depois voltou para o seu lugar. Ela ficou assustada, deu mais um grito, e dessa vez lançou uma bola de fogo em um dos sofás. Annie sabia o que James ia tentar fazer, mas sabia que ele não conseguiria sem uma distração. Ela olhou em volta, procurando por algo que pudesse jogar, quando avistou um quadro logo atrás. Era uma pintura simples e muito famosa de uma mulher. Annie o pegou e jogou em Lena. Quando olhou para Annie, James correu até Peter e o pegou pelo braço, quando ele ia se teletransportar, Peter soltou-se de seu braço.

Ele levantou-se com um olhar de determinação e abriu os braços. Tudo em volta de Annie começou a voar, como da vez em que sequestraram Lena. Água começou a cair de algum lugar, diretamente em Lena. Começou a sair fumaça dela, e Annie assustou-se. O que estava acontecendo com Lena?

Peter começou a gritar, e do lado de fora da casa começou uma forte tempestade. Um raio irrompeu do telhado e acertou Lena em cheio. O telhado ainda estava intacto, mas Lena não. Seu vestido agora estava em farrapos, e ela gritava. As asas pareciam estar sendo sugadas por suas costas, enquanto todo o seu corpo entrava em combustão. Uma forte luz foi emitida por seu corpo, e Annie pôde ver outra explosão enquanto James pulava sobre ela, jogando-a no chão. James levantou-se e perguntou:

– A senhorita está bem?

Annie apenas assentiu, chocada demais para dizer algo. James foi até Peter, que agora estava ajoelhado no chão. James se ajoelhou ao lado de Peter, que o abraçou. Ele parecia estar sofrendo muito. Annie podia ver a dor em seus olhos. James o abraçou mais forte, como para lhe provar que estava ali, para lhe ajudar. Que ele estava ali há qualquer momento, para qualquer coisa. Ainda estava em choque, quando sentiu alguém a balançando. Ela focou seus olhos, e percebeu que era James. Ele estava de pé, ao seu lado, levantando-a do chão. James olhou profundamente em seus olhos, procurando algo. Annie não soube dizer se achou, mas sabia que quando ele a abraçou, ela sentiu algo que não sentia há muito tempo. Segurança. O mundo poderia cair naquele instante, e ela não se importaria. Naquele momento, Annie não quis saber mais nada sobre sentimentos ou felicidade. Apenas queria ficar naquele abraço pelo resto de sua vida, sentindo aquela segurança que os braços de James transmitiam.

Ela não soube exatamente quando aconteceu, mas em algum momento Annie adormecera nos braços de James, ali mesmo, em pé. Então, algumas horas depois, acordou no quarto. Annie estava sentindo frio, mas não era físico. Era algo dentro de si, como se sua alma estivesse arrepiando. Ela levantou-se e foi para a sala, mas ninguém estava lá. Não iria explorar a casa novamente; da última vez, perdeu-se e começou a se sentir como se estivesse nas trevas. Resolveu sentar no sofá e esperar.

Não existia um livro sequer naquele cômodo. E nem em seu quarto. Era possível existir em algum lugar, mas não em um que Annie houvesse encontrado. Ela estava sentindo falta de fugir um pouco da realidade, entrando em outro mundo. Esse lugar era real demais para Annie. Não sabia quanto tempo havia se passado até que Peter apareceu na porta da sala.

– Olá. – ele disse

Ela o estava achando tão calmo, mesmo depois de tudo o que havia acontecido. Peter praticamente matara a própria namorada. Annie havia visto em alguns filmes que, quando alguém morria, você tinha que lamentar por sua morte, então foi isso o que tentou fazer.

– Olha, lamento pelo o que aconteceu com Lena.

– Não lamente. – foi o que disse, e mais nada.

Eles ficaram quietos, sem dizer mais nada. Annie levantou-se e começou a olhar os quadros. Eles eram estranhos, mas de pintores famosos. Quando Peter viu isso, disse:

– Annie, venha comigo.

Ela não disse nada, apenas o seguiu. Ele pegou uma lanterna e dessa vez Annie tentou prestar atenção no caminho. Lógico que, quando parou onde Peter estava, já não se lembrava de qual a última curva que havia feito. Ele abriu a porta e deixou Annie passar. Quando entrou, seu coração disparou. Livros, uma biblioteca, cheia deles.

– Vou deixar a lanterna aqui. Quando quiser voltar, siga reto, vire a esquerda. A partir daí, sabe o caminho.

Annie apenas assentiu. Pegou a lanterna da mão de Peter e começou a passar a mão pelos livros. Abriu um deles e sentiu o cheiro. Aquele cheiro tão familiar. Depois de alguns minutos rodando toda a biblioteca, pegou um exemplar de “A Torre Negra: As Terras Devastadas”. Já havia lido os outros volumes, mas este ainda não havia tido a oportunidade. Passou horas lendo, e quando estava chegando à metade, James apareceu na porta.

– Senhorita? Tem uma pessoa aqui... Achei que deveria ver.

– Claro.

Annie deixou o livro em cima da poltrona onde estava sentada, e seguiu James com a lanterna. Quando chegou à sala, quase gritou, mas se conteve com a mão na boca. Os cachos pretos como a noite, como os de Lena, agora estavam em uma mulher idêntica a ela.

– Prazer, sou Mary. Irmã de Lena.