Guerra entre Mundos
2 Nessa nova fase de descobertas.
"Nessa nova fase, de descobertas,
Vejo novas coisas,
Coisas boas, incertas,
Que me fazem refletir
No que fazer pra não cair
Novamente, e resistir,
A desistir de tudo,
Abandonar de vez o mundo
E habitar no obscuro,
Mas como uma luz,
Te vejo iluminando meu mundo
E por alguns momentos,
Esqueço onde estou
E por alguns momentos... Eu tenho tudo..."
– Eddie Bulhões
Annie não sabia o que havia acontecido quando acordou.
Foi tomando consciência das coisas, e lembrou-se de que havia desmaiado. Mas, havia mais... Algo no fundo de sua mente. Ela tentava se lembrar, até a imagem de uma caixa vir à sua mente. Mas era a única coisa de que se lembrava com nitidez. O resto eram somente borrões, como um sonho perdido em uma noite.
Olhou para o lado e percebeu que seu mais novo amigo também estava desmaiado. Annie já lidara com outras situações de desmaio em sua vida. Vivia tendo que acordar seu pai dos desmaios de brigas em bares. Ela apenas precisava de uma toalha e água... O único problema era que aquilo estava abandonado. Se tivesse água, seria um milagre.
Annie correu até a pia, abriu a torneira e... Realmente não tinha água. Não sabia mais o que fazer. Talvez devesse esperar até alguém vir ajudar. Mas, pensando melhor, quem iria a um lugar como aquele?
Resolveu fazer algo que via nos filmes. Talvez desse certo.
Chegou perto de James e lhe deu um tapa no rosto. Nada. Tentou outro. Mais forte dessa vez. Ainda nada. Annie começou a ficar preocupada de verdade, e tentou pensar em outra solução.
Outro método, esse visto em livros, foi passar algo picante no nariz de quem estava desmaiado.
Desceu correndo para onde havia visto uma cozinha e começou a procurar desesperadamente algum pote enorme escrito “pimenta”. Obviamente, isso não aconteceu. Continuou procurando e conseguiu encontrar algo intitulado de “chimichurri”. Annie não fazia ideia do que significava, mas viu que tinha pimenta em sua composição. Correu novamente para o quarto onde estava James e jogou metade do pote em seu rosto. Quando ele inspirou, foi como se um vulcão se ativasse dentro dele. Saiu correndo para a pia do banheiro, porém não tinha água. Olhou para Annie, e gritou.
– O que raios é isso?
– Não sei ao certo. Parece ser algum tipo de pimenta...
Ao ouvir isso, James saiu correndo novamente. Annie resolveu esperar enquanto a crise dele não passava.
Mais calmo, James voltou para o quarto.
– Me desculpe por ter gritado com a senhorita. Não era minha intenção.
Annie ficou um pouco surpresa. Há muitos anos não ouvia um pedido de desculpas, ou sequer pronunciara algum. Não soube o que responder, então simplesmente ficou olhando para James.
Ele se aproximou dela, e ia tocá-la no cabelo, quando Annie o afastou com um tapa.
James a olhou com cara irritada, e disse:
– É somente uma folha. – e continuou, como se nada houvesse acontecido – Agora, vamos ao que importa. Do que se lembra?
Entendendo o que ele queria dizer, Annie falou:
– De lhe ver desmaiado, e uma caixa. Depois, tudo escureceu.
– Intrigante...
– O que?
– Nada, apenas...
James começou a andar pelo cômodo, esquecendo-se de Annie. Vendo que ele levaria algum tempo para pensar, resolveu olhar pela janela.
Não era uma vista bonita. Annie podia ver várias casas e uma rua de muita terra. E havia as pessoas, que passavam sem olhar uma para as outras, de cabeça levantada, como se fossem melhor do que todas. Como isso a irritava!
