Guerra entre Mundos
10 Formas que focalizam e prendem ideias.
“As palavras são pequenas formas no maravilhoso caos que é o mundo; formas que focalizam e prendem ideias, que afiam os pensamentos, que conseguem pintar aquarelas de percepção.” – Diane Ackerman
Annie não queria sair do abrigo em que estava nos braços de James, mas teve que o fazer. Estava escurecendo e os dois continuavam no mesmo lugar, sem dizer uma palavra. Era como se o silêncio dissesse as palavras que precisam ouvir. Mesmo querendo, Annie não conseguia dormir. Sua mente estava sendo assombrada por milhões de pensamentos.
– Senhorita, precisamos levantar. – sussurrou James
– Claro. Como está Peter?
Precisava se entreter com outra coisa, ou sentia que explodiria.
– Ele está bem. Fui ver como estava antes de vir para cá. E também tem a questão de que Mary se trancou no quarto com ele. Disse que cuidaria dele melhor que ninguém.
– Espera... Isso quer dizer que ela não deixa você ver o Peter?
– Sim.
Depois de todo o estresse que passara, qualquer coisinha podia tirá-la da sanidade.
Correu em passos duros até o quarto de James e bateu, e arranhou, e gritou, até que Mary abriu a porta com olhos furiosos. Annie pensava que sua aparência estava péssima, porque quando a porta foi aberta Mary pulou para trás de susto, ainda com a raiva nos olhos.
– Que droga aconteceu com você? Está fedendo.
Certamente estava, pois não tomara banho desde que voltou. Tinha certeza de que se olhasse no espelho assustaria a si mesma.
Mas o assunto agora não era Annie, e sim Peter.
– Onde. Está. Peter.
Pronunciou cada palavra lenta e claramente, para Mary entender que Annie não aceitaria outra resposta se não a verdade. Felizmente, aconteceu o que esperava. Mary se assustou. Infelizmente, se recompôs rapidamente.
– Não importa. Vocês o maltrataram!
– Olha aqui, sua louca, nós o impedimos de morrer. Agora diga onde está Peter.
Mary continuou bloqueando o caminho, então Annie simplesmente a empurrou.
Quando entrou, viu Peter em uma cama de casal, ainda desacordado. E aparentemente limpo.
– Você deu banho nele?
– Tenho irmãos, Annie. Não existe problema quanto a isso. – a expressão de Mary estava completamente inalterada, então realmente não existia problema – Como pode ver, seu amiguinho está muito bem aqui. Agora saiam.
Não tinha percebido James chegar, mas se espantou quando ele começou a dizer:
– Esse lugar é mais nosso do que qualquer outro, então seria bom que você fosse mais educada com todos aqui antes que eu lhe jogue porta afora, garota.
Depois disso simplesmente virou as costas e saiu, deixando ambas as meninas espantadas.
Annie fez o mesmo, batendo a porta atrás de si. Não sabia o que acabara de acontecer, mas sabia que James só ficava bravo dessa forma quando mexiam com seu amigo.
– James – chamou Annie, tocando em seu ombro. Ele se virou com o mesmo brilho nos olhos que Annie viu no trem. Um olhar de que poderia matar alguém ali mesmo, sem sentir remorso por isso.
Assim que viu Annie, sua expressão suavizou, mas seus olhos ainda fumegavam.
– Quem ela pensa que é? Quer dizer, ele é meu amigo! Aquela fi...
– James! Se controle, por favor. Você sabe que isso não resolverá nada.
Virou-se e seguiu para a cozinha. Tanto ela quanto James precisavam se distrair, ou ficariam loucos.
Abriu a porta e pegou um dos aventais.
– Me ensine a cozinhar bem.
Ele a olhou com um olhar de dúvida, e disse rapidamente:
– É melhor tomar um banho antes.
James tinha toda a razão. O sangue havia secado no corpo de Annie e suas unhas estavam imundas, o que a fez soltar uma exclamação de desaprovação.
Tomou um banho demorado na água gelada, que a fez sentir-se revigorada quando saiu.
Desceu rapidamente e encontrou James a esperando na cozinha.
Annie sabia cozinhar. Tinha que fazer comida todo dia depois que sua mãe morrera, ou seu pai batia e a trancava e um quarto escuro. Porém, ela queria aprender a cozinhar com vontade. Queria cozinhar da mesma forma que lia seus livros: com amor.
Achava impossível que isso acontece, porque na verdade sentia raiva. O cheiro da salsinha sendo cortada e os olhos lacrimejando por causa da cebola a enojavam. Tinha que superar, sabia disso. O problema é que nunca quis. Agora o momento parecia propício.
– Por que quer aprender a cozinhar?
– Eu sei cozinhar. – revirou os olhos e completou – Apenas ensine, James.
Provavelmente ele havia achado estranho, mas não falou nada. Começou a pegar alguns ingredientes e a jogar na pia.
– Lave.
