Guerra entre Mundos
13 Duvida até da verdade.
“Duvida da luz dos astros,
De que o sol tenha calor,
Duvida até da verdade,
Mas confia em meu amor.”
– William Shakespeare
Confesso que a surpresa de ver olhos em conserva me fez ter vontade de sair correndo e gritando. Mas só por um momento.
A única coisa visível na escuridão era o cabelo ruivo da menina. Eles praticamente brilhavam.
– No fim – começou a garota – Você é como eles. Saia. Saia antes que ela apareça.
Minha boca parecia ter se esquecido de como se mexer. Forcei meu cérebro a funcionar, até que ela finalmente se moveu.
– Não, não é isso. – respirei fundo e continuei – Fiquei apenas surpreso. É só.
A garota agora parecia mais surpresa do que eu. Ela gaguejou um pouco e falou:
– Você não está com medo?
– Com certeza estou morrendo de medo, mas eu disse que podia confiar em mim, e eu jamais quebro uma promessa. Jamais.
Era visível o brilho nos olhos da menina. Ela não sabia o que falar, então tomei a iniciativa.
– Legal sua coleção. Bem... peculiar.
– Não é minha – disse simplesmente. Provavelmente viu a confusão no rosto de Peter, porque começou a explicar – Isso pode soar estranho, mas... Tenho um demônio em meu corpo, e ela se apossa de mim quando estou assustada ou em perigo. É ela quem tira os olhos das pessoas.
– É claro – falou Peter. Particularmente, nunca pensou muito em demônios. Não que não acreditasse, apenas não tinha provas o suficiente para tal: até agora.
– Zomba de mim – a garota não parecia irritada ou mesmo chateada, apenas envergonhada – Venha.
Peter a seguiu até a escada principal novamente, onde ela foi até o lugar onde mais tinha luz, mesmo que ainda fosse escuro.
Quando ela se virou, Peter deu um passo para trás.
A garota não tinha o olho esquerdo. No lugar, ganhara uma cicatriz que ia de sua sobrancelha até o alto de sua bochecha. Apesar de tudo, ela era linda. Suas feições eram delicadas e femininas. Pelo o que Peter pudera perceber, seu outro olho era de uma cor incrível. Um verde-água mesclado a um amarelo profundo.
Quando Peter sorriu, a garota saiu da luz.
– Não! – ele correu até ela e tocou em seu rosto – Eu só estava apreciando. Você é...
– Um monstro?
– Eu ia dizer linda.
Ela sorria bobamente quando Peter perguntou:
– Você disse que não podia dizer seu nome, mas...
– Meu nome é Elizabeth. Quem estava falando naquele momento era o demônio.
Peter sorriu e, quando percebeu, eles estavam sentados na escada conversando sobre suas vidas. Nesse tempo Peter não podia dizer que conhecia nem metade de Elizabeth, enquanto ela já sabia de quase toda a vida dele.
Ele percebeu que a luz estava desaparecendo, e teve que se despedir de Elizabeth. Fazia quase um dia inteiro que estava fora.
– Tudo bem... – sussurrou ela quando beijou sua bochecha.
– Ei. – Peter levantou sua cabeça e disse – Vou voltar. Isso é uma promessa.
Elizabeth havia ficado levemente mais feliz. Era muito fácil abrir um sorriso em seu rosto.
Ela assentiu e Peter saiu pela porta. Quando se virou, ela já não estava mais lá.
Enquanto voltava para o orfanato, percebeu o quanto estava sentindo a falta de Elizabeth. Ela era o tipo de pessoa que conquistava qualquer um rapidamente.
Não demorou muito para chegar ao orfanato.
Quando abriu a porta esperava ver James e Annie ainda conversando com Christopher, aquele idiota. No entanto, a única coisa que encontrou foi sangue espalhado pelo chão.
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Assim que Lena a soltou, sabia que iria morrer de uma forma ou de outra. Se não pela queda, então seria pela queimação. Parecia que todo o seu corpo estava em chamas desde o momento em que Lena tocou em seu braço.
– Senhorita!
James estava ao seu lado, segurando sua mão. Como ele havia chegado ao seu lado tão rapidamente?
– Não se preocupe!
– Queima. – sussurrou.