Annie estava prestes a fechar a janela quando viu pessoas diferentes. Homens com roupas formais, cabelos bem penteados e sapatos engraxados. Na pequena cidade de Annie, isso não era comum. Homens de terno só apareciam quando era um assunto altamente importante, e ela sabia que mesmo ali, naquela enorme cidade, deveria ser um assunto de suma importância.
Chamou James, tendo que gritar para ele sair de sua transe do pensamento.
– Não, senhorita, isso não é comum. Nem mesmo em Los Angeles. Escute.
Ambos aproximaram o ouvido da janela. Os homens estavam reunidos logo abaixo da janela, achando que, como aquele era um edifício abandonado, ninguém ouviria. Não sabia o quanto estavam errados.
– Veio daqui. – falou o homem mais alto
– É impossível. Está abandonado!
– Isso não quer dizer nada. Se vocês não forem, eu irei.
O mais alto começou a ir para frente da casa. Seus outros dois amigos o seguiram na mesma hora.
– James, e agora?
Ele a olhou com cara de “mas, não é óbvio que tenho uma ideia genial?”
James pulou da janela, e ficou lá embaixo com os braços estendidos, esperando Annie pular. Ela revirou os olhos, e começou a descida. Logicamente, Annie não iria pular direto para os braços dele. Não era fraca ou sensível para fazer isso.
Chegando lá embaixo, James deu uma rápida risada, e começou a correr. As casas ficavam bem perto uma das outras. Isso facilitava andar pelos telhados, e James não descartou essa possibilidade.
Correr pelos telhados não era fácil para Annie. Ela nunca fizera isso em sua vida.
James já estava muito longe, e Annie se preparava para saltar de uma casa para outra quando viu seu amigo ao seu lado. Aquilo não era possível. Ele estava muito na frente, e agora...
– Quer ir pelo chão?
Annie piscou, recuperando-se de seu transe, e falou:
– Eu... Como? Quer dizer... Não. Espera. – Annie respirou fundo e respondeu – Sim, isso seria adorável. Mas, como você fez isso? Você estava lá na frente e agora...
– Certas coisas não foram feitas para ser explicadas, senhorita. Venha, vou te apresentar aos meus amigos.
Sem dizer mais nada, Annie o seguiu.
Aquelas ruas eram cheias de atalhos, e James parecia conhecer cada um deles. Ele andava, e quando Annie pensava só existir um caminho reto, James entrava por algum lugar.
Finalmente, entraram em um lugar e pararam. James se dirigiu até uma porta e bateu. Uma voz grossa falou:
– Senha?
– Ninjas ninjadores.
A porta se abriu, e um garoto magro de cabelos castanho claro estava de pé, olhando para James. Ele abriu um enorme sorriso e o abraçou. Só então pareceu notar Annie ali. Ela pensou que ele fosse perguntar quem era ela, porém, apenas a cumprimentou.
Seguiram para uma sala com alguns sofás rasgados e algumas camas. Annie não pôde ver muita coisa antes disso. A casa não tinha muita iluminação, mas os meninos sabiam exatamente onde estavam indo.
Na sala, tinha uma menina deitada em um dos sofás. Não pôde ver muita coisa, apenas a intensa cor preta de seus cabelos cacheados.
Sentaram-se em um dos sofás, mas ninguém falou. Annie não se incomodava com o silêncio. Na verdade, preferia assim. Mas, como não deixaria de ser, o silêncio foi quebrado. Não por James ou por seu amigo. A menina que estava dormindo, agora estava sentada no sofá.
– Olá Jem e...
– Annie. Annie Dirk.
– Prazer Annie. Eu sou Lena, e ele, Peter. Onde vossa senhoria estava, James?
James revirou os olhos, e respondeu:
– Bem, você sabe. O de sempre.
– Sim, sei. E você também sabe o que tem de fazer, não sabe?
– Talvez, eu tenha encontrado a solução. – os olhos de Lena e Peter se arregalaram, e eles abriram um enorme sorriso.
Annie não estava entendendo o que estava acontecendo ali. Estava parecendo algo pessoal, e ela não queria interromper.