E Annie obedeceu. O resto da tarde foi resumido em “corte” e “acenda o fogo”. Conversaram, contando várias coisas. Ela falou sobre seu pai a castigar quando não fazia algo, e James disse como seus pais e seus amigos o rejeitavam na casa e na escola. Ele apanhava todos os dias. Suas cicatrizes eram resultado de uma peça que haviam lhe pregado na escola logo antes de fugir.
James sofrera muito, principalmente por parte de “amigos’. Depois de ouvir sua história, Annie ficou com vergonha da sua. Era algo tão pequeno perto da de James. E ele não aparentava sofrer metade do que Annie. Ela fiou impressionada e ainda mais admirada por James, mas é claro que não diria isso.
– Senhorita, o fogo!
Annie se perdera em pensamentos e deixou a comida queimar. Ele a afastou do fogão e começou a mexer suas mãos incansavelmente, até a fumaça baixar.
– Que desastre. – disse Annie
Ele balançou a cabeça, mas estava com um sorriso malicioso no rosto.
– Não há problema. Te chamo quando estiver pronto.
Provavelmente, James sabia onde ela queria realmente ir. Livros. Seu lugar de conforto.
– James.
– Sim?
Annie não sabia ao certo o que deveria dizer. Ficou quieta por um instante antes das palavras saltarem de sua boca.
– Obrigada. – ele ficou espantado com a palavra que saíra da boca de Annie tanto quanto ela mesma – Quer dizer, já faz tanto tempo. Tanto tempo que não posso falar com ninguém, e eu sempre achei minha dor a pior de todas. É bom saber que existem pessoas que me entendem.
– Não existe dor maior ou menor, senhorita. Existe apenas a dor, em suas diferentes formas.
Annie apenas assentiu, pensando na frase de James enquanto ia à biblioteca. Seria isso verdade? A dor parecia ter tantas proporções, tantos vai-e-vem, que ficava impossível de explicar como ela realmente era. Mas talvez fosse somente uma palavra, apenas estivesse ali, parada, esperando alguém trombar com sua face horrorosa para poder engoli-la. No final, a dor era somente uma mancha, que assumia o formato do que mais te machucava.
O ambiente da biblioteca era tão familiar, com um cheiro tão acolhedor.
Assim que se sentou na poltrona, ouviu um estouro. Saiu correndo para ver o que acontecera, tentando ser silenciosa. Quando chegou à sala, deparou-se com o homem que os salvou no trem. Ela ficou completamente sem ação enquanto James ia até o homem e o cumprimentava, como se o conhecesse há anos.
Vendo que não estava entendendo nada, James a apresentou.
– Annie, esse é Christopher. Ele gosta de entradas dramáticas. – falou, olhando para a porta no chão.
– É vero.
Christopher se aproximou dela e pegou em sua mão, beijando-a. Annie afastou-se rispidamente, mas ele não parecia ofendido.
– É um prazer conhecê-la, Annie.
– Você é o cara do trem, não é? Parecia mais velho.
Ele deu uma risada e respondeu:
– Certamente sou, embora tenha somente dezenove.
Annie não conseguia ver um garoto de dezenove anos. Seus gestos eram elegantes; sua fala, extremamente formal e, sua roupa, completamente antiquada.
– Dezenove?
Christopher assentiu calmamente enquanto dizia:
– És muito bonita. – Annie sentiu seu rosto ruborizar no momento em que o garoto se dirigia a James – E então, como está Peter?
Enquanto ele explicava, Annie voltou à biblioteca. Já estava ficando tarde quando James foi chamá-la para comer.
Haviam colocado alguns colchões empinados no centro da sala, formando uma mesa improvisada, e dois sofás, formando uma nada típica sala de jantar. A porta estava no lugar, colocada de forma inaudível.
A comida era a que Annie e James haviam cozinhado, e que provavelmente James havia mudado algo.
Conversaram coisas sem importância, até Peter se juntar a eles. Estava com uma expressão horrível, mas existia algo em seu olhar que não estava ali antes. Esperança, talvez?
Christopher e James estavam altamente entretidos em uma conversa sobre basquete, o que os fez demorar a notar a nova presença.
Assim que perceberam Peter, calaram-se. Annie podia ver o brilho nos olhos de James, o que a fez ficar feliz.
– Peter, como está?
Ele olhou assustado para James e perguntou:
–Quem é esse?
– Você provavelmente não sabe.
Balançou a cabeça negativamente, o que fez James responder.
– Christopher nos ajudou muito. – começou, falando mais para Annie do que para o amigo – Ajudou a mim, na verdade. O encontrei em um dos trens, e ele me ensinou muitas coisas que depois passei a eles. Mas Chris queria se manter no anonimato, e só apareceu agora.
– Incrível. – falou Peter em som sarcástico – Vou sair. Até.
Andou em passos largos e saiu sem mais explicações. Annie nunca havia visto James tão decepcionado como agora. Não sabia o que dizer ou fazer, então simplesmente ficou quieta onde estava.
James colocou o rosto entre as mãos, fazendo sua voz sair abafada.
– Hoje vai chover.
Annie não entendeu ou encontrou sentido naquela frase, até mesmo porque a noite estava cheia de estrelas, que reparou pela janela da biblioteca.