O chão se aproximava. Já podia ver as casas e até mesmo algumas pessoas andando despreocupadamente na rua. Provavelmente Annie iria acabar com o dia delas. Quem diria que um simples passeio na rua poderia se transformar em uma cena de assassinato? Ou seria suicídio? Não importava.
Annie era tão azarada que, no dia em que fora salva, morreria. Nada mais justo para alguém como ela. Primeiro experimentaria a felicidade de James ser a primeira pessoa de quem vira o rosto quando estava completamente consciente, e agora ele seria o último que ela veria em sua vida. Que dia.
Estava se preparando para atingir o chão, quando sentiu um puxão familiar no umbigo. Quando conseguiu focar seus olhos novamente, estava sentada em um tipo de rio, com James exibindo um sorriso estonteante.
– Teletransporte. Não achou realmente que eu iria me jogar de uma casa aérea com você, achou? – ele colocou a mão em seu peito e a fez deitar no rio
Annie estava com vontade de vomitar, mas não disse nada. A sensação de estar sendo queimada havia passado. Agora o que restara foi uma dor de cabeça incrivelmente forte.
James a ajudou a se levantar e começou a guia-la. Não prestou muita atenção para onde estava indo: apenas o seguiu. Quando se deu conta já estava na porta do orfanato. James colocou a mão na maçaneta, mas parou logo em seguida. Virou-se e começou a dizer:
– Senhorita. – pausou e olhou para baixo e depois continuou – Eu... Eu quase a perdi duas vezes hoje. Sua vida anda bem inconstante, e eu não sei quando terei a oportunidade de fazer isso. Quer dizer, a morte é algo que chega a todos algum dia. Não há como evita-la. Então é melhor que eu o faça, antes que me arrependa ou que algo ou alguém interfira.
– O que quer dizer com isso?
Antes que qualquer palavra pudesse sair novamente de sua boca, os lábios de James tocaram os seus. Depois da surpresa, deixou que seus olhos se fechassem. Não queria se lembrar de mais nada agora. Queria apenas que seus sentimentos aparecessem uma vez mais, depois de tanto tempo trancafiados.
Os lábios de James encaixavam-se perfeitamente nos seus, moldando o momento inesquecível. Parecia que algo não estava certo. Isso tudo... Não estava certo, estava? Annie não deveria sentir algo? Alguma afeição, ou algo do tipo? Seu coração deveria estar acelerado, sabia disso. Mas não sentia nada.
Enfiou as unhas em sua própria mão, e percebeu que a falta de sentimentos se estendia ao resto do corpo.
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Seu coração disparou no mesmo instante e ele foi tomado por um sentimento de pânico. Saiu correndo por toda a casa, gritando por James. Quando abriu mais uma porta, James surgiu em sua frente e ele gritou. Maldito teletransporte.
James deu um passo para trás e se inclinou para dar um forte abraço em Peter. Ele retribuiu e poderia ficar ali, mas preferiu dizer:
– Certo, nosso encontro é algo muito marcante, mas eu ainda quero manter minha masculinidade intacta.
Ele se afastou com um sorriso e deu um soco em seu rosto.
– Cara, você não vai acreditar no que aconteceu. – falou Peter.
– Depois do último dia, estou inclinado a acreditar até mesmo em fadas.
Eles conversaram, e cada um contou sua versão da história. Ambos se chocaram com a versão do outro.
– Por que não me contou que vocês não podiam se encostar e que Christopher é um cretino?
– Não é sempre. – respondeu James – E Christopher é um caçador de recompensas. Nunca pensei que fosse fazer isso com Annie. Comigo...
A vontade de Peter era de esmagar a cabeça de Christopher, mas ele se controlou e disse:
– A decepção faz parte da vida, meu amigo, e todos passamos por ela em algum momento. É só não se deixar abalar por causa dela.
Depois de discutir mais algum tempo, Peter finalmente falou:
– E então, como foi beijá-la?
James ficou vermelho, mas falou mesmo assim.
– Foi bom, ao menos enquanto durou. Mas eu não sei. Estamos muito ocupados com muitas coisas no momento, então não sei se vai acontecer algo. – ele olhou para baixo e sorriu – Ela beija bem.
