Guerra entre Mundos

11 O próprio viver é morrer.


“O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela.”

– Fernando Pessoa

A morte era rápida. Após alguns minutos de dor intensa, cessava. E você esperava tudo acabar.

Annie ouvira dizer que algumas pessoas viam uma luz branca antes de ir para um lugar melhor. Como já sabia, nada aconteceu a ela. Nem mesmo o Inferno a queria.

Ao menos seu sofrimento cessaria.

Queria ter revivido os últimos e melhores momentos de sua vida, como diziam que acontecia. Mesmo ela não tendo tantos momentos bons assim... Seria melhor do que nada.

Talvez a morte fosse uma coisa única, diferente para cada pessoa. Um exemplo era ela própria. Havia morrido por dentro há muito tempo, mas continuava existindo.

Tantos anos ansiando por isso, pela paz eterna e, agora que conseguira, queria voltar ao mundo. Não queria ter que deixar James, logo agora que estavam se dando tão bem.

E ainda tinha Lena. Peter estava desesperado e esperançoso para poder encontrá-la. Annie sentia que podia ajudá-lo, de alguma forma.

Ainda havia tanta coisa a ser resolvida em sua vida... Tinha vontade de gritar até seus pulmões explodirem, mas de nada adiantaria, ou sequer conseguiria. Ninguém iria escutá-la. Não que fosse alguma novidade.

– Ela está voltando!

Era a voz de seu pai? Por que estava se lembrando logo dele em um momento como esse?

– Saia.

Sua mãe agora? Mesmo nos piores momentos, não se lembrava de Layla ser tão ríspida. O rosto dela começou a voltar à sua memória. Os olhos eram o mais marcante. Cada cor contava um sentimento. Sua mãe sempre fora tão alegre, tão cheia de vida. Tão diferente de Annie.

Queria poder se juntar a ela, mas jamais poderia.

Começou a ver a si mesma, como refletida em um espelho, mexendo-se bem a sua frente. Exatamente como aconteceu na vez em que entrara no cômodo desconhecido.

Um calafrio intenso a fez curvar suas costas, e começou a se debater. Mas, mortos tinham calafrios?

Seus olhos se abriram e ela pôde ver uma mulher acima de si, que fixou seus olhos nos de Annie. Imediatamente um desespero começou a tomar conta de seu corpo e, mais uma vez, começou a debater-se.

Os colares da mulher chacoalharam em volta de seu pescoço enquanto segurava a cabeça de Annie.

Seu corpo parecia estar entrando em combustão enquanto sentia uma dor aguda em sua barriga. Tentou levantar a cabeça para ver o que estava acontecendo consigo mesma, mas não pôde.

A mão da mulher a impediu, provavelmente porque sabia o quanto isso faria sua dor piorar.

Murmurou algumas palavras no ouvido de Annie que a fez relaxar, de alguma forma. Magia?

Relaxou tanto que, em alguns instantes, estava dormindo.

Tudo isso havia sido real? A mulher, o corpo debatendo, a dor, tudo? Ou havia sido apenas algo sentido enquanto morria? Mas havia sido tão real...

Quando abriu seus olhos mais uma vez, quem estava acima de si era James.

Estava dormindo no chão, ao lado da cama. Annie tentou levantar-se, mas sentiu uma enorme pontada na barriga, que a fez emitir um pequeno ruído antes de cair na cama.

James levantou-se em um salto, ficando em posição de luta. Quando olhou para baixo e viu Annie acordada, um enorme sorriso formou-se em seus lábios.

Provavelmente sem pensar muito, jogou-se em cima dela, o que a fez emitir um gemido.

– James – sussurrou – Você está me sufocando.

Ele se afastou rapidamente, preocupado. Seu olhar exalava felicidade ao mesmo tempo em que parecia querer poder arrancar uma cabeça.