Depois de voltarem ao normal, ou quase isso, Lena começou:
– Certo, certo. Então, conte-nos tudo. Por que a trouxe para cá?
– Eu a encontrei em um dos trens. Então a levei para ver os fogos. Depois disso, fomos procurar uma casa para dormir. Encontrei uma, nunca a tinha visto lá. Quer dizer, era realmente nova. Eu nem sabia que aquele pedaço de terra existia, até ontem. – as expressões de Peter e Lena estavam indiferentes, esperando James terminar – Lá dentro, encontramos uma caixa. Não nos lembramos do que aconteceu depois disso. Apenas que desmaiamos depois de abri-la. Eu sinto como... Como se faltasse algo em minha memória. Acho que aconteceu algo entre abrir a caixa e o desmaio, mas não consigo me lembrar o que é.
Era isso, exatamente isso que Annie estava sentindo. Então a memória deles realmente havia sido afetada pela caixa. Aquilo era muito estranho. O problema, é que não pegaram a caixa. Provavelmente aqueles homens de preto já a havia pego. Agora, como descobririam o que aconteceu com eles?
– Depois disso escutamos alguns caras estranhos, todos formais, conversando. Eles disseram “veio daqui”. Com certeza, era algo relacionado à caixa. E então, nós viemos para cá.
Lena agora estava assustada. Abriu a boca para dizer algo, mas fechou novamente. Quem falou dessa vez foi Peter.
– E o que pretende fazer?
– Não sei ao certo. Eu queria voltar na casa, para pegar a caixa. Mas, se os caras realmente entraram, já a pegaram.
– Entendo... Mas ainda tem a chance de isso não ter acontecido. Se quiser, podemos ir lá com você. Hoje à noite.
– Claro, seria ótimo.
Os três continuaram conversando sobre como seria a captura à caixa. Enquanto isso, Annie levantou-se para ver a casa.
Havia alguns quadros velhos e mal feitos pendurados na parede e nada mais naquele cômodo, além dos sofás e camas. Resolveu sair dali. Ela começou a sentir algo em seu peito, uma pequena dor. Achou que precisasse de ar fresco, então tentou refazer o caminho para fora. Logicamente, não conseguiu, e se perdeu. Entrou em um lugar escuro e mais sufocante. Começava a ficar mais frio a cada instante e Annie começou a ter dificuldade para respirar. Seu desespero piorou as coisas.
Sentou-se no chão, e tentou pensar com clareza. Estava perguntando-se por que saíra do aconchego daquela sala.
Pensou estar vendo uma luz, algo iluminando toda àquela escuridão. Aquilo estava se parecendo com ela. Toda a escuridão e a frieza. Era assim que Annie se sentia, todos os dias. Morta. Morta, porém, existindo.
Aquela luz... Tinha algo de conhecido nela. Era como se...
Annie não pôde concluir o pensamento, pois foi inundada por visões. Ele se lembrava de tudo aquilo. Já tinha visto em algum lugar.
Tão rápido quanto começou, terminou. Mas agora, Annie se lembrava de tudo. Cada detalhe do momento em que desmaiaram. Era como se tivesse acabado de ler um ótimo livro, e ainda lembrasse todos os detalhes.
Ela estava eufórica. Precisava falar com James, para saber se ele também tinha visto isso. Conseguiu localizar a porta, e saiu correndo às cegas. No entanto, perdeu-se novamente. Começou a gritar o nome de James, até sentir uma mão em sua boca puxá-la para trás e a jogar no chão. A mão continuou em sua boca, mas pôde ver o rosto de Peter sendo iluminado por uma lanterna. Ele fez um gesto de silêncio, e Annie assentiu. Ela levantou-se, e perguntou o que estava acontecendo.
– Aqueles caras... Estão aqui. De alguma forma, nos encontraram. Venha.
