Guerra entre Mundos
9 Pouco dura a dor que termina em lágrimas.
“Pouco dura a dor que termina em lágrimas, e muito longo é o período em que o sofrimento permanece no coração.” — Pietro Aretino
James estava cansado e ferido da ida ao Hollywood Sign. Conseguia se teleportar apenas alguns metros, enquanto as pessoas olhavam espantadas. É meio impossível culpá-las. Não é muito comum ver três adolescentes surgindo no meio de Los Angeles.
Ele conseguiu levar Annie e Peter até perto de uma linha de trem, onde esperaram. Peter ainda não havia acordado, o que tornava o teletransporte mais difícil. Annie sentia que cairia a qualquer instante, e estava com medo de ser mais um peso morto.
Andou atrás de James até o meio da linha de trem, onde ele parou e disse:
– Annie, confia em mim?
Que tipo de pergunta era essa? Ela ia responder no momento em que sentiu os trilhos tremerem.
– O trem! James, venha. – Annie pegou em sua mão, mas ele permaneceu imóvel – Droga, James. Venha logo.
Ainda imóvel, segurou Annie firme com um braço enquanto levava Peter com o outro. James correu até o meio dos trilhos, arrastando Annie. Ela gritava e se debatia enquanto via o trem se aproximar. Quando pensou que iriam morrer, o trem sumiu. Simplesmente desaparecera. Annie não enxergava nada, tudo em seu campo de visão estava embaçado. Ela só conseguia ver fumaça. O trem ainda estava perto. Annie podia ouvi-lo claramente, como se estivesse acima dela.
– Senhorita, temos que ir para o final! Aqui tem muita fumaça.
As palavras de James não faziam sentido para Annie. Ela estava sufocando com a fumaça.
Ouviu James murmurando palavras mal-educadas enquanto a pegava pela cintura, ajudando-a a levantar. Somente nesse momento percebeu onde estava. James os teletransportou para o trem. Eles estavam em cima dele.
Annie conseguiu recuperar os sentidos, mas mal conseguia respirar. Saiu correndo atrás de James, que carregava Peter com dificuldade.
– Não vamos conseguir pular. Não com Peter. – o rosto de James estava contorcido pela dor. Nem mesmo ele conseguiria pular.
Embora tentasse parecer determinado, Annie percebeu que estava à beira das lágrimas. Ela estava querendo desistir. Isso tudo estava sendo demais. Annie queria acabar com tudo. Seria muito mais fácil pular daquele trem ou simplesmente morrer sufocada na fumaça. Se tudo acabasse agora, ela não precisaria mais lutar. Mesmo porque não havia nada que a prendesse ali.
Assim que olhou para o rosto de James, deixou de pensar nisso. Ao menos por enquanto. Ele tinha uma expressão de esperança, como se esperasse uma solução vinda de Annie. Alguém estava realmente acreditando nela, pela primeira vez em anos. Isso a fez continuar pensando racionalmente.
– Aqui, James. Vamos descer aqui.
Annie desceu um dos vagões, esperando James descer Peter.
Assim que desceram, James acomodou a cabeça de Peter na caixa. Claramente não estava interessado nela agora.
– Você está bem? – perguntou ele.
Depois do que acabara de passar, estava destruída. Ainda queria acabar com tudo, sem se importar com as consequências.
– Estou. Não se preocupe. – respondeu simplesmente
Continuaram quietos, até ouvirem passos vindos de dentro do vagão. Era absolutamente normal pessoas trafegarem dentre os vagões, mas eles não haviam pensado nisso. Se alguém os visse ali ou, pior, se vissem Annie coberta de sangue, poderiam jogá-los do trem. Maldita fadiga mental.
Levantou-se rapidamente e tentou dar um pontapé na porta a sua frente, mas não causou dano algum.
A expressão de James era indecifrável, mas Annie podia ver um brilho em seus olhos. No momento em que ia perguntar o que ele pretendia, a porta do vagão foi aberta. Olhando para frente, Annie só via pernas. Quando olhou para cima, viu um rosto enfurecido. Era um dos homens de terno.
