Guerra entre Mundos
1 Evitar a felicidade...
Notas iniciais
"Evitar a felicidade com medo de que ela acabe, é o melhor meio de se tornar infeliz." – Albert Einstein
Normalmente pessoas normais vivem uma ótima virada de ano, repleta de alegria, conversas jogadas fora, beijos e fogos de artifício. Pessoas normais.
Para Annie, felicidade era uma coisa rara. Em 1996, tudo fora um desastre. Quando sua mãe morreu em 1994, toda a cor em sua vida acabara. As duas eram muito ligadas, por vários motivos. Ambas tinham um entendimento diferenciado do mundo. Elas percebiam que o mundo estava decaindo, e que não demoraria muito até que todos fossem controlados pelo governo. Annie e sua mãe também percebiam pequenos detalhes. Os mínimos. Ninguém mais admirava isso.
Quando sua mãe Layla faleceu, seu pai entrou em depressão. Ele tinha vários ataques de loucura, e nesses momentos, agredia Annie. Ninguém sabia, ou ninguém se importava. Afinal, quem se importaria com uma pequena menina sem pais? Cansada de tudo isso, Annie resolve fugir. Com o pouco dinheiro que começou a juntar quando seu pai deu o primeiro ataque, tinha o bastante para pagar uma passagem de trem até Los Angeles.
Era a primeira vez que Annie andava de trem. Era madrugada em uma virada de ano. As pessoas provavelmente estavam em suas casas, comemorando. Seu pai provavelmente estava em um bar, se embebedando. “Os livros são seus remédios, a bebida é meu curador, querida”, fora o que o pai disse quando Annie tentou tirar uma garrafa de sua mão.
Annie pensou que estava sozinha no trem, até um garoto perguntar:
– O que a senhorita está fazendo sozinha aqui, em uma noite tão bonita?
Ele era um pouco mais novo que ela, e seus olhos azuis eram destacados pelo cabelo louro. Suas roupas estavam surradas, e seus pés completamente sujos. Annie se assustou, mas logo respondeu:
– Eu? Bem, eu... Não sei. Apenas não tenho onde ficar.
– Entendo.., A senhorita vai parar em Los Angeles?
Em dias normais, Annie não responderia para onde estava indo. Para ninguém. Mas há muito seus dias não eram normais.
– Sim.
– Mas que adorável! Então, eu gostaria de mostrar-lhe como a noite está linda, pois a senhorita não pareceu perceber.
Isso era verdade. Mesmo Annie prestando atenção em todos os detalhes, desde que saíra de casa, não estava olhando muito as coisas. Tudo parecia estar nublado. Talvez fossem as lágrimas em sua alma. Aquelas que ninguém podia ver.
O garoto sentou-se ao seu lado, e dormiu. Annie começou a olhar para seu rosto, e percebeu que tinha muitas cicatrizes. Parecia um gato de rua.
Quando o trem deu um solavanco, o menino pulou da cadeira, pegou Annie pelo braço e saiu correndo pela porta.
Annie nunca havia ido para Los Angeles. Na verdade, Annie mal saía de sua casa. Mas lembrava-se de quando sua mãe era viva, e elas fingiam estar em outros lugares, até em outros planetas. Tudo parecia ser real para Annie naquela época.
Agora que tudo era realmente real, Annie estava assustada. Os prédios eram enormes, e as pessoas pareciam ser mal educadas.
Vendo que Annie não se mexia, o garoto a puxou novamente pelo pulso. Era noite, mas os fogos de artifício e a lua iluminavam perfeitamente a rua.
O menino subiu uma parede, agarrando-se aos tijolos, e chamou Annie. Ela já havia feito muito aquilo. Todos os dias subia a parede da padaria, para pegar o pão deixado pelo padeiro na padaria. Mas aquilo era diferente. Aquilo era Los Angeles.
– O que foi? Está com medo, senhorita? – gritou o menino
Esquecendo-se de tudo, jogou-se na parede. Não importava se era Los Angeles ou qualquer outro lugar, ela estava diante de um desafio. Annie sempre tivera um fraco por desafios.