Annie o seguiu sem perguntar mais nada. Para Peter, foi fácil achar o caminho. Em alguns segundos já estavam na sala. Peter ia passar pela porta, mas encostou-se na parede, e Annie fez o mesmo.
Ela não sabia o que estava acontecendo, então ficou calada. Quando Peter disse já ser seguro, ambos entraram na sala. Os quadros estavam no chão. Os sofás, tombados. Aquilo parecia um cenário de luta. Annie estava procurando por James, até o ver sair debaixo de um sofá.
– Peter! Eles levaram Lena!
Quando Annie olhou para Peter, ficou com medo. Parecia que seu mundo havia acabado, todo o brilho de seus olhos havia sido levado. Ele tinha uma expressão de pavor estampada em todo o seu corpo.
Quando percebeu isso, James correu até ele e o abraçou. Era isso o que Annie achou estar acontecendo, mas então percebeu que James o estava segurando, amarrando suas mãos atrás de suas costas. Não parecia estar funcionando.
De repente, todos os quadros que estavam no chão, começaram a voar juntamente com alguns colchões. Mesmo antes de ouvir o grito de James, Annie já estava deitada no chão com suas mãos acima da cabeça. Ela não sabia o que era aquilo. Não fazia sentido. Seria Peter? Mas, isso não era possível, era?
James começou a murmurar algo no ouvido de Peter. A partir desse momento, a súbita “tempestade” começou a diminuir, até todos os quadros e colchões estarem novamente no chão.
Lentamente, Annie foi tirando as mãos da cabeça. Quando se levantou, viu Peter assentindo para James, e depois sair da casa. Ela olhou para seu amigo, pedindo uma explicação. Ele apenas abaixou a cabeça, e disse:
– Me desculpe por isso, senhorita. Como eu disse, certas coisas não foram feitas para ser explicadas.
Annie estava realmente irritada. Ele a tinha levado até aquele lugar, a fez passar por tudo aquilo, para dizer que certas coisas não foram feitas para serem explicadas? Sem pensar muito, falou:
– Não foram feitas para serem explicadas? James! Olhe bem para mim! Eu quero uma explicação, e quero agora!
– Nem tudo o que queremos, podemos ter. Sinto muito, senhorita.
Sim, ele certamente sentia. Annie estava tão sobrecarregada com tanta informação, que não se conteve. Antes de perceber, suas pernas já tinham se mexido sem sua permissão, e ela mirou o rosto de James com sua mão.
O rosto de James virou-se para o lado quando foi atingido, e ele fez uma expressão de dor. Quando se virou para Annie, não pareceu estar bravo. Apenas envergonhado. Mas, por quê?
– Eu entendo, senhorita. – entendia? Entendia o que? Isso estava completamente confuso para Annie. – Se quiser me seguir, posso lhe mostrar um quarto.
James começou a andar, e não disse uma palavra. Annie estava começando a se arrepender, e lembrou-se de quando James lhe pediu desculpas. Devia ela tomar a mesma atitude? Pelo o que Annie sabia, as pessoas faziam isso quando ofendiam outras, e depois se arrependiam. Talvez Annie realmente devesse fazer aquilo. Mas, como?
– É aqui. Peguei o quarto mais perto da sala. Basta seguir reto e virar à direita. Hoje à tarde, quando começar a escurecer, iremos atrás da caixa, para ver se encontramos alguma pista de onde Lena está. Se aqueles caras realmente estavam relacionados com a caixa, então encontraremos Lena. Se quiser ir, nós esperaremos a senhorita. Até mais.
James fez um cumprimento e estava indo embora. Annie quis chamá-lo, mas não saberia o que dizer se o fizesse. Decidiu que o faria depois.