Sem pensar, James se levantou e tentou empurrá-lo. Não adiantou muita coisa. O homem mal saíra do lugar.
Annie levantou-se e tentou socar, mas dessa vez o homem estava preparado. Pegou seu pulso e torceu. O grito de Annie ecoou por todo o vagão.
Vendo James tentar acertar o homem, decidiu que, se não podia derrotá-lo, então terminaria junto dele. Subiu em uma das grades do vagão e estava se preparando para pular no homem.
Nesse exato momento, James pegou a caixa e bateu com força na cabeça do homem. Enquanto cambaleava, James o empurrou. Ele caiu sem dar um grito, mas foi audível o som da carne sendo cortada enquanto o trem passava por cima de seu corpo.
Olhando atônita para o que acabara de acontecer, um dos pés de Annie escorregou, a obrigando a pendurar-se na grade com apenas uma mão.
James rapidamente percebeu o que aconteceu, e a puxou para junto de si.
Depois de se recuperar do choque, Annie gritou:
– Que droga você fez, James? Matou um homem!
Ele estava olhando para suas mãos, também não acreditando no que fizera. Quando olhou para Annie, o brilho em seus olhos estava mais intenso.
– Ele estava tentando lhe matar, Annabel! O que queria que eu fizesse?
Nunca tinha falado seu nome a ele, mesmo porque sempre o odiou. Deixaria isso para depois.
Se o que falara era verdade, matou o homem tentando protegê-la. Isso justificaria? Uma morte por outra. Mas afinal, quem ela era para julgar? Matou um homem esmagando sua cabeça com uma caixa. Se alguém devia ser punida, esse alguém era Annie.
Sem saber o que fazer, pulou Peter e o pegou em um abraço. Não importava o motivo, estavam todos esgotados e sem condição de pensar. Ele a apertou contra seu corpo, como se esperasse isso há tempos.
Annie se afastou, mas James a segurou pelo braço e virou seu pulso. Uma pontada de dor a atingiu no momento em que ouviram a porta do vagão se abrindo novamente.
Era um homem, aparentemente normal. Começando a se aproximar, vinham alguns policiais.
– Me sigam, agora.
Sem dizer mais nada, pegou Peter e começou a andar. A única opção que tinham era segui-lo. Annie pegou a caixa e acompanhou o homem.
A porta que antes estava trancada foi aberta com um simples empurrão daquele estranho homem.
Quando entraram no vagão, o homem abriu uma porta lateral e jogou Peter. James saiu correndo e se jogou atrás.
Annie só conseguia olhar espantada enquanto o homem a puxou pelo pulso machucado e jogou-a para fora.
Suas costas bateram em algo, e ela caiu.
Não sabia onde estava. Pôde ver James carregando Peter em seu ombro, e não conseguia enxergar mais nada. Sua visão estava turva, e sentia que suas forças estavam se esvaindo. Sentou e colocou a cabeça entre as pernas. Não podia cair agora.
Sentiu a mão de James em suas costas enquanto dizia:
– Senhorita, estamos perto. Vamos.
Ele se abaixou e a segurou pela cintura, mas Annie o afastou delicadamente. Sabia o quanto estava cansado.
Assim que deu impulso para levantar, caiu. James se aproximou e ignorou o fraco empurrão. Além de carregar Peter, que estava completamente inerte em seu braço, teria que carregar Annie. Isso seria muita coisa.
Com a ajuda de James, conseguiu se levantar. Arranjou forças para caminhar e o seguiu.
Depois de alguns quarteirões, Annie conseguia ver o orfanato. Suspirou aliviada enquanto abria a porta.
Tudo estava no lugar onde haviam deixado. Mary descansava silenciosamente em um dos sofás, e acordou sobressaltada quando os viu.
– Peter! – um enorme sorriso se formou em seu rosto, mas se desfez no momento em que viu o estado do garoto – O que fizeram com ele?!
Annie e James estavam esgotados demais para discutir, então simplesmente ficaram olhando enquanto Mary levava Peter para outro lugar.