Peter começou a rir. Não pode se conter e perguntou:
– Em uma escala de 1 à 5?
– Fala sério, Pete! – ainda olhando para baixo James respondeu – 5.
James estava visivelmente apaixonado, e isso era um problema. Annie ia machucá-lo, Peter sabia.
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Annie se sentiu a pior pessoa do mundo quando se afastou de James, mas teve que o fazer. Fez isso delicadamente, dizendo que estava cansada. Ele assentiu e levou Annie até seu quarto.
A verdade era que ela não estava sentindo nem um pouco de cansaço, apenas precisava pensar um pouco.
Assim que James saiu, Annie foi tomar banho.
Tudo o que havia acontecido nos quase dois meses que estivera ali foram chocantes. Tudo o que havia acontecido era basicamente por causa de uma caixa.
Desde que a recuperaram, não tiveram tempo de olhá-la. Talvez devessem.
Saiu do banho e foi até o guarda-roupa, onde era para estar o caderno. No entanto, ali só tinha roupas.
Correu até a sala e encontrou Peter conversando com James. Parou abruptamente e falou, surpresa:
– Peter!
– Olá, Annie.
James percebeu o olhar aflito de Annie, porque logo falou:
– Senhorita, será que poderia me ajudar com as bebidas?
Ela assentiu e o seguiu até a cozinha. Quando chegou lá contou o acontecido.
– Também senti falta do caderno que estava em meu quarto, mas achei que você o tivesse pegado. Entretanto, a caixa está intocada.
– Olha, eu realmente tento acreditar que não, mas, a única pessoa que não saiu daqui foi Mary.
Ele olhou para Annie, e ela logo entendeu: teriam que falar com Peter.
Combinaram que seria melhor apenas James falar com ele. Annie subiu, e ficou surpresa ao perceber que Peter não demorou a fazer o mesmo.
Desde que chegaram não haviam visto Mary, o que era muito estranho.
– Certo, eu vou. – manifestou-se James
Assim que entrou, Peter e Annie o seguiram. Mary estava dormindo em um sono que parecia profundo.
Peter sentou-se no chão ao lado da cama olhando para o rosto de Mary, enquanto falava para Annie e James procurarem. Foi extremamente fácil. Estavam em cima da escrivaninha.
James estendeu a mão para pegá-los, mas, no entusiasmo, acabou derrubando a luminária.
Mary levantou de sobressalto e olhou diretamente para Annie. Ela não disse nada, apenas partiu para cima dela.
Colocou suas duas mãos no pescoço e a fez bater contra a escrivaninha. Mary apertava realmente muito forte, mas foi relativamente fácil jogá-la em cima da mesa. Annie subiu e prendeu os braços de Mary com os joelhos.
– Qual seu problema? – perguntou com Mary debatendo-se abaixo de si.
Annie ouviu alguém chamá-la da porta. Virou-se e viu que era James. Saiu rapidamente de cima de Mary e correu para a porta. Eles a fecharam com uma chave que saiu sabe-se lá de onde, e ela ficou lá, batendo na porta.
– Mas que droga acabou de acontecer aqui? – gritou Peter
Ninguém disse uma palavra, apenas ficaram olhando para o barulho da porta até ele sumir. Estavam física e mentalmente esgotados para dizerem algo, então simplesmente foram para a sala e ficaram sentados por alguns minutos. Depois disso James levantou-se e foi buscar a caixa.
– Já temos a caixa – começou, tirando Annie e Peter do transe – E agora?
– Agora temos que encontrar Lena, ou ela vai fazer sabe-se lá o que com metade da Califórnia. – falou Annie.
– Aqui. – Peter mexeu algo em seu bolso e tirou de lá um objeto dourado – Rastreiem-na.
Peter pegou o relógio de bolso de Lena e assentiu para Peter, o olhar cheio de palavras.
Levou a caixa até Annie para que pudesse abri-la. Para a mulher de vermelho abrir, na verdade. Quem afinal era essa mulher?
Agora não era hora para tais indagações. Annie abriu a caixa e pegou a bússola que também estava com Peter.
Ao colocar a bússola perto do relógio, a agulha começou a girar como louca até parar ao Leste.
– É claro. – falou Peter – O Hollywood Sign.
– Leste, então. – anunciou James
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