Suas mãos pousaram na barriga de Annie enquanto deitava sua cabeça suavemente no lugar machucado. Ela sentiu algo molhar sua camiseta e percebeu que James estava chorando.

– Fiquei com medo de te perder, senhorita. – levantou a cabeça secando as lágrimas e falou – Você é uma grande idiota, Annabel.

Annie arqueou as sobrancelhas, surpreendendo-se com a mudança de humor repentina, mas entendeu o que ele queria dizer.

– Não fui idiota. Qualquer sofrimento vale a pena se for por você, Jem. E, por favor, pare de me chamar de Annabel. Meu nome é Annie, só Annie.

Ele sorriu, e todo o sofrimento de Annie até aquele momento pareceu valer a pena. James realmente valia tudo isso.

Annie olhou em seu rosto e reparou que as cicatrizes haviam sumido. Ela passou as mãos pelo rosto do amigo, e ele a olhou interrogativamente.

– Ah. – James sorriu novamente – Caterine fez isso.

– Quem?

– Uma amiga nossa. Ou quase isso. – levantou os olhos e começou a pensar. Quando Annie ia interromper seus devaneios ele simplesmente abaixou a cabeça e disse – Ela me deu um tapa! Um tapa na cara e puf, sem cicatrizes.

Annie estava se sentindo um pouco aturdida, o que fez as palavras de James se perderem no caminho de sua consciência.

– Senhorita?

James estava se distanciando, e Annie estava sendo deixada sozinha. Ou ela estava indo embora?

A escuridão tomou conta de seu corpo, e ela se vu diante de sua mãe. Quantas vezes mais teria que passar por esse pesadelo?

Acostumara-se a sonhar com ela em sua adolescência, mas já não era assombrada há alguns meses.

Porém algo havia mudado.

Sua mãe começou a sussurrar, e isso nunca havia acontecido. As palavras soaram... reais. Realmente parecia que ela estava ao seu lado. Mas Annie não conseguia assimilar suas palavras.

Ela correu para cima de Annie, e seu corpo começou a mudar. Era a mulher de vermelho. Os olhos e o cabelo de sua mãe estavam vermelhos, mas ainda era sua mãe. Ela estendeu a mão, e Annie fez o mesmo.

Quando estavam quase se tocando, o chão abaixo de Annie se abriu e ela acordou.

– Olá. – disse suavemente James – Senhorita?

Ele se sentou na cama, enxugando o rosto de Annie com uma toalha. Annie afastou-se dele, tentando se levantar, mas caiu no instante seguinte. O que fora isso? Esse encontro com sua mãe foi diferente de todos os outros.

Annie tentava se levantar novamente, mas os braços de James a impediam.

– Você precisa ficar deitada! – os braços de James forçaram ainda mais seu corpo contra a cama – Droga, Annie!

Sua mãe podia estar viva, Annie sentia isso. E se realmente estivesse? O que isso significava?

Todo o resto de sua vida depois de sua mãe foi uma vida sem esperança. Fugiu em busca de algo que a incentivasse a viver, e realmente achara. James a ajudava muito. Mas sua mãe era diferente. No momento em que a viu e sentiu que estava realmente ali, foi como se todo o corpo de Annie voltasse à vida, estando morto há muito tempo.

Com muito esforço, conseguiu se livrar de James. No momento em que levantou da cama foi atingida por uma enorme tontura. Cambaleou até a porta, onde percebeu que não conseguiria dar mais um passo sequer. Com uma velocidade surpreendente, James a agarrou e sentou no chão.

Chamou um nome que não fez sentido para ela. Só conseguia pensar em sua mãe.

– Droga, Annabel! Será que dá pra você parar? Se sair desse quarto, não vai conseguir dar mais de dois passos.

Aos poucos as palavras de James foram se ajustando na mente de Annie e ela finalmente ficou quieta.

A mulher dos colares apareceu rapidamente e soprou no rosto de Annie, depois desapareceu, simplesmente. A partir desse momento Annie começou a se sentir melhor.