Percebeu que estava tremendo, mas não era pelo frio. Ela se abraçou como se pudesse afastar o medo. Mesmo James estando mais exausto do que Annie, abraçou-a forte. Ela se sentiu protegida, e somente James conseguia fazê-la sentir isso.
Annie puxou levemente James até seu quarto, e o deitou na cama. Ela o beijou carinhosamente na testa e apagou a luz. Sentou na cadeira ao lado da cama e esperou seu amigo dormir. A verdade é que Annie não queria ficar sozinha em seu quarto, porque assim teria que pensar.
Seu pulso latejava provavelmente quebrado. Mas isso não importava.
Reparou que havia muitas fotos em cima de uma estante pequena, e logo ao lado da porta um pequeno guarda-roupa descansava com apenas uma porta. Ouviu uma batida na porta antes de cair no sono.
Quando acordou, estava em seu quarto. Alguém a levara para lá.
Em algum momento dentro da casa, soltou a caixa. Só não sabia onde. Saiu correndo para a sala e trombou com James, que estava abrindo a porta.
– Senhorita! Você está bem?
– A caixa. – ofegou – Eu a deixei cair. A Mary vai pegar.
O rosto de James, antes assustado, havia suavizado.
– Não se preocupe. Ela está em um lugar seguro. E seu braço, como está?
Annie olhou para o pulso e percebeu que estava com uma tala. Apenas assentiu. James a chamou para comer, mas ela não o acompanhou. Mal conseguia falar.
Quando Annie se sentou, imaginou que James estivesse na cozinha. Mas não estava. Ele se sentou ao lado dela e começou a falar.
– Você sabe quem era aquele homem? – Annie negou. Ela não sabia e não queria saber. Estava mental e fisicamente extenuada – Sabe por que confiei nele para pular do trem?
– James – Annie inspirou fundo e disse – Eu não quero saber. Preciso ficar sozinha, só um pouco.
Ele não parecia espantado, mas Annie estava cansada demais para se surpreender.
– É claro. – a expressão de James ficou séria e ele saiu.
Por que não se matou quando teve oportunidade? Agora só serviria para magoar James, o único que acreditava nela.
Existia todo um ciclo para isso: alguém se aproximava de Annie – Annie gostava da pessoa – a pessoa fazia Annie feliz – Annie magoava a pessoa. Era frustrante.
Ela deveria fazer algo, não deveria? Ir atrás de James e pedir desculpas? Não, isso não seria certo. Porém, deveria ao menos uma explicação, afinal, ele salvara sua vida.
Levantou-se e ia andando para o quarto de James, quando um puxão no peito a fez cambalear para dentro de uma porta. Nesse exato momento, a porta foi fechada e o único ponto de luz se apagou.
Tudo estava escuro, e Annie não enxergava nada. Viu algo se mexendo à sua direita, seus olhos se acostumando com a escuridão.
Agora que conseguia ver alguns contornos, reparou que o vulto que havia se mexido era uma pessoa. Ela estava em pé e em posição de ataque, da mesma forma que Annie. Se levantou rapidamente e pulou para trás. A forma a imitou.
O coração de Annie estava batendo rápido e forte, parecendo que ia rasgar seu peito.
Com passos curtos foi se aproximando daquela estranha forma. Não sabia se era coisa da sua cabeça, mas parecia que a sombra imitava seus movimentos.
– Pare com isso! – gritou Annie
A boca da sombra mexeu, mas não saiu som algum. Annie estava assustada, mas não tinha o que fazer. Resolveu que era melhor se aproximar, e foi o que fez. A sombra também estava se aproximando, porém, quando chegou perto, deu um soco no queixo de Annie. Despreparada, caiu no chão. Levantou-se rapidamente, retribuindo o golpe.
Esperava que a garota caísse ou, ao menos, virasse o rosto. No entanto, quem sentiu a dor foi Annie. Seu rosto começou a latejar, sentindo a dor que a garota deveria sentir.