Quando James levantou sua cabeça, estava com um sorriso no rosto. Mas Annie sabia como ele realmente estava. O sorriso era apenas uma máscara.
– Então, Chris. Por quanto tempo vai ficar?
– Vou embora amanhã. Estou atrás de uma garota que solta fogo, pelo o que me disseram.
A atenção de Annie foi completamente voltada a ele. Uma garota que solta fogo? Não que existissem muitas, mas Annie sentia que sabia exatamente quem era a tal garota.
Quando abriu sua boca para perguntar sobre Lena, James se interpôs entre eles levantando-se absurdamente rápido.
– Garota que solta fogo? E o que você está procurando nela, exatamente? Porque não é como se alguém pudesse controlar isso.
A expressão de James estava extremamente amena, o que fez com que Annie agisse da mesma forma.
– Certamente não. Mas eles querem algo que ela possui. – no momento em que James abriu a boca para falar, Christopher respondeu – Não me pergunte o que, James. Sabes bem por que faço isso.
– É claro. Então vou subir para arrumar seu quarto.
James não precisou chamá-la para que Annie o seguisse até um dos quartos. Sabia que ele não iria arrumar quarto algum. Todos os quartos estavam em perfeita ordem, como se alguém os houvesse arrumado há segundos.
Alguns trovões começaram a reverberar, e logo a chuva já estava caindo.
James balançou a cabeça, sussurrando o nome de Peter. Olhou profundamente nos olhos de Annie e disse:
– Você não deve dizer nada a ele. Embora seja uma boa pessoa, Christopher é um caçador de recompensas. Nunca conheceu Lena, e é capaz de matar qualquer um para conseguir o que quer por dinheiro. Qualquer um, entendeu?
– Ele é um psicopata?! – exclamou Annie, mais alto do que pretendia.
James fechou sua boca antes que outro som escapasse.
Ouviram barulhos na escada, fazendo-os entrar na porta mais perto. Tudo estava escuro, o que fez Annie sentir um calafrio. O último lugar escuro em que havia entrado encontrara sua mãe.
Controlou sua respiração, para que ninguém desconfiasse. Os passos vieram até muito perto da porta e cessaram. James parou completamente de respirar e Annie o seguiu. A pessoa dos passos bufou e foi embora, deixando os dois soltarem o ar.
James abriu a porta para que Annie saísse. No momento em que se virou para perguntar a James onde haviam entrado, ele trancou a porta. Parecia assustado, o que fez Annie ficar calada.
– Vamos descer logo, senhorita.
Quando chegaram à sala, Christopher estava andando em círculos, segurando algo.
– Chris? – chamou James
Quando se virou para eles, sua expressão era de raiva.
– Por que não me avisaste, James? Por que?
James estava claramente confuso. Annie também. Em um momento Christopher estava sereno e, alguns instantes depois, queria matar todos.
Uma máscara de entendimento se apoderou do rosto de James quando viu o que Christopher segurava. Era um retrato. O retrato de Lena.
– Sabes o que terei que fazer agora, não sabe James?
– Não precisa ser assim, Christopher.
– Não tenho escolha. – sua voz soava pesada, como se estivesse lamentando – Não quero fazer isso. Droga, James!
Ele agora estava gritando, e havia tirado uma espada de algum lugar que Annie não havia reparado antes.
Christopher corria em direção a James, e tudo começou a acontecer em câmera lenta para Annie.
A espada estava apontada em direção ao coração do amigo, e se aproximava a cada instante. Em um instinto que não sabia que tinha, se jogou na frente de James.
Ouviu um grito vindo de algum lugar da sala, mas não sabia de onde. Toda a concentração de Annie estava voltada para a espada em sua barriga, que havia aberto um rasgo enorme.
James havia se encurvado sobre seu corpo, e gritava milhões de palavrões a Christopher, que agora havia soltado a espada e estava de joelhos. Sua cabeça estava abaixada e ele a balançava insistentemente.
Saiu correndo da casa, mas deixou a espada. Tudo estava ficando nublado para Annie e ela mal enxergava o rosto de James. Ele havia se inclinado sobre seu rosto, e várias lágrimas manchavam sua face. As mãos estavam pressionando a ferida de Annie, o que fazia a dor duplicar.
Depois de algum tempo, Annie não sentia mais dor alguma. Seu corpo estava adormecido.
Assim era a morte? Tão calma...
Arrependeu-se por não ter tentado atingir essa calma antes. Por que não havia arriscado antes? Ah, sim. James.
Nas últimas semanas, ele havia sido uma âncora para ela ao mundo. Mesmo agora, morrendo, ela só conseguia pensar nele.
Ele agora tinha assumido o papel da mãe, que fora sua salvação por tantos anos.
Será que agora poderia encontrá-la?
No fundo, sabia que não. Sua mãe estava em um lugar lindo, que Annie apenas ouvira falar. Alguns o chamavam de Paraíso.
Mas ela também sabia seu destino.
O único lugar que Annie mereceria estar era no Inferno.
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