– Está melhor? – perguntou James. Annie assentiu, e ele disse – Pode me contar o porquê do desespero?

Respirou fundo e contou os sonhos nos mínimos detalhes.

James ouviu atentamente cada mínimo detalhe, mas não disse sequer uma palavra.

Quando percebeu que tinha acabado, começou a dizer o que achava.

– Você deve me achar louca, mas, eu sei James. Eu sei que não foi somente um sonho.

– Não, senhorita. Eu acredito em você. Mas não sei como vamos provar o que disse. Onde você pretendia ir?

Pensando nas palavras de James, Annie realmente não sabia para onde ia. Simplesmente queria correr atrás de sua mãe.

Depois de ter se acalmado, Annie se deixou conduzir por cômodos completamente desconhecidos.

A decoração era rústica, e alguns lustres estavam pendurados de forma precária. Enquanto passava pelos corredores, podia ver vários quadros. Na casa, isso era a única coisa que parecia realmente limpo. No chão era possível ver as pegadas deixadas na poeira.

Em um dos quadros pensou ter visto um rosto conhecido, mas quando estava voltando para ver, James puxou seu braço. Disse algo sobre não haver tempo.

Tempo para quê?

– Parece que está bem, criança. – uma mulher surgiu na frente de Annie, fazendo-a cambalear.

Com a surpresa, apenas assentiu.

– Senhorita, essa é Caterine.

Annie estava esperando algum cumprimento educado, mas a mulher só olhava fixamente para Annie.

Um vento soprou forte dentro da casa, fazendo a saia da mulher ondular. Ela olhou para cima, moveu quase imperceptivelmente as mãos e, nesse exato momento, todas as janelas se fecharam.

– Está começando. Venham.

Não teve tempo de perguntar o que estava acontecendo. Simplesmente foi puxada e não conseguiu ver para onde estava indo. Apenas corria.

De um momento para o outro, a casa começou a tremer. Os quadros caiam no chão seguidamente, fazendo um barulho estrondoso. Um dos lustres quase acertou a mulher, que desviou por pouco.

O corredor parecia não ter fim, até o momento em que Caterine abriu algo no chão e pulou. James e Annie a seguiram e imitaram a mulher.

Annie bateu em algo macio e rolou. Havia caído em cima de James.

Caterine o levantou e jogou contra a parede, prendendo seu pescoço com o braço.

– Eu falei para não fazer isso. Avisei, James. Agora acabaram com tudo!

Puderam ouvir alguém caminhando acima deles, que começou a dizer:

– Amada?

Quando ouviu a voz do homem, a jovem garota parecia ter perdido sua força. Soltou James e começou a tatear o teto em busca da abertura. Congelou em seu lugar quando ouviu outras vozes se misturando ao do homem;

Correu até Annie e James para tampar suas bocas, impedindo-os de emitir algum som.

– Onde estão? – uma voz feminina pronunciou. Parecia ter algo por detrás do som, como uma estática. Além do mais, a voz soava familiar à Annie.

– Não sei de quem estão falando. – respondeu o homem.

– Mate-o.

Ouviram o ar sendo cortado e algo cair no chão. Todo o ar de Caterine foi tirado e seus braços caíram. Um pequeno ruído transformando-se em grito.

– Peguem os olhos como recompensa.

James e Annie deslizaram suas mãos, imitando o que Caterine havia feito antes, abafando seu grito.

Ela bateu com todas as suas forças nos braços deles, que se recusavam a retirar.

Em um ataque de fúria Caterine empurrou-os contra a parede, deixando-os presos lá, provavelmente com algum tipo de magia. Com a mesma força abriu a porta no teto e pulou para fora. Com uma pancada a porta foi fechada novamente.

Annie e James se calaram para poder ouvir algo, mas quase nada conseguiram. Foi tudo muito rápido.