Chegando ao telhado, olhou para baixo. Foi seu primeiro erro. Ela foi atingida por uma breve tontura, que a fez inclinar para frente. O garoto a segurou pela cintura, e a sentou no chão.
– A senhorita está bem?
Annie apenas assentiu.
– A senhorita não parece realmente bem.
– Por que fica me chamando de senhorita?
O garoto pareceu surpreso, mas talvez tenha sido a mente de Annie brincando com ela.
– É apenas uma maneira educada de falar com a senhorita. – mudando rapidamente de assunto, falou – Bem, como eu lhe disse, vou mostrar-lhe a noite. Olhe para aquele ponto, bem ali.
O garoto falou, e Annie olhou para onde o dedo do garoto estava apontado. Quando Annie estava prestes a perguntar se estava olhando para o lugar certo, pôde ver vários fogos de artifício subindo. Aquilo era normal para ela.
– Olha, sem querer ofender mas...
O garoto a olhou com cara feia, pegou seu rosto e o virou bruscamente para onde havia apontado anteriormente. Annie abriu a boca e levou sua mão à boca, para ver se não havia babado.
Aquilo era lindo. A coisa mais linda que havia visto.
Os fogos formavam desenhos no céu. Lindos desenhos. Annie poderia ficar olhando para aquilo toda a noite, mas os fogos já paravam de subir ao céu. Quando não podia-se mais ver qualquer vestígio dos fogos no céu, o garoto perguntou:
– E então? O que achou?
– Isso... Isso foi a coisa mais linda que já vi em minha vida.
Sob a luz da lua, Annie percebeu que os olhos do garoto estavam brilhando.
– Qual seu nome, pequeno garoto?
– Pequeno garoto? Tenho 1,65!
Annie riu. Deu uma gargalhada que há muito não dava. Sentiu algo em seu corpo, que também há muito não sentia. Seria a felicidade? Pensando ser esse o sentimento, o sufocou. Não se deixaria ser feliz novamente. Na última vez em que foi feliz, uma tragédia acontecera. E se acontecesse novamente?
– Mas, bem, meu nome é James. Prazer.
– O prazer é todo meu, James. Chamo-me Annie.
Sem pedir, Annie soube de toda a vida de James. Todos os seus segredos mais profundos. Tudo isso, em uma noite. Soube que James era órfão, e vivia em trens. Também soube que ele não era mais novo que ela, como pensara. Na verdade, ele tinha a mesma idade de Annie. Ela também pôde saber que o garoto era como ela. Há muito não via a felicidade. Percebeu que tinham muitas coisas em comum.
Ficaram muito tempo conversando, até James dizer que era hora de dormir.
Eles andaram por algumas quadras, até chegarem à uma casa branca. Parecia abandonada. Ele pulou a cerca, como se fizesse isso há anos, e Annie o seguiu.
James abriu a porta e ela entrou. A casa era bonita, de uma maneira sombria.
– Bem vinda. Essa será nossa casa temporária. – ele fez um cumprimento, como Annie já havia visto porteiros de lugares chiques fazendo em filmes. Annie imitou uma donzela, e ele abriu um pequeno sorriso – Certo, vamos procurar nossos quartos.
Subiram correndo as escadas, até acharem um quarto com duas camas. Havia um espelho na parede perto da cama, e Annie resolveu dar uma olhada. Sua aparência estava horrível.
Seu jeans estava sujo, sua blusa, rasgada. Seu cabelo, antes cacheado, estava agora parecendo que tomara um choque elétrico.
– Annie! – gritou James
Ela correu ver o que estava acontecendo. James estava caído, ao lado de uma caixa prateada. Annie correu colocar o ouvido em seu peito. O coração de James ainda batia.
Rapidamente, foi ver o que era aquela caixa. Quando abriu, uma luz veio em sua direção.
Ela foi atingida por visões de um passado distante, de um povo desconhecido. A última coisa que viu foi alguém gritando “liberdade!”, e então tudo ficou escuro.
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