Assustada, levantou-se e correu. Não sabia para onde, apenas correu. Quando se virou, o rosto do vulto estava a centímetros do seu. Soltou um grito que esvaziou seu pulmão, mas a garota não pareceu notar ou se importar.
Ela era cinza, com os contornos dos olhos, nariz e boca. A única coisa que a identificava sendo uma garota era seu cabelo prata.
Não queria tocá-la, com medo de que algo pudesse acontecer. Sua respiração estava pesada, fazendo os fios de cabelo da garota tremularem.
Sem explicação sua forma começou a mudar, colorindo a pele e os olhos; esse tomando cores diferentes, algo único. Um cor esmeralda e, o outro, cinza nublado. Essas cores já haviam sumido das lembranças de Annie. Essas cores tão familiares, que pensou que nunca mais poderia ver... Estavam logo ali.
Os olhos de sua mãe.
Espremeu-se tanto quanto podia contra a parede, tentando fundir-se a ela. Não acreditava no que estava vendo.
Quando percebeu, sua mão estava sendo levada para o rosto da mãe.
Sua pele não era suave como em suas lembranças. A pele agora era fria e lisa. No momento em que começara a acariciar o rosto da sua mãe, sentindo o toque em sua própria pele, as luzes se acenderam.
Annie foi cegada por um momento antes de perceber que sua mãe não estava mais ali.
Teve vontade de gritar, mas não saiu som algum de sua boca. Apenas ficou ali, parada. Não conseguia mais ver o que estava a sua frente. Era tudo escuro em sua mente, todos os dias. A luz que a iluminava havia morrido e, quando finalmente ressurgira, simplesmente desapareceu. Isso era tão injusto.
Sentiu mãos gélidas em seus braços e imediatamente se afastou. Começou a rastejar pelo cômodo, sem mais forças para se levantar.
– Acalme-se! Sou eu, senhorita, sou eu.
O grito que estava contido em Annie foi liberado sem ela perceber. As mãos gélidas se afastaram enquanto Annie continuava gritando e se debatendo freneticamente. Quando se acalmou, James a pegou no colo, e ela parou de se importar com tudo. Sabia que estava sendo carregada, mas não sabia onde estava. Um estado de torpor tomou conta de seu corpo, fazendo-a alternar entre a consciência e inconsciência.
No último momento em que abrira seus olhos estava no quarto. Não sabia em qual, mas sabia que não era o seu.
Teve vários pesadelos, mas não se lembrava de nenhum.
Não queria ter acordado no momento em que abriu os olhos, porque era aí que seus pesadelos começavam.
James estava deitado ao seu lado, acordado. Virou o rosto quando Annie levantou a cabeça.
Ele não disse uma palavra quando lágrimas irromperam dos olhos de Annie, ou quando ela começou a jogar as fotos da estante no chão. Ou sequer disse algo quando Annie socou a parede, lesionando ainda mais seu pulso. Somente quando desabou no chão foi que ele se levantou. Sentou-a na cama, e voltou a deitar onde estava.
Provavelmente James só estava ali para impedir que Annie fizesse alguma besteira.
– As freiras nos colocavam naquele lugar quando aprontávamos. Ele libera um gás que induz seu cérebro a relembrar coisas que você não quer ou que deixaram uma marca muito grande em sua vida. – James olhava para o teto, como se estivesse relembrando quando isso acontecera com ele – Mas não se preocupe. Você vai ficar bem.
Ele sabia quanto Annie queria acabar com a própria vida, o quanto viver doía e maltratava a alma. James só estava ali porque a entendia, porque sentia o mesmo que ela. Quando estava se levantando para sair da cama, deu um leve beijo na testa de Annie. O mesmo que ela fizera com ele.
Puxou-o pelo braço e o deitou novamente na cama.
– Não vá.
Entrelaçou-se no corpo dele. Sentiu a segurança que apenas James transmitia. Não sabia por mais quanto tempo poderia ficar ali, mas não queria sair. Ele tampouco queria larga-la, então a abraçou contra seu corpo, e ela poderia ficar daquele jeito para sempre.
Fale com o autor