Entrou no quarto e fechou a porta. Não era grande coisa; tinha apenas uma cama de casal bem arrumada e um guarda-roupa. Ao lado, tinha uma porta. Provavelmente um banheiro. Annie entrou para ver se havia água, e espantou-se. Realmente tinha. Abriu o guarda-roupa para ver se encontrava alguma toalha e espantou-se ainda mais. O guarda-roupa era repleto de roupas, sapatos e roupas de cama. Não sabia de quem era a casa, mas a pessoa tinha um péssimo gosto para roupas. Ali só existiam vestidos e sapatos de salto.
Annie continuou procurando, até achar um jeans e uma blusa decentes.
A água da casa era extremamente gelada, o que foi bom. Serviu para refrescar todos os pensamentos de Annie.
Depois de já vestida, jogou-se na cama. Não estava com sono, então resolveu rever todas as lembranças desconhecidas.
Depois de abrir a caixa, lembranças que não eram suas tomaram conta de sua mente. Annie fazia o máximo para se lembrar do que se tratavam, mas toda vez que tentava sentia uma enorme pontada em sua cabeça. Resolveu parar, pois aquilo não estava levando a lugar algum.
Percebeu que em cima da cama, debaixo do travesseiro, existia um relógio de bolso. Colocou-o no bolso da calça para olhar melhor depois, agora era melhor ir para a sala. Logicamente, iria ajudá-los a salvar Lena. Ela podia não conhecê-la, mas percebia que era uma boa pessoa. Além do mais, Annie queria mais do que ninguém saber o que era aquela caixa.
Lembrando-se do que James havia dito, seguiu reto e virou à direita. Quando chegou lá toda a bagunça tinha sido arrumada, e James e Peter esperavam por ela. Quando a viram, James falou:
– Eu disse.
Peter revirou os olhos, e começou:
– Bem, como já havíamos decidido, vamos até aquela casa hoje à tarde. Assim que pegarmos a caixa, vamos atrás de Lena. Tudo bem para vocês?
Annie e James assentiram. Logo em seguida, saíram da casa.
Ainda era possível ver alguns raios de luz, mas quase tudo estava escuro. Mais uma vez, Annie foi guiada sem saber onde estava. Tentou memorizar os lugares para poder andar depois ali, mas não conseguiu.
Eles pararam, mas Annie não sabia por quê. A casa não estava ali. Talvez James houvesse errado o caminho...
– Isso é impossível. Ela estava bem aqui.
Quando Annie achou que Peter ia protestar e tentar ir por outro lugar, apenas assentiu, como se aquilo fosse normal. Há muito já não entendia o que estava acontecendo.
– James, não estamos no lugar errado? Quer dizer, você pode ter se enganado. A casa pode estar em outro lugar e...
– Não, senhorita. – interrompeu James – Ela estava aqui, disso não tenho dúvidas. Talvez, nós apenas estejamos olhando da maneira errada.
Da maneira errada? O que ele queria dizer com isso? A casa não podia simplesmente ter sumido. Certamente eles estavam no lugar errado. Annie estava quase considerando a hipótese de sair procurando a casa, onde quer que ela estivesse, até que Peter disse:
– James, escute. Acho que sei por que não a estamos vendo. Quando vocês vieram aqui, ainda estava tudo escuro, certo? – James assentiu, então Peter continuou – Então isso quer dizer que a casa só vai aparecer à noite. De manhã, os raios solares batem no sólido da casa, mesclando-a com as cores do ambiente. Por isso não estamos vendo-a, mas ela está aqui.
– Genial, Pete.
Para Annie, aquilo não era genial. Era loucura. Invisibilidade? Como isso era possível? Ela já havia visto aquilo em livros e filmes, mas era ficção. O que estava acontecendo ali não era ficção, era a vida real. Talvez a mais confusa e misteriosa, mas a vida real.
– Mágica? – arriscou Annie
– Não. – respondeu Peter – Ciência. E muito avançada, por sinal.
– Mas então, como aqueles homens viram a casa?
James e Peter trocaram um rápido olhar de desconfiança, quase imperceptível.