Um estrondo, um grito, outro estrondo e então, silêncio.

– Procurem a garota. Essa feiticeira pode tê-la escondido em qualquer lugar.

Provavelmente a mulher não vira por onde Caterine viera, o que era uma vantagem.

Esperaram algum tempo, até que mais uma vez a mulher se pronunciou depois de um protesto.

– Vamos.

James sussurrou o mesmo para Annie, que o seguiu. Assim que colocou seu corpo para fora, deu de cara com uma cabeça. Suas pálpebras fechadas estavam fundas, o que provavelmente queria dizer que os homens realmente haviam retirado seus olhos. O corpo estava caído ao seu lado, ainda jorrando sangue.

– Você não precisa ver isso, senhorita.

James achava que isso a aterrorizaria, mas estava altamente enganado. Já havia visto coisas muito piores, mas resolveu ficar quieta. Ele não precisava saber sobre seu passado.

Quando se virou para seguir James realmente ficou chocada.

O corpo de Caterine estava pendendo na parede, parecendo flutuar. As costas estavam encurvadas para trás em um arco, a cabeça quase se encostando aos pés, e suas mãos estavam enrugadas. Sangue escorria de sua boca e seus olhos estavam revirando. Mesmo de longe, Annie podia escutar alguns ruídos vindos de sua boca.

James também parou com o choque de vê-la ali. Pela primeira vez, Annie recuperou-se antes. Balançou suavemente o braço do amigo até seus olhos focarem novamente.

Ele acenou com a cabeça para frente, e ela o seguiu. O corredor era imenso, e só tinham duas portas. Três, se contasse com a que dava para o subterrâneo. Tinha medo de saber o que existia além.

Um quadro estava balançando perigosamente à frente de Annie, ameaçando cair. Qualquer barulho poderia chamar a atenção da mulher, que estava do outro lado do corredor. Annie não se atrevera a olhar para trás uma vez sequer. Tinha medo de sua coragem se esvair quando o fizesse.

Rapidamente começou a correr, tentando chegar à tempo ao quadro.

Depois que suas pernas entraram em ação tudo aconteceu muito rápido. O quadro escorregou, Annie esticou o braço, roçando os dedos no quadro e então... Não foi rápida o suficiente.

O quadro caiu, fazendo um barulho estrondoso. Não precisou olhar para sentir os olhos da mulher em suas costas. Podia enxergar o sorriso torturante se formar. Quase conseguiu formular sua própria morte.

Sentiu algo a puxar no antebraço, tirando-a do lugar. James a olhava com olhar de desespero. Ele não precisava dizer nada.

Annie seguia seus passos, olhando atentamente para o chão. Ele abriu uma porta e parou. Virou-se e fez um sinal urgente com a mão para Annie ir na frente. E ela foi.

No entanto, parou no instante em que olhou para baixo. Pular da casa seria o mesmo que se jogar de um avião. Sem avisar, James a pegou pela cintura e pulou.

Em algum momento no meio da queda eles se separaram. Annie não queria abrir o olho. Sabia que não sobreviveria.

Sentiu algo grudando em suas, então começou a se remexer, mas não adiantou muita coisa. Quando olhou para trás viu Lena. Era ela quem se agarrava à Annie.

James, de alguma forma, estava se aproximando, e Lena começou a gritar. Quanto mais se aproximava, mais ela gritava. Até que chegou um momento em que Lena incendiou, literalmente. Seu corpo estava envolto em chamas, mas não queimava Annie.

A expressão de Lena era ameaçadora. James hesitou por um momento e desapareceu, aparecendo novamente na frente de Annie.

Lena agarrou mais forte os braços da garota, e uma sensação de queimação se espalhou por todo o seu corpo. Ela começou a se debater loucamente, sentindo que seus músculos haviam sido jogados na fogueira.

Finalmente as mãos de Lena a soltaram e ela caiu, mais uma vez, em queda livre.