– Isso ainda é um mistério, senhorita. – foi o que James disse, mas algo na voz dele a fez pensar que eles sabiam de algo. Algo que explicava tudo aquilo, mas que não revelariam tão cedo. – Por ora, devemos esperar escurecer. O que não deve demorar muito. Veja, o sol já está se pondo.
Resolveram que se esconderiam em outra casa abandonada, até que estivesse totalmente escuro. O que não demoraria muito, de acordo com Peter.
Eles entraram na primeira casa que acharam. Ao que parecia, muitas casas estavam abandonadas naquele lugar. De acordo com Peter, foi por causa de uma pequena guerra no passado, uma guerra que quase ninguém ficou sabendo. E os que ficaram, não falavam sobre isso.
Esse fato deixou Annie com um pouco de medo. Por que as pessoas não falavam sobre isso? Deveria ter sido uma guerra extremamente violenta.
Peter insistiu que iria ficar na porta, caso visse um daqueles homens.
James entrou com Annie na casa, e eles foram para a cozinha procurar algo para comer. Annie tinha muitas perguntas, mas não sabia por onde começar. Tinha medo de perguntar novamente, e mais uma vez ser negada. Para alívio de Annie, James começou a explicar algumas coisas.
– Você deve estar com muitas dúvidas. Vou esclarecer o máximo que a senhorita puder saber, certo? Não sabemos ainda quem eram aqueles homens, ou por que estão atrás de nós. Já tínhamos ouvido falar daquela caixa, em histórias. Não pensávamos que realmente existisse, até ontem. O que Peter fez àquela hora na sala... Bem, certas pessoas nascem com certos “dons”, que devem ser escondidos do mundo para a segurança da humanidade. Quando ele nasceu, seus pais perceberam que Peter era diferente das outras crianças, então resolveram deixá-lo na porta de um orfanato.
“Ele foi maltratado lá, não só pelas outras crianças, mas por todos que percebiam que ele era diferente. Durante esse tempo no orfanato, a guerra aconteceu. Foi algo rápido, porém, devastador. – James parou para recuperar o fôlego, e continuou – Quando invadiram o orfanato, mataram todos. As crianças foram queimadas, e as mulheres, decapitadas. Peter se salvou porque conhecia vários esconderijos naquele lugar.”
“Tinha uma menina naquele orfanato que era como ele, mas eles não se conheciam. Ela também se salvou. Desde então, os dois ficaram juntos. Pouco tempo depois de a guerra ter acabado, eu cheguei. Fugi, como você. Eles me acolheram. Aquele lugar, onde moramos, era o orfanato. Ainda assim, prefiro ficar nos trens. Então, encontrei a senhorita. Percebi que não era diferente de nós, por isso a trouxe para cá. Quando contei de você para eles, Peter e Lena aceitaram de bom grado aceitá-la em nossa família. Isto é, se aceitar.”
“Infelizmente, senhorita, é só isso o que posso contar.”
Tudo aquilo... Havia sido revelador. Annie não sabia o que pensar ou dizer. Apenas ficou parada, olhando para James.
Peter tinha um “dom”? Isso era tão estranho... Parecia que ela estava vivendo a história de seus livros preferidos, mas não sabia o que perguntar sobre isso. Talvez ela formulasse algumas perguntas para fazer depois.
– E então? – perguntou James
Annie percebeu que ele estava esperando alguma reação da parte dela, mas Annie apenas falou:
– Eu só... Não sei o que pensar.
– Tudo bem. Eu entendo. Mas eu gostaria de saber se a senhorita...
James foi interrompido por Peter, que chegara para avisar que já havia escurecido. Sem dizer mais uma palavra, James levantou-se e saiu pela porta.
Annie demorou um tempo, ainda processando toda aquela conversa. James havia falado sobre “dons”, e que eles deveriam ser escondidos, mas ele apenas falou de Peter. Será que ele e Lena estavam incluídos nisso? Ou ainda, será que quando James falou que Annie não era diferente deles, ele estava dizendo mais do que apenas na personalidade?
Fale com o autor